1ª leitura Is 11,1-10
“Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor”. A alusão ao “tronco” e à “raiz” de Jessé faz supor que a dinastia do rei Davi irá acabando. Contudo, o oráculo assegura, na continuidade da dinastia, a fidelidade divina às promessas. Ao apresentar, porém, a característica do verdadeiro rei descreve o que se realizará no Messias.
“Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de discernimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus”. São os dons do Espírito Santo que no sacramento da Confirmação são passados aos crismados. Portanto, o Messias será um sujeito plenamente disponível à vontade de Deus através a ação do Espírito nele.
Cabe frisar o inciso “no temor do Senhor encontra ele o seu prazer”. Com isso, a atitude dócil, reverencial e amorosa, pela ação do Espírito à vontade de Deus, será motivo e fonte de grande satisfação e até de prazer. Para alcançar esta atitude é preciso se despojar do próprio projeto, das próprias expectativas e desejos, como quem não constrói, nem planeja, não projeta atribuindo a tudo a característica de conformidade à vontade de Deus.
Mas, se dispõe a modificar o que pensou e esperou em virtude da realidade concreta que lhe se apresenta e obrar nela e sobre ela com os critérios de Deus, com as atitudes sugeridas naquele momento pela ação do Espírito. Significa ter e cultivar a “infância espiritual” própria de quem se deixa conduzir, momento por momento, como a criança que confia plenamente no pai, pelos rumos que lhe são apresentados. Esperava uma coisa e se apresenta outra. Tudo bem, só indagar e perceber como se comportar o que assumir ou rejeitar, pensando e agindo conforme ao critério de Deus sugerido pelo Espírito, sustentado por essa docilidade, por essa “infância espiritual”.
Só dessa forma desenvolverá a missão com as atitudes certas “Ele não julgará pelas aparências que vê nem decidirá somente por ouvir dizer” cujos efeitos será a “...Justiça (...) uma ordem justa (...) destruirá o mau”. Eis, então, retrato o perfil do Messias como quem ,dessa maneira, “Cingirá a cintura com a correia da justiça e as costas com a faixa da fidelidade”.
Com efeito, a pratica da justiça e a perseverança na fidelidade constituem os elementos fundamentais, irrenunciáveis, do cumprimento e realização da Aliança e com ela a implantação do reino de Deus entre os homens. A poética descrição a continuação “O lobo e o cordeiro viverão juntos (...) vers. 6-8” manifestam a harmonia da criação. O que agora é contraposto e hostil se tornará o que a mente e expectativa humana não se atrevia pensar nem supor.
Até o maior inimigo será vencido “Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte”. E, em positivo, “a terra será repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar”. Será o triunfo da raiz do Jessé- o Messias- que “se erguerá como um sinal entre os povos”- como não pensar no Ressuscitado?- “e gloriosa será a sua morada”.
A Promessa, selada pela Aliança no Sinai, terá sua plena realização. Valeu esperar, já se aproximando dessa realidade de maneira conveniente, como indica a segunda leitura.
2ª leitura Rm 15,4-9
“acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus”. Cabe se perguntar: Em que consiste a glória de Deus em virtude da qual devemos acolher? Um grande teólogo do segundo século depois de Cristo respondeu: “A glória de Deus é que o homem viva e a vida do homem é glorificar a Deus”. Com efeito, a vida à qual se refere esta afirmação é a que brota e toma consistência por ter sido acolhida anteriormente por Cristo, com todos seus defeitos e pecados, para ser redimida e resgatada. Portanto, aceitar de ter sido aceito e justificado perante do Deus Pai, por ter sido acolhido por Cristo, é o alicerce da verdadeira vida, é o que faz viver a pessoa na glória de Deus.
Sabemos em que consistiu e o preço desse acolhimento “Cristo tornou-se servo (...) para honrar a veracidade de Deus, confirmando as promessas feitas aos pais”. Com isso, ele se tornou modelo do acolhimento entre os homens. Pois, o mesmo exercício manifesta a glória de Deus atuante entre os homens. Portanto, como dizia o teólogo acima citado, a vida do homem é glorificar a Deus, no sentido de redesenhar, refazer, reconstruir os relacionamentos como se eles fossem outro Cristo. O ter sido aceito por Ele, a consciência dessa mesma aceitação - que é o próprio do conteúdo da fé - sustenta a identificação com Cristo que os capacita na mesma missão Dele e que Ele mesmo lhes confiou.
Nesse processo é importante para o seu correto desenvolvimento se referir ao que “foi escrito para a nossa instrução” e ser sustentado “ pelo conforto espiritual das Escrituras”. Portanto, é preciso não descuidar nem desvalorizar o estudo e o aprofundamento das Escrituras, sob pena de estancar o processo de crescimento ou até de retroceder e desviar.
