domingo, 19 de dezembro de 2010

NATAL 2010 (missa da noite)

1a leitura Is 9,1-6

“"O povo, que andava na escuridão (...) os que habitavam nas sombras da morte” e as pessoas estão oprimidas pela “ carga sobre os ombros” e ameaçadas pelo “ orgulho dos fiscais". Com estas palavras é evocada a triste siutação do exílo. Nele as pessoas não tem futuro, a não ser o da escravidão e do sofrimento. Não há esperança de que algo possa mudar em melhor, não há alegria, pois recitará o salmo: “como cantar cantos de Sion em terra estrangeira?”.
É a situação de muitas pessoas e de povos inteiros na atualidade, pela qual se tornaram exiladas e estrangeiras na própria terra, devido à prepotência dos poderosos e a pratica da injustiça das autoridades, à corrupção generalizada que isola as pessoas pela desconfiança de um para com outro, e torna impossível o satisfatório relacionamento humano.
Em muitos há resignação, acompanhado por um sentimento de impotência e de falta de esperança, assim como prevalece a indiferença e o pessimismo por toda proposta e esforço de procurar um remédio. Há refugio no individualismo e no circulo reduzido, muito pequeno, de pessoas confiáveis.
Cada ano, na circunstância do Natal, retorna as palavras “O amor zeloso do Senhor dos exércitos” em virtude do qual “Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para sempre”. Surge a pergunta: o “zelo” foi a toa? Um bom propósito destinado a entrar nas categorias das ilusões? Por alguns aspectos a resposta é afirmativa, considerando as diferentes formas de degrau moral e social que cada dia os meios de comunicação apresentam.
O que mais chama a atenção é a insistência, a teimosia, a firmeza em apresentar a ação de Aquele cuja presença mira consolidar e reforçar o reino “em justiça e santidade, a partir de agora e para sempre”. Por outro lado, as Escrituras afirmam que o reino está presente em forma escondida e discreta no mundo, portanto, perceptível em determinadas condições.
Parece-me que o reino pode ser percebido na luta pela justiça e pela verdade, na defesa dos direitos e da dignidade da pessoa, na resistência a cada intento de opressão e desrespeito humano. Assumindo estes comportamentos, se realiza o choque dramático e violento do qual faz referencia o texto à experiência de Gedeão (Jz 7) “Pois o jugo que oprimia o povo –a carga sobre os ombros o orgulho dos fiscais- tu os abateste como na jornada de Madiã".
O reino se faz presente na(s) pessoa(s) que assume, e permanece fiel, ao estilo de vida que impõe não assumir as atitudes violentas e opressoras acima indicadas (resistência ativa). Também, não se dobra àqueles que, pelo contrario, as justificam e as praticam, mas, pelo contrário, tem a coragem de proclamar a verdade e a justiça sofrendo todo tipo de retaliação(resistência passiva). Este comportamento a levará ao choque que poderá assumir momentos dramáticos e violentos “Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas” até sofrendo a derrota e a morte prematura.
Para esta pessoa não haverá gratificação alguma, pois a esperada transformação social e individual será afundada no fracasso completo. Ficará só a teimosia, humanamente incompreensível, absurda, ingênua, fora da realidade. É o que aconteceu com o Messias e sua crucificação.
Contudo, nisso estava escondido o que ninguém esperava: a vitória sobre o pecado e sobre a morte mesma. Não se dobrando, resistindo até a morte, tudo foi “queimado e devorado pelas chamas”. Jesus dirá “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!...”(Lc 12,49-50) aludindo à sua morte e ressurreição. É desta forma que acontece o reino na pessoa Dele. O mesmo acontecerá no verdadeiro discípulo. O acontecer é a luz que ilumina a treva da vida, agora e sempre.
Eis, então, a ternura do nascimento “Porque nasceu para nós um menino, foi-lhe dado um filho”, em total contraste com o quadro anterior de forte violência. Mas isso é só aparência porque “traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: conselheiro admirável...” A tremenda “marca da realeza” consiste em se deixar desmanchar em nome da resistência ativa e passiva. É “conselheiro admirável” por convidar segui-lo no mesmo caminho.
Eis, então, a grande luz nas trevas e seus efeitos “O povo (...) viu uma grande luz(...) Fizeste crescer a alegria, aumentaste a felicidade(...) Grande será seu reino de paz (...)O amor zeloso do senhor há de realizaras coisas” . Não é fácil entender e aceitar tudo isso, pelo paradoxo que encerra em si mesmo
Esta singular união nascimento -morte é retomada na 2da leitura.

