segunda-feira, 25 de outubro de 2010

31o DOMINGO DO T.C.-C-(31-10-10)

1ª leitura Sb 11,22-12,2

O trecho é uma profunda meditação sobre a compaixão, a misericórdia, a bondade, a ternura e o perdão de Deus que dá fundamento ao otimismo dos homens, para que se arrependam. Pelo autor, perante da glória e da imensidade de Deus, o mundo inteiro é pouco mais do que nada, algo extremamente frágil e insignificante “é como um grão de areia na balança, uma gota de orvalho da manhã que cai sobre a terra”. Não merece atenção nenhuma tão é inconsistente e vulnerável a realidade dele. O autor relata a percepção que todos temos do nosso limite quando a realidade humana é confrontada com a de Deus.
Contudo, surpreende a atitude de Deus, sobretudo a motivação “Entretanto, de todos tens compaixão, porque tudo poder”. Deus exerce seu imenso poder em virtude de sua imensa compaixão, como expressão do seu infinito amor. O poder que exerce não vai à expectativa dos milagres, dos gestos deslumbrantes, mas da compaixão que, por um lado, fechando “os olhos aos pecados dos homens” resgata o que na consideração humana tem um valor ínfimo para Deus e, pelo outro, valoriza o que objetivamente tem seu limite “não desprezas nada do que fizeste”.
Parece-me muito importante, outra vez, a motivação e as duas perguntam que a acompanha “porque, se odiasses alguma coisa não a terias criado (...) como poderia alguma coisa existir, se não a tivesses querido? Ou como poderia ser mantida, se por ti não fosse chamada?”. Assim, amor e ato criador caminham juntos.
Portanto a criação é da categoria da relação, mas do que um momento pontual no qual as coisas que não existiam agora existem e ponto. Por sua vontade amorosa Deus as chama à existência as pessoas e todas as coisas e, pelo mesmo amor, são recriadas constantemente. O ato criador é dinâmico de maneira tal que a realidade criada é recriada e cresce pelo amor e no amor, ou ela se autodestrói por si mesma. Nesse sentido, a criatura é constantemente envolvida e responsabilizada na ação criadora de Deus, que é ao mesmo tempo ação salvadora. Mas tudo isso acontece se a pessoa escolhe livre e conscientemente de colaborar com Deus, pois, é a exigência mesma do amor criativo.
A seiva de tudo este processo é o Espírito “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas!”. Esta presença é muito esquecida e foge de nossa consideração e apreciação. É um defeito difícil de corrigir, pelo costume de nos referimos quase exclusivamente a Cristo, na paternidade do Pai. Contudo, nas pessoas, criadas pelo sopro divino, o Espírito desenvolve uma missão específica: “corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes seus pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti,Senhor”. Ele é Deus em nós, realidade pouco valorizada, com grande prejuízo, a causa de nossos pecados e por delegar esta presença nas autoridades eclesiais constituídas, ou a pessoas tidas como particularmente santas.
É por meio do Espírito que “A todos tu tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida”. Belíssima esta expressão. Quem não ama a vida? Quem não deseja a plenitude e a realização dela? Pois bem, temos um amigo que nos pede confiar e se deixar acompanhar por ele. É o que são Paulo indica na segunda leitura.

