segunda-feira, 16 de agosto de 2010

21o DOMINGO DO T.C.-C-(22-08-10)

1ª leitura Is 66,18-21

Assim diz o Senhor: Eu que conheço suas obras e seus pensamentos”. O Senhor conhece a conduta perversa do povo, sua prática e seus pensamentos contrários à Aliança. Surpreende, lendo os versículos anteriores, o tamanho do afastamento, pelo desrespeito às normas que manifestavam e garantiam a comunhão e a amizade com Deus. Então, o Senhor determina abrir para outros povos: “virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha glória”. Determinação desconcertante para a mentalidade do povo, pois a pureza da descendência racial - descendentes de Abrão e selados pela circuncisão – eram condições imprescindíveis para herdar e participar, com pleno direito, ao Reino de Deus.
Para alcançar o propósito “Porei no meio deles um sinal, e enviarei (...) mensageiros para os povos (...). Esses enviados anunciarão às nações minha glória”. Com estas palavras Deus entende que será indicado a todos os povos o caminho pelo qual se manifestará entre eles a força e a santidade de Deus, ou seja, a glória. Ela consistirá naquele correto relacionamento com Ele e entre eles ao qual o povo eleito não deu atenção nem valorizou. Desta maneira, a salvação, o Reino de Deus, assume a dimensão universal, abrange tudo e todos.
O efeito dessa ação será que eles, os mensageiros, “reconduzirão, de toda parte, até meu santo monte em Jerusalém, como oferenda ao Senhor, irmão vossos (...) e como os filhos de Israel, levarão suas oferendas em vasos purificados para a casa do Senhor”. Os povos, contrariamente ao povo eleito Israel, reconhecerão o valor e a bondade de Deus e manifestarão sua adesão com o culto em Jerusalém. O culto consistirá em se colocar “como oferenda ao Senhor” e juntamente “levarão sua oferenda em vasos purificados para a casa do Senhor”. Todos os povos formarão como uma única família reunida por acolher o dom de Deus.
O entrosamento entre eles e Deus será tal que, diz o Senhor: “Escolherei dentre eles alguns para serem sacerdotes e levitas”. O tamanho da surpresa aos ouvidos dos israelitas pode ser medido pelo fato que para ser eleito sacerdote o candidato, alem de pertencer à tribo de Levi, devia comprovar, pelos arquivos do templo em Jerusalém, a pureza racial, ou seja, até a quinta geração pai e mãe deviam ser de pura descendência israelita, sem nenhuma mistura com outras raças. O fato de que até estrangeiros, mesmo que convertidos, podiam ser levita e sacerdotes era o máximo do desconcerto por aquela mentalidade.
Portanto, o exclusivismo do povo de Israel será totalmente superado pela participação de todos os não-judeus no culto e no sacerdócio. Essa participação terá suas exigências que só uma formação pontual e perseverante oferecerá as condições para ser cumpridas.
É o tema tocado pela carta aos Hebreus.

2da leitura Hb 12,5-7.11-13

Assumindo pela fé a proposta do Senhor para integrar o povo de Deus na sua dimensão universal, o cristão deve suportar sofrimentos para imitar o Mestre. Eles, os sofrimentos, são parte da pedagogia de Deus, pois, através das provações da vida, Deus chama o cristão à santidade. Contudo, é certo que as provações podem ser tão fortes e intensas de gerarem nele desconcerto e desanimo, até pensar de ser esquecido e rejeitado por Deus mesmo. Daí, então, as palavras do correto entendimento e de encorajamento: “Meu filho, não desprezes a educação do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho”.
É para a vossa educação que sofreis, e é como filhos que Deus vos trata”. A palavra educar significa extrai desde dentro, do profundo da pessoa, o bom que está nela. Portanto, a finalidade da ação de Deus é totalmente positiva. É a maneira que deixa as pessoas perplexas ou até desconcertadas: uma ação corretiva que passa pelo sofrimento, pois, “nenhuma correção parece alegrar, mas causa dor”. Contudo, paradoxalmente, esta maneira atinge o fim educacional “Depois, porém, produz um fruto de paz e de justiça para aqueles que nela foram exercitados
A primeira vista é uma combinação esquisita amor e sofrimento, pois, comumente é o afeto, o sentimento, o cuidado, a atenção etc., que configuram a realidade do amor. Por um lado, repreender e castigar a quem se ama, sabendo o sofrimento que comporta simultaneamente ao corrigido e a quem castiga, supõe ter a certeza do correto fim educacional. Por outro lado, é vivenciar o relacionamento no necessário horizonte da gratuidade, visando única e exclusivamente o bem do amado, percebido ao mesmo tempo como o próprio bem. Dessa forma, amante e amado se unem no amor. Tudo isso é imagem da vida da Trindade, proposta e vivenciada diariamente no relacionamento humano.
O amor produz felicidade e alegria. Amar verdadeira e profundamente é a aspiração de todo ser humano. Pelos frutos se avalia a bondade da árvore. Pela felicidade e pela alegria se avalia a verdade do amor. Mas, cabe especificar que o contrário da felicidade não é o sofrimento, mas a tristeza, e o contrario da alegria não é a solidão, mas o vazio interior. Tristeza e vazio interior dominam o coração de quem não sustenta relacionamentos corretos com Deus e com as pessoas. Muitas vezes isso acontece involuntariamente ou sem perceber o erro. Daí, então, a necessidade da ação corretiva, mesmo que dolorosa.
A conclusão é obvia; “Portanto, firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés, para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado”. É o convite de aproveitar da correção que provem de quem nos ama para acertar os passos conforme o significado e o indicado pela ação corretiva. Isso exige muita humildade e determinação e, sobretudo, confiança em Deus e em si mesmo “para que não se extravie o que é manco”.
Extravio sempre possível, como indicado no evangelho.

