1ª leitura Sb 9,13-18
Estupenda reflexão sobre a realidade do ser humano. Ela manifesta o limite e a grandeza e toda pessoa.
Acolher o limite é o próprio da humildade e do realismo necessários para encaminhar a vida de maneira bem sucedida. “Pensamentos tímidos (...) reflexões incertas (...). Mal podemos conhecer o que há na terra (...) quem, portanto, investigará o que há no céu? ”. Acredito nestas palavras também para o homem e o mudo de hoje.
Com certeza a inteligência e o raciocínio do homem avançaram muito e rapidamente com respeito aos tempos passados. O sentido de poder do homem e de domínio da ciência, tal vez diminuiu um pouco com respeito aos anos 50-80 do século passado. Contudo, é alta a confiança na ciência, nos adiantamentos dos laboratórios genéticos e da pesquisa cientifica. Eles imprimem na consciência um sentimento de poder e domínio da inteligência e da labor humana sobre a existência, no sentido de ter condição, com as descobertas e os adiantamentos tecnológicos, de vencer os obstáculos maiores da criação: a origem da vida e a vitoria sobre a morte.
Neste horizonte, Deus é tido como um ser que, se existe, não tem grande importância, ou não se pode saber nada dele. O primeiro se chama de ateísmo e o segundo de agnosticismo (esta última é uma palavra tirada da língua grega. Ela não nega a existência de Deus, simplesmente diz que não temos condição de conhecê-lo. Pois, a ciência tem método e domínio que nada tem a ver com a existência Deus, a revelação e a ação Dele sobre a criação e na história). A Europa já carrega muito disso. Mas também no Rio o fenômeno está crescendo exponencialmente. Uma pesquisa do “Globo”, de faz dois anos, indicava que nos 2002 os agnósticos eram o 2,3% da população no Rio, nos 2008, 7,3%. O futuro anda por aí...
É conhecido que Deus não é objeto de provação cientifica, mas existe na e pela fé dos que aceitam sua auto-revelação na história, registrada pelas escrituras e pela vivencia das comunidades que se reúnem em nome Dele. Daí, voltando ao texto, “Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses Sabedoria e do alto enviasses teu santo espírito?”.
Assim, o Mistério de Deus é acessível àquele que se dispõe para uma Sabedoria que não está no horizonte humano e, portanto, não disponível aos critérios racionais e científicos. A Sabedoria não nega a ciência e o raciocínio humano, simplesmente a ultrapassa. E ultrapassando-os os ilumina e os coloca no lugar certo e na sua correta compreensão. Tudo isso é obra do Espírito. Ele age se o homem cria espaço, se aceita a verdade que está nele. Mas isso tem um preço: a humildade de reconhecer os próprios limites. Humildade que a ciência tem , não assim os homens que se apoderam dela, embora, surpreendentemente, alguns dos maiores científicos reconhecem a existência de um ser superior.
“Só assim se tornam retos os caminhos (...) e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos”. Reto caminho e salvação configuram a felicidade e a harmonia da pessoa e da humanidade. É o sonho de todo ser humano. Elas estão ao nosso alcance. Não se trata tanto de filosofia, de sentimento, da visão e esperança futura, mas da pratica de vida, no exemplo indicado pela segunda leitura.
2da leitura Fm 9b-10. 12-17
É a carta mais breve de são Paulo, o bilhete a Filêmon. Um acontecimento circunstancial. O escravo Onésimo fugiu da casa de Filemon e se encontrou com Paulo, prisioneiro, que lhe deu a liberdade em Cristo “... meu filho que fiz nascer para Cristo na prisão, Onésimo”. Paulo se sente no dever de restituí-lo a seu patrão, que é cristão, a fim de que o próprio Filemon disponha com liberdade em vista da fé.
São Paulo estabelece na base da própria experiência de fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, uma singular triangulação entre eles, Onésimo e Filêmon, que modifica radicalmente o conteúdo da relação comumente estabelecida em circunstâncias parecidas. O escravo Onésimo é simultaneamente apresentado como “filho que fiz nascer em Cristo” e representante de Filêmon “para cuidar de mim nesta prisão”. Paulo respeita a condição de Filêmon e o direito dele para com Onésimo, mas solicita o primeiro a redesenhar o relacionamento a partir da bondade que brota da autentica consciência cristã “para que tua bondade não seja forçada, mas espontânea”. Assim, “o tenhas de volta para sempre, já não como escravo, mas muito mais do que isso, como um irmão muito querido (...) tanto como pessoa humana quanto como irmão no Senhor”.
“Assim, se estás em comunhão de fé comigo, recebe-o como si fosse a mim mesmo”. Tudo isso, tem sua Justificação na comunhão originada pelo batismo que supõe a fé na pessoa de Jesus e do que Ele realizou a favor da humanidade toda sem diferenças de condição social, raça, instrução etc. Trata-se da vivencia da fraternidade no mais profundo sentido do termo, capaz de ultrapassar costumes e leis que estabelecem relacionamentos desumanos, injustos e não respeitosos da comum dignidade de filhos do mesmo Pai e irmãos em Jesus Cristo.
A identidade em Cristo é tão forte e envolvente que, no entendimento de Paulo, Onésimo é representante de Filêmon e dele mesmo. O batismo é o selo da transformação pessoal e dos relacionamentos sócias na ótica de um novo ser, de uma nova humanidade conforme ao projeto de Deus.
Sem dúvida, estas considerações não têm peso na concepção comum dos batizados, nem são valorizadas no âmbito dos relacionamentos da comunidade. Não é preciso atingir a ideologia que seja, para estabelecer aquela fraternidade, igualdade e liberdade que a partir da revolução francesa, faz pouco mais de duzentos anos, se impus à atenção mundial. Contudo, vale reconhecer que se a Igreja tivesse prestado mais atenção a todo isso, teria sido a força renovadora do mundo, em vez da instituição conservadora do poder ao lado dos interesses dos governantes, com prejuízo dos pobres, ou fazendo destes últimos simplesmente os destinatários das esmolas dos ricos e da eventual benevolência dos poderosos.
A força transformadora do batismo tem suas exigências que o evangelho destaca com determinação.
Evangelho Lc 14,25-33
“Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus”. Com isso é frisado o momento particularmente favorável da pregação e da ação pastoral de Jesus. Uma resposta tão expressiva do ponto de vista numérico “grandes multidões”, deveria deixar Jesus satisfeito do sucesso da missão. Satisfação em virtude da qual sua atitude para com a multidão deveria ser de condescendência, de acolhimento benévolo, de complacência, própria da condição de líder que cativa tão grande quantidade de pessoas.
Surpreende a atitude e o conteúdo da reação de Jesus. “Voltando-se” atitude própria de quem está caminhando para frente, não na direção do encontro com o povo, rumo à meta na frente, é necessitado, pela circunstância, desviar a atenção e olhar para trás. E pronuncia umas palavras de grande impacto. Estabelece o critério para discernir se o acompanhar a ele responde ao correto entendimento da proposta, em sintonia com as palavras e a missão dele.
“Se alguém vem a mim”. No caso alguém se sinta motivado e decida ser discípulo é preciso que tome a serio as exigências: “... mas não se desapega do seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Desapegar. Trata-se de adquirir e manter a liberdade de agir, de pensar e de ser em ordem a uma realidade superior, que exige distanciamento e se sobrepor ao mundo sentimental, afetivo tão profundo como o dos relacionamentos familiares e até da sua própria vida.
Isso significa que a compreensão e adesão à pessoa, ao estilo de vida de Jesus, à sabedoria da filosofia de vida proposta por ele, têm em si mesmas um potencial humano, psicológico, comportamental e espiritual capaz de motivar e sustentar o desapego. Trata-se do acontecer do evento do Amor, pelo qual a pessoa ( a comunidade, a humanidade)se sentindo amada pelo que Jesus faz por ela, ( lembrará são Paulo: “ Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”-Gl 2,20) experimenta em si mesma motivo e força para o desapego tão surpreendente do ponto de vista humano.
Cabe especificar de que não se trata de ignorar ou não dar atenção aos afetos humanos, mas de subordiná-los ao estilo de vida, à sabedoria, à verdade e prática de Jesus. Jesus é sempre voltado para o bem da pessoa como sujeito capaz se doar para o bem do próximo, para o bem da comunidade, sustentadora e animadora da ação evangelizadora para com os afastados, os indiferentes. Assim, como para a implantação na sociedade do direito e da justiça, no respeito das diversidades e dos mais fracos. Por exemplo, em nível da pessoa. Se o professor chama atenção ao próprio filho, é conforme a pratica e filosofia de Jesus repreender o filho uma vez constatado, em dialogo com o professor, a verdade dos fatos e a motivação da chamada de atenção, mesmo que isso doa mais aos pais do que ao filho.
Jesus sabe e está experimentando que tudo isso não terá aceitação, pelo contrário encontrará o repúdio. Daí a segunda exigência: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. A cruz consiste no perseverar e permanecer no caminho, por ter interiorizado no profundo do ser a convicção de que vida, com a V maiúscula, a verdade e o rumo para uma existência bem sucedida é essa mesma.
Contudo, as provações e até as perseguições podem ser de tão magnitude e intensidade que é preciso refletir, meditar e avaliar realisticamente a necessária determinação, para não voltar atrás ou desviar. Seria, então, se expor a que “Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar”. Eis, portanto, a segunda parábola que convida a séria e realística avaliação sobre as próprias capacidades e condições de levar a bom fim o seguimento: “Qual rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil?”. Para seguir a Cristo como discípulos para valer, é preciso muito amor, fé, determinação, pé no chão e mergulho no Mistério de Amor oferecido pela morte e ressurreição de Jesus.
É tudo isso que conforma a personalidade do discípulo em sintonia com o que Jesus indica ao final do evangelho “Portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”. Não é radicalismo, em sentido pejorativo do termo, mas chegar à raiz da vida e da felicidade da existência bem sucedida.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
22o DOMINGO DO T.C.-C- (29-08-10)
Eclo 3,19-21.30-31
É frisada a importância da virtude da doação: “Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso”. Há sintonia com as palavras de Jesus no discurso da montanha: “Felizes os mansos, porque receberão aterra em herança” (Mt 5,5). Com efeito, o generoso oferece bens, coisas tal vez necessárias para os momentos de aperto. O manso oferece si mesmo como espaço de encontro, de acolhimento e possibilidade de comunhão. É indiscutível que a segunda é mais importante da primeira. Daí, o significado do versículo.
