terça-feira, 31 de agosto de 2010

23o DOMINGO DO T.C.-C-(05-09-10)

1ª leitura Sb 9,13-18

Estupenda reflexão sobre a realidade do ser humano. Ela manifesta o limite e a grandeza e toda pessoa.
Acolher o limite é o próprio da humildade e do realismo necessários para encaminhar a vida de maneira bem sucedida. “Pensamentos tímidos (...) reflexões incertas (...). Mal podemos conhecer o que há na terra (...) quem, portanto, investigará o que há no céu? ”. Acredito nestas palavras também para o homem e o mudo de hoje.
Com certeza a inteligência e o raciocínio do homem avançaram muito e rapidamente com respeito aos tempos passados. O sentido de poder do homem e de domínio da ciência, tal vez diminuiu um pouco com respeito aos anos 50-80 do século passado. Contudo, é alta a confiança na ciência, nos adiantamentos dos laboratórios genéticos e da pesquisa cientifica. Eles imprimem na consciência um sentimento de poder e domínio da inteligência e da labor humana sobre a existência, no sentido de ter condição, com as descobertas e os adiantamentos tecnológicos, de vencer os obstáculos maiores da criação: a origem da vida e a vitoria sobre a morte.
Neste horizonte, Deus é tido como um ser que, se existe, não tem grande importância, ou não se pode saber nada dele. O primeiro se chama de ateísmo e o segundo de agnosticismo (esta última é uma palavra tirada da língua grega. Ela não nega a existência de Deus, simplesmente diz que não temos condição de conhecê-lo. Pois, a ciência tem método e domínio que nada tem a ver com a existência Deus, a revelação e a ação Dele sobre a criação e na história). A Europa já carrega muito disso. Mas também no Rio o fenômeno está crescendo exponencialmente. Uma pesquisa do “Globo”, de faz dois anos, indicava que nos 2002 os agnósticos eram o 2,3% da população no Rio, nos 2008, 7,3%. O futuro anda por aí...
É conhecido que Deus não é objeto de provação cientifica, mas existe na e pela fé dos que aceitam sua auto-revelação na história, registrada pelas escrituras e pela vivencia das comunidades que se reúnem em nome Dele. Daí, voltando ao texto, “Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses Sabedoria e do alto enviasses teu santo espírito?”.
Assim, o Mistério de Deus é acessível àquele que se dispõe para uma Sabedoria que não está no horizonte humano e, portanto, não disponível aos critérios racionais e científicos. A Sabedoria não nega a ciência e o raciocínio humano, simplesmente a ultrapassa. E ultrapassando-os os ilumina e os coloca no lugar certo e na sua correta compreensão. Tudo isso é obra do Espírito. Ele age se o homem cria espaço, se aceita a verdade que está nele. Mas isso tem um preço: a humildade de reconhecer os próprios limites. Humildade que a ciência tem , não assim os homens que se apoderam dela, embora, surpreendentemente, alguns dos maiores científicos reconhecem a existência de um ser superior.
Só assim se tornam retos os caminhos (...) e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos”. Reto caminho e salvação configuram a felicidade e a harmonia da pessoa e da humanidade. É o sonho de todo ser humano. Elas estão ao nosso alcance. Não se trata tanto de filosofia, de sentimento, da visão e esperança futura, mas da pratica de vida, no exemplo indicado pela segunda leitura.

2da leitura Fm 9b-10. 12-17

É a carta mais breve de são Paulo, o bilhete a Filêmon. Um acontecimento circunstancial. O escravo Onésimo fugiu da casa de Filemon e se encontrou com Paulo, prisioneiro, que lhe deu a liberdade em Cristo “... meu filho que fiz nascer para Cristo na prisão, Onésimo”. Paulo se sente no dever de restituí-lo a seu patrão, que é cristão, a fim de que o próprio Filemon disponha com liberdade em vista da fé.
São Paulo estabelece na base da própria experiência de fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, uma singular triangulação entre eles, Onésimo e Filêmon, que modifica radicalmente o conteúdo da relação comumente estabelecida em circunstâncias parecidas. O escravo Onésimo é simultaneamente apresentado como “filho que fiz nascer em Cristo” e representante de Filêmon “para cuidar de mim nesta prisão”. Paulo respeita a condição de Filêmon e o direito dele para com Onésimo, mas solicita o primeiro a redesenhar o relacionamento a partir da bondade que brota da autentica consciência cristã “para que tua bondade não seja forçada, mas espontânea”. Assim, “o tenhas de volta para sempre, já não como escravo, mas muito mais do que isso, como um irmão muito querido (...) tanto como pessoa humana quanto como irmão no Senhor”.
Assim, se estás em comunhão de fé comigo, recebe-o como si fosse a mim mesmo”. Tudo isso, tem sua Justificação na comunhão originada pelo batismo que supõe a fé na pessoa de Jesus e do que Ele realizou a favor da humanidade toda sem diferenças de condição social, raça, instrução etc. Trata-se da vivencia da fraternidade no mais profundo sentido do termo, capaz de ultrapassar costumes e leis que estabelecem relacionamentos desumanos, injustos e não respeitosos da comum dignidade de filhos do mesmo Pai e irmãos em Jesus Cristo.
A identidade em Cristo é tão forte e envolvente que, no entendimento de Paulo, Onésimo é representante de Filêmon e dele mesmo. O batismo é o selo da transformação pessoal e dos relacionamentos sócias na ótica de um novo ser, de uma nova humanidade conforme ao projeto de Deus.
Sem dúvida, estas considerações não têm peso na concepção comum dos batizados, nem são valorizadas no âmbito dos relacionamentos da comunidade. Não é preciso atingir a ideologia que seja, para estabelecer aquela fraternidade, igualdade e liberdade que a partir da revolução francesa, faz pouco mais de duzentos anos, se impus à atenção mundial. Contudo, vale reconhecer que se a Igreja tivesse prestado mais atenção a todo isso, teria sido a força renovadora do mundo, em vez da instituição conservadora do poder ao lado dos interesses dos governantes, com prejuízo dos pobres, ou fazendo destes últimos simplesmente os destinatários das esmolas dos ricos e da eventual benevolência dos poderosos.
A força transformadora do batismo tem suas exigências que o evangelho destaca com determinação.