Evangelho Lc 13,22-30

Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém” .Jesus caminhando rumo a Jerusalém sabia perfeitamente o desfecho da viagem. Surpreende a coragem e a determinação Dele em prosseguir o caminho, assim como o fato de estar ensinando. Sabendo o que O espera, ensinar o que? Como ter ânimo de ensinar algo pelo qual será rejeitado e morto? É uma situação muito difícil e complicada, do ponto de vista simplesmente humano.
Nesse pano de fundo eis o diálogo com um interlocutor anônimo: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?”. O trecho não diz o que fez surgir a pergunta. Mas com certeza, Jesus responde a partir do que ele mesmo está experimentando: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita”. É a porta estreita da entrega da própria vida pela causa da salvação; de se esquecer de si mesmo para manifestar o caminho certo para o bem das pessoas e da humanidade.
Sendo que esta missão, e suas atitudes conseqüentes, não são entendidas nem aceitas pelos destinatários, Jesus e seus seguidores se encontrarão num clima de aversão e de incompreensão, acompanhado pelo sentimento de solidão. Eis, então, a necessidade de fazer “todo esforço possível” para não desistir. Contudo, a salvação manifesta sua presença, eficácia e realização exatamente nessas condições e circunstâncias.
Jesus responde positivamente à pergunta do interlocutor: “Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” e alerta sobre o motivo pelo qual não terão acesso à entrada no Reino, apesar da insistência dos excluídos: “Senhor, abre-nos a porta”.
Jesus manifesta saber de antemão os motivos pelos quais estes pretendem serem admitidos: “Então começareis a dizer: Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!”. Argumentação muito consistente e apresentada com muita determinação e convicção, como quem sabe ter motivo para reclamar direitos a serem justamente atendidos. Com outras palavras, ter participando da comunhão de vida “comemos e bebemos diante de ti”- e ter apreendido os ensinamentos Dele, são motivos mais que suficientes para não ser rejeitados.
A resposta de Jesus é duríssima: “Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim vós que praticais a injustiça!”. Não é difícil imaginar o desconcerto e o abalo dos ouvintes, também por ter acrescentado: “quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no reino de deus, e vós, porém, sendo lançados fora”.
O motivo da condenação é não ter entendido que a comunhão e o ensino Dele estavam finalizados à prática da justiça, à luta contra a injustiça. É o que Jesus mesmo estava atualizando, pois, estava lutando para implantar um estilo de vida em sintonia com o resgate dos excluídos, dos marginalizados, em nome da fraternidade universal, como expressão da bondade e da misericórdia de Deus.
Mais ainda, Jesus estava para entregar a própria vida em Jerusalém, como conclusão dramática da luta extrema contra a injustiça que imperava na mentalidade religiosa deles, por ter idéias erradas da Aliança e do verdadeiro culto que Deus espera dos seus seguidores e do seu povo.
Entender o que Jesus está propondo e o significado da própria entrega na cruz, abre a porta a que “Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa do reino de Deus”. Os povos estrangeiros incluídos, e eles, o povo eleito, excluídos! É algo totalmente incompreensível à mentalidade dos ouvintes: um absurdo. Daí, então as últimas palavras do texto “E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”. Não diz que todos os primeiros serão últimos ou vice-versa. Mas os que se acham primeiros sem entrar no processo de conversão proposto pro Jesus estão se enganando. É uma alerta quanto mais necessária para as pessoas de todos os tempos.

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