segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

EPIFANIA DO SENHOR- 2-1-11

1ª Leitura Is 60 1-6.

Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando forte”. Experiência sumamente gratificante. Gostaríamos de permanecer constantemente nela. Ela motiva o sentido profundo e verdadeiro da existência de todo ser humano. É o que, por diferentes caminhos, todos desejam e buscam. Ela está ao alcance de todos, embora esteja a “terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos” com sua carga de sofrimento, de sensação de estar num beco sem saída, e, portanto, sem futuro e sem esperança.
Contudo, ela está disponível “porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor... e sua glória já se manifesta sobre ti”. Dai o convite: “Levanta-te, acende as luzes”, o imperativo e a ordem: Levanta-te, com outras palavras, deixa as trevas e as nuvens escuras da existência enganosa, falsa, porque sedutora e desviante. Olha a luz no interior e profundo do teu ser, porque como diz o salmo “na tua luz nós vemos a luz”, pois, a luz que ilumina teu novo ser e teu novo dia já está aí, na pessoa do Salvador “sua glória já se manifestou sobre ti”.
Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” O sujeito é a pessoa (também a comunidade) revestida por essa luz e glória do Senhor. Ela se torna tão expressiva e significativa de surpreender até ela mesma, pois, “todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços”. Daí, a alegria e o júbilo, pois, ficarás radiante e com o coração batendo forte. Mais ainda, constatando que com eles chegarão outros povos, outras nações, com suas riquezas “pois com eles virão as riquezas e mostrarão o poderio de suas nações” . Portanto, a percepção e o sentimento da universalidade da salvação dependem de “ levantar- se”, de abrir os olhos e acolher a luz e ser luz, de viver coerentemente e em sintonia com ela e se tornar luz das nações.
O efeito será “uma inundação de camelos e dromedários... virão todos trazendo ouro incenso e proclamando a glória do Senhor”, ou seja, a experiência da harmonia e da paz universal. Assim, a fraternidade universal será o reconhecimento, o sinal, da presença da glória do Senhor que motivará a partilha dos bens materiais- o ouro- e o correto louvor a Deus- o incenso-.
Parece-me desnecessário frisar esta festa como oportunidade para avaliarmos, como pessoas e como comunidade, as concretas atitudes do dia -a- dia, dentro e fora da comunidade, com respeito à humanidade toda, portadora de grandes desafios, marcados pelos diferentes povos e diferentes culturas, que desafiam a evangelização e a convivência na pratica do direito e da justiça.
Com efeito, a vocação cristã tem a dimensão que abrange a humanidade toda. É preciso, portanto, pensar globalmente para agir localmente e ter consideração para com a humanidade, como a única família de Deus. Nesta perspectiva, a festa de hoje é entendida no horizonte da fraternidade, do respeito, da diversidade, do direito e da justiça, ou seja, do acontecer do reino de Deus.
A luz e a Glória de Deus que já brilha sobre nós, têm o conteúdo que analisaremos na 2da leitura.

2da leitura Ef 3,2-3ª.5-6.

Se ao menos soubésseis” É desejo profundo do coração de são Paulo que os destinatários da carta adquiram o conhecimento do que ele estima de grande importância e imprescindível para o alicerce e o fundamento do autentico saber sobre o qual d construir para experimentar com ele a “ graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”.
Assim, o conhecimento é graça, é dom de Deus, que se desdobra no esforço, no trabalho, na instrução, no testemunho para contribuir ao plano de salvação de Deus com respeito aos destinatários e, por conseguinte, à humanidade toda. A dedicação, a teimosia, os sofrimentos, as lutas, os êxitos e os fracassos e, enfim, a morte dele, testemunha como este dom foi acolhido e devolvido a Deus, com a finalidade de fazer conhecer aos homens de todos os lugares que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus cristo, por meio do Evangelho”.
Importante é devolver o dom, para que ele cresça em quem o transmite assim como em quem o recebe. Concretamente, são Paulo assumiu a mesma causa de Cristo a favor da salvação da humanidade toda, derrubando todo tipo de barreira e implantando os critérios da verdadeira fraternidade. Tudo baseado no significado e no efeito da ação, da morte e ressurreição de Jesus Cristo, nos quais são mergulhados todos aqueles que, pela fé, aceitam este presente por meio de Evangelho, ou seja , do evento da sexta- feira Santa e do domingo de ressurreição . Ele, o evento, é a boa noticia do resgate e da redenção que se tornou boa realidade. Assim, a pregação, a aceitação, a memória- celebração daquele evento atualiza os mesmos efeitos e faz as pessoas participes da herança, do mesmo corpo e da mesma promessa.
Mais ainda, tudo isso constitui o que Paulo chama de mistério, manifestado a ele “por revelação tive conhecimento do mistério... (que) Deus acaba de revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas”. Ele teve conhecimento disso na porta de Damasco, quando a luz do mistério o envolveu. Assim, que quando Paulo fala de mistério, no entende, em primeiro lugar, uma realidade desconhecida e inacessível que fica tal, mas o evento pelo qual de forma misteriosa a pessoa é envolvida ,iluminada e transformada, e faz da causa de Cristo a própria causa de vida.
Isso se deve à ação do Espírito, a eterna presença do Ressuscitado em nós. Ele revela a presença do Ressuscitado na pessoa de coração aberto, humildade e consciente das próprias faltas e pecados, que aceita o dom gratuito da própria redenção, do próprio resgate, perdão, salvação etc. operado por Cristo. Estas pessoas são os santos, não em sentido ético, mas em sentido que são renovados, transformados na profundidade, na estrutura do próprio ser. Para usar uma comparação, são como a pessoa refeita, sarada e renovada, após sofrer o atropelamento esmagador e sem possibilidade de concerto. É o que acontece na celebração da Missa... Ela é sempre a mesma... mas o efeito é sempre novo.
Para chegar a essa interiorização, para botar para dentro no coração a verdade deste dom, é preciso o caminho sintetizado pela experiência dos magos, como comentaremos no evangelho.

