terça-feira, 30 de novembro de 2010

2o DOMINGO DO ADVENTO-A-(5-12-10)

1ª leitura Is 11,1-10

Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor”. A alusão ao “tronco” e à “raiz” de Jessé faz supor que a dinastia do rei Davi irá acabando. Contudo, o oráculo assegura, na continuidade da dinastia, a fidelidade divina às promessas. Ao apresentar, porém, a característica do verdadeiro rei descreve o que se realizará no Messias.
Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de discernimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus”. São os dons do Espírito Santo que no sacramento da Confirmação são passados aos crismados. Portanto, o Messias será um sujeito plenamente disponível à vontade de Deus através a ação do Espírito nele.
Cabe frisar o inciso “no temor do Senhor encontra ele o seu prazer”. Com isso, a atitude dócil, reverencial e amorosa, pela ação do Espírito à vontade de Deus, será motivo e fonte de grande satisfação e até de prazer. Para alcançar esta atitude é preciso se despojar do próprio projeto, das próprias expectativas e desejos, como quem não constrói, nem planeja, não projeta atribuindo a tudo a característica de conformidade à vontade de Deus.
Mas, se dispõe a modificar o que pensou e esperou em virtude da realidade concreta que lhe se apresenta e obrar nela e sobre ela com os critérios de Deus, com as atitudes sugeridas naquele momento pela ação do Espírito. Significa ter e cultivar a “infância espiritual” própria de quem se deixa conduzir, momento por momento, como a criança que confia plenamente no pai, pelos rumos que lhe são apresentados. Esperava uma coisa e se apresenta outra. Tudo bem, só indagar e perceber como se comportar o que assumir ou rejeitar, pensando e agindo conforme ao critério de Deus sugerido pelo Espírito, sustentado por essa docilidade, por essa “infância espiritual”.
Só dessa forma desenvolverá a missão com as atitudes certas “Ele não julgará pelas aparências que vê nem decidirá somente por ouvir dizer” cujos efeitos será a “...Justiça (...) uma ordem justa (...) destruirá o mau”. Eis, então, retrato o perfil do Messias como quem ,dessa maneira, “Cingirá a cintura com a correia da justiça e as costas com a faixa da fidelidade”.
Com efeito, a pratica da justiça e a perseverança na fidelidade constituem os elementos fundamentais, irrenunciáveis, do cumprimento e realização da Aliança e com ela a implantação do reino de Deus entre os homens. A poética descrição a continuação “O lobo e o cordeiro viverão juntos (...) vers. 6-8” manifestam a harmonia da criação. O que agora é contraposto e hostil se tornará o que a mente e expectativa humana não se atrevia pensar nem supor.
Até o maior inimigo será vencido “Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte”. E, em positivo, “a terra será repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar”. Será o triunfo da raiz do Jessé- o Messias- que “se erguerá como um sinal entre os povos”- como não pensar no Ressuscitado?- “e gloriosa será a sua morada”.
A Promessa, selada pela Aliança no Sinai, terá sua plena realização. Valeu esperar, já se aproximando dessa realidade de maneira conveniente, como indica a segunda leitura.

2ª leitura Rm 15,4-9

acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus”. Cabe se perguntar: Em que consiste a glória de Deus em virtude da qual devemos acolher? Um grande teólogo do segundo século depois de Cristo respondeu: “A glória de Deus é que o homem viva e a vida do homem é glorificar a Deus”. Com efeito, a vida à qual se refere esta afirmação é a que brota e toma consistência por ter sido acolhida anteriormente por Cristo, com todos seus defeitos e pecados, para ser redimida e resgatada. Portanto, aceitar de ter sido aceito e justificado perante do Deus Pai, por ter sido acolhido por Cristo, é o alicerce da verdadeira vida, é o que faz viver a pessoa na glória de Deus.
Sabemos em que consistiu e o preço desse acolhimento “Cristo tornou-se servo (...) para honrar a veracidade de Deus, confirmando as promessas feitas aos pais”. Com isso, ele se tornou modelo do acolhimento entre os homens. Pois, o mesmo exercício manifesta a glória de Deus atuante entre os homens. Portanto, como dizia o teólogo acima citado, a vida do homem é glorificar a Deus, no sentido de redesenhar, refazer, reconstruir os relacionamentos como se eles fossem outro Cristo. O ter sido aceito por Ele, a consciência dessa mesma aceitação - que é o próprio do conteúdo da fé - sustenta a identificação com Cristo que os capacita na mesma missão Dele e que Ele mesmo lhes confiou.
Nesse processo é importante para o seu correto desenvolvimento se referir ao que “foi escrito para a nossa instrução” e ser sustentado “ pelo conforto espiritual das Escrituras”. Portanto, é preciso não descuidar nem desvalorizar o estudo e o aprofundamento das Escrituras, sob pena de estancar o processo de crescimento ou até de retroceder e desviar.
O conforto espiritual consiste na ação do Espírito que ilumina o significado do que Cristo realizou com sua morte e ressurreição à luz dos textos do Antigo Testamento. Estes textos eram as Escrituras a disposição de Paulo, pois, ainda não existiam os textos do Novo Testamento. Após o evento da morte e ressurreição de Jesus, os discípulos relendo os textos do Antigo Testamento, por ex. os 4 Cânticos do servo de Yavé, perceberam , com surpresa, que tudo isso se cumpriu na pessoa de Jesus. Daí, então, o conforto espiritual, a certeza de estar no caminho certo e a força motivadora que isso proporciona.
Conseqüentemente, o discípulo experimentará a constância e o conforto como dom de Deus “O Deus que dá constância e conforto vos de a graça da harmonia e concórdia, uns com os outros, como ensina Cristo Jesus”, cujos frutos amadurecidos serão a harmonia e a concórdia nos termos indicados pela primeira leitura. Com outras palavras, será descobrir o tesouro escondido do reino de Deus já presente no meio de nós.
Com isso a certeza do cumprimento da promessa de Deus “feita aos pais”, que teve uma primeira expressão e manifestação com a morte e ressurreição de Cristo e terá sua implantação definitiva e última com a vinda do Ressuscitado, será motivo de consolidar a esperança e fazer dela uma realidade cada vez mais firme e consistente.
A realidade do Reino é central na pregação do João Batista do evangelho.

