1ª leitura Am 6,1ª-4-7
As escandalosas desigualdades humanas e sociais, em virtudes das quais os ricos vivem de uma maneira que ofende a dignidade e as urgentes necessidades de sobrevivência dos pobres, é fortemente condenada pelo profeta. Ele manifesta a indignação de Deus. Pois os ricos “vivem despreocupadamente (...) e se sentem seguros”, em contraposição aos indigentes que não tem de comer, para eles e para seus familiares, e vivem na precariedade e inseguridade maior.
É o que chamamos na atualidade de pecado de omissão. Omitem de se preocupar para com os pobres. Não lhe interessa o sofrimento, a infelicidade deles. Estão preocupados somente de si mesmos “dormem, em cama de marfim (...) cantam ao som das harpas (...) bebem o vinho em taças, e se perfumem com os mais finos ungüentos”. Com efeito, a riqueza fecha o coração, mata a sensibilidade humana, destrói os sentimentos de solidariedade, desmancha os laços de fraternidade. Os ricos vivem no mundo fechado sobre si mesmo, dominados, escravizados pelos próprios bens.
O profeta Amos ameaça o iminente castigo de Deus “Por isso, eles irão agora para o desterro, na primeira fila, e o bando dos gozadores será desfeito”. Efetivamente, do ponto de vista histórico, acontecerá a ocupação do território com as respectivas deportações num país estrangeiro. O profeta verá nisso o cumprimento da profecia. Uma grande desgraça caiu sobre eles, o desconcerto e o abalo foram totais.
Parece-me que esta experiência histórica seja paradigmática e indicativa da desgraça que atinge as pessoas envolvidas nas mesmas condições. Não se trata da repetição de acontecimentos históricos similares, mas de uma condição de “desterro”, de desfeito do “bando de gozadores”. Trata-se do desterro de si mesmo. Não se encontra consigo mesmo, se torna como estranho a si mesmo. Com outras palavras, perde sua verdadeira identidade. Deve viver de aparência. Frisava uma pessoa conhecedora desses ambientes: nos relacionamentos entre eles devem fingir de ser felizes.
Nesse sentido, “o bando de gozadores” não tem consistência em si mesmo. Às primeiras dificuldades, não tendo condição de manter as exigências da aparência, será desmanchado todo relacionamento. É o que todos sabemos. Quando tiver dinheiro, todos são amigos. No momento de dificuldade ninguém fica. É o desterro pessoal e social.
Contudo, a riqueza continua exercendo seu fascínio, e continuará seduzindo muitas pessoas.
Como não cair nas garras dela? A segunda leitura oferece umas indicações valiosas.
2ª leitura 1Tm 6,11-16
A riqueza é perversão, destrói a pessoa e o convívio social. Portanto, “Tu que és homem de Deus, foge das coisas perversas”. Sendo que ela tem uma forte componente de sedução é preciso se precaver. Como? “procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão”. Cada uma destas indicações tem um conteúdo importante e muito significativo. Quantos livros, matérias, etc., foram e serão escritos sobre cada uma delas!
Tomadas em conjunto oferecem um quadro articulando e orgânico da atitude cristã. Ponto de partida é se espelhar nas atitudes de Jesus.
Assim, “procurar a justiça” é investigar e elaborar a melhor resposta e atitude para resgatar quem está “no fundo do poço”. Para isso é preciso ter “piedade”, aquela atitude própria do pai que acolhe o filho arrependido que volta para casa. Isso supõe “fé” na capacidade regenerativa da justiça/ piedade. Tudo isso conforma a realidade do “amor” na qual a pessoa é mergulhada. Conseqüentemente, ela adquire aquela “firmeza” que se faz determinação para se afastar da sedução e continuar no caminho certo. A “mansidão” é o broche de ouro. Ela manifesta a integridade da pessoa bem articulada e orgânica, própria de quem assume sua verdadeira identidade e quer continuar no caminho. Daí, então, a atitude do manso, atitude de serenidade e de segurança que lhe permite o domínio de si mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Uma pessoa com estas características sustenta o “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e pela qual fizeste tua nobre profissão de fé”. Trata-se do combate para se manter e desenvolver ulteriormente o dom recebido no chamado, o dom da vocação assumida com plena consciência e responsabilidade. Para este dom é preciso lutar para que a vida eterna já nele se torne também uma conquista, no sentido de participação mais plena e envolvente no Mistério de Deus, na realidade do Amor.
Eis, então, a exortação, reflexo do que está no profundo do animo de são Paulo como indicação certa e valiosa do caminho dele: “guarda o teu mandato íntegro e sem mancha até a manifestação gloriosa do nosso senhor Jesus Cristo”. Guardar o mandato íntegro não é algo estático e repetitivo, como fosse uma simples informação sobre o evento da morte e ressurreição de Jesus, a predicação e a prática dele. É algo dinâmico e criativo, derivante de tudo isso, na pessoa que se deixa tocar pelo significado e pelos efeitos do evento, da predicação e da prática. Tudo isso capacita formular novas respostas, elaborar caminhos inéditos sempre em sintonia com a dinâmica da morte e ressurreição. Pois, a vida cristã não é repetitiva, é criativa; não repete mecanicamente o passado, mas antecipa criativamente o futuro.