Evangelho Mt 2, 1-12

O texto apresenta estes misteriosos personagens - genericamente indicados como magos, sábios- ,sem especificar a origem de onde vem e sem relatar o que a experiência deles trouxe e significou para os povos de origens quando “retornaram para a sua terra”. Cabe pensar que o texto quer destacar simplesmente o motivo e as características do caminho deles.
O motivo: “Nós vimos a sua estrela de Oriente e viemos adorá-lo” A percepção de um sinal, interpretado como revelador da grandeza e importância do nascimento de um menino, suscita a determinação de chegar até ele e manifestar a própria atitude de adoração. Que descobriram, mais concretamente, naquele sinal- a estrela- não é dito. Deve ter sido algo muito forte para motivar numa viagem tão singular. Tal vez, o texto seja como uma parábola, mais que um evento real, pretendendo passar a mensagem que aquele menino é luz e imã para todas as nações indistintamente.
De fato, hoje a estrela é a Ressurreição de Jesus. É sábio, portanto, investir na viagem para chegar perto dele, experimentar a sua presença e adorá-lo.Trata-se de viagem por caminhos desconhecidos, tal vez, inexplorados. Portanto, a estrela é sinal de promessa, de algo inédito, de esperança, que suscita a coragem de arriscar na certeza que levará a bom fim, ao encontro com aquele que é preciso adorar.
Caminho andando, a estrela desparece. Não há registro de desconcerto, de pânico, de sentimento de frustração, de decepção, de vontade de desistir ou de voltar atrás. (Isso é particularmente significativo para a nossa caminhada. Quantas vezes, dificuldades, provações de todo tipo motivam- erroneamente- a desistência ou o desvio do caminho).
Pelo contrário perguntam a quem supõem pode dar uma indicação: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” Receberão a resposta certa e, ao mesmo tempo, mexerão- involuntariamente- com uma situação que desembocará na matança de inocentes... Êxito por uns- os magos- e morte prematura e injusta para outros ( este último aspecto é fruto da ambigüidade humana e da falsidade do governante. Quando se associam poder e medo o resultado é a matança dos inocentes...). É algo que deixa desconcerto, difícil de entender.
Contudo, a persistência a perseverança e, sobretudo, a determinação são premiadas “Depois... eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”. E não era para menos, evidentemente. Chegaram à meta! Valeu.Tributaram-lhe a homenagem “e lhe ofereceram ouro (para o rei), incenso (para o Deus) e mirra (é a bebida da paixão, antes de morre na cruz)”.
Todo cristão consciente pode se espelhar no caminho destes misteriosos personagens - os magos-, assim como todo homem de boa vontade na procura da verdade e do sentido último e verdadeiro da existência.
Na luz, na estrela, da morte e ressurreição há o DNA da convivência entre os povos e as diferentes etnias e a manifestação da autentica expressão religiosa que motiva e sustenta a comunhão, a fraternidade universal, no respeito das diversidades .
O futuro de Deus se faz presente nesta festa universal, o acontecer do reino que há como seu eixo a pessoa de Cristo ressuscitado. Com efeito, é tradição que nesta festa a igreja anuncie a data da Páscoa de Ressurreição.

domingo, 19 de dezembro de 2010

NATAL 2010 (missa da noite)