2da leitura Tt 2,11-14

A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens”. A Graça de Deus é Jesus mesmo. O nascimento dele traz o processo e o caminho de salvação que será selado com sua morte e ressurreição. Nele acontecerá, objetivamente, o resgate da humanidade e de cada pessoa de todos os tempo e lugares, pois, “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença”. Trata-se daquela vitória estrepitosa, dramática e violenta da primeira leitura.
Não se trata só de resgate, mas de constituição e de formação da nova realidade que consiste em “purificar para si um povo que lhe pertença” no qual Ele- o Cristo- se reconheça como Senhor. Acredito que a purificação ao qual se refere seja em primeiro lugar a fidelidade ao dom do resgate e a conseguinte determinação de viver e caminhar na nova realidade por ele inaugurada, sem segundos fins.
Trata-se da identificação radical pela qual, eventuais fraquezas, incongruências ou caídas não constituem propriamente vontade de desviar, de abandonar ou renegar o dom recebido, mas simplesmente é expressão da fraqueza e do limite humano. Portanto, a ação conseguinte será o arrependimento e a correção. Nisso o Senhor pode se reconhecer como tal, como aceito, intimo familiar, amigo e perceber que estas pessoas lhe pertencem, porque Nele esta o principio, o caminho e a meta de referencia delas, apesar dos momentos de fraqueza...
Mergulhados nessa realidade, por um lado, “Ela nos ensina abandonar a impiedade e as paixões mundanas e viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade”, e pelo outro lado, cria as condições para que a pessoa e o povo “se dedique a praticar o bem”.
Este mergulho faz crescer a motivação e a atitude de “aguardar a feliz esperança”, na certeza do acontecer do evento último e definitivo de Deus, o verdadeiro Natal que espera, ou seja, “ a manifestação da glória do nosso grande deus e salvador, Jesus Cristo”.Com outras palavras, o passado (o resgate), o presente( nos ensina) e o futuro ( a esperança) abrangem o eterno evento de Deus na historia.
História que , enquanto manifestação do evento, tem seu ter seu ponto inicial no nascimento de Jesus em Belém.

Evangelho Lc, 2,1-14

Maria deu à luz o seu filho primogênito”. Se não for pela ressurreição deste filho, ninguém teria prestado atenção e consideração ao nascimento dele em Belém. Mais um entre bilhões... O evento pascal orientou os refletores da humanidade sobre ele. Foi então que os discípulos e os seguidores perceberam a especial singularidade do menino.
Um menino comum, um ser individual comum, e Deus são a mesma pessoa. Pois é afirmado pelas Escrituras que em Jesus está toda plenitude de Deus. Foi, e ainda é, um quebra cabeça pela compreensão humana, mesmo iluminada pela fé como é a reflexão teológica, combinar na mesma pessoa a subsistência do homem verdadeiro e do Deus verdadeiro.
De toda maneira, esta singularíssima realidade coloca a pessoa no horizonte humano e divino simultaneamente. Trata-se de um salto qualitativo enorme, que confere a toda pessoa a verdadeira e definitiva identidade, implantada objetivamente, como semente na terra, pela ressurreição do Crucificado. Semente que deverá ser cultivada de maneira tal que a imagem se torna cada vez mais semelhante a quem a imprimiu. Fomos criados a “imagem” e chamados a se tornar “semelhança” de Deus. Se Deus se fez homem, então o homem pode se tornar “como deus”, conforme a famosa expressão do Genesis.
Pergunto se não é essa a “glória do Senhor” que os anjos cantam sobre a manjedoura da humanidade e “envolveu de luz” os pastores de então ( considerados pela teologia moral de então excluídos do reino por levar os rebanhos sobre terrenos alheios), e os correspondentes “pastores”de hoje.
Com certeza, a proposta deste tipo gera temor “eles ficaram com muito medo. O anjo, porem, disse aos pastores: Não tenhais medo! (...) Hoje, (...) nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”. É notável que não diga: Jesus filho de Maria, mas Cristo Senhor, ou seja, o titulo que lhe compete como Ressuscitado.
Acolhendo o convite e se dirigindo ao lugar do evento “na cidade de Davi”, o que era motivo de grande temor se converte no encontro muito humano, cheio de familiaridade e de ternura “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado muna manjedoura”. Com isso, o relacionamento entre o humano e o divino adquire sua estrutura permanente, no sentido que o profundamente humano é divino e o profundamente divino é humano. Trata-se do “hoje” a da salvação. Não é só um dado cronológico, é a determinação do evento que acontece aqui e agora , pela fé, em todo lugar e em todo tempo.
A atitude dos pastores indica o caminho de conversão. A pesar do medo pela manifestação do divino por um lado e a surpresa pelo outro, não fogem nem ficam com o pé atrás. Acolhem o anuncio e a exortação do anjo de ir a Belém. Chegam à meta indicada e acontece a inesperada experiência de humanidade e de ternura. Nela percebem a manifestação da glória celestial e o significado do evento: “O amor zeloso do Senhor” que indicava a primeira leitura.
Mais na frente o evangelista anota “Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito”. Neles realizou-se o Natal. Lembro da frase do grande teólogo do segundo século Santo Irineu “A glória de Deus é que o homem viva, e a vida do homem é louvar a Deus”. A união entre o humano e o divino.

FELIZ NATAL. Que o Deus da Vida os faça adiantar neste caminho: O eterno Natal ao nosso alcance, pela graça de Deus.

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