A mansidão é uma maneira de se posicionar, de se colocar nos relacionamentos para com as pessoas e as circunstâncias diárias. Parece-me que é uma mistura de brandura, de atenção, de paciência, de valorização da pessoa etc. que manifesta um conhecimento e domínio de si mesmo muito grande e coloca a vontade o interlocutor. Portanto, não é sinônimo de fraqueza, de medo, de comodismo, mas todo o contrário.
“Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade”. É uma indicação de que grandeza e humildade caminham juntas, combinam. Assim, ser humilde não é negar ou diminuir as próprias virtudes ou capacidades, mas assumi-las de uma determinada maneira. Em primeiro lugar, o humilde sabe que a inteligência, condição para o correto desenvolvimento e capacitação rumo a metas significativas, é dom. Com certeza, dom que se desenvolveu pela própria dedicação, pela vontade firme e pela luta etc., mas, enfim, sempre dom. O humilde sabe que tudo isso é dom de Deus.
A humildade em atribuir, em primeira instancia, o que ele é e conseguiu a Deus é de grande importância, pois, reconhece o senhorio do Mesmo: “assim encontrará graça diante do Senhor”. Esta humildade, terá um retorno de grande importância: “é aos humildes que ele revela seus mistérios”. Dessa maneira, ele participará da intimidade e familiaridade de Deus, da realidade do amor divino, sendo que os mistérios são como os elementos do oceano no qual o humilde é mergulhado profundamente.
“Pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes”. O autor reconhece a grandeza do poder de Deus, poder que é amplamente reconhecido pelo humilde com palavras e atitudes coerentes. Tudo isso, manifesta a glória de Deus presente nele, pois, testemunha a santidade de Deus, o senhorio de Deus, atuante no humilde.
O contrário do humilde é o orgulhoso “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende”. Portanto, não existe remédio porque não compreende o prejuízo para ele e não se importa do mal que acarreta aos outros. O orgulho é a característica própria de um ser auto-suficiente, como possuidor do que é certo e se surpreende que outros não aceitem nem se identifiquem com o mundo dele. O olhar dele é de cima para abaixo.
Pelo contrário, “O homem inteligente reflete sobre as palavras dos sábios, e com ouvido atento deseja sabedoria”. Por quanto grande seja o seu conhecimento, o humilde sabe que não sabe. Portanto, é permanente nele a procura de quem pode acrescentar o conhecimento dele. É intenso nele o desejo da sabedoria, como arte de dar sabor à existência do dia-a-dia e das circunstâncias de cada momento.
Ponto de referencia fundamental neste processo é a palavra de Deus, que abre horizontes inéditos, como mostra a 2da leitura.
2da leitura Hb 12,18-19. 22-14ª
“Vos não vos aproximastes (...) que os ouvintes suplicaram não continuasse”. O autor se refere à experiência do povo com respeito à manifestação de Deus a Moises no monte Sinai. Era impensável se aproximar de Deus e continuar vivendo. Só estando de longe, e mesmo assim, a manifestação suscitava temor. Daí a súplica que não continuasse.
Há contraste entre aquela experiência e o momento presente: “Mas vós vos aproximastes...”. Com isso, a barreira está derrubada. O acesso a Deus é mediado pela Jerusalém celeste configurada “da reunião festiva de milhões de anjos; da assembléia dos primogênitos (...); de Deus, o Juiz de todos; dos espíritos dos justos, que chegaram à perfeição; de Jesus, mediador da nova aliança”. Assim, diversamente do que se dava anteriormente, o cristão pode chegar diretamente a Deus, participar da alegria dos anjos e dos santos e obter a salvação e a vida eterna.
Tudo isso se deve a Jesus “mediador da nova aliança”. Mediador é quem está no meio entre dois pólos e faz a ponte. Assim por um lado está Deus e pelo outro a humanidade. O afastamento um do outro, gerado pelo pecado, é desmanchado pela atuação do mediador. Portanto, o relacionamento direto com Deus passa necessariamente pela aceitação da mediação de Jesus. Trata-se de aceitar de ter sido aceito por Jesus, como representante perante o Pai.
Vivenciar no interior e no profundo do coração o relacionamento representante-representado, é o certo para experimentar os benefícios de Jesus a favor do representado.Para isso é necessária a fé. O ponto de partida para a correta vivencia da fé é dar voto de confiança nessa realidade. Em concomitância com a fé em Jesus como Deus em forma humana, se criam as condições que autorizou Paulo dizer: “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Não é fácil firmar e cultivar essa fé, sobretudo pelas conseqüências no profundo do ser que nos torna semelhantes a Cristo, e pelos conseqüentes efeitos psicológicos, humanos e espirituais. Se a fé fosse da intensidade e da profundidade que o evento da morte e ressurreição de Jesus merece, sentiríamos toda a força e o poder das palavras de Paulo.
A pergunta legitima é: como chegar a esta vivencia? Do ponto de vista de nossas condições humanas é imprescindível o cultivo da humildade.
É o tema do evangelho.
Evangelho Lc 14,1. 7-14
Jesus enfrenta diretos os opositores “foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam”. Era um dia de sábado. Com efeito, após a celebração na sinagoga era motivo de mérito, no entendimento dos fariseus, convidar o pregador à mesa. Jesus deve ter surpreendido ou desconcertado, pois, eles o observavam como para indagá-lo.
Jesus aproveita da circunstância para lançar a mensagem “Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha,será elevado”. Com ela se dirige expressamente aos fariseus, muito empenhados e preocupados em ocupar os primeiros lugares do reino em virtude dos acúmulos dos méritos em conseqüências de suas ações e condutas em conformidade à Lei e às exigências da Aliança. Eram rigorosíssimos no cumprimento de todas as prescrições, pelas quais, no entendimento deles, acumulavam o direito de ocupar os primeiros lugares.
Jesus derruba a convicção deles. Pois estão enganados porque o primeiro lugar depende do critério do Pai. Eles presumiam cumprir a Lei, ser fieis à Aliança e com isso, logicamente, serem os primeiros no Reino. Mais alguma coisa não estava dando certo. Como não lembrar as palavras de Jesus “Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não fui em teu nome que profetizamos? Não fui em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres?’Então eu lhes direi publicamente: ‘Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal’”( Mt 7,22-23)
Jesus os alerta frisando que o entendimento deles é uma armadilha às expectativas deles, pois se encontrarão nos últimos lugares, com conseguinte humilhação. Acham estar servindo corretamente a Deus, sem perceber, ou não querem perceber, que estão desviando do caminho certo.
Neste caso, a humildade tem como conteúdo a questão do mérito. Com outras palavras. Na mentalidade dos fariseus, o respeito às exigências da Aliança e o fiel cumprimento ao pé da letra dos mandamentos da Lei os faziam merecedores da salvação, da entrada no Reino de Deus com a chegada do Messias. Eles não acreditavam estarem longe do espírito e da finalidade da lei, embora o cumprimento ao pé da letra da Lei os levou a isso. Portanto, se achavam em direito de sentar nos primeiros lugares do Reino. Eles estavam longe de entender toda afirmação que não encaixasse na mentalidade deles.
Jesus quis alertá-los, mas a recepção teria significado uma atitude de grande humildade em considerar que os méritos da participação no Reino tinham outra origem e que a prática do correto entendimento da Aliança e do espírito da Lei teria outra forma, outras expressões concretas. Portanto, humildade é acolher tudo isso, ou seja, a verdade de Deus e os critérios da atuação dela.
É o que Jesus apresenta a continuação dirigindo-se a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa”. A motivação é a radical gratuidade. Assim, participar da mesa do Reino, não é questão de maior ou menor mérito, mas da absoluta gratuidade de Deus, muito longe do critério da troca.
Compreender esta desconcertante gratuidade é entrar na lógica do Reino de Deus, é já participar da vivencia do Reino.
A maneira de concretização. Dá para pensar algo parecido na circunstância de alguns aniversários, de algumas comemorações ou..., e ficar como “excluído” sem aquela atenção esperada e ao mesmo tempo não julgar negativamente, não ficar magoado, não criticar etc. E por cima manter serenidade interior não diminuindo o relacionamento de amizade, de parentesco?
Isso significaria experimentar a verdade da afirmação final: “Então tu serás feliz (...). Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” . Impressionante como a felicidade nesta terra, a condição de justo perante Deus e a participação da glória da ressurreição depende desta atitude. Tudo isso pela participação ao Amor de Deus na sua expressão mais pura e verdadeira, ou seja, por estarmos em Deus, sendo que “Deus é amor”, total gratuidade.
É frisada a importância da virtude da doação: “Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso”. Há sintonia com as palavras de Jesus no discurso da montanha: “Felizes os mansos, porque receberão aterra em herança” (Mt 5,5). Com efeito, o generoso oferece bens, coisas tal vez necessárias para os momentos de aperto. O manso oferece si mesmo como espaço de encontro, de acolhimento e possibilidade de comunhão. É indiscutível que a segunda é mais importante da primeira. Daí, o significado do versículo.
A mansidão é uma maneira de se posicionar, de se colocar nos relacionamentos para com as pessoas e as circunstâncias diárias. Parece-me que é uma mistura de brandura, de atenção, de paciência, de valorização da pessoa etc. que manifesta um conhecimento e domínio de si mesmo muito grande e coloca a vontade o interlocutor. Portanto, não é sinônimo de fraqueza, de medo, de comodismo, mas todo o contrário.
“Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade”. É uma indicação de que grandeza e humildade caminham juntas, combinam. Assim, ser humilde não é negar ou diminuir as próprias virtudes ou capacidades, mas assumi-las de uma determinada maneira. Em primeiro lugar, o humilde sabe que a inteligência, condição para o correto desenvolvimento e capacitação rumo a metas significativas, é dom. Com certeza, dom que se desenvolveu pela própria dedicação, pela vontade firme e pela luta etc., mas, enfim, sempre dom. O humilde sabe que tudo isso é dom de Deus.
A humildade em atribuir, em primeira instancia, o que ele é e conseguiu a Deus é de grande importância, pois, reconhece o senhorio do Mesmo: “assim encontrará graça diante do Senhor”. Esta humildade, terá um retorno de grande importância: “é aos humildes que ele revela seus mistérios”. Dessa maneira, ele participará da intimidade e familiaridade de Deus, da realidade do amor divino, sendo que os mistérios são como os elementos do oceano no qual o humilde é mergulhado profundamente.
“Pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes”. O autor reconhece a grandeza do poder de Deus, poder que é amplamente reconhecido pelo humilde com palavras e atitudes coerentes. Tudo isso, manifesta a glória de Deus presente nele, pois, testemunha a santidade de Deus, o senhorio de Deus, atuante no humilde.