Evangelho Lc 14,25-33

Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus”. Com isso é frisado o momento particularmente favorável da pregação e da ação pastoral de Jesus. Uma resposta tão expressiva do ponto de vista numérico “grandes multidões”, deveria deixar Jesus satisfeito do sucesso da missão. Satisfação em virtude da qual sua atitude para com a multidão deveria ser de condescendência, de acolhimento benévolo, de complacência, própria da condição de líder que cativa tão grande quantidade de pessoas.
Surpreende a atitude e o conteúdo da reação de Jesus. “Voltando-se” atitude própria de quem está caminhando para frente, não na direção do encontro com o povo, rumo à meta na frente, é necessitado, pela circunstância, desviar a atenção e olhar para trás. E pronuncia umas palavras de grande impacto. Estabelece o critério para discernir se o acompanhar a ele responde ao correto entendimento da proposta, em sintonia com as palavras e a missão dele.
Se alguém vem a mim”. No caso alguém se sinta motivado e decida ser discípulo é preciso que tome a serio as exigências: “... mas não se desapega do seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Desapegar. Trata-se de adquirir e manter a liberdade de agir, de pensar e de ser em ordem a uma realidade superior, que exige distanciamento e se sobrepor ao mundo sentimental, afetivo tão profundo como o dos relacionamentos familiares e até da sua própria vida.
Isso significa que a compreensão e adesão à pessoa, ao estilo de vida de Jesus, à sabedoria da filosofia de vida proposta por ele, têm em si mesmas um potencial humano, psicológico, comportamental e espiritual capaz de motivar e sustentar o desapego. Trata-se do acontecer do evento do Amor, pelo qual a pessoa ( a comunidade, a humanidade)se sentindo amada pelo que Jesus faz por ela, ( lembrará são Paulo: “ Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”-Gl 2,20) experimenta em si mesma motivo e força para o desapego tão surpreendente do ponto de vista humano.
Cabe especificar de que não se trata de ignorar ou não dar atenção aos afetos humanos, mas de subordiná-los ao estilo de vida, à sabedoria, à verdade e prática de Jesus. Jesus é sempre voltado para o bem da pessoa como sujeito capaz se doar para o bem do próximo, para o bem da comunidade, sustentadora e animadora da ação evangelizadora para com os afastados, os indiferentes. Assim, como para a implantação na sociedade do direito e da justiça, no respeito das diversidades e dos mais fracos. Por exemplo, em nível da pessoa. Se o professor chama atenção ao próprio filho, é conforme a pratica e filosofia de Jesus repreender o filho uma vez constatado, em dialogo com o professor, a verdade dos fatos e a motivação da chamada de atenção, mesmo que isso doa mais aos pais do que ao filho.
Jesus sabe e está experimentando que tudo isso não terá aceitação, pelo contrário encontrará o repúdio. Daí a segunda exigência: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. A cruz consiste no perseverar e permanecer no caminho, por ter interiorizado no profundo do ser a convicção de que vida, com a V maiúscula, a verdade e o rumo para uma existência bem sucedida é essa mesma.
Contudo, as provações e até as perseguições podem ser de tão magnitude e intensidade que é preciso refletir, meditar e avaliar realisticamente a necessária determinação, para não voltar atrás ou desviar. Seria, então, se expor a que “Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar”. Eis, portanto, a segunda parábola que convida a séria e realística avaliação sobre as próprias capacidades e condições de levar a bom fim o seguimento: “Qual rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil?”. Para seguir a Cristo como discípulos para valer, é preciso muito amor, fé, determinação, pé no chão e mergulho no Mistério de Amor oferecido pela morte e ressurreição de Jesus.
É tudo isso que conforma a personalidade do discípulo em sintonia com o que Jesus indica ao final do evangelho “Portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”. Não é radicalismo, em sentido pejorativo do termo, mas chegar à raiz da vida e da felicidade da existência bem sucedida.

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