1a leitura Is 9,1-6

“"O povo, que andava na escuridão (...) os que habitavam nas sombras da morte” e as pessoas estão oprimidas pela “ carga sobre os ombros” e ameaçadas pelo “ orgulho dos fiscais". Com estas palavras é evocada a triste siutação do exílo. Nele as pessoas não tem futuro, a não ser o da escravidão e do sofrimento. Não há esperança de que algo possa mudar em melhor, não há alegria, pois recitará o salmo: “como cantar cantos de Sion em terra estrangeira?”.
É a situação de muitas pessoas e de povos inteiros na atualidade, pela qual se tornaram exiladas e estrangeiras na própria terra, devido à prepotência dos poderosos e a pratica da injustiça das autoridades, à corrupção generalizada que isola as pessoas pela desconfiança de um para com outro, e torna impossível o satisfatório relacionamento humano.
Em muitos há resignação, acompanhado por um sentimento de impotência e de falta de esperança, assim como prevalece a indiferença e o pessimismo por toda proposta e esforço de procurar um remédio. Há refugio no individualismo e no circulo reduzido, muito pequeno, de pessoas confiáveis.
Cada ano, na circunstância do Natal, retorna as palavras “O amor zeloso do Senhor dos exércitos” em virtude do qual “Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para sempre”. Surge a pergunta: o “zelo” foi a toa? Um bom propósito destinado a entrar nas categorias das ilusões? Por alguns aspectos a resposta é afirmativa, considerando as diferentes formas de degrau moral e social que cada dia os meios de comunicação apresentam.
O que mais chama a atenção é a insistência, a teimosia, a firmeza em apresentar a ação de Aquele cuja presença mira consolidar e reforçar o reino “em justiça e santidade, a partir de agora e para sempre”. Por outro lado, as Escrituras afirmam que o reino está presente em forma escondida e discreta no mundo, portanto, perceptível em determinadas condições.
Parece-me que o reino pode ser percebido na luta pela justiça e pela verdade, na defesa dos direitos e da dignidade da pessoa, na resistência a cada intento de opressão e desrespeito humano. Assumindo estes comportamentos, se realiza o choque dramático e violento do qual faz referencia o texto à experiência de Gedeão (Jz 7) “Pois o jugo que oprimia o povo –a carga sobre os ombros o orgulho dos fiscais- tu os abateste como na jornada de Madiã".
O reino se faz presente na(s) pessoa(s) que assume, e permanece fiel, ao estilo de vida que impõe não assumir as atitudes violentas e opressoras acima indicadas (resistência ativa). Também, não se dobra àqueles que, pelo contrario, as justificam e as praticam, mas, pelo contrário, tem a coragem de proclamar a verdade e a justiça sofrendo todo tipo de retaliação(resistência passiva). Este comportamento a levará ao choque que poderá assumir momentos dramáticos e violentos “Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas” até sofrendo a derrota e a morte prematura.
Para esta pessoa não haverá gratificação alguma, pois a esperada transformação social e individual será afundada no fracasso completo. Ficará só a teimosia, humanamente incompreensível, absurda, ingênua, fora da realidade. É o que aconteceu com o Messias e sua crucificação.
Contudo, nisso estava escondido o que ninguém esperava: a vitória sobre o pecado e sobre a morte mesma. Não se dobrando, resistindo até a morte, tudo foi “queimado e devorado pelas chamas”. Jesus dirá “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!...”(Lc 12,49-50) aludindo à sua morte e ressurreição. É desta forma que acontece o reino na pessoa Dele. O mesmo acontecerá no verdadeiro discípulo. O acontecer é a luz que ilumina a treva da vida, agora e sempre.
Eis, então, a ternura do nascimento “Porque nasceu para nós um menino, foi-lhe dado um filho”, em total contraste com o quadro anterior de forte violência. Mas isso é só aparência porque “traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: conselheiro admirável...” A tremenda “marca da realeza” consiste em se deixar desmanchar em nome da resistência ativa e passiva. É “conselheiro admirável” por convidar segui-lo no mesmo caminho.
Eis, então, a grande luz nas trevas e seus efeitos “O povo (...) viu uma grande luz(...) Fizeste crescer a alegria, aumentaste a felicidade(...) Grande será seu reino de paz (...)O amor zeloso do senhor há de realizaras coisas” . Não é fácil entender e aceitar tudo isso, pelo paradoxo que encerra em si mesmo
Esta singular união nascimento -morte é retomada na 2da leitura.