O conforto espiritual consiste na ação do Espírito que ilumina o significado do que Cristo realizou com sua morte e ressurreição à luz dos textos do Antigo Testamento. Estes textos eram as Escrituras a disposição de Paulo, pois, ainda não existiam os textos do Novo Testamento. Após o evento da morte e ressurreição de Jesus, os discípulos relendo os textos do Antigo Testamento, por ex. os 4 Cânticos do servo de Yavé, perceberam , com surpresa, que tudo isso se cumpriu na pessoa de Jesus. Daí, então, o conforto espiritual, a certeza de estar no caminho certo e a força motivadora que isso proporciona.
Conseqüentemente, o discípulo experimentará a constância e o conforto como dom de Deus “O Deus que dá constância e conforto vos de a graça da harmonia e concórdia, uns com os outros, como ensina Cristo Jesus”, cujos frutos amadurecidos serão a harmonia e a concórdia nos termos indicados pela primeira leitura. Com outras palavras, será descobrir o tesouro escondido do reino de Deus já presente no meio de nós.
Com isso a certeza do cumprimento da promessa de Deus “feita aos pais”, que teve uma primeira expressão e manifestação com a morte e ressurreição de Cristo e terá sua implantação definitiva e última com a vinda do Ressuscitado, será motivo de consolidar a esperança e fazer dela uma realidade cada vez mais firme e consistente.
A realidade do Reino é central na pregação do João Batista do evangelho.
Evangelho Mt 3,1-12
João Batista anuncia a grande expectativa do povo: a proximidade do reino “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Entre parêntesis, Reino dos Céus e Reino de Deus são sinônimos). Condição para participar dele é a conversão, visibilizada pelos frutos correspondentes “Produzi frutos que manifestem a vossa conversão”. Não se trata de sentimentos ou de bons propósitos, mas de atitudes, de comportamentos em sintonia com as exigências da Lei. São frutos decorrentes da prática da justiça e do direito, que estabelecem e configuram o povo de Deus libertado da escravidão do Egito e consolidado pela vivencia entre eles da libertação: livres para libertar todo ser humano de todo o que o oprime desde as necessidades básicas às exigências do amor fraternal.
João lembra o que já todos sabem. O reino será implantado pelo Messias, enquanto “Ele-o Messias- está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”. Será manifesta a “ira que vai chegar” e da qual de jeito nenhum ninguém poderão fugir.
Nem será argumento válido se apelar à descendência: “Não penseis que basta dizer: ’ Abraão é nosso pai’, porque eu vos digo, até mesmo destas pedras deus pode fazer nascer filhos de Abraão” Entre parêntesis, o mesmo vale enquanto ao nosso batismo. Não é suficiente batizar simplesmente as crianças ou os adultos e com isso pensar de “estar bem com Deus” por ter feito a própria parte.
Perante a iminência desta realidade assustadora “Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia (...) confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão”. Pois, a perspectiva de acabar “no fogo que não se apaga” não é agradável para ninguém. Mai ainda, com a ameaça iminente de que “O machado já está na raiz das árvores, toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo”. Há como uma pressão em proceder rapidamente e com determinação, pois, o tempo se faz curto, não há como demorar!
Contudo, a idéia de João Batista com respeito à missão do Messias e à implantação do reino dos céus, está muito aquém daquela que Jesus desenvolverá e realizará. João Batista declara a superioridade do Messias com respeito a ele mesmo “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu (...). Ele vos batizará com o Espírito santo e com fogo”. Mas, entende e interpreta tudo isso dentro da expectativa dele, ou seja, o premio para os convertidos e o castigo eterno para os outros. O Messias dividirá o povo em dois blocos; Salvação para uns e condenação para outros.
João Batista manifesta a concepção do Antigo Testamento com respeito ao cumprimento da Lei mosaica estabelecida como sinal da Aliança no Sinai, á qual ninguém poderá fugir. A mesma idéia de ressurreição do Antigo Testamento visava a isso. Se alguém pensasse que com a morte tudo acabasse e pudesse desta forma fugir ao juízo da Lei, o Antigo Testamento responderá que não. Ele será ressuscitado para ser julgado conforme à exigência da lei. Ninguém poderá se subtrair a ela. A conversão imediata era a última chance oferecida antes da catástrofe final e irreversível.
A atuação de Jesus irá muito além. Ela provocará um grande desconcerto na pessoa de João como indicado no evangelho do próximo domingo.
De toda maneira, fica atual a urgência da conversão, não no âmbito do entendimento da lei, mas à realidade e conseqüências da morte e ressurreição de Jesus.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
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