2da leitura 2Ts 1,11-2,2

São Paulo intercede a Deus na oração sem cessar a favor dos cristãos da comunidade “para que o nosso Deus vos faça dignos de sua vocação”. Tornar-se digno da vocação, do chamado, supõe entrar na dinâmica que comentei na primeira leitura. Com efeito, o poder de Deus é re-criativo, pela sua dinâmica consegue realizar na pessoa e na comunidade “o bem que desejais e torna ativa a vossa fé”. O coração do apóstolo está voltado para essa finalidade, é mesmo o coração de Deus que late nele. Parece-me particularmente incisiva esta verdade, que configura a verdadeira identidade da pessoa que segue a Cristo. Ela deve ter elaborado no seu mundo interior uma convicção e uma intimidade tão profunda com Cristo em virtude da qual vive com os mesmos sentimentos e atitudes Dele.
Neste horizonte podemos encaixar a finalidade pela qual Paulo intercede “Assim o nome de nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós, e vós nele”: a glorificação mutua de Cristo e dos cristãos. A glorificação consiste na manifestação da santidade de Deus na pessoa, no sentido, para usar uma frase de Jesus, que eles -os cristãos- estão no mundo, mas não são do mundo. Manifestam com palavras e atitudes coerentes de pertencer plenamente a Deus pela adesão à Cristo “em virtude da graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo”, cabe acrescentar: no Espírito Santo. A graça, o dom de Deus, é o Espírito. No final da primeira leitura já toquei a ação e a missão dele.
Vivenciar tudo isso de coração sincero e envolvendo a totalidade do ser tem uma dimensão escatológica, porque já é viver no presente a realidade futura. Estabelece-se, portanto, um relacionamento direto entre presente e futuro, em virtude do qual este último se torna como o imã que atrai a quem está sinceramente sintonizado com o mistério de Deus que está e se manifestou pessoa de Cristo.
Portanto, o apostolo liga presente e futuro dessa forma “No que se refere à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e a nossa união com ele”. A vinda Dele não está desligada à união dos cristãos com ele. Pelo contrário é uma união que será levada à sua plenitude quando Deus Pai será tudo em todos como frisa o apostolo na 1ª carta aos Coríntios.
O que Paulo alerta é o quando isso vai acontecer “não deixeis tão facilmente transtornar a vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação, ou carta atribuída a nós. Afirmando que o Dia do senhor está próximo”. É preciso esperar confiadamente, porque ninguém sabe o dia e a hora da última e definitiva intervenção de Deus sobre a humanidade de todos os tempos, sobre a criação e o universo. Tudo isso fica no mistério de Deus, não dá para ter acesso a este conhecimento. Deve-se continuar exercendo a fé ma promessa e a esperança encharcadas pelo amor já experimentado pela ação de Jesus na sua pregação, no seu testemunho e particularmente no evento da Páscoa.
Amor de Jesus que atinge a rodos, sobretudo, os pecadores como aponta o Evangelho.

Evangelho Lc 19,1-10

Eis a figura de Zaqueu “chefe dos cobradores de impostos e muito rico”. Um pecador público, um ladrão apoiado pela lei. Os cobradores chefes dividiam o serviço a outras pessoas, estabelecendo quanto dinheiro estes últimos devia entregar. Se conseguirem mais, ficava com eles. Não é difícil imaginar o que isso significa em termos de exploração de carga sobre os ombros do povo. E tudo isso a serviço dos odiados estrangeiros romanos que dominavam o território. Portanto, Zaqueu era tido como pecador pela exploração e colaborador da potencia invasora. Religiosa e socialmente era o pior dos piores.
Contudo, ele sentia uma inquietude interior, algo que o deixava incomodado, tal vez simplesmente curioso, ao ponto que “ procurava ver quem era Jesus” de todas maneira até o ponto que individuado por onde devia passar Jesus “subiu uma figueira” para vê-lo. Tal vez, tendo ouvido o posicionamento de Jesus para com os ricos com respeito à impossibilidade dele de entrar no reino de Deus, não esperava o pedido de Jesus: “Desce depressa! Hoje devo ficar na tua casa”.
Todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” Não era para menos, aos olhos deles significava comunhão de vida. O desconcerto era total. Como podia ser? Iam para baixo todas as pretensões messiânicas de Jesus. Os pecadores como Zaqueu não tinha possibilidade real de redenção. Na concepção de então para conseguir a redenção devia devolver o defraudado mais o 25%. Saber a quem e quanto havia roubado era praticamente impossível. Daí que para ele(s) não há salvação possível.
Zaqueu “desceu de pressa, e recebeu Jesus com alegria (...) ficou de pé, e disse ao Senhor: Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais (Mas, a Lei exigia um quarto... será um erro de redação? Tal vez.)”. O fato de receber Jesus com alegria manifesta a sintonia com a pessoa, as atitudes e as palavras de Dele e como suas expectativas foram muito além do esperado. O que suscitou nele tudo isso não é dito, só é registrado que o mundo interior dele foi mexido de tal maneira de determinar a devolução com acréscimo do defraudado.
Normalmente para pessoas entregues ao dinheiro e à riqueza, deixar este mundo de poder e de segurança não é fácil. Jesus mesmo apontará como é difícil para um rico entrar no reino de Deus. Será que em Zaqueu, apesar de tudo, se manteve um espaço de sensibilidade, uma brecha no interior dele? Será que prevaleceu a força de persuasão da palavra e de personalidade de Jesus, sobre uma estrutura interior sem esperança? Tal vez as duas coisas?
De toda a maneira o sujeito principal não é Zaqueu, mas Jesus e a atitude dele para com os já condenados, no entendimento geral do povo. La resposta justificativa de Jesus: “Hoje a salvação entrou nesta casa” frisa o evento da salvação disponível aqui e agora para todos indistintamente, como expressão da chegada do reino de Deus no meio deles. Este “hoje” lembra o de Cafarnaum, no começo da pregação dele (Lc 4,21). E acrescenta “porque também este homem é um filho de Abraão”, ou seja, pertence ao povo eleito, ao povo de Deus, cujo destino é a salvação. Portanto, está em sintonia com a vocação de todo filho de Abraão.
A conclusão “Com efeito, o Filho do homem veio para procurar e salvar o que estava perdido”, indica a finalidade é ultima e o sentido profundo da missão dele em sintonia com as características do agir de Deus para com a humanidade e a pessoa da primeira leitura. É o amor misericordioso que se faz presente em toda circunstância a favor de todo ser humano.

