segunda-feira, 4 de outubro de 2010

280 DOMINGO DO T.C.-C-(10-10-10)

1ª leitura 2Rs 5,14-17

Atingido pela lepra, Naamã, geral do exercito siro, vai para o país inimigo da Samaria, a conselho de sua escrava, para encontrar o profeta Eliseu. Mas, aí chegando, deveria humilhar-se; em lugar de ser submetido a um tratamento digno de sua posição, teria que simplesmente mergulhar sete vezes no rio Jordão. Ele se irritou muito e só o bom senso dos servidores conseguiu dobrar o orgulho dele. Eis, então, que “desceu e mergulhou (...) e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado”.
Notável a reação de Naamã pela pronta determinação de voltar na presença de Eliseu a quem tratou de maneira grosseira: “Voltou (...) para junto do homem de Deus (...) e disse: ‘Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda aterra, senão o que há em Israel!”. Evidentemente, um evento desta natureza abre a mente e o coração par uma nova percepção com respeito a Deus, a presença e a ação Dele no mundo e a favor da pessoa. Daí a entusiasta afirmação e determinação de Naamã. Esta expectativa e idéia de Deus fazem parte do patrimônio comum das pessoas. Deus é isso mesmo! E se fez a favor de Naamã, por que não fez para com os milhões de Naamãs de todo tempo e de todo lugar? Por que o prevalecer dos diferentes tipos de “lepra” que matam antes do tempo, que escravizam milhões de pessoas, que condenam à morte muitos inocentes etc.? Deus não “responde”. Só faz passar o seu próprio filho único pela mesma experiência. É resposta?
De toda maneira fica registrada uma determinação irrevocável “Pois teu servo já não oferecerá holocausto ou sacrifício a outros deuses, mas somente ao Senhor”. Que Naamã tenha-se mantido fiel a essa determinação não sabemos, mas que é a atitude certa não há dúvida alguma. Quantas vezes determinações assumidas em momentos de apuro, passado o perigo, a pessoa volta ao mesmo de antes. Isso significa que há ambigüidade nas conversões alicerçada s nos milagres. O certo é, como lembra o final da parábola de Lázaro do domingo passado, não confiar no milagre, até da ressurreição do morto “Se não escutam a Moises, nem os Profetas, eles não acreditarão” (Lc 15,31), mas interiorizar o ensinamento da Palavra e a prática correspondente.
Importante a recusa firme do presente por parte de Eliseu perante a insistência de Naamã “Pela vida de Senhor, a quem sirvo, nada aceitarei”. Ela é motivada “pela vida do Senhor”, ou seja, aceitar o presente seria testemunhar o Deus morto, sem vida. A vida de Deus é ligada à gratuidade, ao dom, sem esperar recompensa ou retorno nenhum. Mais ainda, Eliseu testemunhando estar ao serviço do Senhor “a quem sirvo” afirma que não seria mais serviço se aceitasse o dom, portanto desvirtuaria sua identidade profunda no relacionamento com Deus. O profeta é tal pela sintonia com a vivencia de Deus, quem pretende servir fielmente.
Esta sintonia é fundamental para toda pessoa que pretende manter o correto relacionamento, como indica a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 2,8-13

Lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho”. Estas primeiras palavras de Paulo marcam e qualificam sua profunda identidade com Jesus Cristo. Em primeiro lugar se refere a Jesus Cristo ressuscitado, ou seja, ao evento central da vida de Jesus, que constitui propriamente o conteúdo do evangelho pregado por ele. O evangelho, não é o escrito dos quatro textos que relatam a vida, morte e ressurreição de Jesus. É a boa noticia da morte e ressurreição de Jesus Cristo que se faz realidade, em termos de justificação perante de Deus Pai, em todos aqueles que pela fé aceitam os efeitos daquele evento.
Daí o “Lembra-te”. Não se trata simplesmente de recordar um fato do passado que fica no passado. Más de lembrar com a fé em virtude da qual se atualizam os efeitos daquele evento, para mim, hoje. É um lembrar transformador e renovador de quem se percebe constantemente justificado pelo amor da entrega do Filho celebrada nos sacramentos. É como mergulhar no Mistério do Amor de Deus e receber todos os benefícios.
Envolvido por esta realidade spiritual e participe conscientemente dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, Paulo expõe seu estado de animo e suas convicções profundas que oferecem um quadro muito significativo da personalidade dele. “Por ele estou sofrendo até as algemas, como se fosse um malfeitor”.
Só isso seria motivo de desanimo, de abatimento, de decepção, acompanhado da vontade de desistir. Mas, o olhar e o coração dele estão voltados não sobre si mesmo, mas, em outra direção “a palavra de Deus não está algemada. Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação”. Ele está desligado de si mesmo, do que está lhe acontecendo em termos de sofrimentos e tribulações, por ter interiorizado a Palavra e o desejo que ela seja conhecida, acolhida e amada pelos cristãos. Uma paixão invejável, que todo cristão consciente gostaria de ter, que conforma a personalidade de Paulo sintetizada em quatro breves expressões a continuação. “Merece fé esta palavra:”
- “se com ele morremos, com ele viveremos”. É a dinâmica do Mistério Pascal assumida como regra de vida dele, associa a pessoa de Cristo a ele, de maneira tal que o acontecer em Cristo acontece nele.
-“Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos”. Trata-se da firmeza nas provações, nas perseguições e nas dificuldades. Reinar é afirmação da verdade do agir de Cristo em contraposição a toda proposta contraria, mesmo que isso suponha bater de frente com obstáculos e rejeição.
-“Se nos o negamos, também ele nos negará”. É o exercício do livre arbítrio, ou seja, da faculdade de aceitar o recusar o que Cristo fez. Recusar significa perder o relacionamento, não se encontrar em comunhão e familiaridade com quem, dirá Paulo, “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Esta atitude carrega conseqüências muito dramáticas, do ponto de vista da salvação.
-“Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo”. Em contraposição à lógica das afirmações anteriores, à infidelidade dos homens Cristo responde com a fidelidade. E isso para não desmanchar a própria identidade. É extremamente importante esta afirmação: a fidelidade faz parte da essência de Deus, de Cristo, mesmo. Ele é fundamentalmente fidelidade. Portanto, é a fidelidade do discípulo à causa de Deus, à missão e pessoa de Cristo, às exigências do evangelho, que criará as condições para experimentar Deus nesta vida. Fidelidade que será provada de muitas maneiras e em diferentes circunstâncias e se tornará mais firme e forte cada vez que sairá vitoriosa da luta.
Cultivar o correto relacionamento com Cristo é fundamental, evitando a atitude errada que o evangelho aponta.