2da leitura Tt 2,11-14

A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens”. A Graça de Deus é Jesus mesmo. O nascimento dele traz o processo e o caminho de salvação que será selado com sua morte e ressurreição. Nele acontecerá, objetivamente, o resgate da humanidade e de cada pessoa de todos os tempo e lugares, pois, “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença”. Trata-se daquela vitória estrepitosa, dramática e violenta da primeira leitura.
Não se trata só de resgate, mas de constituição e de formação da nova realidade que consiste em “purificar para si um povo que lhe pertença” no qual Ele- o Cristo- se reconheça como Senhor. Acredito que a purificação ao qual se refere seja em primeiro lugar a fidelidade ao dom do resgate e a conseguinte determinação de viver e caminhar na nova realidade por ele inaugurada, sem segundos fins.
Trata-se da identificação radical pela qual, eventuais fraquezas, incongruências ou caídas não constituem propriamente vontade de desviar, de abandonar ou renegar o dom recebido, mas simplesmente é expressão da fraqueza e do limite humano. Portanto, a ação conseguinte será o arrependimento e a correção. Nisso o Senhor pode se reconhecer como tal, como aceito, intimo familiar, amigo e perceber que estas pessoas lhe pertencem, porque Nele esta o principio, o caminho e a meta de referencia delas, apesar dos momentos de fraqueza...
Mergulhados nessa realidade, por um lado, “Ela nos ensina abandonar a impiedade e as paixões mundanas e viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade”, e pelo outro lado, cria as condições para que a pessoa e o povo “se dedique a praticar o bem”.
Este mergulho faz crescer a motivação e a atitude de “aguardar a feliz esperança”, na certeza do acontecer do evento último e definitivo de Deus, o verdadeiro Natal que espera, ou seja, “ a manifestação da glória do nosso grande deus e salvador, Jesus Cristo”.Com outras palavras, o passado (o resgate), o presente( nos ensina) e o futuro ( a esperança) abrangem o eterno evento de Deus na historia.
História que , enquanto manifestação do evento, tem seu ter seu ponto inicial no nascimento de Jesus em Belém.

Evangelho Lc, 2,1-14

Maria deu à luz o seu filho primogênito”. Se não for pela ressurreição deste filho, ninguém teria prestado atenção e consideração ao nascimento dele em Belém. Mais um entre bilhões... O evento pascal orientou os refletores da humanidade sobre ele. Foi então que os discípulos e os seguidores perceberam a especial singularidade do menino.
Um menino comum, um ser individual comum, e Deus são a mesma pessoa. Pois é afirmado pelas Escrituras que em Jesus está toda plenitude de Deus. Foi, e ainda é, um quebra cabeça pela compreensão humana, mesmo iluminada pela fé como é a reflexão teológica, combinar na mesma pessoa a subsistência do homem verdadeiro e do Deus verdadeiro.
De toda maneira, esta singularíssima realidade coloca a pessoa no horizonte humano e divino simultaneamente. Trata-se de um salto qualitativo enorme, que confere a toda pessoa a verdadeira e definitiva identidade, implantada objetivamente, como semente na terra, pela ressurreição do Crucificado. Semente que deverá ser cultivada de maneira tal que a imagem se torna cada vez mais semelhante a quem a imprimiu. Fomos criados a “imagem” e chamados a se tornar “semelhança” de Deus. Se Deus se fez homem, então o homem pode se tornar “como deus”, conforme a famosa expressão do Genesis.
Pergunto se não é essa a “glória do Senhor” que os anjos cantam sobre a manjedoura da humanidade e “envolveu de luz” os pastores de então ( considerados pela teologia moral de então excluídos do reino por levar os rebanhos sobre terrenos alheios), e os correspondentes “pastores”de hoje.
Com certeza, a proposta deste tipo gera temor “eles ficaram com muito medo. O anjo, porem, disse aos pastores: Não tenhais medo! (...) Hoje, (...) nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”. É notável que não diga: Jesus filho de Maria, mas Cristo Senhor, ou seja, o titulo que lhe compete como Ressuscitado.
Acolhendo o convite e se dirigindo ao lugar do evento “na cidade de Davi”, o que era motivo de grande temor se converte no encontro muito humano, cheio de familiaridade e de ternura “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado muna manjedoura”. Com isso, o relacionamento entre o humano e o divino adquire sua estrutura permanente, no sentido que o profundamente humano é divino e o profundamente divino é humano. Trata-se do “hoje” a da salvação. Não é só um dado cronológico, é a determinação do evento que acontece aqui e agora , pela fé, em todo lugar e em todo tempo.
A atitude dos pastores indica o caminho de conversão. A pesar do medo pela manifestação do divino por um lado e a surpresa pelo outro, não fogem nem ficam com o pé atrás. Acolhem o anuncio e a exortação do anjo de ir a Belém. Chegam à meta indicada e acontece a inesperada experiência de humanidade e de ternura. Nela percebem a manifestação da glória celestial e o significado do evento: “O amor zeloso do Senhor” que indicava a primeira leitura.
Mais na frente o evangelista anota “Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito”. Neles realizou-se o Natal. Lembro da frase do grande teólogo do segundo século Santo Irineu “A glória de Deus é que o homem viva, e a vida do homem é louvar a Deus”. A união entre o humano e o divino.