domingo, 17 de outubro de 2010

30o DOMINGO DO T.C.-C-(24-10-10)

1ª leitura Eclo 35,15b-17. 20-22ª

O Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas (...) não é parcial em prejuízo do pobre”, (...). O texto frisando as atitudes de Deus se contrapõe à prática comum no ambiente social. A injustiça, a discriminação, a exploração dominam o tecido social e a prática individual, com conseqüências das mágoas e dos sofrimentos que o relato deixa entender.
Ao pobre, ao oprimido, à viúva, ou seja, às pessoas mais vulneráveis, sem defesa contra todo tipo de exploração, não há alternativa do que dirigir suas súplicas e desabafar suas mágoas a Deus. Deus garante que “escuta (...) e jamais despreza a súplica” deles. Mais, ainda promete que “A prece do humilde atravessa as nuvens: enquanto não chegar não terá repouso; e não descansará até o Altíssimo intervenha”.
Cabe perguntar: quem é este “humilde”? Não é simplesmente aquele que ocupa os degraus mais baixos da escala social. Com certeza ele faz parte dos humildes do ponto de vista social, pois, está no chão e não tem como se erguer e ocupar os degraus mais altos. O humilde da bíblia é aquele que, juntamente a sua condição social, coloca sua plena confiança no Senhor, no sentido de que cultiva o correto temor de Deus.
O temor de Deus, não é o medo, o constrangimento, a insegurança, do inferior para com o superior, mas a atitude de atenção, de respeito, de preocupação de manter e cultivar corretamente o relacionamento com Deus. Ele lida com o sincero amor de quem não quer desagradar à pessoa amada, bem sendo conhecedor dos próprios limites e das próprias fraquezas. Nesse sentido a humildade é a virtude maior que abre a comunicação e a comunhão com Deus.
A humildade é a condição para que Deus “faça justiça aos justos e execute o julgamento”. Assim a justiça de Deus se percebe e se faz presente pela humildade. O humilde percebe o executar da justiça de Deus. De fato a humildade é uma maneira de servir a Deus “Quem serve a Deus como ele quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até às nuvens”.
Portanto, quem serve a Deus, pratica Deus, ou seja, assume a mesma maneira de pensar e de agir, vê a realidade com os mesmos olhos Dele. Isso significa assumir as atitudes que são de Deus para com os pobres, os oprimidos e as viúvas. Quem pratica a justiça, não faz diferenças ou discriminação de pessoas etc., implanta os tópicos da Aliança do Sinai e construi a sociedade sonhada por Deus.
Também hoje a realidade está muito longe do que Deus espera. É evidente para todos como as injustiças de acima fazem parte da realidade do dia- a- dia em todos os níveis e em todos os lugares. Portanto, estas indicações ficam como uma luz, um farol que iluminam o caminho de Deus no mundo e na sociedade. Elas mexem com os sentimentos e o coração dos verdadeiros humildes de hoje, que não desistem de sonhar e lutar para a causa de Deus.
São Paulo é uma figura eminente nesse sentido, como testemunha a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18

Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele exprime os sentimentos dele diante a morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde atualmente há a Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do evangelho e constituição das comunidades cristã. Em fim, um combate que deu resultado para ele e para a difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É o próprio da consciência de quem fez tudo o que era nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção, sustentada pela experiência, de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente e, por certos aspectos, inalcançável nesta terra. Contudo, é ela que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho em virtude dos quais manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente, pelo qual encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua -do Senhor- manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, tal vez, lhe era impossível perceber anteriormente e precisamente de que “o Senhor esteve o meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi poça coisa, foi pela graça e presença do Senhor, foi causa de libertação “da boca do leão”. Precisamente o leão que motiva fugir do combate, parar ou desistir da corrida, desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o leão que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos “comprometidos”, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, desmotivado os de todo sério compromisso com o Senhor.
Em fim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero e humildade à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor, nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
A experiência pessoal de Paulo, seu passado de perseguidor redimido deve ter sintonizado muito com o cobrador de impostos do evangelho.