Evangelho Mt 3,1-12

João Batista anuncia a grande expectativa do povo: a proximidade do reino “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Entre parêntesis, Reino dos Céus e Reino de Deus são sinônimos). Condição para participar dele é a conversão, visibilizada pelos frutos correspondentes “Produzi frutos que manifestem a vossa conversão”. Não se trata de sentimentos ou de bons propósitos, mas de atitudes, de comportamentos em sintonia com as exigências da Lei. São frutos decorrentes da prática da justiça e do direito, que estabelecem e configuram o povo de Deus libertado da escravidão do Egito e consolidado pela vivencia entre eles da libertação: livres para libertar todo ser humano de todo o que o oprime desde as necessidades básicas às exigências do amor fraternal.
João lembra o que já todos sabem. O reino será implantado pelo Messias, enquanto “Ele-o Messias- está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”. Será manifesta a “ira que vai chegar” e da qual de jeito nenhum ninguém poderão fugir.
Nem será argumento válido se apelar à descendência: “Não penseis que basta dizer: ’ Abraão é nosso pai’, porque eu vos digo, até mesmo destas pedras deus pode fazer nascer filhos de Abraão” Entre parêntesis, o mesmo vale enquanto ao nosso batismo. Não é suficiente batizar simplesmente as crianças ou os adultos e com isso pensar de “estar bem com Deus” por ter feito a própria parte.
Perante a iminência desta realidade assustadora “Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia (...) confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão”. Pois, a perspectiva de acabar “no fogo que não se apaga” não é agradável para ninguém. Mai ainda, com a ameaça iminente de que “O machado já está na raiz das árvores, toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo”. Há como uma pressão em proceder rapidamente e com determinação, pois, o tempo se faz curto, não há como demorar!
Contudo, a idéia de João Batista com respeito à missão do Messias e à implantação do reino dos céus, está muito aquém daquela que Jesus desenvolverá e realizará. João Batista declara a superioridade do Messias com respeito a ele mesmo “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu (...). Ele vos batizará com o Espírito santo e com fogo”. Mas, entende e interpreta tudo isso dentro da expectativa dele, ou seja, o premio para os convertidos e o castigo eterno para os outros. O Messias dividirá o povo em dois blocos; Salvação para uns e condenação para outros.
João Batista manifesta a concepção do Antigo Testamento com respeito ao cumprimento da Lei mosaica estabelecida como sinal da Aliança no Sinai, á qual ninguém poderá fugir. A mesma idéia de ressurreição do Antigo Testamento visava a isso. Se alguém pensasse que com a morte tudo acabasse e pudesse desta forma fugir ao juízo da Lei, o Antigo Testamento responderá que não. Ele será ressuscitado para ser julgado conforme à exigência da lei. Ninguém poderá se subtrair a ela. A conversão imediata era a última chance oferecida antes da catástrofe final e irreversível.
A atuação de Jesus irá muito além. Ela provocará um grande desconcerto na pessoa de João como indicado no evangelho do próximo domingo.
De toda maneira, fica atual a urgência da conversão, não no âmbito do entendimento da lei, mas à realidade e conseqüências da morte e ressurreição de Jesus.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

1oDOMINGO DO ADVENTO-A-(2811-10)

1ª leitura Is 2,1-5

Acontecerá, nos últimos tempos”. O texto pretende apontar o aproximar-se do momento último e definitivo da historia, caracterizado pela intervenção de Deus. Convida dirigir o olhar à meta, para o povo esperar e já se aproximar a ela de maneira conveniente. A meta é simbolizada pelo “monte da casa do Senhor”.
Para o hebreu a casa do Senhor, o templo, era o centro do mundo, ou melhor, o umbigo do mundo que liga céu e terra. O lugar mais santo di templo, onde só o Sumo Sacerdote entrava - não sem temor- uma vez por ano para o rito da expiação dos pecados, era o lugar onde Deus apoiava seus pés.
O fato de estar “firmemente estabelecido no ponto mai alto do monte e dominará as colinas” passa a idéia de uma realidade estável, permanente, que se impõe a todos e a tudo- as colinas- por sua visibilidade e força. Com outras palavras, se manifestará o mistério de Deus e do reinado Dele sobre a sua criação, que abrangerá tudo e todos.
Esta manifestação será como o imã, pois, ao templo “acorrerão todas as nações (...) para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine cumprir seus preceitos”. Faz parte da consciência do povo de Israel sua missão universal de reunir todos os povos sob a lei do único Deus. Portanto, ele carrega sobre si mesmo esta responsabilidade, testemunhando o cumprimento d a Aliança e convidando os outros povos a reconhecerem a presença do verdadeiro Deus, para que a glória do Mesmo se manifeste em toda sua realidade salvadora. Daí a consciência de superioridade com respeito aos demais povos.
Porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a palavra do Senhor”. Nos últimos tempos, a lei e a palavra do Senhor se manifestarão em toda sua potencialidade, como indicado acima. Más ela já está presente no patrimônio do povo eleito. O que acontecerá no será surpresa de algo totalmente desconhecido e inesperado. Pelo contrário, o povo reconhecerá o cumprimento da promessa, a bondade do caminho da Aliança. A conclusão será que valeu tomar a serio e investir seriamente nelas.
Eis, portanto a exortação final “Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos (hoje) guiar pela luz do Senhor”. Portanto, ter ciência da singular ligação entre presente e futuro oferece sentido e motivação à vida do povo e das pessoas, com respeito ao cumprimento da Aliança com Deus estabelecida após a libertação do mal e da escravidão do Egito, selada no Sinai por Moises e portadora da Promessa de uma nova humanidade, onde reinará, com todas suas múltiplas características, a paz universal.
Devido ao desrespeito das exigências da Aliança, aos múltiplos pecados do povo, a paz universal está longe de ser implantada. Contudo, será “nos últimos tempos” que Deus, com sua intervenção última e definitiva, julgará as nações e argüirá numerosos povos. Estes “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra outros e não mais travarão combate”.
Portanto o tempo de Advento, à luz do evento final, é tempo da espera, participação na glória da plena comunhão com Deus e motiva já antecipar no presente os efeitos deste futuro, por meio da conduta moral coerente.
É o que Paulo incentiva na segunda leitura.

