segunda-feira, 25 de outubro de 2010

31o DOMINGO DO T.C.-C-(31-10-10)

1ª leitura Sb 11,22-12,2

O trecho é uma profunda meditação sobre a compaixão, a misericórdia, a bondade, a ternura e o perdão de Deus que dá fundamento ao otimismo dos homens, para que se arrependam. Pelo autor, perante da glória e da imensidade de Deus, o mundo inteiro é pouco mais do que nada, algo extremamente frágil e insignificante “é como um grão de areia na balança, uma gota de orvalho da manhã que cai sobre a terra”. Não merece atenção nenhuma tão é inconsistente e vulnerável a realidade dele. O autor relata a percepção que todos temos do nosso limite quando a realidade humana é confrontada com a de Deus.
Contudo, surpreende a atitude de Deus, sobretudo a motivação “Entretanto, de todos tens compaixão, porque tudo poder”. Deus exerce seu imenso poder em virtude de sua imensa compaixão, como expressão do seu infinito amor. O poder que exerce não vai à expectativa dos milagres, dos gestos deslumbrantes, mas da compaixão que, por um lado, fechando “os olhos aos pecados dos homens” resgata o que na consideração humana tem um valor ínfimo para Deus e, pelo outro, valoriza o que objetivamente tem seu limite “não desprezas nada do que fizeste”.
Parece-me muito importante, outra vez, a motivação e as duas perguntam que a acompanha “porque, se odiasses alguma coisa não a terias criado (...) como poderia alguma coisa existir, se não a tivesses querido? Ou como poderia ser mantida, se por ti não fosse chamada?”. Assim, amor e ato criador caminham juntos.
Portanto a criação é da categoria da relação, mas do que um momento pontual no qual as coisas que não existiam agora existem e ponto. Por sua vontade amorosa Deus as chama à existência as pessoas e todas as coisas e, pelo mesmo amor, são recriadas constantemente. O ato criador é dinâmico de maneira tal que a realidade criada é recriada e cresce pelo amor e no amor, ou ela se autodestrói por si mesma. Nesse sentido, a criatura é constantemente envolvida e responsabilizada na ação criadora de Deus, que é ao mesmo tempo ação salvadora. Mas tudo isso acontece se a pessoa escolhe livre e conscientemente de colaborar com Deus, pois, é a exigência mesma do amor criativo.
A seiva de tudo este processo é o Espírito “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas!”. Esta presença é muito esquecida e foge de nossa consideração e apreciação. É um defeito difícil de corrigir, pelo costume de nos referimos quase exclusivamente a Cristo, na paternidade do Pai. Contudo, nas pessoas, criadas pelo sopro divino, o Espírito desenvolve uma missão específica: “corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes seus pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti,Senhor”. Ele é Deus em nós, realidade pouco valorizada, com grande prejuízo, a causa de nossos pecados e por delegar esta presença nas autoridades eclesiais constituídas, ou a pessoas tidas como particularmente santas.
É por meio do Espírito que “A todos tu tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida”. Belíssima esta expressão. Quem não ama a vida? Quem não deseja a plenitude e a realização dela? Pois bem, temos um amigo que nos pede confiar e se deixar acompanhar por ele. É o que são Paulo indica na segunda leitura.

2da leitura 2Ts 1,11-2,2

São Paulo intercede a Deus na oração sem cessar a favor dos cristãos da comunidade “para que o nosso Deus vos faça dignos de sua vocação”. Tornar-se digno da vocação, do chamado, supõe entrar na dinâmica que comentei na primeira leitura. Com efeito, o poder de Deus é re-criativo, pela sua dinâmica consegue realizar na pessoa e na comunidade “o bem que desejais e torna ativa a vossa fé”. O coração do apóstolo está voltado para essa finalidade, é mesmo o coração de Deus que late nele. Parece-me particularmente incisiva esta verdade, que configura a verdadeira identidade da pessoa que segue a Cristo. Ela deve ter elaborado no seu mundo interior uma convicção e uma intimidade tão profunda com Cristo em virtude da qual vive com os mesmos sentimentos e atitudes Dele.
Neste horizonte podemos encaixar a finalidade pela qual Paulo intercede “Assim o nome de nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós, e vós nele”: a glorificação mutua de Cristo e dos cristãos. A glorificação consiste na manifestação da santidade de Deus na pessoa, no sentido, para usar uma frase de Jesus, que eles -os cristãos- estão no mundo, mas não são do mundo. Manifestam com palavras e atitudes coerentes de pertencer plenamente a Deus pela adesão à Cristo “em virtude da graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo”, cabe acrescentar: no Espírito Santo. A graça, o dom de Deus, é o Espírito. No final da primeira leitura já toquei a ação e a missão dele.
Vivenciar tudo isso de coração sincero e envolvendo a totalidade do ser tem uma dimensão escatológica, porque já é viver no presente a realidade futura. Estabelece-se, portanto, um relacionamento direto entre presente e futuro, em virtude do qual este último se torna como o imã que atrai a quem está sinceramente sintonizado com o mistério de Deus que está e se manifestou pessoa de Cristo.
Portanto, o apostolo liga presente e futuro dessa forma “No que se refere à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e a nossa união com ele”. A vinda Dele não está desligada à união dos cristãos com ele. Pelo contrário é uma união que será levada à sua plenitude quando Deus Pai será tudo em todos como frisa o apostolo na 1ª carta aos Coríntios.
O que Paulo alerta é o quando isso vai acontecer “não deixeis tão facilmente transtornar a vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação, ou carta atribuída a nós. Afirmando que o Dia do senhor está próximo”. É preciso esperar confiadamente, porque ninguém sabe o dia e a hora da última e definitiva intervenção de Deus sobre a humanidade de todos os tempos, sobre a criação e o universo. Tudo isso fica no mistério de Deus, não dá para ter acesso a este conhecimento. Deve-se continuar exercendo a fé ma promessa e a esperança encharcadas pelo amor já experimentado pela ação de Jesus na sua pregação, no seu testemunho e particularmente no evento da Páscoa.
Amor de Jesus que atinge a rodos, sobretudo, os pecadores como aponta o Evangelho.