O contrário do humilde é o orgulhoso “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende”. Portanto, não existe remédio porque não compreende o prejuízo para ele e não se importa do mal que acarreta aos outros. O orgulho é a característica própria de um ser auto-suficiente, como possuidor do que é certo e se surpreende que outros não aceitem nem se identifiquem com o mundo dele. O olhar dele é de cima para abaixo.
Pelo contrário, “O homem inteligente reflete sobre as palavras dos sábios, e com ouvido atento deseja sabedoria”. Por quanto grande seja o seu conhecimento, o humilde sabe que não sabe. Portanto, é permanente nele a procura de quem pode acrescentar o conhecimento dele. É intenso nele o desejo da sabedoria, como arte de dar sabor à existência do dia-a-dia e das circunstâncias de cada momento.
Ponto de referencia fundamental neste processo é a palavra de Deus, que abre horizontes inéditos, como mostra a 2da leitura.
2da leitura Hb 12,18-19. 22-14ª
“Vos não vos aproximastes (...) que os ouvintes suplicaram não continuasse”. O autor se refere à experiência do povo com respeito à manifestação de Deus a Moises no monte Sinai. Era impensável se aproximar de Deus e continuar vivendo. Só estando de longe, e mesmo assim, a manifestação suscitava temor. Daí a súplica que não continuasse.
Há contraste entre aquela experiência e o momento presente: “Mas vós vos aproximastes...”. Com isso, a barreira está derrubada. O acesso a Deus é mediado pela Jerusalém celeste configurada “da reunião festiva de milhões de anjos; da assembléia dos primogênitos (...); de Deus, o Juiz de todos; dos espíritos dos justos, que chegaram à perfeição; de Jesus, mediador da nova aliança”. Assim, diversamente do que se dava anteriormente, o cristão pode chegar diretamente a Deus, participar da alegria dos anjos e dos santos e obter a salvação e a vida eterna.
Tudo isso se deve a Jesus “mediador da nova aliança”. Mediador é quem está no meio entre dois pólos e faz a ponte. Assim por um lado está Deus e pelo outro a humanidade. O afastamento um do outro, gerado pelo pecado, é desmanchado pela atuação do mediador. Portanto, o relacionamento direto com Deus passa necessariamente pela aceitação da mediação de Jesus. Trata-se de aceitar de ter sido aceito por Jesus, como representante perante o Pai.
Vivenciar no interior e no profundo do coração o relacionamento representante-representado, é o certo para experimentar os benefícios de Jesus a favor do representado.Para isso é necessária a fé. O ponto de partida para a correta vivencia da fé é dar voto de confiança nessa realidade. Em concomitância com a fé em Jesus como Deus em forma humana, se criam as condições que autorizou Paulo dizer: “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Não é fácil firmar e cultivar essa fé, sobretudo pelas conseqüências no profundo do ser que nos torna semelhantes a Cristo, e pelos conseqüentes efeitos psicológicos, humanos e espirituais. Se a fé fosse da intensidade e da profundidade que o evento da morte e ressurreição de Jesus merece, sentiríamos toda a força e o poder das palavras de Paulo.
A pergunta legitima é: como chegar a esta vivencia? Do ponto de vista de nossas condições humanas é imprescindível o cultivo da humildade.
É o tema do evangelho.
Evangelho Lc 14,1. 7-14
Jesus enfrenta diretos os opositores “foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam”. Era um dia de sábado. Com efeito, após a celebração na sinagoga era motivo de mérito, no entendimento dos fariseus, convidar o pregador à mesa. Jesus deve ter surpreendido ou desconcertado, pois, eles o observavam como para indagá-lo.
Jesus aproveita da circunstância para lançar a mensagem “Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha,será elevado”. Com ela se dirige expressamente aos fariseus, muito empenhados e preocupados em ocupar os primeiros lugares do reino em virtude dos acúmulos dos méritos em conseqüências de suas ações e condutas em conformidade à Lei e às exigências da Aliança. Eram rigorosíssimos no cumprimento de todas as prescrições, pelas quais, no entendimento deles, acumulavam o direito de ocupar os primeiros lugares.
Jesus derruba a convicção deles. Pois estão enganados porque o primeiro lugar depende do critério do Pai. Eles presumiam cumprir a Lei, ser fieis à Aliança e com isso, logicamente, serem os primeiros no Reino. Mais alguma coisa não estava dando certo. Como não lembrar as palavras de Jesus “Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não fui em teu nome que profetizamos? Não fui em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres?’Então eu lhes direi publicamente: ‘Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal’”( Mt 7,22-23)
Jesus os alerta frisando que o entendimento deles é uma armadilha às expectativas deles, pois se encontrarão nos últimos lugares, com conseguinte humilhação. Acham estar servindo corretamente a Deus, sem perceber, ou não querem perceber, que estão desviando do caminho certo.
Neste caso, a humildade tem como conteúdo a questão do mérito. Com outras palavras. Na mentalidade dos fariseus, o respeito às exigências da Aliança e o fiel cumprimento ao pé da letra dos mandamentos da Lei os faziam merecedores da salvação, da entrada no Reino de Deus com a chegada do Messias. Eles não acreditavam estarem longe do espírito e da finalidade da lei, embora o cumprimento ao pé da letra da Lei os levou a isso. Portanto, se achavam em direito de sentar nos primeiros lugares do Reino. Eles estavam longe de entender toda afirmação que não encaixasse na mentalidade deles.
Jesus quis alertá-los, mas a recepção teria significado uma atitude de grande humildade em considerar que os méritos da participação no Reino tinham outra origem e que a prática do correto entendimento da Aliança e do espírito da Lei teria outra forma, outras expressões concretas. Portanto, humildade é acolher tudo isso, ou seja, a verdade de Deus e os critérios da atuação dela.
É o que Jesus apresenta a continuação dirigindo-se a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa”. A motivação é a radical gratuidade. Assim, participar da mesa do Reino, não é questão de maior ou menor mérito, mas da absoluta gratuidade de Deus, muito longe do critério da troca.
Compreender esta desconcertante gratuidade é entrar na lógica do Reino de Deus, é já participar da vivencia do Reino.
A maneira de concretização. Dá para pensar algo parecido na circunstância de alguns aniversários, de algumas comemorações ou..., e ficar como “excluído” sem aquela atenção esperada e ao mesmo tempo não julgar negativamente, não ficar magoado, não criticar etc. E por cima manter serenidade interior não diminuindo o relacionamento de amizade, de parentesco?
Isso significaria experimentar a verdade da afirmação final: “Então tu serás feliz (...). Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” . Impressionante como a felicidade nesta terra, a condição de justo perante Deus e a participação da glória da ressurreição depende desta atitude. Tudo isso pela participação ao Amor de Deus na sua expressão mais pura e verdadeira, ou seja, por estarmos em Deus, sendo que “Deus é amor”, total gratuidade.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
21o DOMINGO DO T.C.-C-(22-08-10)
1ª leitura Is 66,18-21
“Assim diz o Senhor: Eu que conheço suas obras e seus pensamentos”. O Senhor conhece a conduta perversa do povo, sua prática e seus pensamentos contrários à Aliança. Surpreende, lendo os versículos anteriores, o tamanho do afastamento, pelo desrespeito às normas que manifestavam e garantiam a comunhão e a amizade com Deus. Então, o Senhor determina abrir para outros povos: “virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha glória”. Determinação desconcertante para a mentalidade do povo, pois a pureza da descendência racial - descendentes de Abrão e selados pela circuncisão – eram condições imprescindíveis para herdar e participar, com pleno direito, ao Reino de Deus.
Para alcançar o propósito “Porei no meio deles um sinal, e enviarei (...) mensageiros para os povos (...). Esses enviados anunciarão às nações minha glória”. Com estas palavras Deus entende que será indicado a todos os povos o caminho pelo qual se manifestará entre eles a força e a santidade de Deus, ou seja, a glória. Ela consistirá naquele correto relacionamento com Ele e entre eles ao qual o povo eleito não deu atenção nem valorizou. Desta maneira, a salvação, o Reino de Deus, assume a dimensão universal, abrange tudo e todos.
O efeito dessa ação será que eles, os mensageiros, “reconduzirão, de toda parte, até meu santo monte em Jerusalém, como oferenda ao Senhor, irmão vossos (...) e como os filhos de Israel, levarão suas oferendas em vasos purificados para a casa do Senhor”. Os povos, contrariamente ao povo eleito Israel, reconhecerão o valor e a bondade de Deus e manifestarão sua adesão com o culto em Jerusalém. O culto consistirá em se colocar “como oferenda ao Senhor” e juntamente “levarão sua oferenda em vasos purificados para a casa do Senhor”. Todos os povos formarão como uma única família reunida por acolher o dom de Deus.
O entrosamento entre eles e Deus será tal que, diz o Senhor: “Escolherei dentre eles alguns para serem sacerdotes e levitas”. O tamanho da surpresa aos ouvidos dos israelitas pode ser medido pelo fato que para ser eleito sacerdote o candidato, alem de pertencer à tribo de Levi, devia comprovar, pelos arquivos do templo em Jerusalém, a pureza racial, ou seja, até a quinta geração pai e mãe deviam ser de pura descendência israelita, sem nenhuma mistura com outras raças. O fato de que até estrangeiros, mesmo que convertidos, podiam ser levita e sacerdotes era o máximo do desconcerto por aquela mentalidade.
Portanto, o exclusivismo do povo de Israel será totalmente superado pela participação de todos os não-judeus no culto e no sacerdócio. Essa participação terá suas exigências que só uma formação pontual e perseverante oferecerá as condições para ser cumpridas.
É o tema tocado pela carta aos Hebreus.
2da leitura Hb 12,5-7.11-13
Assumindo pela fé a proposta do Senhor para integrar o povo de Deus na sua dimensão universal, o cristão deve suportar sofrimentos para imitar o Mestre. Eles, os sofrimentos, são parte da pedagogia de Deus, pois, através das provações da vida, Deus chama o cristão à santidade. Contudo, é certo que as provações podem ser tão fortes e intensas de gerarem nele desconcerto e desanimo, até pensar de ser esquecido e rejeitado por Deus mesmo. Daí, então, as palavras do correto entendimento e de encorajamento: “Meu filho, não desprezes a educação do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho”.
