1ª leitura Eclo 35,15b-17. 20-22ª
“O Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas (...) não é parcial em prejuízo do pobre”, (...). O texto frisando as atitudes de Deus se contrapõe à prática comum no ambiente social. A injustiça, a discriminação, a exploração dominam o tecido social e a prática individual, com conseqüências das mágoas e dos sofrimentos que o relato deixa entender.
Ao pobre, ao oprimido, à viúva, ou seja, às pessoas mais vulneráveis, sem defesa contra todo tipo de exploração, não há alternativa do que dirigir suas súplicas e desabafar suas mágoas a Deus. Deus garante que “escuta (...) e jamais despreza a súplica” deles. Mais, ainda promete que “A prece do humilde atravessa as nuvens: enquanto não chegar não terá repouso; e não descansará até o Altíssimo intervenha”.
Cabe perguntar: quem é este “humilde”? Não é simplesmente aquele que ocupa os degraus mais baixos da escala social. Com certeza ele faz parte dos humildes do ponto de vista social, pois, está no chão e não tem como se erguer e ocupar os degraus mais altos. O humilde da bíblia é aquele que, juntamente a sua condição social, coloca sua plena confiança no Senhor, no sentido de que cultiva o correto temor de Deus.
O temor de Deus, não é o medo, o constrangimento, a insegurança, do inferior para com o superior, mas a atitude de atenção, de respeito, de preocupação de manter e cultivar corretamente o relacionamento com Deus. Ele lida com o sincero amor de quem não quer desagradar à pessoa amada, bem sendo conhecedor dos próprios limites e das próprias fraquezas. Nesse sentido a humildade é a virtude maior que abre a comunicação e a comunhão com Deus.
A humildade é a condição para que Deus “faça justiça aos justos e execute o julgamento”. Assim a justiça de Deus se percebe e se faz presente pela humildade. O humilde percebe o executar da justiça de Deus. De fato a humildade é uma maneira de servir a Deus “Quem serve a Deus como ele quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até às nuvens”.
Portanto, quem serve a Deus, pratica Deus, ou seja, assume a mesma maneira de pensar e de agir, vê a realidade com os mesmos olhos Dele. Isso significa assumir as atitudes que são de Deus para com os pobres, os oprimidos e as viúvas. Quem pratica a justiça, não faz diferenças ou discriminação de pessoas etc., implanta os tópicos da Aliança do Sinai e construi a sociedade sonhada por Deus.
Também hoje a realidade está muito longe do que Deus espera. É evidente para todos como as injustiças de acima fazem parte da realidade do dia- a- dia em todos os níveis e em todos os lugares. Portanto, estas indicações ficam como uma luz, um farol que iluminam o caminho de Deus no mundo e na sociedade. Elas mexem com os sentimentos e o coração dos verdadeiros humildes de hoje, que não desistem de sonhar e lutar para a causa de Deus.
São Paulo é uma figura eminente nesse sentido, como testemunha a segunda leitura.
2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18
Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele exprime os sentimentos dele diante a morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde atualmente há a Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do evangelho e constituição das comunidades cristã. Em fim, um combate que deu resultado para ele e para a difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É o próprio da consciência de quem fez tudo o que era nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção, sustentada pela experiência, de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente e, por certos aspectos, inalcançável nesta terra. Contudo, é ela que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho em virtude dos quais manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente, pelo qual encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua -do Senhor- manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, tal vez, lhe era impossível perceber anteriormente e precisamente de que “o Senhor esteve o meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi poça coisa, foi pela graça e presença do Senhor, foi causa de libertação “da boca do leão”. Precisamente o leão que motiva fugir do combate, parar ou desistir da corrida, desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o leão que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos “comprometidos”, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, desmotivado os de todo sério compromisso com o Senhor.
Em fim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero e humildade à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor, nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
A experiência pessoal de Paulo, seu passado de perseguidor redimido deve ter sintonizado muito com o cobrador de impostos do evangelho.
Evangelho Lc 18,9-14
“Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros”. Jesus se dirige a uma categoria de pessoas bem definidas em ordem à justificação. Chama à atenção a singular união que fazem os destinatários da parábola de justiça e desprezo. Cabe uma pergunta: em virtude de que, o que sustenta esta singular união? O desprezo da pessoa não é simplesmente lhe atribuir pouco valor, pela carência de qualidades e virtude que motivam consideração e estimação. É a pessoa que não merece atenção nem aproximação alguma. É excluída do relacionamento individual e do convívio social. É condenada ao isolamento.
Portanto, a atitude de desprezo declina três aspectos:
• O desprezo do valor e finalidade da Lei. Corretamente vivenciada ela leva a bem outra atitude. Só pensar nas palavras do profeta Oséias “quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de deus, mais do que holocaustos” (Os 6,6). É a atitude da misericórdia, da vontade de reintegrar na comunhão, no respeito da lei, os fracos e afastados dela.
• O desprezo de si mesmo como sujeito capaz de assumir e testemunhar a atitude de Deus para com o pecador, capaz de carregar os limites e as fraquezas do mesmo e resgatá-lo para nova vida, cumprindo a finalidade da Lei.
• O desprezo da comunidade reduzida, dessa forma, a um grupo de executores rigorosos das normas e exigências da Lei auto-justificativas. Em virtude disso, se acham legitimados em se apresentar perante de Deus com as palavras e as atitudes do fariseu.
O engano deles está em assumir a Lei no horizonte do mérito, como se Deus tivesse que retribuir proporcionalmente ao fiel cumprimento das normas e das exigências dela. (Entre parêntesis muitos católicos têm o mesmo entendimento!). Portanto, a justificação perante de Deus Pai depende simplesmente da conduta deles.
Não percebem- e será o que Jesus implantará com sua pregação e, sobretudo, com sua morte e ressurreição- que a justificação é essencialmente um dom de Deus, o aspecto gratuito do Amor dele, frente à incapacidade do ser humano de vivenciar a Lei dentro da vontade e da expectativa de Deus. Libertando-os da escravidão do Egito (do mal e do pecado!) foram constituídos como novo povo de Deus, como povo eleito, como novas criaturas e, portanto, capacitadas de vivenciar a justiça a misericórdia, cuja manifestação e comprovação seriam os tópicos e as exigências da Lei. Em fim, inverteram a ordem, colocaram o carro perante os bois.
Daí a conclusão: o fariseu voltou para casa não justificado. Não porque Deus quis de alguma maneira puni-lo, mas simplesmente porque o fariseu estava bem longe de pensar que precisava dela, contrariamente ao cobrador de impostos.
Portanto tudo converge nos critérios da verdadeira e falsa justificação. É uma alerta muito importante para o nosso dia -a- dia.
domingo, 17 de outubro de 2010
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