2ª leitura Rm 13,11-14

São Paulo já falou longamente nesta carta da obra salvadora de Deus por meio do seu Filho Jesus e afirmou que ela continua a realizar-se agora. Portanto, convida os cristãos à conscientização deste momento “Vós sabeis em que tempo estamos” e assumir atitude conveniente “pois, já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mai perto de nós do que quando abraçamos a fé”. Paulo não precisa a causa da alerta, da necessidade de despertar. Tal vez, seja pela pouca atenção, pela distração, por não perceber o alcance e a amplitude da salvação etc.,
Viver o presente como momento favorável da salvação, fruto da fé na obra realizada por Jesus nos eventos da Páscoa, faz perceber que “A noite já vai adiantada, o dia vem chegando”. Com outras palavras, a noite da injustiça, do mal em todas suas múltiplas expressões, vai deixando espaço à luz do novo dia que está cada vez mais próximo. Percebe-se a esperança como realidade concreta e de indiscutível atualização, que vai cada vez mais se aproximando, como o dia que vai chegando vencendo a noite.
Eis, então, a exortação: “despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz”. Aproximar-se da luz pede ao cristão o comportamento ético, que se concretiza na vigilância por um lado e em fazer as obras da luz pelo outro. É preciso determinação e colaboração ativa para que o processo da passagem da treva à luz se consolide oportunamente.
A exortação toma realisticamente em conta a possibilidade do processo se estancar, ou até de retroceder. Pois, as seduções, os desânimos, as provações e as dificuldades de todo tipo acompanham o dia - a – dia da vida do cristão. Sem determinação e firmeza de caráter na luta para conseguir o que se enxerga, o processo não chegará ao seu fim. Com efeito, toda ação salvadora de Deus pede a colaboração e o consentimento ativo da pessoa, ou da comunidade à qual se dirige. De braços cruzados e passivamente, nunca chegará o novo dia.
Daí as indicações concretas “Procedamos honestamente, como em pleno dia” como se já estivéssemos na plenitude da luz. Este “como” é particularmente importante, pois o cristão não está na plenitude da luz, só a enxerga que vai chegando. Contudo, deve se comportar como se já estivesse nela... Isso é possível pela fé, pois, a carta aos Hebreus a define “uma maneira de já possuir o que se espera”. Portanto, é preciso antecipar as atitudes e os comportamentos próprios de quem já possui o que espera. É singularíssimo tudo isso, com certeza, mas faz parte do dom que vai chegando. Ele motiva e qualifica o compromisso, a vontade e o esforço de sustentar a luta contra as trevas.
Trevas que são acolhidas por quem não se afasta das atitudes quais “nada de glutonarias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem brigas e rivalidades”. Elas conformam o processo de retrocesso e, portanto, a negação da luz e da esperança .
Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”, pois, o modelo é Ele. Convida a ser autênticos representantes de Cristo, se despojando do homem velho, para assumir a novidade que traz a identificação com a pessoa de Cristo e sua missão.
Manter tudo isso é a missão de todos os dias de quem sabe vigiar sobre si mesmo e discernir o tempo presente e futuro.

Evangelho Mt 24,37-44

Jesus faz referencia à manifestação de sua vinda “A vinda do Filho do Homem”, - com este termo se refere a si mesmo - que acontecerá quando a historia e a criação chegar ao seu ponto final. Cabe perguntar: este momento se refere a lago cronológico, a um futuro que será determinado pelo tempo do relógio que parara de marcar o seu decorrer? Será um tempo de plenitude, no qual a existência da pessoa e da criação alcançará a sua plena potencialidade de viver o Amor como comunhão dinâmica com o Deus da Vida. Nesse sentido será algo que não necessariamente excluirá o tempo cronológico?
Penso nisso porque um futuro que sempre foge a totalmente alheio à dimensão temporal e espacial é um futuro frustrante que não existe nem pode existir, é um futuro que só deixa como um vazio e, portanto, não interessa se não for ao momento que se faz presente, e, portanto, deixa de ser futuro. É um futuro futurível ou simplesmente a expressão de algo que se chama tal só porque está na frente como idéia, como possibilidade, ou seja, simplesmente em contraposição ao presente, não tendo atinência com o hoje?
A referencia à historia de Noé, na qual as pessoas “nada perceberam até o dia em que Noé entrou na arca”, diz respeito à intervenção que surpreendeu a todos, mas não a Noé que, pelo contrário, foi feito participe desse futuro com anterioridade. Haverá pessoas que não percebem e outras muito conscientes do que irá acontecer. O futuro para uns e para outros é bem diferente... Para os primeiros é incógnito e simplesmente vivem o presente com o que lhe é próprio “todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento”. Para outros é o futuro de Deus, pertence a Deus e àqueles que lhe pertencem pela fé. Esse futuro é teológico que, tal vez, não exclui o temporal, mas, com certeza, será reassumido e reelaborado pela intervenção de Deus.
É o que mostra a continuação “Dois homens (...) um será levado e outro deixado. Duas mulheres (...) uma será levada e outra deixada”. Não diz o critério da escolha, simplesmente afirma que a intervenção atingirá tudo e todos indistintamente. Com isso passa a idéia de que tudo e todo serão atingidos de uma maneira ou outra, inclusive o tempo cronológico, o tempo qualitativo ou os dói juntos...
Portanto, ficai atentos! Por que não sabeis em que dia virá o Senhor... Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”. Pois, se as pessoas que sabem da hora da chegada do ladrão se preparam e vigiam para não ficarem surpreendidos e prejudicados, quanto mais àqueles que desconhecem quando da hora da chegada, mas tem a certeza que chegará!
“Por isso, também vós ficai preparados” ao Novo Natal, como quem sabe o que estão esperando e o alcance da vinda Dele. A primeira vinda e a saída do mundo de Jesus são prelúdio e garantia da segunda vinda dele como Ressuscitado. O Natal passado é motivo para lembrar e dirigir o olhar e o coração ao último e definitivo Natal que celebramos com anterioridade, na esperança e na certeza de fazer parte da plenitude do novo nascimento antecipado no batismo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