“É para a vossa educação que sofreis, e é como filhos que Deus vos trata”. A palavra educar significa extrai desde dentro, do profundo da pessoa, o bom que está nela. Portanto, a finalidade da ação de Deus é totalmente positiva. É a maneira que deixa as pessoas perplexas ou até desconcertadas: uma ação corretiva que passa pelo sofrimento, pois, “nenhuma correção parece alegrar, mas causa dor”. Contudo, paradoxalmente, esta maneira atinge o fim educacional “Depois, porém, produz um fruto de paz e de justiça para aqueles que nela foram exercitados”
A primeira vista é uma combinação esquisita amor e sofrimento, pois, comumente é o afeto, o sentimento, o cuidado, a atenção etc., que configuram a realidade do amor. Por um lado, repreender e castigar a quem se ama, sabendo o sofrimento que comporta simultaneamente ao corrigido e a quem castiga, supõe ter a certeza do correto fim educacional. Por outro lado, é vivenciar o relacionamento no necessário horizonte da gratuidade, visando única e exclusivamente o bem do amado, percebido ao mesmo tempo como o próprio bem. Dessa forma, amante e amado se unem no amor. Tudo isso é imagem da vida da Trindade, proposta e vivenciada diariamente no relacionamento humano.
O amor produz felicidade e alegria. Amar verdadeira e profundamente é a aspiração de todo ser humano. Pelos frutos se avalia a bondade da árvore. Pela felicidade e pela alegria se avalia a verdade do amor. Mas, cabe especificar que o contrário da felicidade não é o sofrimento, mas a tristeza, e o contrario da alegria não é a solidão, mas o vazio interior. Tristeza e vazio interior dominam o coração de quem não sustenta relacionamentos corretos com Deus e com as pessoas. Muitas vezes isso acontece involuntariamente ou sem perceber o erro. Daí, então, a necessidade da ação corretiva, mesmo que dolorosa.
A conclusão é obvia; “Portanto, firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés, para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado”. É o convite de aproveitar da correção que provem de quem nos ama para acertar os passos conforme o significado e o indicado pela ação corretiva. Isso exige muita humildade e determinação e, sobretudo, confiança em Deus e em si mesmo “para que não se extravie o que é manco”.
Extravio sempre possível, como indicado no evangelho.
Evangelho Lc 13,22-30
“Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém” .Jesus caminhando rumo a Jerusalém sabia perfeitamente o desfecho da viagem. Surpreende a coragem e a determinação Dele em prosseguir o caminho, assim como o fato de estar ensinando. Sabendo o que O espera, ensinar o que? Como ter ânimo de ensinar algo pelo qual será rejeitado e morto? É uma situação muito difícil e complicada, do ponto de vista simplesmente humano.
Nesse pano de fundo eis o diálogo com um interlocutor anônimo: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?”. O trecho não diz o que fez surgir a pergunta. Mas com certeza, Jesus responde a partir do que ele mesmo está experimentando: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita”. É a porta estreita da entrega da própria vida pela causa da salvação; de se esquecer de si mesmo para manifestar o caminho certo para o bem das pessoas e da humanidade.
Sendo que esta missão, e suas atitudes conseqüentes, não são entendidas nem aceitas pelos destinatários, Jesus e seus seguidores se encontrarão num clima de aversão e de incompreensão, acompanhado pelo sentimento de solidão. Eis, então, a necessidade de fazer “todo esforço possível” para não desistir. Contudo, a salvação manifesta sua presença, eficácia e realização exatamente nessas condições e circunstâncias.
Jesus responde positivamente à pergunta do interlocutor: “Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” e alerta sobre o motivo pelo qual não terão acesso à entrada no Reino, apesar da insistência dos excluídos: “Senhor, abre-nos a porta”.
Jesus manifesta saber de antemão os motivos pelos quais estes pretendem serem admitidos: “Então começareis a dizer: Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!”. Argumentação muito consistente e apresentada com muita determinação e convicção, como quem sabe ter motivo para reclamar direitos a serem justamente atendidos. Com outras palavras, ter participando da comunhão de vida “comemos e bebemos diante de ti”- e ter apreendido os ensinamentos Dele, são motivos mais que suficientes para não ser rejeitados.
A resposta de Jesus é duríssima: “Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim vós que praticais a injustiça!”. Não é difícil imaginar o desconcerto e o abalo dos ouvintes, também por ter acrescentado: “quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no reino de deus, e vós, porém, sendo lançados fora”.
O motivo da condenação é não ter entendido que a comunhão e o ensino Dele estavam finalizados à prática da justiça, à luta contra a injustiça. É o que Jesus mesmo estava atualizando, pois, estava lutando para implantar um estilo de vida em sintonia com o resgate dos excluídos, dos marginalizados, em nome da fraternidade universal, como expressão da bondade e da misericórdia de Deus.
Mais ainda, Jesus estava para entregar a própria vida em Jerusalém, como conclusão dramática da luta extrema contra a injustiça que imperava na mentalidade religiosa deles, por ter idéias erradas da Aliança e do verdadeiro culto que Deus espera dos seus seguidores e do seu povo.
Entender o que Jesus está propondo e o significado da própria entrega na cruz, abre a porta a que “Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa do reino de Deus”. Os povos estrangeiros incluídos, e eles, o povo eleito, excluídos! É algo totalmente incompreensível à mentalidade dos ouvintes: um absurdo. Daí, então as últimas palavras do texto “E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”. Não diz que todos os primeiros serão últimos ou vice-versa. Mas os que se acham primeiros sem entrar no processo de conversão proposto pro Jesus estão se enganando. É uma alerta quanto mais necessária para as pessoas de todos os tempos.
“Assim diz o Senhor: Eu que conheço suas obras e seus pensamentos”. O Senhor conhece a conduta perversa do povo, sua prática e seus pensamentos contrários à Aliança. Surpreende, lendo os versículos anteriores, o tamanho do afastamento, pelo desrespeito às normas que manifestavam e garantiam a comunhão e a amizade com Deus. Então, o Senhor determina abrir para outros povos: “virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha glória”. Determinação desconcertante para a mentalidade do povo, pois a pureza da descendência racial - descendentes de Abrão e selados pela circuncisão – eram condições imprescindíveis para herdar e participar, com pleno direito, ao Reino de Deus.
Para alcançar o propósito “Porei no meio deles um sinal, e enviarei (...) mensageiros para os povos (...). Esses enviados anunciarão às nações minha glória”. Com estas palavras Deus entende que será indicado a todos os povos o caminho pelo qual se manifestará entre eles a força e a santidade de Deus, ou seja, a glória. Ela consistirá naquele correto relacionamento com Ele e entre eles ao qual o povo eleito não deu atenção nem valorizou. Desta maneira, a salvação, o Reino de Deus, assume a dimensão universal, abrange tudo e todos.
O efeito dessa ação será que eles, os mensageiros, “reconduzirão, de toda parte, até meu santo monte em Jerusalém, como oferenda ao Senhor, irmão vossos (...) e como os filhos de Israel, levarão suas oferendas em vasos purificados para a casa do Senhor”. Os povos, contrariamente ao povo eleito Israel, reconhecerão o valor e a bondade de Deus e manifestarão sua adesão com o culto em Jerusalém. O culto consistirá em se colocar “como oferenda ao Senhor” e juntamente “levarão sua oferenda em vasos purificados para a casa do Senhor”. Todos os povos formarão como uma única família reunida por acolher o dom de Deus.
O entrosamento entre eles e Deus será tal que, diz o Senhor: “Escolherei dentre eles alguns para serem sacerdotes e levitas”. O tamanho da surpresa aos ouvidos dos israelitas pode ser medido pelo fato que para ser eleito sacerdote o candidato, alem de pertencer à tribo de Levi, devia comprovar, pelos arquivos do templo em Jerusalém, a pureza racial, ou seja, até a quinta geração pai e mãe deviam ser de pura descendência israelita, sem nenhuma mistura com outras raças. O fato de que até estrangeiros, mesmo que convertidos, podiam ser levita e sacerdotes era o máximo do desconcerto por aquela mentalidade.
Portanto, o exclusivismo do povo de Israel será totalmente superado pela participação de todos os não-judeus no culto e no sacerdócio. Essa participação terá suas exigências que só uma formação pontual e perseverante oferecerá as condições para ser cumpridas.
É o tema tocado pela carta aos Hebreus.
2da leitura Hb 12,5-7.11-13
Assumindo pela fé a proposta do Senhor para integrar o povo de Deus na sua dimensão universal, o cristão deve suportar sofrimentos para imitar o Mestre. Eles, os sofrimentos, são parte da pedagogia de Deus, pois, através das provações da vida, Deus chama o cristão à santidade. Contudo, é certo que as provações podem ser tão fortes e intensas de gerarem nele desconcerto e desanimo, até pensar de ser esquecido e rejeitado por Deus mesmo. Daí, então, as palavras do correto entendimento e de encorajamento: “Meu filho, não desprezes a educação do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho”.
“É para a vossa educação que sofreis, e é como filhos que Deus vos trata”. A palavra educar significa extrai desde dentro, do profundo da pessoa, o bom que está nela. Portanto, a finalidade da ação de Deus é totalmente positiva. É a maneira que deixa as pessoas perplexas ou até desconcertadas: uma ação corretiva que passa pelo sofrimento, pois, “nenhuma correção parece alegrar, mas causa dor”. Contudo, paradoxalmente, esta maneira atinge o fim educacional “Depois, porém, produz um fruto de paz e de justiça para aqueles que nela foram exercitados”
A primeira vista é uma combinação esquisita amor e sofrimento, pois, comumente é o afeto, o sentimento, o cuidado, a atenção etc., que configuram a realidade do amor. Por um lado, repreender e castigar a quem se ama, sabendo o sofrimento que comporta simultaneamente ao corrigido e a quem castiga, supõe ter a certeza do correto fim educacional. Por outro lado, é vivenciar o relacionamento no necessário horizonte da gratuidade, visando única e exclusivamente o bem do amado, percebido ao mesmo tempo como o próprio bem. Dessa forma, amante e amado se unem no amor. Tudo isso é imagem da vida da Trindade, proposta e vivenciada diariamente no relacionamento humano.
O amor produz felicidade e alegria. Amar verdadeira e profundamente é a aspiração de todo ser humano. Pelos frutos se avalia a bondade da árvore. Pela felicidade e pela alegria se avalia a verdade do amor. Mas, cabe especificar que o contrário da felicidade não é o sofrimento, mas a tristeza, e o contrario da alegria não é a solidão, mas o vazio interior. Tristeza e vazio interior dominam o coração de quem não sustenta relacionamentos corretos com Deus e com as pessoas. Muitas vezes isso acontece involuntariamente ou sem perceber o erro. Daí, então, a necessidade da ação corretiva, mesmo que dolorosa.
A conclusão é obvia; “Portanto, firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés, para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado”. É o convite de aproveitar da correção que provem de quem nos ama para acertar os passos conforme o significado e o indicado pela ação corretiva. Isso exige muita humildade e determinação e, sobretudo, confiança em Deus e em si mesmo “para que não se extravie o que é manco”.