FELIZ NATAL. Que o Deus da Vida os faça adiantar neste caminho: O eterno Natal ao nosso alcance, pela graça de Deus.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

4to DOMINGO DO ADVENTO-A-(19-12-10)

1ª leitura Is 7,10-14

O Senhor falou com Acaz”. A dinastia do rei Davi, à qual estão ligadas as promessas, está em perigo. Os reis de Aram e de Israel querem eliminá-la, colocando no trono o filho de Tabel. Em lugar de pedir o auxílio de Deus, Acaz faz imolar aos ídolos seu único filho (2 Rs 16,3) e procura aliança com a Assíria.
O profeta quer dissuadir o rei desse absurdo e lhe propõe pedir a Deus um sinal de sua presença “Pede ao Senhor teu Deus que te faça ver um sinal, quer provenha da profundeza da terra, quer venha das alturas do céu”. Mas Acaz não mostra ter fé em Deus e procura disfarçar dizendo não querer tentá-lo “Não pedirei nem tentarei o Senhor”.
Com efeito, o coração do rei já está desviado e determinado para outro caminho. O pecado, caracterizado pela desconfiança, pelo desinteresse à fidelidade da aliança e ao projeto de Deus, o torna como surdo a toda proposta e indicação para voltar ao caminho de Deus e, assim, resgatar a fé que abandonou.
É o que acontece, também, hoje quando toda pessoa se deixa levar por pensamento e ações que gradativa e progressivamente os afastam de Deus. Nela vai se formando como o hábito que torna particularmente complicado voltar atrás. Pois, como indica o livro da Sabedoria, “A sabedoria não entra numa alma que planeja o mal nem mora no corpo devedor ao pecado” (1,4).
Contudo, Deus não deixa de cumprir e ser fiel a sua Promessa, apesar da resposta irritante do rei. No momento da recusa, por parte do rei, da ajuda de Deus, o Mesmo coloca o sinal da presença Dele: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel”.
Deus sabe que afastado dele o povo irá se perder. Portanto, em nome do amor ao povo, por ele libertado da escravidão e conduzido na terra prometida, colocar um sinal certo e seguro da fidelidade Dele, pois, Emanuel significa Deus conosco.
É impressionante a teimosia e o amor de Deus, manifestação do carinho e da vontade de resgate que ultrapassa todo entendimento e expectativa humana. Só uma pessoa que ama muito pode se comportar desta forma. A percepção desse amor que constitui o próprio da força salvadora de Deus.
Contudo, perecebe- se, sem dificuldade, que este sinal é prefiguração de outro que, muitos séculos depois, se revelará com a encarnação do Filho de Deus em Maria.
São Paulo faz referencia a este evento na 2da leitura.