FESTA DE CRISTO REI-A-(21-11-10)

1ª leitura 2Sm 5,1-3

Com poucas palavras é narrado um dos acontecimentos fundamentais da história do povo de Israel: Davi é ungido rei e reconhecido por todas as tribos de Israel. Acontece no momento da unidade Nacional , pois, Davi, habilidosamente, escolhe Jerusalém como capital, ponto de união, no confino dos dois reinos anteriores e, assim, manter a eqüidistância.
O povo se reconhece na pessoa do rei como “Somos teus ossos e tua carne”. Não é só uma indicação antropológica, mas existencial, pois abrange a vivencia toda do povo e de sua tradição. O povo reconhece nele um autentico representante dos sentimentos, das expectativas e do sonho dele “Tempo atrás, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel”.
Nesse contexto Deus lhe confia a missão: “Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o seu chefe”. Apascentar significa cuidar, proteger, orientar, guiar, socorrer etc. Essas,devem ser as atitudes próprias do chefe no desenvolvimento da missão em sintonia com o mandato recebido. Com efeito, a missão do rei é salvar, pois, é representante do Deus Salvador. Sua missão é de proteger os mais indefensos, particularmente o pobre, a viúva e o estrangeiro, mais expostos à exploração, à prevaricação dos prepotentes.
Ao rei Deus lhe confia vigiar e incentivar o que for necessário, para o cumprimento das exigências e características da Aliança, de maneira que o sonho de liberdade, começado com a saída da escravidão do Egito, se consolide cada vez mais na pratica da vida do povo. Ele é o garante humano, como representante de Deus, da Aliança, e com ela, do sonho de Israel de se conformando como povo eleito, como povo de Deus, modelo a ser apresentado a todas às Nações.
O reconhecimento de Deus e do povo é indicado pelas palavras “O rei Davi fez com eles uma aliança em Hebron, na presença do Senhor, e eles o ungiram rei de Israel”. A unção é sinal de consagração que o separa de outra finalidade, de outra causa, que não for o cumprimento da missão que acaba de assumir. De fato, com seus altos e baixos, com seus trancos e barrancos, o reinado de Davi e de seu filho Salomão serão lembrado como o período de ouro da historia de Israel.
Contudo, a história de Israel testemunha, começando pelos filhos de Salomão, a sucessão de reis fieis e infiéis à Aliança, prevalecendo aqueles que levarão o povo ao afastamento do correto entendimento da mesma, apesar da presença dos profetas cuja missão será chamar a atenção aos governantes de sua obrigação específica.
Do ponto de vista da bíblia, a conseqüência de tudo isso será desastrosa para a vida do povo, como a mesma testemunha pelos muitos acontecimentos ruins. Irá se formando a idéia e a espera de um Messias, de um novo ungido que restaurará a gloria dos tempos de Davi e Salomão.
Do ponto de vista cristão essa espera se cumprirá com a vinda de Jesus.

2da leitura Cl 1,12-20

O texto é um hino de agradecimento. Ele reconhece que a iniciativa da salvação é do Pai, por meio do Filho “por quem temos a redenção, o perdão dos pecados”. Isso significa ser capacitado “de participar da luz, que é a herança dos santos”. Com outras palavras, entrosar e mergulhar na vida e na comunhão com Deus. Eis, então, a atitude de agradecimento: “ Com alegria dai graças ao Pai”.
O agir do Pai é fonte inspiradora e modelo do agir do rei, pois, como tocava na 1ª leitura, a missão dele é a salvação de toda pessoa e do povo. É Jesus o modelo histórico do agir do rei, sobretudo pelo significado e importância do mistério Pascual pelo qual amou “até o fim” (Jo 13,1).
Eis, então, a exaltação do Filho em termos que abrangem a preexistência na comunhão trinitária, assim como sua missão e presença na Igreja. Desde o versículo 15 até o 20 é um condensado de afirmações teológicas de grande significado, que merecem toda consideração, reflexão e interiorização e manifestam a magnitude e grandeza da pessoa de Jesus.
Vale destacar que “Ele, Jesus, é imagem do Deus invisível (...) porque Deus quis habitar nele com toda sua plenitude”. Com estas palavras se manifesta que Deus se tornou visível, acessível a toda pessoa e a experiência humana de todos os dias. Não é mais o Deus distante, no céu- entendido como outro mundo-, mas o Deus perto e próximo, quem se inclina sobre as misérias da pessoa e da humanidade para resgatá-la de sua lastimável condição.
Mais surpreendente, ainda é que nele “Deus quis habitar com toda sua plenitude”. Este “toda ” abre a mente e o coração à percepção de algo sensacional: Come pode toda plenitude habitar numa realidade humana, contingencial, no especo e no tempo ,nas cultura de um povo? Come pode o infinito e o imenso estar todo Ele no limite da condição humana?
A possível resposta está na ação na pratica Dele, na missão que desenvolveu. Pela característica dela, o que está em jogo é a realidade da entrega e do amor nos termos bem conhecidos e frisado pelo texto “por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Portanto, é a qualidade dos diferentes relacionamentos pessoais, sociais, com a natureza que conferem a dimensão de eternidade a tudo o que é passageiro, limitado e contingente.
De fato, a ação criadora, re-criadora, regeneradora de tudo e de todos está alicerçada na qualidade do relacionamento. Tudo pode ser construído ou destruído por ele; tudo pode terminar no nada ou adquirir plenitude de vida. “Ele é o Principio, o Primogênito (...) em tudo ele tem a primazia” se pode entender não só no sentido que tudo tem seu início, mas também a nascente de onde brota toda atitude e força que levam as pessoas, a sociedade e a natureza à plena realização.
Reconhecer e aceitar este princípio supõe manter e cultivar em si mesmo a correta atitude ética com a realidade mais verdadeira de si mesmo, que o evangelho deixa transparecer na pessoa do “bom malfeitor”.