Extravio sempre possível, como indicado no evangelho.
Evangelho Lc 13,22-30
“Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém” .Jesus caminhando rumo a Jerusalém sabia perfeitamente o desfecho da viagem. Surpreende a coragem e a determinação Dele em prosseguir o caminho, assim como o fato de estar ensinando. Sabendo o que O espera, ensinar o que? Como ter ânimo de ensinar algo pelo qual será rejeitado e morto? É uma situação muito difícil e complicada, do ponto de vista simplesmente humano.
Nesse pano de fundo eis o diálogo com um interlocutor anônimo: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?”. O trecho não diz o que fez surgir a pergunta. Mas com certeza, Jesus responde a partir do que ele mesmo está experimentando: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita”. É a porta estreita da entrega da própria vida pela causa da salvação; de se esquecer de si mesmo para manifestar o caminho certo para o bem das pessoas e da humanidade.
Sendo que esta missão, e suas atitudes conseqüentes, não são entendidas nem aceitas pelos destinatários, Jesus e seus seguidores se encontrarão num clima de aversão e de incompreensão, acompanhado pelo sentimento de solidão. Eis, então, a necessidade de fazer “todo esforço possível” para não desistir. Contudo, a salvação manifesta sua presença, eficácia e realização exatamente nessas condições e circunstâncias.
Jesus responde positivamente à pergunta do interlocutor: “Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” e alerta sobre o motivo pelo qual não terão acesso à entrada no Reino, apesar da insistência dos excluídos: “Senhor, abre-nos a porta”.
Jesus manifesta saber de antemão os motivos pelos quais estes pretendem serem admitidos: “Então começareis a dizer: Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!”. Argumentação muito consistente e apresentada com muita determinação e convicção, como quem sabe ter motivo para reclamar direitos a serem justamente atendidos. Com outras palavras, ter participando da comunhão de vida “comemos e bebemos diante de ti”- e ter apreendido os ensinamentos Dele, são motivos mais que suficientes para não ser rejeitados.
A resposta de Jesus é duríssima: “Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim vós que praticais a injustiça!”. Não é difícil imaginar o desconcerto e o abalo dos ouvintes, também por ter acrescentado: “quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no reino de deus, e vós, porém, sendo lançados fora”.
O motivo da condenação é não ter entendido que a comunhão e o ensino Dele estavam finalizados à prática da justiça, à luta contra a injustiça. É o que Jesus mesmo estava atualizando, pois, estava lutando para implantar um estilo de vida em sintonia com o resgate dos excluídos, dos marginalizados, em nome da fraternidade universal, como expressão da bondade e da misericórdia de Deus.
Mais ainda, Jesus estava para entregar a própria vida em Jerusalém, como conclusão dramática da luta extrema contra a injustiça que imperava na mentalidade religiosa deles, por ter idéias erradas da Aliança e do verdadeiro culto que Deus espera dos seus seguidores e do seu povo.
Entender o que Jesus está propondo e o significado da própria entrega na cruz, abre a porta a que “Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa do reino de Deus”. Os povos estrangeiros incluídos, e eles, o povo eleito, excluídos! É algo totalmente incompreensível à mentalidade dos ouvintes: um absurdo. Daí, então as últimas palavras do texto “E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”. Não diz que todos os primeiros serão últimos ou vice-versa. Mas os que se acham primeiros sem entrar no processo de conversão proposto pro Jesus estão se enganando. É uma alerta quanto mais necessária para as pessoas de todos os tempos.
domingo, 8 de agosto de 2010
ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA-C-(15-08-10)
1ª leitura Ap 11,19ª; 12,1.3-6ª.10ab
É a festa da glorificação de Maria, ou seja, da participação dela com o corpo da gloria de Deus. A tradição da Igreja na “mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” enxerga a imagem de Nossa Senhora. Cabe esclarecer que a imagem da mulher simboliza o povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Com efeito, um e outro são vítimas das perseguições indicadas pelo texto. Entretanto, os textos que se referem ao povo de Deus, a Igreja, podem ser aplicados à vigem Maria, enquanto o verdadeiro mistério dessa se insere no mistério da igreja, ao mesmo tempo que o ilumina.
“Abriu-se (...) e apareceu no Templo a arca da aliança”. A arca do Antigo Testamento, uma caixa dourada especialmente construída, continha os sinais da aliança de Deus para com o povo, quais as tabuas da Lei, o cajado de Moises etc. Agora a nova arca da aliança é Maria. De fato, ela leva no seio e traz para a humanidade o artífice único e fundamental da aliança nova e eterna: o filho Jesus. Pois, “ela deu a luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro”.
Desde antes de nascer o filho, se trava uma luta entre o mesmo, a mulher e os opositores. Estes últimos têm uma força muito grande e poderosa comparada ao de Dragão. O que está em jogo é o governo do mundo inteiro “Então apareceu (...) um grande Dragão, cor de fogo. (...) varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra”. Os opositores percebem de imediato o perigo da presença deste nascituro. Já sabem - os poderes deste mundo - o que significa a adesão das pessoas a Jesus Ressuscitado. Percebem a forca subversiva e inovadora da proposta e da filosofia dele. Sabem que Ele vai tirar o poder e força deles sobre os dominados como indicará o cântico de Maria no evangelho. Portanto, é uma luta extrema que procura suprimir a Mulher e o nascituro “O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar a luz, pronto para devorar o seu Filho logo que nascesse”.
O extremamente dramático deste retrato é a imagem do que acontecerá à Igreja, à comunidade cristã e a toda pessoa que, tocada pela pessoa de Jesus, determina assumir para valer o caminho dele se tornando discípulo. Eis, portanto que a mensagem do texto é dirigida ao perseguido de todos os tempos e de todos os lugares, que desanimado, provado e assustado pode se desmotivar, achando de ter sido enganado e abandonar o caminho.
Eis, então, a última e definitiva intervenção de Deus “ Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza de Deus, e o poder do seu Cristo”. Pois, com sua ação Deus leva o Filho junto dele “e do seu trono” e “A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar”. A ação de Deus é realizada nos termos e com os meios próprios do exercício do poder humano dos opositores, com força, realeza e com o poder do enviado especial. Portanto, os perseguidos devem saber que por quanto seja assustadora e terrível a opressão, não será a última palavra com respeito à condição deles. Pois, Deus é maior, é o verdadeiro salvador, não serão esquecidos nem abandonados.
O texto pretende ser uma mensagem que motiva a coragem e sustenta a esperança. Tudo isso tem sua fundamentação no evento da ressurreição de Jesus, que constitui propriamente o “poder do seu Cristo”, como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 15, 20-27a
Eis a anuncio fundamental, o eixo de toda argumentação e teologia de são Paulo: “Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”. Cristo se manifesta como primícias dos ressuscitados. Ora, se é verdade que às “primícias” segue a colheita, é verdade que à ressurreição de Cristo seguirá a nossa. Isso se deve ao fato que Jesus é o representante da humanidade de todos os tempos, como o foi Adão no começo da criação. Daí, então, o sentido da afirmação “por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como por Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão”.
É importante fixar na mente e acreditar no coração a verdade do relacionamento representante (Jesus) e representado (a humanidade e as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares). Porque é a certeza dessa verdade o elo que garante e convence da transposição que o acontecido na pessoa de Jesus acontece, objetivamente, na pessoa e na humanidade toda. Assim, representante e representado estão intimo e profundamente unidos na mesma vivencia e no mesmo destino.
Só o voto de confiança nisso permite atualizar os efeitos da morte e ressurreição Dele na comunidade e nas pessoas que celebram a Eucaristia, os demais sacramentos e na prática de vida conseqüente. Evidentemente, tudo isso é realizado misteriosamente e percebido só pela fé. O evento foge e ultrapassa todo raciocínio e experiência humana. Daí, as palavras após a consagração do cálice “Eis o mistério d a fé”. Assim, a fé de cada pessoa, e da comunidade, realiza a passagem do efeito objetivo - realizado por Jesus, o representante -, ao efeito subjetivo na pessoa que acredita sincera e firmemente nesse relacionamento.
Portanto, o “também em Cristo todos reviverão” não é evento de rotina ou automático, mas atingirá “os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda”. Com certeza, quando Paulo escreveu era iminente a espera da volta do ressuscitado. De todas as maneiras, é certo também que participarão da ressurreição com Cristo os que “pertencem a Cristo” e isso se realiza pela fé que acabo de explicitar. É preciso se manter na fé, mesmo passando pelas provações e abalos indicados na primeira leitura.
Essa realidade é uma situação intermédia, ainda não é o fim, a meta: “A seguir, será o fim, quando ele ( Cristo) entregar a realeza de Deus-pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força (...) . O último inimigo a ser destruído é a morte”.Com outras palavras, a meta será a manifestação do momento no qual Deus “será tudo em todos” (1Cor 15,28).
Tocará ao Filho, através da ação dos seus discípulos no mundo inteiro, “destruir todo principado e todo poder e força”. Parece-me que não se trata de uma dimensão sociológica, no sentido de submissão de toda a realidade sócio-humana, pois, ela continuará existindo com as ambigüidades que lhe são próprias até a vinda do ressuscitado. A vitória se manifestará pelo testemunho daqueles que não se dobraram ao principado, poder e força do mundo, que resistiram com coragem e esperança. É neles que Cristo vence e são com eles que entregará todos a Deus Pai.
Será evidente, então, o que o cântico de Maria proclamará no evangelho.
Evangelho Lc 1,39-56
O texto é muito conhecido. Após o “sim” da anunciação “Maria partiu (...) apressadamente a uma cidade da Judéia". A adesão à palavra suscita nela o dinamismo surpreendente apto para enfrentar uma longa viagem ao encontro da prima Isabel, com o intuito de compartilhar o envolvimento da experiência tão singular e determinante para o futuro do povo, em ordem à realização da promessa de Deus. Isso diz muito com respeito à qualidade e consistência de nossa adesão para valer à palavra, ao chamado de Deus, muitas vezes marcada, pelo comodismo, pela preguiça, pela indiferença para com as demais pessoas ou por uma fé simplesmente individualista.
Maria foi conferir o que o anjo lhe havia anunciado “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice”. Também em Isabel o que parecia impossível se tornou realidade. O encontro é motivo para constatar a eficácia da promessa de Deus: a estéril e a virgem se tornam fecundas e mães, para a salvação da humanidade, associadas na única missão, cujos filhos a desenvolverão de maneira diferente. Tudo isso, sob a ação do único Espírito Santo “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.