2da leitura Rm 1,1-7

No começo da carta são Paulo se apresenta como apóstolo “por vocação e escolhido para o Evangelho de Deus”, para transmitir e ser com o próprio comportamento a boa noticia de Deus para toda a humanidade. Especifica que O Evangelho - a boa noticia- se refere a uma pessoa específica, ao que ela é, ensinou e fez. Refere-se, evidentemente, à pessoa de Jesus “descendente de Davi segundo a carne, autenticado como Filho de Deus com poder, pelo espírito de santidade que o ressuscitou dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Eis, portanto, frisada a origem descendente de Davi, conforme a primeira litura e a descendência divina, em cumprimento ao que Deus havia prometido “pelos profetas, nas Sagradas Escrituras”.
É por ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado”. O que Paulo é, é percebido por ele mesmo como um dom totalmente imerecido. Com efeito, como demonstra o evento e a recepção por parte dos cristãos de sua conversão, ninguém teria pensado nem imaginado que de perseguidor pudesse se tornar seguidor com a paixão e a determinação que lhe foi própria. O dom é sempre para ser testemunhado, não é para a gratificação e a salvação pessoal, mas para ser transmitido, e , com isso, se concretiza o crescimento para si mesmo e a salvação para quem transmite e para quem recebe,.
Com efeito, o apostolo especifica o fim da própria missão “de podermos trazer à obediência da fé todos os povos pagãos, para a glória de seu nome”. Evidentemente, é o que aconteceu nele, após a conversão no caminho a Damasco. Passou da obediência rigorosa à lei de Moises, à obediência igualmente rigorosa aos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, por meia da qual ele entendeu que Jesus “me amou e se entregou por mim" (Gl 2,20)
A glória de Deus é a vida dos homens, e a vida dos homens é a glorificação de Deus. Esta belíssima intuição do grande teólogo são Irineu, do segundo século depois de Cristo, ilumina o sentido da vida de cada pessoa. Nela, aceitando a salvação oferecida como dom por Cristo, Deus se faz presente como o próprio Senhor, Jesus é tido como referencia e modelo fundamental da vida e o Espírito Santo estabelece a comunhão e a amizade em virtude da qual a salvação se torna realidade. Nisso se manifesta a santidade e a vida de Deus, pois pelo Amor acolhido a pessoa alcança a plenitude.
Percebendo esta realidade a pessoa retorna o dom a Deus em termos de glorificação, pelo louvor e o sincero sentimento de gratidão. É reconhecimento do dom recebido e a manifestação da dinâmica própria do dom, em virtude da qual o devolver é condição para o crescimento na pessoa do dom mesmo. Assim a glória de Deus e a glorificação de Deus pela pessoa participam da mesma e infinita dinâmica e realidade do amor. Mesmo em diferentes níveis, Deus como Deus e o homem como homem, os dois crescem juntos. Isto pode parecer demais referido a Deus, mas se Deus é amor, a dinâmica do amor não é outra. É como o universo em continua expansão, no qual tudo cresce, cada um em sintonia com a própria essência e a própria realidade.
A encarnação do filho de Deus é o começo do processo de glorificação de Deus para com a humanidade e a glorificação da humanidade em Deus, neste singular relacionamento simbiôntico. Sendo todos os povos envolvidos nisso, Paulo frisa que também os destinatários da carta estão no mesmo processo pela obediência da fé “Entre esses povos pagãos estais também vós, chamados a serem discípulos de Jesus Cristo”
Obediência da fé que teve em José uma testemunha muito singular, como relata o evangelho.

Evangelho Mt 1,18-24

José, seu marido,”. O que aconteceu com Maria foi no ano em que os dois ficaram de noivos. Conforme as leis de então, nesta tempo, legalmente são como esposo e esposa, com a diferença de que, pelo ano todo, os dois continuam morando na casa dos próprios pais. Contudo, devem observar todos os direitos e obrigações de esposo e esposa.
José é apresentado como homem “justo”, temente de Deus. Isso o qualifica como obediente pela fé à lei de Deus. Portanto, é próprio dele manter o correto relacionamento com Deus. Parece-me particularmente importante este inciso para entender a atitude e o comportamento dele frente a um acontecimento tão singular.
José “resolveu abandonar Maria, em segredo”. O texto não relata os sentimentos de José perante as afirmações de Maria. Contudo, refletindo sobre a atitude dele, acredito que a resolução dele foi motivada não porque duvidasse da integridade dela, mas por amor a ela e também por respeito à intervenção de Deus sobre ela. Acreditando na verdade da afirmação de Maria, o mais lógico é se retirar, sem querer comprometer a dignidade da amada.
Esta atitude de amor e de fé será confirmada no sonho pelo anjo que o motivará a “receber Maria como tua esposa”, explicando a origem e o sentido daquele evento. O evangelista constatará nisso o cumprimento da profecia de Isaias na primeira leitura “Eis a virgem conceberá e dará a luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco”.
Eis, então, a conclusão coerente e em sintonia com a sua condição de justo “Quando acordou, José fez conforme o anjo do senhor havia mandado, e aceitou sua esposa”.
É notável considerar como um homem comum como José por sua correta atitude moral e sincero cumpridor do temor de Deus se deixa envolver com docilidade no plano de salvação de Deus a favor da humanidade. Ele oferece a contribuição que lhe é próprio com simplicidade e disponibilidade, confiante no Deus no qual acredita.
Depois desaparecerá do relato dos evangelhos. Com efeito, a atenção deles será a vida e missão de Jesus, obviamente. Mas fica esta perola de disponibilidade e de humildade que contribuiu ao desenvolvimento do plano de Deus. A cada um o destaque e o papel que Deus lhe confia...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

3o DOMINDO DO ADVENTO-A- (12-12-10)