Evangelho Lc 17,11-19

Jesus está “caminhando para Jerusalém”. Tem um rumo e uma meta que o levará aos acontecimentos de sua morte e ressurreição, e com isso ao cumprimento da missão Dele. Este aspecto é muito importante, pois, constitui o marco da ação e das palavras de quem já determinou entregar sua vida para o bem da humanidade. Ele já é um homem marcado para morrer e conscientemente caminha para esta meta. O que o sustenta é a promessa que, aconteça o que acontecer, o Pai a cumprirá. Continuar caminhando rumo a Jerusalém é um contínuo exercício de fé, até chegar a ser o perfeito cumpridor como indica a carta aos Hebreus 12,2. É um estilo de vida que ele assume cara por um lado à promessa e pelo outro à evidente impossibilidade humana que essa se cumpra.
Parece-me que é esta originária experiência de fé de Jesus que sustenta e motiva o atuar após a súplica dos leprosos “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós”. Jesus responde: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”, ou seja, indica a eles o rumo e a meta que eles prontamente acolhem e se põem no caminho.
De fato, “Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados”. O que Jesus pede não é fé na pessoa ou no poder milagroso dele, mas que eles tenham fé nas indicações da Lei de Moises, que estabelecia para todo leproso sarado que se apresentasse aos sacerdotes para estes, conferida a cura, o reintegrasse na sociedade da qual foi excluído. Jesus foi o “estimulador” da fé.
Assim se entende a resposta de Jesus ao único dos dez que voltou “Tua fé te salvou”. E essa fé de você, que você encontrou em si mesmo, pela mediação da pessoa e da palavra de Jesus, a origem do que aconteceu na tua pessoa, em termos de cura. Ela é antecipação e preparação à fé que deverá exercer futuramente quando ele indicar o caminho e a meta com a morte e ressurreição Dele.
O poder de Jesus não é o de um taumaturgo que intervém desde o exterior com forças sobrenaturais. É o poder que toca no interior, no profundo do ser humano e o capacita a ter fé na promessa. Assim que seguindo o rumo e a meta, da dinâmica da morte e ressurreição de Jesus, experimentará a nova vida. A salvação está no caminho, no seguir atrás Dele e com Ele, não nos poderes milagrosos e sobrenaturais que Ele, de vez em quando, manifesta. Essa manifestação é como um toque para garantir que Ele não mente, não engana e tem autoridade . Podem segui-lo com confiança.
E disse-lhe: Levanta-te e vai!”, ou seja, coloca- te de pé, pela tua nova dignidade, assumindo tua nova realidade e continua caminhando com a mesma fé, tendo como rumo e meta a vivencia da glória de Deus que você percebeu no evento que aconteceu ma tua pessoa.
O fato que Jesus perguntou: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?”, pare-me que não responde simplesmente à manifestação da ingratidão humana, mas a tristeza de não ter condição de oferecer a eles a chave interpretativa correta do que experimentaram. É muito possível que pensando em Jesus o acreditam com um milagreiro, que não é exatamente aquilo que Jesus queria passar.
Nota polemica do texto é ter frisado que quem voltou “E este era um samaritano”, diríamos hoje, um escomunicado, um herege. Que o modelo de quem glorifica corretamente a Deus, do verdadeiro seguidor, fosse um samaritano, foi o máximo da provocação. Provocação que não tem fim em si mesmo, mas pretende acordar os ouvintes para um novo caminho, para uma nova vida, purificada dos diferentes tipos de lepra que ameaçam a qualidade da existência no dia- a- dia.

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