No encontro com Isabel, Maria é elogiada pela fé, pelo voto de confiança na promessa: “Bem-aventurada àquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Ela colocou a disposição sua pessoa e deixou que Deus operasse nela. A fé e a atitude dela se tornaram patrimônio e possibilidade da humanidade toda e de cada pessoa em particular. É o que gostaríamos todos vivenciarem e experimentar a bem-aventurança que inspirou Maria no cântico atribuído a ela.
O cântico é uma visão retrospectiva que parte da constatação que Deus “Socorreu Israel (...) conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abrão e sua descendência, para sempre”. Ou seja, o que o Senhor prometeu conforme as palavras de Isabel se cumpriu.
O cumprimento da promessa se deve que Deus “lembrando-se de sua misericórdia”, orientou seu coração ao resgate da dignidade e da vida do povo, agindo de maneira desconcertante “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despiu os ricos de mãos vazias”. Com isso “mostrou a força de seu braço” não só por reverter uma situação humanamente impossível, mas por dispersar “os soberbos de coração”, ou seja, a arrogância e a prepotência dos que se sentem superiores , privilegiados, e com isso motivados para dominar com o poder e dinheiro.
Nesse agir se manifesta a santidade do nome de Deus, pois, ele é expressão da soberania de Deus sobre a verdadeira convivência humana, além das dificuldades e dos múltiples obstáculos e resistências que se apresentarem nas diferentes circunstâncias.
Nesse contexto, Maria encaixa a própria pessoa como a destinatária da bem- aventurança que será reconhecida como tal por “todas as gerações”. Reconhece que Deus “olhou para a humildade de sua serva (...) o Todo- poderoso fez grandes coisas em meu favor”, ou seja, ela mesma. Constata que o ter dado voto de confiança com o próprio “sim” a Deus, foi oportunidade para experimentar nela a ação surpreendente e poderosa de Deus, além de toda expectativa, como Salvador dela e da humanidade.
Tudo isso é motivo nela de estupor e de maravilha, manifestados pelas primeiras palavras do cântico: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. É o testemunho da existência bem sucedida, que motiva e anima toda pessoa encontrar nela o modelo de discípula (o) do Senhor, bem sabendo das dores e dos sofrimentos que acompanharam a vida dela, pelo que aconteceu na vida do Filho. Ela por não desistir nem desconfiar de que a promessa será cumprida - como testemunha a ressurreição do filho -, já participa plenamente com o próprio corpo da glória na qual o mesmo Filho está envolvido e preenchido.
É a festa da glorificação de Maria, ou seja, da participação dela com o corpo da gloria de Deus. A tradição da Igreja na “mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” enxerga a imagem de Nossa Senhora. Cabe esclarecer que a imagem da mulher simboliza o povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Com efeito, um e outro são vítimas das perseguições indicadas pelo texto. Entretanto, os textos que se referem ao povo de Deus, a Igreja, podem ser aplicados à vigem Maria, enquanto o verdadeiro mistério dessa se insere no mistério da igreja, ao mesmo tempo que o ilumina.
“Abriu-se (...) e apareceu no Templo a arca da aliança”. A arca do Antigo Testamento, uma caixa dourada especialmente construída, continha os sinais da aliança de Deus para com o povo, quais as tabuas da Lei, o cajado de Moises etc. Agora a nova arca da aliança é Maria. De fato, ela leva no seio e traz para a humanidade o artífice único e fundamental da aliança nova e eterna: o filho Jesus. Pois, “ela deu a luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro”.
Desde antes de nascer o filho, se trava uma luta entre o mesmo, a mulher e os opositores. Estes últimos têm uma força muito grande e poderosa comparada ao de Dragão. O que está em jogo é o governo do mundo inteiro “Então apareceu (...) um grande Dragão, cor de fogo. (...) varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra”. Os opositores percebem de imediato o perigo da presença deste nascituro. Já sabem - os poderes deste mundo - o que significa a adesão das pessoas a Jesus Ressuscitado. Percebem a forca subversiva e inovadora da proposta e da filosofia dele. Sabem que Ele vai tirar o poder e força deles sobre os dominados como indicará o cântico de Maria no evangelho. Portanto, é uma luta extrema que procura suprimir a Mulher e o nascituro “O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar a luz, pronto para devorar o seu Filho logo que nascesse”.
O extremamente dramático deste retrato é a imagem do que acontecerá à Igreja, à comunidade cristã e a toda pessoa que, tocada pela pessoa de Jesus, determina assumir para valer o caminho dele se tornando discípulo. Eis, portanto que a mensagem do texto é dirigida ao perseguido de todos os tempos e de todos os lugares, que desanimado, provado e assustado pode se desmotivar, achando de ter sido enganado e abandonar o caminho.
Eis, então, a última e definitiva intervenção de Deus “ Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza de Deus, e o poder do seu Cristo”. Pois, com sua ação Deus leva o Filho junto dele “e do seu trono” e “A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar”. A ação de Deus é realizada nos termos e com os meios próprios do exercício do poder humano dos opositores, com força, realeza e com o poder do enviado especial. Portanto, os perseguidos devem saber que por quanto seja assustadora e terrível a opressão, não será a última palavra com respeito à condição deles. Pois, Deus é maior, é o verdadeiro salvador, não serão esquecidos nem abandonados.
O texto pretende ser uma mensagem que motiva a coragem e sustenta a esperança. Tudo isso tem sua fundamentação no evento da ressurreição de Jesus, que constitui propriamente o “poder do seu Cristo”, como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 15, 20-27a
Eis a anuncio fundamental, o eixo de toda argumentação e teologia de são Paulo: “Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”. Cristo se manifesta como primícias dos ressuscitados. Ora, se é verdade que às “primícias” segue a colheita, é verdade que à ressurreição de Cristo seguirá a nossa. Isso se deve ao fato que Jesus é o representante da humanidade de todos os tempos, como o foi Adão no começo da criação. Daí, então, o sentido da afirmação “por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como por Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão”.
É importante fixar na mente e acreditar no coração a verdade do relacionamento representante (Jesus) e representado (a humanidade e as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares). Porque é a certeza dessa verdade o elo que garante e convence da transposição que o acontecido na pessoa de Jesus acontece, objetivamente, na pessoa e na humanidade toda. Assim, representante e representado estão intimo e profundamente unidos na mesma vivencia e no mesmo destino.
Só o voto de confiança nisso permite atualizar os efeitos da morte e ressurreição Dele na comunidade e nas pessoas que celebram a Eucaristia, os demais sacramentos e na prática de vida conseqüente. Evidentemente, tudo isso é realizado misteriosamente e percebido só pela fé. O evento foge e ultrapassa todo raciocínio e experiência humana. Daí, as palavras após a consagração do cálice “Eis o mistério d a fé”. Assim, a fé de cada pessoa, e da comunidade, realiza a passagem do efeito objetivo - realizado por Jesus, o representante -, ao efeito subjetivo na pessoa que acredita sincera e firmemente nesse relacionamento.
Portanto, o “também em Cristo todos reviverão” não é evento de rotina ou automático, mas atingirá “os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda”. Com certeza, quando Paulo escreveu era iminente a espera da volta do ressuscitado. De todas as maneiras, é certo também que participarão da ressurreição com Cristo os que “pertencem a Cristo” e isso se realiza pela fé que acabo de explicitar. É preciso se manter na fé, mesmo passando pelas provações e abalos indicados na primeira leitura.
Essa realidade é uma situação intermédia, ainda não é o fim, a meta: “A seguir, será o fim, quando ele ( Cristo) entregar a realeza de Deus-pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força (...) . O último inimigo a ser destruído é a morte”.Com outras palavras, a meta será a manifestação do momento no qual Deus “será tudo em todos” (1Cor 15,28).
Tocará ao Filho, através da ação dos seus discípulos no mundo inteiro, “destruir todo principado e todo poder e força”. Parece-me que não se trata de uma dimensão sociológica, no sentido de submissão de toda a realidade sócio-humana, pois, ela continuará existindo com as ambigüidades que lhe são próprias até a vinda do ressuscitado. A vitória se manifestará pelo testemunho daqueles que não se dobraram ao principado, poder e força do mundo, que resistiram com coragem e esperança. É neles que Cristo vence e são com eles que entregará todos a Deus Pai.
Será evidente, então, o que o cântico de Maria proclamará no evangelho.
Evangelho Lc 1,39-56
O texto é muito conhecido. Após o “sim” da anunciação “Maria partiu (...) apressadamente a uma cidade da Judéia". A adesão à palavra suscita nela o dinamismo surpreendente apto para enfrentar uma longa viagem ao encontro da prima Isabel, com o intuito de compartilhar o envolvimento da experiência tão singular e determinante para o futuro do povo, em ordem à realização da promessa de Deus. Isso diz muito com respeito à qualidade e consistência de nossa adesão para valer à palavra, ao chamado de Deus, muitas vezes marcada, pelo comodismo, pela preguiça, pela indiferença para com as demais pessoas ou por uma fé simplesmente individualista.
Maria foi conferir o que o anjo lhe havia anunciado “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice”. Também em Isabel o que parecia impossível se tornou realidade. O encontro é motivo para constatar a eficácia da promessa de Deus: a estéril e a virgem se tornam fecundas e mães, para a salvação da humanidade, associadas na única missão, cujos filhos a desenvolverão de maneira diferente. Tudo isso, sob a ação do único Espírito Santo “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.
No encontro com Isabel, Maria é elogiada pela fé, pelo voto de confiança na promessa: “Bem-aventurada àquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Ela colocou a disposição sua pessoa e deixou que Deus operasse nela. A fé e a atitude dela se tornaram patrimônio e possibilidade da humanidade toda e de cada pessoa em particular. É o que gostaríamos todos vivenciarem e experimentar a bem-aventurança que inspirou Maria no cântico atribuído a ela.
O cântico é uma visão retrospectiva que parte da constatação que Deus “Socorreu Israel (...) conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abrão e sua descendência, para sempre”. Ou seja, o que o Senhor prometeu conforme as palavras de Isabel se cumpriu.
O cumprimento da promessa se deve que Deus “lembrando-se de sua misericórdia”, orientou seu coração ao resgate da dignidade e da vida do povo, agindo de maneira desconcertante “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despiu os ricos de mãos vazias”. Com isso “mostrou a força de seu braço” não só por reverter uma situação humanamente impossível, mas por dispersar “os soberbos de coração”, ou seja, a arrogância e a prepotência dos que se sentem superiores , privilegiados, e com isso motivados para dominar com o poder e dinheiro.