1ª leitura Is 35,1-6a.10

A profecia se dirige aos exilados, aqueles que foram deportados em terra estrangeira pelo rei de Assiria. O exílio foi um duríssimo golpe, um trauma, para o povo. Não só pelo exílio em si mesmo, mas por voltar à experiência da escravidão em terra estrangeira, como foi no Egito nos tempos passados. Pela consciência de “povo eleito por Deus” e destinatário da promessa de que a ele confluirão todas as Nações da terra; pela missão lhe conferida por Deus de ser luz das Nações, foi o desconcerto total.
A condição humana e psicológica do povo se deduz do texto “Mãos enfraquecidas (...) joelhos debilitados (...) pessoas deprimidas”. O povo se tornou como “cego (...) surdo (...) coxo”, em fim, como castigado e rejeitado por Deus, por não escutar a voz dos Profetas, começando pelo rei e pelas autoridades. A condição de exilados, na visão dos Profetas, é conseqüência do desvio das condições da Aliança, de não ter respeitado a lei e a Palavra do Senhor.
Não é difícil se espelhar na experiência pessoal e social do povo de Israel. O pecado domina e se impõe na vida de todos os dias e em todos os níveis com conseqüências de se experimentar exilados de si mesmo, por não ter clareza da própria missão, da identidade profunda e verdadeira ; do convívio humano, pelo prevalecer do individualismo; da convivência social, por ser algo simplesmente funcional às necessidades e a interesses de natureza econômica e de poder etc.
À situação de infidelidade do povo, Deus responde com a mensagem de animo e de esperança, pois, ele se manifestará de maneira que até a criação participará com júbilo do resgate “Alegre-se a terra que era deserta (...). Germine e exulte de alegria e louvores. Foi-lha dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo”.
Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai animo, não tenhais medo! (...) é ele -Deus- que vem para salvar”. Ele os libertará da escravidão, do sofrimento, do exilo. Será como um novo êxodo, um reconstruir o que estava derrubado. Portanto, a última palavra sobre a condição de vida será vitória sobre a dor e o pranto, pois, “se abrirão os olhos dos cegos (...). O coxo saltará (...) se desatará a língua do mudo”.
Os efeitos da intervenção não serão automáticos, mecânicos, mas exigirão aceitação e colaboração dos destinatários, pois, toda ação de Deus é eficaz só a estas condições. Aceitação e condição consistirão em assumir e renovar o compromisso da Aliança, e torná-la eficaz na pratica do direito e da justiça. Então se identificarão “Os que o Senhor salvou”.
Estes “voltarão para casa (...) com infinita alegria (...) cheios de gozo e contentamento, não mais conhecerão a dor e o pranto”. Será como a nova criação, a implantação do reino de Deus. O sonho de Deus para o resgate de cada pessoa e da humanidade está ao alcance de todos, assim como a presença e a intervenção Dele no concreto dos relacionamentos humanos. Ele “vem para vos salvar” se sintonizar com a Promessa que ultrapassa o presente, mas que já está nele - neste sentido é, também, futura-, e se disponibilizar em antecipá-la nas condições e circunstâncias, provisórias e parciais, do dia-a-dia.

2da leitura Tg 5,7-10

A condição de salvados, de já participar da vida e das condições oferecida pela Aliança, (no caso do Novo Testamento é a nova e eterna Aliança, implantada com a morte e ressurreição de Jesus. Ela, com a morte e ressurreição, aponta ao futuro, ao destino e à Promessa) motiva a afirmação do Apostolo “Ficai firmes até a vinda do Senhor (...) porque a vinda do Senhor está próxima”.
Depois de dois mil anos, de que vinda, de que proximidade se trata? No tempo do escrito, era esperada a vinda do Ressuscitado como iminente “Eis que o juiz está às portas”. Depois, os apóstolos e a comunidade perceberam que não era assim. Então, como tocava no evangelho do primeiro domingo, cabe se pergunta: se trata de um evento cronológico, ou o fato de ter alcançado a plenitude pela qual os cristãos percebem que, ainda permanecendo uma realidade misteriosa e oculta no âmbito histórico, Deus já está “tudo em todos”, como Paulo afirma em primeira Corintios15,28, ultrapassando o elemento cronológico e adiando-o a uma data que ninguém sabe ( ou que nunca acontecerá, porque a eternidade poderia ser uma dimensão do tempo e não sua exclusão)?
Se a vinda constitui o específico da espera do Natal, que o Advento celebra, então cabe pensar na segunda parte da pergunta, ou seja, à aproximação ao evento de Plenitude, adiado a uma indefinida, em quanto ao tempo e ao espaço, intervenção de Deus, mas, já presente e atuante pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus.
Este processo faz que Deus nasça no coração, no profundo de cada pessoa. É um processo que não tem fim por um lado, e pelo outro, liga o Natal com o evento Pascal, assim que os dois se associam rumo à plenitude cuja meta e destino final é assegurado pela Promessa de Deus. Desta forma, a vida toda é a grande gestação de Deus em nós, cujo Natal será sempre presente e futuro simultaneamente, até ser introduzido naquela realidade ocultada pela barreira da morte.
Eis, então, o convite: “ficai firmes e fortalecei vossos corações” exercitando aquela confiança e esperança própria do agricultor, quem sabe aguardar e esperar na certeza que o que semeou dará o seu fruto esperado “ Vede o agricultor: ele espera.. .”. Contudo sabe o autor que este processo tem suas dificuldades, pois, indica de se deixar inspirar e tomar por modelo “o sofrimento e firmeza dos profetas, que falaram em nome do Senhor”.
João Batista é uma figura eminente em tal sentido como relata o evangelho.