Evangelho Lc 18,9-14

Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros”. Jesus se dirige a uma categoria de pessoas bem definidas em ordem à justificação. Chama à atenção a singular união que fazem os destinatários da parábola de justiça e desprezo. Cabe uma pergunta: em virtude de que, o que sustenta esta singular união? O desprezo da pessoa não é simplesmente lhe atribuir pouco valor, pela carência de qualidades e virtude que motivam consideração e estimação. É a pessoa que não merece atenção nem aproximação alguma. É excluída do relacionamento individual e do convívio social. É condenada ao isolamento.
Portanto, a atitude de desprezo declina três aspectos:
• O desprezo do valor e finalidade da Lei. Corretamente vivenciada ela leva a bem outra atitude. Só pensar nas palavras do profeta Oséias “quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de deus, mais do que holocaustos” (Os 6,6). É a atitude da misericórdia, da vontade de reintegrar na comunhão, no respeito da lei, os fracos e afastados dela.
• O desprezo de si mesmo como sujeito capaz de assumir e testemunhar a atitude de Deus para com o pecador, capaz de carregar os limites e as fraquezas do mesmo e resgatá-lo para nova vida, cumprindo a finalidade da Lei.
• O desprezo da comunidade reduzida, dessa forma, a um grupo de executores rigorosos das normas e exigências da Lei auto-justificativas. Em virtude disso, se acham legitimados em se apresentar perante de Deus com as palavras e as atitudes do fariseu.
O engano deles está em assumir a Lei no horizonte do mérito, como se Deus tivesse que retribuir proporcionalmente ao fiel cumprimento das normas e das exigências dela. (Entre parêntesis muitos católicos têm o mesmo entendimento!). Portanto, a justificação perante de Deus Pai depende simplesmente da conduta deles.
Não percebem- e será o que Jesus implantará com sua pregação e, sobretudo, com sua morte e ressurreição- que a justificação é essencialmente um dom de Deus, o aspecto gratuito do Amor dele, frente à incapacidade do ser humano de vivenciar a Lei dentro da vontade e da expectativa de Deus. Libertando-os da escravidão do Egito (do mal e do pecado!) foram constituídos como novo povo de Deus, como povo eleito, como novas criaturas e, portanto, capacitadas de vivenciar a justiça a misericórdia, cuja manifestação e comprovação seriam os tópicos e as exigências da Lei. Em fim, inverteram a ordem, colocaram o carro perante os bois.
Daí a conclusão: o fariseu voltou para casa não justificado. Não porque Deus quis de alguma maneira puni-lo, mas simplesmente porque o fariseu estava bem longe de pensar que precisava dela, contrariamente ao cobrador de impostos.
Portanto tudo converge nos critérios da verdadeira e falsa justificação. É uma alerta muito importante para o nosso dia -a- dia.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

29o DOMINGO DO T.C.-C-(17-10-10)