Evangelho Lc 23,35-43

Acima dele (Jesus) havia um letreiro: Este é o Rei dos Judeus”. Irônico e dramático: um rei crucificado! Desconcertante: como podia ter pretensões de Messias uma pessoa que termina sua vida na cruz? Era sentenciado que todo crucificado era um maldito de Deus! “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido”. É a última tentação à qual o evangelista apontava, após a vitória de Jesus sobre as tentações no deserto: “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). Se Jesus tivesse descido da cruz o demônio teria conseguido o resultado que não obtive com as tentações no deserto: o fracasso da missão de Jesus.
É impressionante constatar como a tentação radical e decisiva da própria vida se faz presente nos últimos e mais dramáticos momentos dela e nas condições mais favoráveis por ela e, ao contrário, mais desfavoráveis por Jesus, provado e debilitado pela trágica circunstância, conseqüente ao projeto e finalidade da própria vida e missão.
Contudo, a realeza Dele se configura exatamente por tudo isso! Que realeza mais diferente do que comumente se entende por ela! Ela é possível só se amar a Deus com todo o ser, alma e coração e ser sepultado nesse amor misterioso, confiante que a Promessa da vinda do reino se está manifestando e se visibilizará pelo mesmo evento.
Parece-me que este é o elo com a segunda parte do texto: o diálogo de Jesus com o “bom ladrão” no qual certifica a participação deste último ao evento da salvação que está acontecendo por meio e na pessoa de Jesus mesmo “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Com estas palavras Jesus manifesta a certeza de sua entrada na glória e, portanto, a vitória de sua missão. Com a sua entrega, com o oferecimento da totalidade de si mesmo ao Pai pelo Espírito, ele enxerga “a potencia da vida indestrutível”(Hb 7,16). Só assim podemos entender o surpreendente comportamento humano e psicológico de Jesus no evento da morte Dele.
Por que Jesus acolhe um malfeitor e deixa o outro? O que faz a diferença entre ele é a atitude para com Jesus. O primeiro simplesmente quer aproveitar da oportunidade “Salva-te a te mesmo e a nós”, diríamos, quer simplesmente “pegar carona”. O segundo, apesar de ser um malfeitor, manifesta um núcleo ético, como um núcleo sadio de sua personalidade, que lhe permite reconhecer objetivamente a condição de justo de Jesus e a própria de malfeitor “Nem sequer temes a Deus (...)? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”.
Este núcleo sadio, mantido por temer a Deus, será o “espaço” a brecha da ação do Espírito, como foi na conversão de são Paulo. Ele- Paulo- era um temente de Deus, pretendia servir a Deus com dedicação total, só que estava no caminho errado. A ação de Deus encontrou o terreno fértil nesta brecha e pode entender o significado e a importância do evento Pascal, não sendo um dos apóstolos que segui Jesus durante a missão dele. Assim como, com certeza, não foi discípulo o malfeitor, bem percebendo a realidade de justo de Jesus.
Portanto, parece-me que a atenção e o cultivo do núcleo ético permitem a todo homem ter condição de se abrir positivamente ao evento da Páscoa e fazer dessa percepção o hoje da salvação.
Portanto, o “hoje” é o hoje de todos os dias, o momento da conversão “Jesus, lembra-te de mim, quando entrarás no teu reinado”. Tal vez, não tendo ciência totalmente esclarecida do que estava pedindo, contudo, tinha a convicção de que Jesus estava alcançando a meta que pregou e pela qual foi enviado.
A realeza de Jesus é esta oportunidade de salvação em todo momento e condição, que pode ser percebida só se não destruímos em nós a raiz ética que permite reconhecer e aceitar o que realmente somos, sem máscaras e sem medos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

33o DOMINGO DO T.C.-C-(14-11-10)