Evangelho Mt 11,2-11

João estava na prisão”. Situação dramática. Como pode ser que o precursor do Messias esteja na prisão e Ele não faz nada para tirá-lo de lá? Depois de tudo o que ele fez para lhe preparar o caminho? Será que fez alguma coisa errada? São todas perguntas legítimas. Para piorar ainda mais a situação, Jesus em vez de “limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”, ou seja, separar os dignos de entrar no reino dos condenados, como indicava a pregação de João o domingo passado, faz todo o contrário: come com os pecadores, se junta com pagãos, amigo de prostitutas, etc.
A crise de João se torna desconcerto “És tu, aquele que deve vir, ou devemos esperar um outro?”. Chegar a colocar esta pergunta manifesta o que os místicos indicam como a “noite escura”, ou seja, o momento em que a pessoa tem a sensação de ter sido abandonado por Deus, de ter errado tudo. É o momento mais alto do processo de conversão e de purificação.
Jesus responde aos enviados por João “ Ide contar a João o que estais vendo: Os cegos (...), os paralíticos (...), os leprosos (...) os surdos (...) , os mortos (...) e os pobres são evangelizados”. É como se dissesse: não estás vendo que a vida refloresce nos abatidos, a esperança toma conta dos desanimados etc. e, portanto, o evangelho, a boa noticia, da vinda do Reino está acontecendo? A vinda do reino não era para condenar, mas para oferecer mais uma chance de salvação para aqueles que estavam sem esperança.
Depois acrescenta uma mensagem para João mesmo: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim”. Feliz tu João se entender e aceitar tudo isso e vencer o que te escandaliza e te transtorna, em nome da vinda do reino muito diferente do que pensavas e esperavas. É o convite à conversão. Não se sabe qual foi a resposta e a atitude de João. Cabe supor que entendeu, e Deus lhe concedeu o dom da conversão, pelo que a continuação Jesus afirma dele. Mas que passou um momento altamente dramático e sumamente abalador passou, com certeza!
A continuação Jesus faz um elogio e um destaque muito significativo da pessoa de João “Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. É dele que está escrito ‘Eis que envio o meu mensageiro à sua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti (...) de todos os homens que já nasceram nenhum é maior do que João Batista”. Jesus aprecia, valoriza a dedicação, a determinação e a fidelidade de João à causa do Reino, embora com as limitações que logo ele se preocupará de corrigir, como já comentei. Nada foge a Ele do positivo da atitude, do comportamento e da missão de João, pois reconhece nele o mensageiro, o precursor que vai lhe preparando o caminho.
Contudo, há algo maior “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”. Perante a grandeza moral e a dedicação de João, surpreende esta afirmação. Quem teria mais qualidades humanas e morais do que ele? Como entender a comparação? O que pode dar razão dela? Quais são as condições para pertencer ao Reino, ainda seja como “menor”?
Falar de menor supõe estabelecer degraus, como uma escala de valores as quais a pessoa aderir em forma mais ou menos completa, parcialmente. Estar no reino é próprio de quem está ao serviço por ter interiorizado a filosofia de Jesus com respeito aos últimos, aos excluídos e marginalizado e ter praticado o relacionamento para com eles de maneira tal de infundir neles a esperança e a vontade de se resgatar da condição lastimável e adquirir uma nova vida... Esta dedicação, nem em todos será total e levada às extremas conseqüências como foi em Jesus.
As virtudes humanas e morais de João são necessárias também pelo “menor” no reino dos céus. Parece-me, portanto, de que não se trata simplesmente de virtudes pessoais, pois, o que faz a diferença é o conteúdo. A adesão ao reino é algo que eclipsa o conjunto da experiência espiritual e, em certo sentido, da personalidade de João. Ao “menor” se abre o horizonte da compreensão do mistério de Deus e da mística muito superior daquele de João. Se não fosse assim, não teria sentido o convite de conversão dirigido por Jesus ao mesmo João.
Portanto, com a vinda de Jesus temos a disposição o patrimônio que muitos não percebem, ou não recebem ajuda para percebê-lo, e cuja consciência e adesão introduz na experiência do verdadeiro Natal que estamos aguardando. Este consiste no fato que Deus constantemente gera em cada cristão, no coração dele, a imagem do próprio Filho.
Neste sentido, o Natal é a realidade mais profunda de todos os dias, pois, leva ao Natal onde tempo e eternidade cominam junto na glória de Deus.