Nesse agir se manifesta a santidade do nome de Deus, pois, ele é expressão da soberania de Deus sobre a verdadeira convivência humana, além das dificuldades e dos múltiples obstáculos e resistências que se apresentarem nas diferentes circunstâncias.
Nesse contexto, Maria encaixa a própria pessoa como a destinatária da bem- aventurança que será reconhecida como tal por “todas as gerações”. Reconhece que Deus “olhou para a humildade de sua serva (...) o Todo- poderoso fez grandes coisas em meu favor”, ou seja, ela mesma. Constata que o ter dado voto de confiança com o próprio “sim” a Deus, foi oportunidade para experimentar nela a ação surpreendente e poderosa de Deus, além de toda expectativa, como Salvador dela e da humanidade.
Tudo isso é motivo nela de estupor e de maravilha, manifestados pelas primeiras palavras do cântico: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. É o testemunho da existência bem sucedida, que motiva e anima toda pessoa encontrar nela o modelo de discípula (o) do Senhor, bem sabendo das dores e dos sofrimentos que acompanharam a vida dela, pelo que aconteceu na vida do Filho. Ela por não desistir nem desconfiar de que a promessa será cumprida - como testemunha a ressurreição do filho -, já participa plenamente com o próprio corpo da glória na qual o mesmo Filho está envolvido e preenchido.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
19o DOMINGO DO T.C.-C- (08-08-10)
1ª leitura Sb 18,6-9
O texto é uma meditação da ação de Deus a favor de seu povo, assim como da resposta e do envolvimento do mesmo. A iniciativa da ação é de Deus quem preanunciou a intervenção visando à libertação da escravidão do Egito. De jeito nenhum o povo teria conseguido libertação alguma com suas próprias forças e vontade. A intervenção marcará o antes e o depois na historia do povo e da humanidade: “A noite da libertação fora predita os nossos pais, para que, (...) se conservassem intrépidos”.
Acolher o dom da libertação pressupõe conservar a ousadia de sonhar um mundo melhor e a coragem de ativar o que for necessário para manter e desenvolver a liberdade. Para isso é colocar a inteligência e a organização eficiente à serviço do projeto cujo iniciador é Deus mesmo, e cuja realização exige a colaboração responsável dos beneficiados.
Com efeito, a intervenção libertadora será salvação para uns e perdição para outros “Ela foi esperada por teu povo, como salvação para os justos e como perdição para os inimigos”. Ela é benção para uns e maldição para outros. Estes últimos são os inimigos, os que impuseram e instalaram a escravidão. Evidentemente, a libertação dos primeiros significa desfazer o projeto e os intentos dos segundos, portanto, estes experimentarão o evento como uma desgraça, uma punição. Conseqüentemente, a ação salvadora a favor dos escravizados se torna punição e castigo. Eles, os inimigos, afundarão travados pelos mesmos carros dos opressores, por eles construídos e lançados à perseguição dos libertados pelo Senhor, como testemunhará a experiência da passagem do mar vermelho a noite de Páscoa.
Neste triunfo de Deus sobre o mal e o pecado, (Egito é o símbolo do mal e do pecado) se manifesta a ação Dele pela qual “puniste nossos adversários” e simultaneamente “ serviu também para glorificar-nos, chamando-nos a ti”. É importante perceber como a libertação não tem finalidade em si mesma, ou seja, libertar por libertar, mas no evento da comunhão, da intimidade, da familiaridade com o Senhor. Com efeito, é o restabelecimento dessa comunhão a finalidade de toda ação de Deus ao longo da história humana.
“Os piedosos filhos dos bons” são os que acolheram, cuidaram e perseveraram neste dom, “ofereceram sacrifícios secretamente”. Com outras palavras, eles celebraram o culto, a memória daquele evento, que tem o poder não só de lembrar um fato passado, mas de atualizar aqueles efeitos, como se a comunidade mesma estivesse passando naquele momento pelo mar vermelho, experimentando a libertação de todo pecado que escraviza si mesmo e os outros, por desrespeitar a aliança com Deus.
A verdadeira libertação é motivadora e sustentadora da união pela qual “de comum acordo, fizeram este pacto divino: que os santos – são os que tocados pelo dom gratuito de Deus da libertação, tiveram a percepção de ser justificados e perdoados - participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos” estabeleceram o pacto de união, de solidariedade, de fraternidade seja qual forem as condições favoráveis ou adversas dos acontecimentos. É a declinação da familiaridade com Deus que se torna familiaridade com o próximo.
“Isso, enquanto entoavam antecipadamente os cânticos de seus pais”. Eram os cânticos dos libertados, após a passagem do mar vermelho. Cânticos de alegria, de agradecimento, de admiração, de devoção ao Deus libertador. O fato de eles entoarem “antecipadamente” mostra a plena confiança de que a oração (oferecer os sacrifício) será atendida. É a certeza que provem da fé, tema da segunda leitura.
2da leitura Hb 11,1-2. 8-19
Parece-me que a melhor definição da fé oferecida pela Bíblia é o primeiro versículo: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem”. Cabe se perguntar: em que consiste, qual é o conteúdo da espera de todo homem e particularmente de quem tem fé na pessoa de Jesus como Filho de Deus Pai? A resposta é vida em abundancia nesta terra, ou seja, a harmonia, a paz, a fraternidade, o sentido de realização plena etc. e a vida eterna que vence a morte.
Portanto, “a fé é um modo de já possuir” tudo isso. Fé é voto de confiança na pessoa de Jesus, pois, nele se cumpriu a promessa de Deus com a ressurreição dentre os mortos. Ao mesmo tempo, a ressurreição significou o aval da verdade, da bondade, do estilo de vida proposto por ele. Mais uma pergunta: quem garante que isso não seja simplesmente a projeção do desenho, do sonho de imortalidade do homem e não algo objetivo que provem de Deus? Responde a segunda parte do versículo: “a convicção acerca de realidades que não se vêem”. Portanto, a convicção não é fruto da evidencia racional, nem de comprovação com os métodos e meios a disposição da experiência humana, mas é algo que surge interiormente e toma conta do profundo do ser da pessoa por imitar a prática, o estilo de vida de Jesus. A força interior dessa experiência é tão consistente que leva à convicção da existência e realidades que fogem do simples horizonte humano, “realidades que não se vêem”
Isso faz justiça a todo ser humano indistintamente, pois, ele tem acesso não por algum privilegio alguma circunstância ou capacidade que outros não têm, mas pela fé que está ao alcance de todos. Fé na promessa de Deus, voto de confiança em Deus cumpridor da promessa. Certeza que Deus não defraudará e, portanto, vale investir sobre a palavra Dele. Foi essa fé “que valeu aos antepassados um bom testemunho”. O texto indica a experiência de Abraão e Sara como modelo. Abraão “considerou fidedigno o autor da promessa” até o ponto de que “estava convencido de que Deus tem poder de ressuscitar os mortos ”. O voto de confiança - a fé – se traduz em obediência “Foi pela fé que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança”. Obediência que lhe será pedida mais vezes e particularmente no momento culminante do sacrifício do filho Isaac “de um só homem, já marcado pela morte, nasceu uma multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia das praias do mar”. Assim, obediência e convicção “acerca de realidades que não se vêem” caminham juntas.
Notável é a indicação “Todos estes morreram na fé. Não receberam a realização da promessa, mas a puderam ver e saudar de longe e se declararam estrangeiros e migrantes nesta terra”. A promessa não deixou de ser promessa. Não se cumpriu plenamente nem defraudou, mas abriu o olhar e o entendimento sobre a relação presente e futuro. O presente como realidade passageira coloca quem acredita na condição de migrante, ao passo que o mesmo enxerga o futuro de longe e deseja “uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste”. Nesse sentido presente e futuro se entrelaçam de uma maneira muito singular. Com outras palavras: o futuro já está no presente e o presente já participa do futuro.
Este marco constitui o quadro de fundo para determinar o sentido da existência e sua coerente expressão nas escolhas e atividades diárias, como comentaremos no evangelho.
Evangelho Lc 12, 32-48
“Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Portanto, tesouro e coração estão intima e profundamente entrosados. Com efeito, o tesouro indica o valor da realidade, assim como o amor a adesão a ele com toda inteligência, vontade, memória e de forma incondicional.
Nesse pano de fundo, o discípulo deve considerar as palavras de Jesus: “Não tenhais medo (...) foi do agrado do Pai dar a vós o Reino”. No acolher o dom do Reino consiste o verdadeiro tesouro e a adesão a ele de todo coração merece todo investimento com determinação “Vendei vossos bens e dai em esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói”, visando o Reino no presente e, sobretudo, no futuro último e definitivo. Sendo que o presente se corrói, passa, é misturado com maldades de todo tipo, ele é o contrário do futuro estável, definitivo e purificado pelo evento da morte e ressurreição de Jesus. Portanto, este último se torna a referencia fundamental.
Assim, é olhando para este último, a meta, que os discípulos devem assumir as atitudes convenientes. É preciso estar prontos e acordados pela irrupção, pela vinda, do reino futuro que acontecerá de repente na hora menos esperada “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento (...). Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados (...). Porque o Filho do Homem- (Jesus ressuscitado)- vai chegar na hora em que menos o esperardes”.
Este tempo de espera deve ser assumido, pelo discípulo, de maneira positiva, trabalhando para o bem de todos. É o que faz dele “o administrador fiel e prudente”. O bem consiste em animar e motivar o pessoal “o da sua casa” à perseverança na esperança e nas atitudes corretas, em sintonia com as exigências do Reino no momento presente. Nisso consiste “dar a comida a todos na hora certa”. Este discípulo será parabenizado: “Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim!” e participará da plenitude do Reino “em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens”.
Mas há um “Porém”. Trata-se de quem cansado de esperar, a desconfiança toma conta dele e se deixa levar por atitudes contrárias à realidade do reino já presente “Meu patrão esta demorando, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor (...) chegará (...) ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis”.
Isso indica que os discípulos desenvolvendo as corretas atitudes do Reino, sem segundos fins ou segundas intenções, encontrarão motivo e esperança para continuar firme na própria missão, independentemente da demora da chegada última e definitiva do Senhor. Pois, eles já eles pré-gostam, saboreiam, a realidade do Reino e se reforça no coração deles a certeza da futura vinda. Portanto, podem continuar trabalhando e servindo confiadamente na certeza que não serão desiludidos nem defraudados.
Para outros a demora da vinda do Senhor revelará a fraca consistência do discipulado deles, apesar de ter recebido muito. Será pelos motivos já indicados, e outros também, mas, de fato, a demora será como a peneira que separará o verdadeiro do falso discípulo.