1ª leitura Ml 3,19-20ª

Virá o dia (...) esse dia abrasador”. Estando em proximidade do final do ano litúrgico os textos apontam ao fim do mundo, sinalizado como “o dia” que virá. Eles indicam a meta, o ponto final da história, da humanidade, do universo e de cada pessoa. Indicação de grande importância, pois, só conhecendo o ponto de chegada pode-se ter clareza e segurança com respeito ao caminho. Jesus dirá “Eu sou o caminho” (Jo 10,6), exatamente porque indica com clareza a meta com a entrada na glória da qual tivemos testemunho com sua morte e ressurreição.
Também há outra consideração importante com respeito a esse “dia”. A meta, o fim último, é sempre o primeiro na intenção e o último a ser realizado. De fato, o que motiva a ação é o fim que se pretende atingir, sem esse fim se caminha a toa, sem saber por que caminhar e aonde ir... Portanto, do ponto de vista de Deus, a história começa do fim, da meta, que no específico do relacionamento de Deus para com ela, já está presente e reprisa o passado, pelos efeitos da presença Trinitária, manifestada com a vida paixão morte e ressurreição de Jesus.
Será um dia “abrasador como fornalha”. Imagem assustadora, motivo de grande pavor pelo qual muitos preferem remover, nem pensar nessa circunstância, nesse evento. Ao mesmo tempo, toda catástrofe natural suscita a pergunta se ela não é um sinal pré-monitor desse evento final...
Contudo, essa “fornalha”, esse fogo “abrasador” lembra a sarça, a chama de fogo, do chamado de Moises; o fogo do amor no qual Jesus deseja que arda, pelo efeito da entrega Dele; o forno onde profeta Daniel foi jogado com os seus companheiros por ordem do rei e do qual saiu incólume... Atrais da imagem aterradora há um significado de chamado, de amor, de purificação.
Ele será motivo para discernir os justos dos ímpios. “todos os soberbos e ímpios serão como palha (...) haverá de queimá-los (...) tal que não lhes deixará raiz nem ramo”. Os soberbos, os auto-refernciais, os ímpios que conscientemente rejeitaram toda atenção e referencia ao Deus de Israel, que renegaram a Aliança experimentarão o fogo purificador.
Parece-me que mais do que o castigo, merecido, indica a última oportunidade de conversão. Pois, tomando consciência de que não ficou nada da soberba e da impiedade deles, “nem raiz nem ramo”, a percepção do fracasso total de suas atitudes se tornará algo tão humilhante e desconcertante que terá o efeito de uma fornalha purificadora. A humildade de reconhecer isso será a última e definitiva possibilidade de conversão.
Diferente será a experiência dos justos “Para vós, que temeis o seu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo salvação em suas asas”. Refere-se àqueles que cultivaram pela fé o correto relacionamento de obediência no amor, na prática das atitudes coerentes com a realidade do povo eleito libertado da escravidão do mal (o Egito), da Aliança estabelecida no Sinai e confiantes que a promessa de Deus se cumprirá. E agora, estão comprovando a verdade de tudo isso: nasce o sol da justiça, trazendo a salvação. Em fim, valeu confiar, amar e esperar, contra toda esperança.
A atitude dos justos se manifesta de maneira muito prática e concreta. Uma delas é o que aponta a segunda leitura.

2ª leitura 2Ts 3,7-12

Em Tessalônica havia alguns que, com o pretexto da iminente vinda do Senhor, viviam à custa dos outros, alienados das realidades terrenas. Com um toque de ironia descreve a condição deles: “Ouvimos dizer que entre vós há alguns que vivem à toa, muito ocupados em não fazer nada”.
A iminente vinda do Senhor não dispensa de assumir as exigências do tempo presente com bom senso e sentido de responsabilidade, como é a ocupação no trabalho para a própria sustentação, bem sabendo que o direito o dispensaria “ Não que não tivéssemos direito de fazê-lo, mas queríamos apresentar-nos como exemplo a ser imitado”.
O esforço do trabalho cotidiano é um reflexo da dimensão do respeito e do amor para com os iramos. É para “não sermos pesados a ninguém”. Mas de atenção ao direito, prevalece atenção às condições precárias dos irmãos, que deveriam suportar uma situação pesada do ponto de vista financeiro. A espera do último e definitivo deveria os tornar mais sensíveis e atentos às situações humanas e contingentes dos irmãos e se deixar guiar pela caridade para com eles.
É o contrario do que está acontecendo em alguns deles. Daí, então o posicionamento do apóstolo “ Quem não quer trabalhar, também não deve comer”. Em positivo, coloca si mesmo como referencia “deveis seguir o nosso exemplo, pois não temos vivido entre vós na ociosidade”. É o convite ao bom senso. Nesse sentido ele faz parte de quem entendeu corretamente o significado do último e definitivo oferecido pela morte e ressurreição de Jesus e de sua vinda que, naquele tempo e circunstância, era tido como iminente. O futuro glorioso, não dispensa do amor sincero e eficaz no presente, pelo contrário o exige.
Eis, então, e exortação final “Em nome do Senhor Jesus Cristo, ordenamos e exortamos a estas pessoas que, trabalhando, comem na tranqüilidade o seu próprio pão”. Ao mesmo tempo, é dignificado o trabalho honrado e finalizado à própria sustentação. Assim mesmo é reprovada toda ociosidade e atividade exploradora, enganadora, não ética que significaria a prática da injustiça e uma carga pesada para outros.
O momento da vinda do Ressuscitado fica segredo na vontade de Deus pai. Ninguém sabe. Jesus mesmo afirmou de ignorá-lo. Contudo, o evangelho oferece umas indicações que alertam sobre possíveis enganos e como viver este tempo de espera.