1ª leitura Ex 17,8-13

Escolhe alguns homens e vai combater contra os amalecitas. Amanhã estarei, de pé, no alto da colina. Com a vara de Deus na mão”. Após a libertação do mal e da escravidão do Egito, e no caminho à terra prometida, há lutas que devem ser enfrentadas. Não é possível para o povo eleito evitá-las ou contorná-las. Fugir ou voltar atrás seria renegar a ação libertadora do Senhor, desconfiar da sua presença na caminhada do dia-a-dia e não acreditar ma promessa de entrar na terra prometida, ponto final do plano de Deus a favor da libertação definitiva do povo eleito.
Não é difícil fazer o paralelismo com a nossa condição de cristãos. Libertados do poder do mal no batismo e no caminho para fazer acontecer o Reino de Deus no dia- a- dia, como antecipação do Reino definitivo que será implantado com a vinda do ressuscitado no fim dos tempos, encontramos inúmeros “amalecitas” no nosso mundo interior, na comunidade e na sociedade que atrapalham e pretendem travar o caminho.
É preciso determinação, ir à luta! “Josué fez o que Moises lhe tinha mandado e combateu os amalecitas”. O combate faz parte da vivencia da libertação do mal, necessário para se manter nela e desenvolver ulteriormente a graça, o dom, da condição oferecida por ela. Não é só se defender, mas oportunidade para crescer.
Há um segundo aspecto: a importância da oração intercessora. A luta deve ser acompanhada e sustentada pedindo continuamente auxílio a Deus na oração. “Moises, Aarão e Ur subiram ao topo da colina”. O monte, a colina, é o lugar do encontro com Deus, o espaço onde se cultiva a familiaridade com Ele. O monte, o espaço, vai além da conotação geográfica, pois, é o coração de cada pessoa.
E, enquanto Moises conversava a mão levantada, Israel vencia; quando abaixava a mão, vencia Amalec”. O sucesso da batalha depende da oração insistente e perseverante. A oração é o elo de comunhão entre Deus e seu povo. Pela oração Deus é reconhecido e invocado como Senhor que caminha com o seu povo, que o acompanha quando este cumpre a vontade dele, que é reconhecido como guia para valer.
Assim, a causa de Deus e a causa do povo são uma mesma realidade. Então, há um relacionamento simbiôntico entra Deus e seu povo em virtude do qual os dois, Deus e o povo, crescem na qualidade de vida. A oração é como a manifestação do casamento ente os dois, em virtude da qual se tornam uma realidade só no respeito das diferenças específicas.
A falta de oração é tida como afastamento, separação, ou pior a ruptura, causa de prejuízo para os dois. Não só para o povo enquanto experimenta o prevalecer do inimigo, mas também para Deus que vê seu povo eleito derrotado e humilhado. Como o pai, o Senhor, fica atingido quando o filho sofrer circunstâncias lastimáveis.
Eis, então, a firmeza, a insistência e a perseverança nela além de todo limite humano, com a ajuda de todos os meios humanos a disposição, no momento em que a prática da oração se torna particularmente pesada “Ora as mãos de Moises tornaram-se pesada. Pegaram uma pedra (...) um de cada lado sustentavam a mão de Moises”. É importante ter ciência que, no cultivo da intimidade e familiaridade com Deus, a ajuda d outros é decisiva. Só ter a humildade de se deixar ajudar.
A consciência a as atitudes convenientes são o fruto amadurecido do que são Paulo exorta na segunda leitura.

2ª leitura 2Tm 3,14-4,2

O texto é uma exortação de todo coração, com o ímpeto e a convicção de quem sabe o que está falando e a importância para a evangelização e a pessoa envolvida e identificada nisso. Em primeiro lugar recomenda “Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste”. A vida não pode ser alicerçada senão na verdade. Paulo convida Timóteo, também, a considerar de quem apreendeu a verdade, pois, de jeito nenhum pode ser olvidado, colocado de lado, ou desconsiderado. Há pontos firmes irremovíveis e irrenunciáveis que conformam a verdade.
Um dele é a Sagrada Escritura “Desde a infância conheces a as Sagradas Escrituras”. Evidentemente, se refere ao Antigo Testamento, pois, o Novo ainda não existia. (Existia a vivencia das comunidades e textos soltos e espalhados, não a redação que conhecemos dos 27 livros do N.T.). Cabe especificar que o termo “conhecer” não se refere simplesmente ao aspecto intelectual, mas ao experiencial conjuntamente. Conhecer é uma atividade da inteligência que puxa para a experiência, e, no entanto, é uma experiência que ilumina a inteligência. Nesse sentido se percebe a força da indicação: “elas (as Escrituras) têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus”. A salvação é uma experiência.
Toda a Escritura é inspirada por Deus”. Parece-me oportuno especificar a inspiração da Escritura em ordem à salvação. Com outras palavras, ela indica caminho e meios de salvação em um determinado contexto geográfico, histórico, cultural e social. Não pretende ser um texto de história, de geografia, de ciências humanas, nem considerar inspirados todas as referencias necessárias a estes aspectos. Todos sabem que, em virtude disso, não podemos tomar os textos bíblicos ao pé da letra. Precisa-se de inteligência iluminada da experiência da “salvação pela fé em Cristo”.
Nesse pano de fundo, então, a Escritura é “útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra”. Educar na justiça de Deus que o discípulo experimentou em si mesmo, pela fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. Efeitos que se manifestam nas atitudes pessoais de perfeição e na qualidade do serviço.
Eis, então, a firme exortação: “eu te peço com insistência: proclama a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina”. Proclama a Palavra! É o anúncio público e solene tão importante e decisivo pela pessoa e pela humanidade que, mesmo oportuna o inoportunamente, não pode ser adiado. No entanto exige séria preparação bem fundamentada com argumentações sólidas e capacidade de entender a situação, para oferecer orientações apropriadas. Paulo, conscientes das dificuldades de compreensão e de aceitação por parte dos ouvintes acrescenta “com toda paciência e doutrina”. Evangelizar eficazmente é o produto acabado de ciencias e atitudes que tem como eixo uma fé sólida da qual o evangelho mostra as características.