Nessa demora podemos incluir todas as provações, dificuldades, desilusões, incompreensões etc. do trabalho pastoral “em dar comida a todos na hora certa”(não é dar a todos a mesma comida, mas a cada um a comida que precisa!). Daí então a sentencia final de Jesus “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”.
Discípulo verdadeiro é ser servidor do Reino, na consciência da responsabilidade que, corretamente desenvolvida, pressupõe o voto de confiança total na pessoa de Jesus e o comportamento ético adequado, sustentado pela certeza que no tudo está na presença do Senhor e que a qualidade do serviço já é participar da plenitude da glória que se revelará na sua plenitude com o retorno do Ressuscitado.
O texto é uma meditação da ação de Deus a favor de seu povo, assim como da resposta e do envolvimento do mesmo. A iniciativa da ação é de Deus quem preanunciou a intervenção visando à libertação da escravidão do Egito. De jeito nenhum o povo teria conseguido libertação alguma com suas próprias forças e vontade. A intervenção marcará o antes e o depois na historia do povo e da humanidade: “A noite da libertação fora predita os nossos pais, para que, (...) se conservassem intrépidos”.
Acolher o dom da libertação pressupõe conservar a ousadia de sonhar um mundo melhor e a coragem de ativar o que for necessário para manter e desenvolver a liberdade. Para isso é colocar a inteligência e a organização eficiente à serviço do projeto cujo iniciador é Deus mesmo, e cuja realização exige a colaboração responsável dos beneficiados.
Com efeito, a intervenção libertadora será salvação para uns e perdição para outros “Ela foi esperada por teu povo, como salvação para os justos e como perdição para os inimigos”. Ela é benção para uns e maldição para outros. Estes últimos são os inimigos, os que impuseram e instalaram a escravidão. Evidentemente, a libertação dos primeiros significa desfazer o projeto e os intentos dos segundos, portanto, estes experimentarão o evento como uma desgraça, uma punição. Conseqüentemente, a ação salvadora a favor dos escravizados se torna punição e castigo. Eles, os inimigos, afundarão travados pelos mesmos carros dos opressores, por eles construídos e lançados à perseguição dos libertados pelo Senhor, como testemunhará a experiência da passagem do mar vermelho a noite de Páscoa.
Neste triunfo de Deus sobre o mal e o pecado, (Egito é o símbolo do mal e do pecado) se manifesta a ação Dele pela qual “puniste nossos adversários” e simultaneamente “ serviu também para glorificar-nos, chamando-nos a ti”. É importante perceber como a libertação não tem finalidade em si mesma, ou seja, libertar por libertar, mas no evento da comunhão, da intimidade, da familiaridade com o Senhor. Com efeito, é o restabelecimento dessa comunhão a finalidade de toda ação de Deus ao longo da história humana.
“Os piedosos filhos dos bons” são os que acolheram, cuidaram e perseveraram neste dom, “ofereceram sacrifícios secretamente”. Com outras palavras, eles celebraram o culto, a memória daquele evento, que tem o poder não só de lembrar um fato passado, mas de atualizar aqueles efeitos, como se a comunidade mesma estivesse passando naquele momento pelo mar vermelho, experimentando a libertação de todo pecado que escraviza si mesmo e os outros, por desrespeitar a aliança com Deus.
A verdadeira libertação é motivadora e sustentadora da união pela qual “de comum acordo, fizeram este pacto divino: que os santos – são os que tocados pelo dom gratuito de Deus da libertação, tiveram a percepção de ser justificados e perdoados - participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos” estabeleceram o pacto de união, de solidariedade, de fraternidade seja qual forem as condições favoráveis ou adversas dos acontecimentos. É a declinação da familiaridade com Deus que se torna familiaridade com o próximo.
“Isso, enquanto entoavam antecipadamente os cânticos de seus pais”. Eram os cânticos dos libertados, após a passagem do mar vermelho. Cânticos de alegria, de agradecimento, de admiração, de devoção ao Deus libertador. O fato de eles entoarem “antecipadamente” mostra a plena confiança de que a oração (oferecer os sacrifício) será atendida. É a certeza que provem da fé, tema da segunda leitura.
2da leitura Hb 11,1-2. 8-19
Parece-me que a melhor definição da fé oferecida pela Bíblia é o primeiro versículo: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem”. Cabe se perguntar: em que consiste, qual é o conteúdo da espera de todo homem e particularmente de quem tem fé na pessoa de Jesus como Filho de Deus Pai? A resposta é vida em abundancia nesta terra, ou seja, a harmonia, a paz, a fraternidade, o sentido de realização plena etc. e a vida eterna que vence a morte.
Portanto, “a fé é um modo de já possuir” tudo isso. Fé é voto de confiança na pessoa de Jesus, pois, nele se cumpriu a promessa de Deus com a ressurreição dentre os mortos. Ao mesmo tempo, a ressurreição significou o aval da verdade, da bondade, do estilo de vida proposto por ele. Mais uma pergunta: quem garante que isso não seja simplesmente a projeção do desenho, do sonho de imortalidade do homem e não algo objetivo que provem de Deus? Responde a segunda parte do versículo: “a convicção acerca de realidades que não se vêem”. Portanto, a convicção não é fruto da evidencia racional, nem de comprovação com os métodos e meios a disposição da experiência humana, mas é algo que surge interiormente e toma conta do profundo do ser da pessoa por imitar a prática, o estilo de vida de Jesus. A força interior dessa experiência é tão consistente que leva à convicção da existência e realidades que fogem do simples horizonte humano, “realidades que não se vêem”
Isso faz justiça a todo ser humano indistintamente, pois, ele tem acesso não por algum privilegio alguma circunstância ou capacidade que outros não têm, mas pela fé que está ao alcance de todos. Fé na promessa de Deus, voto de confiança em Deus cumpridor da promessa. Certeza que Deus não defraudará e, portanto, vale investir sobre a palavra Dele. Foi essa fé “que valeu aos antepassados um bom testemunho”. O texto indica a experiência de Abraão e Sara como modelo. Abraão “considerou fidedigno o autor da promessa” até o ponto de que “estava convencido de que Deus tem poder de ressuscitar os mortos ”. O voto de confiança - a fé – se traduz em obediência “Foi pela fé que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança”. Obediência que lhe será pedida mais vezes e particularmente no momento culminante do sacrifício do filho Isaac “de um só homem, já marcado pela morte, nasceu uma multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia das praias do mar”. Assim, obediência e convicção “acerca de realidades que não se vêem” caminham juntas.
Notável é a indicação “Todos estes morreram na fé. Não receberam a realização da promessa, mas a puderam ver e saudar de longe e se declararam estrangeiros e migrantes nesta terra”. A promessa não deixou de ser promessa. Não se cumpriu plenamente nem defraudou, mas abriu o olhar e o entendimento sobre a relação presente e futuro. O presente como realidade passageira coloca quem acredita na condição de migrante, ao passo que o mesmo enxerga o futuro de longe e deseja “uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste”. Nesse sentido presente e futuro se entrelaçam de uma maneira muito singular. Com outras palavras: o futuro já está no presente e o presente já participa do futuro.
Este marco constitui o quadro de fundo para determinar o sentido da existência e sua coerente expressão nas escolhas e atividades diárias, como comentaremos no evangelho.
Evangelho Lc 12, 32-48
“Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Portanto, tesouro e coração estão intima e profundamente entrosados. Com efeito, o tesouro indica o valor da realidade, assim como o amor a adesão a ele com toda inteligência, vontade, memória e de forma incondicional.
Nesse pano de fundo, o discípulo deve considerar as palavras de Jesus: “Não tenhais medo (...) foi do agrado do Pai dar a vós o Reino”. No acolher o dom do Reino consiste o verdadeiro tesouro e a adesão a ele de todo coração merece todo investimento com determinação “Vendei vossos bens e dai em esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói”, visando o Reino no presente e, sobretudo, no futuro último e definitivo. Sendo que o presente se corrói, passa, é misturado com maldades de todo tipo, ele é o contrário do futuro estável, definitivo e purificado pelo evento da morte e ressurreição de Jesus. Portanto, este último se torna a referencia fundamental.
Assim, é olhando para este último, a meta, que os discípulos devem assumir as atitudes convenientes. É preciso estar prontos e acordados pela irrupção, pela vinda, do reino futuro que acontecerá de repente na hora menos esperada “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento (...). Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados (...). Porque o Filho do Homem- (Jesus ressuscitado)- vai chegar na hora em que menos o esperardes”.
Este tempo de espera deve ser assumido, pelo discípulo, de maneira positiva, trabalhando para o bem de todos. É o que faz dele “o administrador fiel e prudente”. O bem consiste em animar e motivar o pessoal “o da sua casa” à perseverança na esperança e nas atitudes corretas, em sintonia com as exigências do Reino no momento presente. Nisso consiste “dar a comida a todos na hora certa”. Este discípulo será parabenizado: “Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim!” e participará da plenitude do Reino “em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens”.
Mas há um “Porém”. Trata-se de quem cansado de esperar, a desconfiança toma conta dele e se deixa levar por atitudes contrárias à realidade do reino já presente “Meu patrão esta demorando, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor (...) chegará (...) ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis”.
Isso indica que os discípulos desenvolvendo as corretas atitudes do Reino, sem segundos fins ou segundas intenções, encontrarão motivo e esperança para continuar firme na própria missão, independentemente da demora da chegada última e definitiva do Senhor. Pois, eles já eles pré-gostam, saboreiam, a realidade do Reino e se reforça no coração deles a certeza da futura vinda. Portanto, podem continuar trabalhando e servindo confiadamente na certeza que não serão desiludidos nem defraudados.
Para outros a demora da vinda do Senhor revelará a fraca consistência do discipulado deles, apesar de ter recebido muito. Será pelos motivos já indicados, e outros também, mas, de fato, a demora será como a peneira que separará o verdadeiro do falso discípulo.
Nessa demora podemos incluir todas as provações, dificuldades, desilusões, incompreensões etc. do trabalho pastoral “em dar comida a todos na hora certa”(não é dar a todos a mesma comida, mas a cada um a comida que precisa!). Daí então a sentencia final de Jesus “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”.
Discípulo verdadeiro é ser servidor do Reino, na consciência da responsabilidade que, corretamente desenvolvida, pressupõe o voto de confiança total na pessoa de Jesus e o comportamento ético adequado, sustentado pela certeza que no tudo está na presença do Senhor e que a qualidade do serviço já é participar da plenitude da glória que se revelará na sua plenitude com o retorno do Ressuscitado.
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