Evangelho Lc 21,5-19

Algumas pessoas manifestam o próprio orgulho pela beleza e grandiosidade do templo de Jerusalém centro da atividade religiosa e política da Nação. Jesus disse: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”. Não é difícil imaginar o constrangimento, o assombro dos ouvintes que se apressam em perguntar “Quando (...) e qual vai ser o sinal”. Deixando de lado o evento histórico da destruição de Jerusalém que acontecerá por obras dos Romanos, com a XII legião de Tito no ano 70 ao qual este texto parece se referir, Jesus indicando que não ficará “pedra sobre pedra” coloca em evidencia que depois de tal evento não será possível reconstruir o passado como seria recolocar as pedras no mesmo lugar e na mesma posição de antes, pois, elas serão separadas de maneira tal que não será possível recompô-las. Ou seja, começará um tempo novo: novo céu e nova terra. Não outro céu e outra terra, mas este céu, esta terra totalmente renovada e transformada.
Acredito que Jesus se refere à vinda ultima e definitiva Dele, após sua morte e ressurreição. De fato, ao respeito, alerta contra o possível engano “Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome dizendo: Sou eu! E ainda: O tempo está próximo! Não sigais essa gente!”.
Acrescenta aqueles sinais que no entendimento geral são premonitórios do fim dos tempos: “guerras e revoluções (...) um pais atacará outro (...) terremotos, fome, pestes coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu”. O engano apontado pelo Senhor consiste em dar credito, em buscar, nesses fenômenos de coisas comuns e terrificantes, que não faltarão no decorrer da história e, também, nas nossas pequenas experiências pessoal, mas que na realidade não dizem nada ao respeito.
Estes eventos pavorosos testemunham a necessidade da intervenção última e definitiva de Deus para implantar definitivamente a realidade do Reino com as características que lhe são próprias. Haverá uma transformação radical. Assim, o sinal do cumprimento de tudo isso não está nos eventos extraordinários e pavorosos, mas na experiência pessoal sempre mais exigente em ordem ao testemunho.
Antes, porém, que estas coisas aconteçam”. Jesus convida colocar a atenção sobre o hoje, o dia -a- dia, e enfrentar devidamente os eventos terrificante e pavorosos que acompanham a testemunha; “ sereis presos e perseguidos (...) levados diante de reis e governadores (...) entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos,parentes e amigos. E eles matarão alguns di vós. Todos vos odiarão por causa do meu nome”.
Acredito que se posicionar corretamente é propedêutico para perceber a certeza da vindoura última e definitiva intervenção de Deus sobre uma realidade. Esta última, bem se mantendo dentro das características comuns sem nenhuma transformação visível e socialmente constatável, tem em si mesma a manifestação da presença e da ação transformadora dessa intervenção orientada ao momento final em virtude do evento Pascual que atingiu de uma vez para sempre a criação. Será o momento no qual, como diz são Paulo “Onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça”(Rm 5,20).
O posicionamento correto é sustentado pela específica presença do Espírito de Cristo, o Espírito Santo, “eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater”. É na certeza dessa promessa que o discípulo deverá fazer própria as indicações de Jesus e encarar o apavoramento como ocasião “em que testemunhareis a vossa fé” e não dar excessiva importância a sua condição pessoal. Por outro lado, Jesus mesmo garante de que “vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça”. Evidentemente, não se refere materialmente ao cabelo em si, nem diz respeito ao corpo, pois, os tratamentos judiciais da época eram massacrantes e até testemunham de mortes prematuras e dolorosas. Refere-se a que nada será perdido perante e na presença de Deus,metaforicamente, for só um cabelo.
Eis, então, a conclusão: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”. É a atitude primeira e fundamental da existência. Firmeza é ato da vontade de quem está como encharcado do mistério da morte e ressurreição de Jesus pelo qual como dirá são Paulo “Por ele- Jesus- o mundo está crucificado por mim, como eu estou crucificado para o mundo”(Gl 6.14).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

TODOS OS SANTOS (7-11-10)

1ª Leitura Ap 7,2-4.9-14

O anjo de Deus marca “na fronte os servos do nosso Deus” ,antes da ação transformadora da terra e do universo.É a “marca do Deus vivo”com a qual Deus reconhece a autenticidade e valor daqueles que agiram como seus servo.Obedientes e cumpridores das exigências da Aliança, estes deram testemunho de fidelidade ao projeto Dele. Ser marcados significa, também, que pertencem a Ele, e é reconhecido como Senhor da Vida, do qual tudo procede e ao qual tudo tem sua meta e seu fim.
Os 144.000 é um número simbólico. É 12x12x1000 que na linguagem bíblica significa todos. Com efeito, no versículo seguinte (v.9) fala-se”de uma multidão imensa de gente...que ninguém podia contar” frisando a universalidade dos servos e ,portanto, da salvação.
O texto se refere ao que acontecerá no final da historia, com a volta do Ressuscitado, como Jesus mesmo prometeu antes de voltar ao Pai. É um texto escatológico que descreve -de maneira simbólica - a última e definitiva intervenção de Deus sobre a criação a humanidade e a história, o que comumente chamamos “fim do mundo” . "Estavam de pé”, atitude de respeito, de prontidão, manifestando com suas roupas e palmas a realidade de condição de servos. Com efeito, “trajavam vestes brancas... pois, lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” . As vestes se tornaram por acreditar nos efeitos da morte e ressurreição do Cordeiro. Foi esta fé que assumiram a condição de novas criaturas. O inciso: “ Traziam palmas na mão” aponta que foram fieis até o martírio,pois "Esses são os que vieram da grande tribulação” derramaram o próprio sangue.
Impressionante o testemunho deles: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro” Reconhecem que Deus, sacrificando o próprio filho- o Cordeiro que tira o pecado do mundo- é origem e causa da salvação deles, por eles terem aceitado e interiorizado este presente de Deus. Com isso, suscitou- se neles a determinação de seguir o Cordeiro, que os tornou novas criaturas e fieis até o martírio. Assim, no final dos tempos, proclamam “com voz forte” o certo e a conveniência daquela determinação que, por passar pelo crivo das provações e perseguições, fez deles participantes da mesma glorificação do Cordeiro.
Eis, portanto, traçado o perfil do caminho de santidade. Todo cristão é chamado e ela por aceitar o dom de Deus, selado pelo Batismo, alimentado pela Eucaristia e vivenciado na prática do Evangelho no dia- a dia- em virtude do qual a Boa Noticia do Evangelho se torna Boa Realidade nos relacionamentos familiares, nos relacionamentos na comunidade, no serviço, na convivência da sociedade civil, na preocupação pela justiça e o direito entre os povos,ou seja,nos relacionamentos do dia-a-dia.
Mas, também, o caminho de santidade é forjado pela oposição de pessoas e instituições que pensam e agem de maneira contrária. Daí o choque, o conflito e até... o martírio, razão pelo qual muitos desistem ou até nem de longe pensam permanecer nisso.
O que determina a pessoa nesse caminho é o que comentaremos na 2da leitura.