Um futuro do qual não sabe o dia de sua plena manifestação “esta manifestação será feita no tempo oportuno pelo bendito e único Soberano”, mas constitui o ponto certo de referencia no presente, e de chegada no fim dos tempos e da historia. Será o momento da participação e comunhão plena com o Senhor “o único que possui a imortalidade e que habita numa luz inacessível, que nenhum homem viu, nem pode ver”.
A integridade e a certeza de fé de são Paulo desembocam no hino de louvor “A ele, honra e poder eterno. Amém” como expressão da vida entregue a Cristo do qual sempre recordará “que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Foi por causa da abertura do coração e da inteligência à Palavra que aconteceu a transformação radical dele. O evangelho retoma este aspecto.
Evangelho Lc 16, 19-31
A parábola descreve a situação eterna daquele que por amor à riqueza tornou-se cego para Deus e para o pobre. Há como uma barreira intransponível entre o rico e o pobre, personificado, este último, na pessoa de Lázaro. O rico não tem nome. É apresentado pela sua situação financeira, apesar de ter cinco irmãos. Tal vez, isso indique que a riqueza no horizonte de Deus despersonaliza o rico. Dessa forma, é apresentada a força interiormente destruidora da riqueza.
O que impressiona é o abismo que separa o rico do Lázaro não só nesta vida, mas também na outra. Para o rico significa uma condenação sem saída. A autodestruição pela riqueza parece um prejuízo irreparável.
Contudo, a parte mais significativa da parábola são os versículos finais. O rico pede “manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los...”. Abraão atende ao pedido, mas não da forma esperada pelo rico “Eles têm Moises e os profetas, que os escutem!”. “O rico insistiu: Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter”. O rico, manifesta sua fé na força transformadora e renovadora do gesto, do milagre surpreendente, como o voltar da região dos mortos. Com efeito, muitos, mesmo não ricos, pensam da mesma forma. Acham isso certo e se perguntam por que não atendeu ao pedido. Pois, perante do milagre tão extraordinário não há como não acreditar.
Isso significa ter a consciência da fé em Deus fundamentada no milagre, na ação do infinitamente poderoso que manifesta sua condição de Deus por atos como este. Estamos muito acostumados a pensar Deus dentro dessas categorias e dessa forma. Ao ponto que se não fomos atendidos em algum pedido de intervenção poderosa para resolver alguma dificuldade, entra no sentimento que nada adianta acreditar nele! Quantas pessoas se sentem defraudadas por não ser atendidas e acabam perdendo a confiança em Deus. Mas, qual Deus? O deus construído a imagem e semelhança das expectativas deles! Não o Deus que se manifestou na pessoa de Jesus nos eventos da Semana Santa, particularmente com a paixão e a morte na cruz do próprio Filho. Estamos aos opostos da expectativa deles.
A resposta é determinante “Se não escutam a Moises, nem os Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. A fé procede da escuta da Palavra e da prática conforme as indicações dos Profetas. Cabe lembrar que as duas instâncias - Moises e os Profetas- se sintetizam e se reúnem na pessoa de Jesus, como testemunha o evento da Transfiguração no monte Tabor, na qual Jesus conversa com Moises e Elias( que representa os Profetas), logo os dois somem e Jesus fica sozinho, descendo sobre ele o Espírito Santo e ouvindo a voz do Pai como sinal de aprovação dessa substituição. Portanto, é enganoso e ilusório fundamentar a fé no milagre, mesmo seja algo tão estrepitoso, como seria o atendimento ao pedido do rico.
Então, como entender a ressurreição de Jesus? Em que consiste acreditar nela? Com certeza, não acreditar no super milagre. Cairíamos no mesmo equivoco da parábola. A ressurreição de Jesus é indissoluvelmente ligado à sua entrega. É a outra face do amor. Com efeito, o Pai entrega o Filho por amor, o Filho aceita de ser entregue no amor. Assim, o Espírito Santo é o Amor mesmo que une os dois e ressuscita a pessoa humana de Jesus na realidade Trinitária do Amor. A ressurreição não é nenhum super milagre nos moldes comumente pensados. Se há um milagre, simplesmente é o milagre do Amor na sua realização mais completa.
Acreditar na ressurreição é acreditar na prática do Amor radical, como foi o de Jesus. “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). Como o Pai o amou, foi entregá-lo. Assim, permanecer no amor de Jesus é aceitar de ser entregue, em nome da autentica Liberdade e da verdade do Amor.
sábado, 25 de setembro de 2010
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Gigi, mais uma vez lhe agradeço e parabenizo pela reflexão. Reconheço a simplicidade profunda de suas palavras. Muito obrigado!! Continue nos ensinando a viver a Palavra. Estou com saudades de você e das nossas conversas. Um fraterno abraço. Tranqüillo.
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