Evangelho Lc 18,1-8

A finalidade do relato é mostrar “a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir”. Sempre e não desistir, duas indicações de grande importância porque na prática da oração, devido às dificuldades de vario tipo, nem sempre a pessoa é constante e fiel como deveria de ser, e, mais ainda, muitos desistem dela por não ter o retorno esperado.
Na parábola é apresentado um sujeito- o juiz- decididamente centrado sobre si mesmo, auto-referencial, ao qual a viúva se dirige com insistência “Faze-me justiça contra o meu adversário!” até aborrecê-lo e conseguir o que pedia. A viúva não tem nenhum peso social, era entre as categorias de pessoas mais expostas à exploração e ao abandono, um sujeito socialmente insignificante. Contudo, a insistência dela consegue o que espera de quem nada espera dela, nem se sente em obrigação a atender, se não for pela insistência agressiva “Vou fazer-lhe justiça, para que não venha a agredir-me”.
O ensino é evidente e Jesus mesmo o explicita “Escutai o que diz este juiz injusto. E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa”. Deus não é surdo, não é indiferente nem ausente. Pelo contrário, manifesta pronta atenção e cuidado primoroso. Em virtude disso, a pessoa pode confiar que os seus pedidos serão atendidos.
Surpreende a conclusão: “Mas o Filho do homem- Jesus Cristo ressuscitado- , quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?”. A duvida de Jesus faz pensar que o desanimo e a desconfiança das pessoas prevalecerão. Jesus sabe de antemão que os homens insistem em pedidos que não tem a ver com a vontade de Deus, com a ação do Espírito Santo para o melhor desenvolvimento da missão evangelizadora. Sabe que os pedidos são, pelo menos na grande maioria egocêntrico, senão egoístas, voltados para resolver apertos imediatos próprios ou de amigos e parentes, sem nenhuma projeção além deste restrito círculo.
Se ele não atende aos pedidos não é por ma vontade ou por desinteresse, mas eles fogem do verdadeiro bem de Deus por nós, ou seja, a aquisição de uma mentalidade, de uma filosofia, de um estilo de vida, em sintonia com a plena realização humana e espiritual que, necessariamente, abrange pessoas e circunstâncias além do próprio circulo. Portanto, ou pedido é errado, no sentido que está fora do horizonte da vontade de Deus, ou é incompleto, ou seja, carente de algo essencial, razão pelo qual não pode ser atendido.
Nesta ótica, o não atendimento, é convite a reavivar a confiança em Deus em nome da fidelidade Dele ao pacto de amor e da Aliança para com cada pessoa e a humanidade, assim como perceber as alternativas possíveis ao pedido tendo que mudar, tal vez, o conteúdo do mesmo.
Jesus sabe que não é simples se manter nesta perspectiva, precisa-se de amor-confiança a toda prova, algo tão inabalável como foram as atitudes dos grandes homens e mulheres da Bíblia. Daí que o toque final do evangelho soa como uma alerta, de se dispor a lutar a própria conversão em si mesmo e contra si mesmo e manter a plena e completa confiança em Cristo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