Evangelho Lc 19,1-10

Eis a figura de Zaqueu “chefe dos cobradores de impostos e muito rico”. Um pecador público, um ladrão apoiado pela lei. Os cobradores chefes dividiam o serviço a outras pessoas, estabelecendo quanto dinheiro estes últimos devia entregar. Se conseguirem mais, ficava com eles. Não é difícil imaginar o que isso significa em termos de exploração de carga sobre os ombros do povo. E tudo isso a serviço dos odiados estrangeiros romanos que dominavam o território. Portanto, Zaqueu era tido como pecador pela exploração e colaborador da potencia invasora. Religiosa e socialmente era o pior dos piores.
Contudo, ele sentia uma inquietude interior, algo que o deixava incomodado, tal vez simplesmente curioso, ao ponto que “ procurava ver quem era Jesus” de todas maneira até o ponto que individuado por onde devia passar Jesus “subiu uma figueira” para vê-lo. Tal vez, tendo ouvido o posicionamento de Jesus para com os ricos com respeito à impossibilidade dele de entrar no reino de Deus, não esperava o pedido de Jesus: “Desce depressa! Hoje devo ficar na tua casa”.
Todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” Não era para menos, aos olhos deles significava comunhão de vida. O desconcerto era total. Como podia ser? Iam para baixo todas as pretensões messiânicas de Jesus. Os pecadores como Zaqueu não tinha possibilidade real de redenção. Na concepção de então para conseguir a redenção devia devolver o defraudado mais o 25%. Saber a quem e quanto havia roubado era praticamente impossível. Daí que para ele(s) não há salvação possível.
Zaqueu “desceu de pressa, e recebeu Jesus com alegria (...) ficou de pé, e disse ao Senhor: Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais (Mas, a Lei exigia um quarto... será um erro de redação? Tal vez.)”. O fato de receber Jesus com alegria manifesta a sintonia com a pessoa, as atitudes e as palavras de Dele e como suas expectativas foram muito além do esperado. O que suscitou nele tudo isso não é dito, só é registrado que o mundo interior dele foi mexido de tal maneira de determinar a devolução com acréscimo do defraudado.
Normalmente para pessoas entregues ao dinheiro e à riqueza, deixar este mundo de poder e de segurança não é fácil. Jesus mesmo apontará como é difícil para um rico entrar no reino de Deus. Será que em Zaqueu, apesar de tudo, se manteve um espaço de sensibilidade, uma brecha no interior dele? Será que prevaleceu a força de persuasão da palavra e de personalidade de Jesus, sobre uma estrutura interior sem esperança? Tal vez as duas coisas?
De toda a maneira o sujeito principal não é Zaqueu, mas Jesus e a atitude dele para com os já condenados, no entendimento geral do povo. La resposta justificativa de Jesus: “Hoje a salvação entrou nesta casa” frisa o evento da salvação disponível aqui e agora para todos indistintamente, como expressão da chegada do reino de Deus no meio deles. Este “hoje” lembra o de Cafarnaum, no começo da pregação dele (Lc 4,21). E acrescenta “porque também este homem é um filho de Abraão”, ou seja, pertence ao povo eleito, ao povo de Deus, cujo destino é a salvação. Portanto, está em sintonia com a vocação de todo filho de Abraão.
A conclusão “Com efeito, o Filho do homem veio para procurar e salvar o que estava perdido”, indica a finalidade é ultima e o sentido profundo da missão dele em sintonia com as características do agir de Deus para com a humanidade e a pessoa da primeira leitura. É o amor misericordioso que se faz presente em toda circunstância a favor de todo ser humano.

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