segunda-feira, 23 de agosto de 2010

22o DOMINGO DO T.C.-C- (29-08-10)

Eclo 3,19-21.30-31

É frisada a importância da virtude da doação: “Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso”. Há sintonia com as palavras de Jesus no discurso da montanha: “Felizes os mansos, porque receberão aterra em herança” (Mt 5,5). Com efeito, o generoso oferece bens, coisas tal vez necessárias para os momentos de aperto. O manso oferece si mesmo como espaço de encontro, de acolhimento e possibilidade de comunhão. É indiscutível que a segunda é mais importante da primeira. Daí, o significado do versículo.
A mansidão é uma maneira de se posicionar, de se colocar nos relacionamentos para com as pessoas e as circunstâncias diárias. Parece-me que é uma mistura de brandura, de atenção, de paciência, de valorização da pessoa etc. que manifesta um conhecimento e domínio de si mesmo muito grande e coloca a vontade o interlocutor. Portanto, não é sinônimo de fraqueza, de medo, de comodismo, mas todo o contrário.
Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade”. É uma indicação de que grandeza e humildade caminham juntas, combinam. Assim, ser humilde não é negar ou diminuir as próprias virtudes ou capacidades, mas assumi-las de uma determinada maneira. Em primeiro lugar, o humilde sabe que a inteligência, condição para o correto desenvolvimento e capacitação rumo a metas significativas, é dom. Com certeza, dom que se desenvolveu pela própria dedicação, pela vontade firme e pela luta etc., mas, enfim, sempre dom. O humilde sabe que tudo isso é dom de Deus.
A humildade em atribuir, em primeira instancia, o que ele é e conseguiu a Deus é de grande importância, pois, reconhece o senhorio do Mesmo: “assim encontrará graça diante do Senhor”. Esta humildade, terá um retorno de grande importância: “é aos humildes que ele revela seus mistérios”. Dessa maneira, ele participará da intimidade e familiaridade de Deus, da realidade do amor divino, sendo que os mistérios são como os elementos do oceano no qual o humilde é mergulhado profundamente.
Pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes”. O autor reconhece a grandeza do poder de Deus, poder que é amplamente reconhecido pelo humilde com palavras e atitudes coerentes. Tudo isso, manifesta a glória de Deus presente nele, pois, testemunha a santidade de Deus, o senhorio de Deus, atuante no humilde.
O contrário do humilde é o orgulhoso “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende”. Portanto, não existe remédio porque não compreende o prejuízo para ele e não se importa do mal que acarreta aos outros. O orgulho é a característica própria de um ser auto-suficiente, como possuidor do que é certo e se surpreende que outros não aceitem nem se identifiquem com o mundo dele. O olhar dele é de cima para abaixo.
Pelo contrário, “O homem inteligente reflete sobre as palavras dos sábios, e com ouvido atento deseja sabedoria”. Por quanto grande seja o seu conhecimento, o humilde sabe que não sabe. Portanto, é permanente nele a procura de quem pode acrescentar o conhecimento dele. É intenso nele o desejo da sabedoria, como arte de dar sabor à existência do dia-a-dia e das circunstâncias de cada momento.
Ponto de referencia fundamental neste processo é a palavra de Deus, que abre horizontes inéditos, como mostra a 2da leitura.

2da leitura Hb 12,18-19. 22-14ª

Vos não vos aproximastes (...) que os ouvintes suplicaram não continuasse”. O autor se refere à experiência do povo com respeito à manifestação de Deus a Moises no monte Sinai. Era impensável se aproximar de Deus e continuar vivendo. Só estando de longe, e mesmo assim, a manifestação suscitava temor. Daí a súplica que não continuasse.
Há contraste entre aquela experiência e o momento presente: “Mas vós vos aproximastes...”. Com isso, a barreira está derrubada. O acesso a Deus é mediado pela Jerusalém celeste configurada “da reunião festiva de milhões de anjos; da assembléia dos primogênitos (...); de Deus, o Juiz de todos; dos espíritos dos justos, que chegaram à perfeição; de Jesus, mediador da nova aliança”. Assim, diversamente do que se dava anteriormente, o cristão pode chegar diretamente a Deus, participar da alegria dos anjos e dos santos e obter a salvação e a vida eterna.
Tudo isso se deve a Jesus “mediador da nova aliança”. Mediador é quem está no meio entre dois pólos e faz a ponte. Assim por um lado está Deus e pelo outro a humanidade. O afastamento um do outro, gerado pelo pecado, é desmanchado pela atuação do mediador. Portanto, o relacionamento direto com Deus passa necessariamente pela aceitação da mediação de Jesus. Trata-se de aceitar de ter sido aceito por Jesus, como representante perante o Pai.
Vivenciar no interior e no profundo do coração o relacionamento representante-representado, é o certo para experimentar os benefícios de Jesus a favor do representado.Para isso é necessária a fé. O ponto de partida para a correta vivencia da fé é dar voto de confiança nessa realidade. Em concomitância com a fé em Jesus como Deus em forma humana, se criam as condições que autorizou Paulo dizer: “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Não é fácil firmar e cultivar essa fé, sobretudo pelas conseqüências no profundo do ser que nos torna semelhantes a Cristo, e pelos conseqüentes efeitos psicológicos, humanos e espirituais. Se a fé fosse da intensidade e da profundidade que o evento da morte e ressurreição de Jesus merece, sentiríamos toda a força e o poder das palavras de Paulo.
A pergunta legitima é: como chegar a esta vivencia? Do ponto de vista de nossas condições humanas é imprescindível o cultivo da humildade.
É o tema do evangelho.