280 DOMINGO DO T.C.-C-(10-10-10)

1ª leitura 2Rs 5,14-17

Atingido pela lepra, Naamã, geral do exercito siro, vai para o país inimigo da Samaria, a conselho de sua escrava, para encontrar o profeta Eliseu. Mas, aí chegando, deveria humilhar-se; em lugar de ser submetido a um tratamento digno de sua posição, teria que simplesmente mergulhar sete vezes no rio Jordão. Ele se irritou muito e só o bom senso dos servidores conseguiu dobrar o orgulho dele. Eis, então, que “desceu e mergulhou (...) e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado”.
Notável a reação de Naamã pela pronta determinação de voltar na presença de Eliseu a quem tratou de maneira grosseira: “Voltou (...) para junto do homem de Deus (...) e disse: ‘Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda aterra, senão o que há em Israel!”. Evidentemente, um evento desta natureza abre a mente e o coração par uma nova percepção com respeito a Deus, a presença e a ação Dele no mundo e a favor da pessoa. Daí a entusiasta afirmação e determinação de Naamã. Esta expectativa e idéia de Deus fazem parte do patrimônio comum das pessoas. Deus é isso mesmo! E se fez a favor de Naamã, por que não fez para com os milhões de Naamãs de todo tempo e de todo lugar? Por que o prevalecer dos diferentes tipos de “lepra” que matam antes do tempo, que escravizam milhões de pessoas, que condenam à morte muitos inocentes etc.? Deus não “responde”. Só faz passar o seu próprio filho único pela mesma experiência. É resposta?
De toda maneira fica registrada uma determinação irrevocável “Pois teu servo já não oferecerá holocausto ou sacrifício a outros deuses, mas somente ao Senhor”. Que Naamã tenha-se mantido fiel a essa determinação não sabemos, mas que é a atitude certa não há dúvida alguma. Quantas vezes determinações assumidas em momentos de apuro, passado o perigo, a pessoa volta ao mesmo de antes. Isso significa que há ambigüidade nas conversões alicerçada s nos milagres. O certo é, como lembra o final da parábola de Lázaro do domingo passado, não confiar no milagre, até da ressurreição do morto “Se não escutam a Moises, nem os Profetas, eles não acreditarão” (Lc 15,31), mas interiorizar o ensinamento da Palavra e a prática correspondente.
Importante a recusa firme do presente por parte de Eliseu perante a insistência de Naamã “Pela vida de Senhor, a quem sirvo, nada aceitarei”. Ela é motivada “pela vida do Senhor”, ou seja, aceitar o presente seria testemunhar o Deus morto, sem vida. A vida de Deus é ligada à gratuidade, ao dom, sem esperar recompensa ou retorno nenhum. Mais ainda, Eliseu testemunhando estar ao serviço do Senhor “a quem sirvo” afirma que não seria mais serviço se aceitasse o dom, portanto desvirtuaria sua identidade profunda no relacionamento com Deus. O profeta é tal pela sintonia com a vivencia de Deus, quem pretende servir fielmente.
Esta sintonia é fundamental para toda pessoa que pretende manter o correto relacionamento, como indica a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 2,8-13

Lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho”. Estas primeiras palavras de Paulo marcam e qualificam sua profunda identidade com Jesus Cristo. Em primeiro lugar se refere a Jesus Cristo ressuscitado, ou seja, ao evento central da vida de Jesus, que constitui propriamente o conteúdo do evangelho pregado por ele. O evangelho, não é o escrito dos quatro textos que relatam a vida, morte e ressurreição de Jesus. É a boa noticia da morte e ressurreição de Jesus Cristo que se faz realidade, em termos de justificação perante de Deus Pai, em todos aqueles que pela fé aceitam os efeitos daquele evento.
Daí o “Lembra-te”. Não se trata simplesmente de recordar um fato do passado que fica no passado. Más de lembrar com a fé em virtude da qual se atualizam os efeitos daquele evento, para mim, hoje. É um lembrar transformador e renovador de quem se percebe constantemente justificado pelo amor da entrega do Filho celebrada nos sacramentos. É como mergulhar no Mistério do Amor de Deus e receber todos os benefícios.
Envolvido por esta realidade spiritual e participe conscientemente dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, Paulo expõe seu estado de animo e suas convicções profundas que oferecem um quadro muito significativo da personalidade dele. “Por ele estou sofrendo até as algemas, como se fosse um malfeitor”.
Só isso seria motivo de desanimo, de abatimento, de decepção, acompanhado da vontade de desistir. Mas, o olhar e o coração dele estão voltados não sobre si mesmo, mas, em outra direção “a palavra de Deus não está algemada. Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação”. Ele está desligado de si mesmo, do que está lhe acontecendo em termos de sofrimentos e tribulações, por ter interiorizado a Palavra e o desejo que ela seja conhecida, acolhida e amada pelos cristãos. Uma paixão invejável, que todo cristão consciente gostaria de ter, que conforma a personalidade de Paulo sintetizada em quatro breves expressões a continuação. “Merece fé esta palavra:”
- “se com ele morremos, com ele viveremos”. É a dinâmica do Mistério Pascal assumida como regra de vida dele, associa a pessoa de Cristo a ele, de maneira tal que o acontecer em Cristo acontece nele.
-“Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos”. Trata-se da firmeza nas provações, nas perseguições e nas dificuldades. Reinar é afirmação da verdade do agir de Cristo em contraposição a toda proposta contraria, mesmo que isso suponha bater de frente com obstáculos e rejeição.
-“Se nos o negamos, também ele nos negará”. É o exercício do livre arbítrio, ou seja, da faculdade de aceitar o recusar o que Cristo fez. Recusar significa perder o relacionamento, não se encontrar em comunhão e familiaridade com quem, dirá Paulo, “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Esta atitude carrega conseqüências muito dramáticas, do ponto de vista da salvação.
-“Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo”. Em contraposição à lógica das afirmações anteriores, à infidelidade dos homens Cristo responde com a fidelidade. E isso para não desmanchar a própria identidade. É extremamente importante esta afirmação: a fidelidade faz parte da essência de Deus, de Cristo, mesmo. Ele é fundamentalmente fidelidade. Portanto, é a fidelidade do discípulo à causa de Deus, à missão e pessoa de Cristo, às exigências do evangelho, que criará as condições para experimentar Deus nesta vida. Fidelidade que será provada de muitas maneiras e em diferentes circunstâncias e se tornará mais firme e forte cada vez que sairá vitoriosa da luta.
Cultivar o correto relacionamento com Cristo é fundamental, evitando a atitude errada que o evangelho aponta.