2ª Leitura 1 Jo 3,1-3

Ponto de partida é o “grande presente de amor (que) o Pai nos deu” com a entrega do próprio Filho- o Cordeiro que tira o pecado do mundo-. A aceitação, o botar para dentro no coração, dessa verdade consiste em acreditar nos efeitos atualizados daquela entrega. Assim, ela nos torna filhos de Deus.Com ênfase o texto frisa:”e nós os somos!”como para convencer de algo que ultrapassa de muito toda expectativa e imaginação: de pecadores, afastados e inimigos de Deus á filhos...somos filhos no Filho! Eis, pois, o grande presente pelo qual os pecados da desconfiança, da superficialidade, da desvalorização, do desinteresse, da oposição e até da rejeição da preocupação, da promessa e da ação de Deus são desmanchados. Em virtude disso, é resgatada a amizade,a familiaridade a comunhão com Deus, a dignidade de filhos por meio do Filho:numa palavra a salvação.
O conteúdo específico e fundamental da fé é exatamente isso!Ela sustenta e alimenta a esperança de maneira tal que: ”Todo o que espera nele...” por acreditar nos efeitos do presente “purifica-se a si mesmo”. Eis, portanto, o processo de purificação interior, de algo que acontece em nós,com nós mesmos e por nós mesmos ,quando nos colocamos em total,humilde e sincera transparência no mais profundo de nós mesmos com esse surpreendente dom de Deus. É aí que recuperamos nossa identidade, nosso verdadeiro ser e, com eles , o sentido profundo de nossa existência que se desdobra,com satisfação plena, nos acontecimentos e nas atitudes coerentes do dia-a-dia.
O texto acrescenta algo ainda mais surpreendente: "como também ele é puro" . Parece uma meta impossível , e como tal é descartada de antemão...Contudo,é algo que nos fascina,que motiva a esperança,que sustenta um futuro que não é tão impossível, considerando que Ele assumiu nossa condição humana e caminha conosco. Entre outras coisas, essa meta oferece sonhar alto para que a vida tenha aquele horizonte, aquele futuro que dá sentido ao presente e sustente cada atitude coerente.Tudo isso nos é oferecido por esse “grande presente de amor que o Pai nos deu” .
Por outro lado, sabemos que nem todos compartilham esse entendimento. O texto define estes como “mundo” que não “conheceu o Pai” Um mundo, um desconhecimento que não é estranho a nos mesmo, mais que age em nós e toma conta de nós em determinados momentos e circunstâncias. Daí, então, a necessidade de voltar á esperança purificadora,ou seja,ativar o processo de conversão permanente,mergulhando, com renovada fé, no grande presente de Amor através da Palavra e dos Sacramentos,especialmente da Missa.
Sinal do bom andamento do processo é a confrontar com o texto do Evangelho.

Evangelho Mt 5,1-12ª

É o famoso texto das bem-aventuranças. Como soaria o texto substituído o termo bem-aventurado por parabéns?Pois, disso mesmo se trata. Jesus ensina aos discípulos o que merece ser parabenizado: “ Jesus começou a ensiná-los” Mas, parabéns de que? Por serem pobres, aflitos, mansos, por promover a paz num mundo hostil... Por serem perseguidos,caluniados etc.? Quem se atreveria em falar isso a uma pessoa nessa situação? Parabenizamos todo o contrário... Como entender isso?
Estamos no pleno paradoxo do Evangelho: a verdade se manifesta no seu contrário... Jesus fala para aqueles que assumiram para valer a causa dele, a missão dele:“...por causa de mim “ Eles assumiram a causa como resposta de amor ao grande amor do qual falamos na 2da leitura. Trata-se de pessoas profundamente tocadas e transformadas por este amor. Em virtude disso, o viver delas é Cristo, é se tornar, com humildade, testemunhas da continuação da presença de Cristo na história e nas circunstâncias concretas do dia-a-dia.
Nesse sentido Jesus está passando para eles o que é, e será, a experiência Dele no desenvolvimento da missão. Assim o discípulo experimentará todo o que Ele experimentou como homem, como pessoa, como Filho do Pai. Então, o discípulo experimentará o que é ser homem, o que é ser pessoa e o que é ser filho de Deus- filho no Filho como tocamos na 2da leitura-. Dai os parabéns.
Assim, o texto pode ser entendido como a peneira que discerne até que ponto somos realmente discípulos de Jesus. É evidenciado, assim, o grau de percepção e da vivencia “do grande presente de amor que o Pai nos deu” (2da leitura) assim como a consistência,ou menos, da realidade de filhos de Deus.
O texto deve ser assumido como um todo. Não dá para pensar uma bem- aventurança desligada da outra... não dá por exemplo, ter fome e sede de justiça...e ter um coração com segundos fins,com segundas intenções, um coração impuro...
Assim, o entusiasmo por uma bem- aventurança e a frieza por com a outra; a prática significativa de uma e a prática insignificante da outra, determinam concretamente o espaço da conversão no processo de recepção do grande presente de amor e de identificação em Cristo.
Tudo isso nos diz que o processo de santificação é inesgotável, nos acompanha a vida toda e constitui a experiência da profunda alegria nessa vida, mesmo passando pelas dificuldades e provações que o texto aponta:”Alegrai-vos e exultai” se refere aqui e agora porque, misteriosamente, esse tipo de sofrimento tem e si mesmo essa verdade.É se alegrar interiormente pelo sentido de plenitude e satisfação de quem experimenta o acontecido como oportunidade de crescimento,de integração, de identificação com o que é ser pessoa bem sucedida e,na transparência, enxergar a presença que faz dela e de Cristo uma realidade só,mantendo as devidas diferenças.