Evangelho Lc 14,1. 7-14

Jesus enfrenta diretos os opositores “foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam”. Era um dia de sábado. Com efeito, após a celebração na sinagoga era motivo de mérito, no entendimento dos fariseus, convidar o pregador à mesa. Jesus deve ter surpreendido ou desconcertado, pois, eles o observavam como para indagá-lo.
Jesus aproveita da circunstância para lançar a mensagem “Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha,será elevado”. Com ela se dirige expressamente aos fariseus, muito empenhados e preocupados em ocupar os primeiros lugares do reino em virtude dos acúmulos dos méritos em conseqüências de suas ações e condutas em conformidade à Lei e às exigências da Aliança. Eram rigorosíssimos no cumprimento de todas as prescrições, pelas quais, no entendimento deles, acumulavam o direito de ocupar os primeiros lugares.
Jesus derruba a convicção deles. Pois estão enganados porque o primeiro lugar depende do critério do Pai. Eles presumiam cumprir a Lei, ser fieis à Aliança e com isso, logicamente, serem os primeiros no Reino. Mais alguma coisa não estava dando certo. Como não lembrar as palavras de Jesus “Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não fui em teu nome que profetizamos? Não fui em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres?’Então eu lhes direi publicamente: ‘Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal’”( Mt 7,22-23)
Jesus os alerta frisando que o entendimento deles é uma armadilha às expectativas deles, pois se encontrarão nos últimos lugares, com conseguinte humilhação. Acham estar servindo corretamente a Deus, sem perceber, ou não querem perceber, que estão desviando do caminho certo.
Neste caso, a humildade tem como conteúdo a questão do mérito. Com outras palavras. Na mentalidade dos fariseus, o respeito às exigências da Aliança e o fiel cumprimento ao pé da letra dos mandamentos da Lei os faziam merecedores da salvação, da entrada no Reino de Deus com a chegada do Messias. Eles não acreditavam estarem longe do espírito e da finalidade da lei, embora o cumprimento ao pé da letra da Lei os levou a isso. Portanto, se achavam em direito de sentar nos primeiros lugares do Reino. Eles estavam longe de entender toda afirmação que não encaixasse na mentalidade deles.
Jesus quis alertá-los, mas a recepção teria significado uma atitude de grande humildade em considerar que os méritos da participação no Reino tinham outra origem e que a prática do correto entendimento da Aliança e do espírito da Lei teria outra forma, outras expressões concretas. Portanto, humildade é acolher tudo isso, ou seja, a verdade de Deus e os critérios da atuação dela.
É o que Jesus apresenta a continuação dirigindo-se a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa”. A motivação é a radical gratuidade. Assim, participar da mesa do Reino, não é questão de maior ou menor mérito, mas da absoluta gratuidade de Deus, muito longe do critério da troca.
Compreender esta desconcertante gratuidade é entrar na lógica do Reino de Deus, é já participar da vivencia do Reino.
A maneira de concretização. Dá para pensar algo parecido na circunstância de alguns aniversários, de algumas comemorações ou..., e ficar como “excluído” sem aquela atenção esperada e ao mesmo tempo não julgar negativamente, não ficar magoado, não criticar etc. E por cima manter serenidade interior não diminuindo o relacionamento de amizade, de parentesco?
Isso significaria experimentar a verdade da afirmação final: “Então tu serás feliz (...). Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” . Impressionante como a felicidade nesta terra, a condição de justo perante Deus e a participação da glória da ressurreição depende desta atitude. Tudo isso pela participação ao Amor de Deus na sua expressão mais pura e verdadeira, ou seja, por estarmos em Deus, sendo que “Deus é amor”, total gratuidade.

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