Evangelho Lc 17,11-19

Jesus está “caminhando para Jerusalém”. Tem um rumo e uma meta que o levará aos acontecimentos de sua morte e ressurreição, e com isso ao cumprimento da missão Dele. Este aspecto é muito importante, pois, constitui o marco da ação e das palavras de quem já determinou entregar sua vida para o bem da humanidade. Ele já é um homem marcado para morrer e conscientemente caminha para esta meta. O que o sustenta é a promessa que, aconteça o que acontecer, o Pai a cumprirá. Continuar caminhando rumo a Jerusalém é um contínuo exercício de fé, até chegar a ser o perfeito cumpridor como indica a carta aos Hebreus 12,2. É um estilo de vida que ele assume cara por um lado à promessa e pelo outro à evidente impossibilidade humana que essa se cumpra.
Parece-me que é esta originária experiência de fé de Jesus que sustenta e motiva o atuar após a súplica dos leprosos “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós”. Jesus responde: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”, ou seja, indica a eles o rumo e a meta que eles prontamente acolhem e se põem no caminho.
De fato, “Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados”. O que Jesus pede não é fé na pessoa ou no poder milagroso dele, mas que eles tenham fé nas indicações da Lei de Moises, que estabelecia para todo leproso sarado que se apresentasse aos sacerdotes para estes, conferida a cura, o reintegrasse na sociedade da qual foi excluído. Jesus foi o “estimulador” da fé.
Assim se entende a resposta de Jesus ao único dos dez que voltou “Tua fé te salvou”. E essa fé de você, que você encontrou em si mesmo, pela mediação da pessoa e da palavra de Jesus, a origem do que aconteceu na tua pessoa, em termos de cura. Ela é antecipação e preparação à fé que deverá exercer futuramente quando ele indicar o caminho e a meta com a morte e ressurreição Dele.
O poder de Jesus não é o de um taumaturgo que intervém desde o exterior com forças sobrenaturais. É o poder que toca no interior, no profundo do ser humano e o capacita a ter fé na promessa. Assim que seguindo o rumo e a meta, da dinâmica da morte e ressurreição de Jesus, experimentará a nova vida. A salvação está no caminho, no seguir atrás Dele e com Ele, não nos poderes milagrosos e sobrenaturais que Ele, de vez em quando, manifesta. Essa manifestação é como um toque para garantir que Ele não mente, não engana e tem autoridade . Podem segui-lo com confiança.
E disse-lhe: Levanta-te e vai!”, ou seja, coloca- te de pé, pela tua nova dignidade, assumindo tua nova realidade e continua caminhando com a mesma fé, tendo como rumo e meta a vivencia da glória de Deus que você percebeu no evento que aconteceu ma tua pessoa.
O fato que Jesus perguntou: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?”, pare-me que não responde simplesmente à manifestação da ingratidão humana, mas a tristeza de não ter condição de oferecer a eles a chave interpretativa correta do que experimentaram. É muito possível que pensando em Jesus o acreditam com um milagreiro, que não é exatamente aquilo que Jesus queria passar.
Nota polemica do texto é ter frisado que quem voltou “E este era um samaritano”, diríamos hoje, um escomunicado, um herege. Que o modelo de quem glorifica corretamente a Deus, do verdadeiro seguidor, fosse um samaritano, foi o máximo da provocação. Provocação que não tem fim em si mesmo, mas pretende acordar os ouvintes para um novo caminho, para uma nova vida, purificada dos diferentes tipos de lepra que ameaçam a qualidade da existência no dia- a- dia.