segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

3o DOMINDO DO ADVENTO-A- (12-12-10)

1ª leitura Is 35,1-6a.10

A profecia se dirige aos exilados, aqueles que foram deportados em terra estrangeira pelo rei de Assiria. O exílio foi um duríssimo golpe, um trauma, para o povo. Não só pelo exílio em si mesmo, mas por voltar à experiência da escravidão em terra estrangeira, como foi no Egito nos tempos passados. Pela consciência de “povo eleito por Deus” e destinatário da promessa de que a ele confluirão todas as Nações da terra; pela missão lhe conferida por Deus de ser luz das Nações, foi o desconcerto total.
A condição humana e psicológica do povo se deduz do texto “Mãos enfraquecidas (...) joelhos debilitados (...) pessoas deprimidas”. O povo se tornou como “cego (...) surdo (...) coxo”, em fim, como castigado e rejeitado por Deus, por não escutar a voz dos Profetas, começando pelo rei e pelas autoridades. A condição de exilados, na visão dos Profetas, é conseqüência do desvio das condições da Aliança, de não ter respeitado a lei e a Palavra do Senhor.
Não é difícil se espelhar na experiência pessoal e social do povo de Israel. O pecado domina e se impõe na vida de todos os dias e em todos os níveis com conseqüências de se experimentar exilados de si mesmo, por não ter clareza da própria missão, da identidade profunda e verdadeira ; do convívio humano, pelo prevalecer do individualismo; da convivência social, por ser algo simplesmente funcional às necessidades e a interesses de natureza econômica e de poder etc.
À situação de infidelidade do povo, Deus responde com a mensagem de animo e de esperança, pois, ele se manifestará de maneira que até a criação participará com júbilo do resgate “Alegre-se a terra que era deserta (...). Germine e exulte de alegria e louvores. Foi-lha dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo”.
Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai animo, não tenhais medo! (...) é ele -Deus- que vem para salvar”. Ele os libertará da escravidão, do sofrimento, do exilo. Será como um novo êxodo, um reconstruir o que estava derrubado. Portanto, a última palavra sobre a condição de vida será vitória sobre a dor e o pranto, pois, “se abrirão os olhos dos cegos (...). O coxo saltará (...) se desatará a língua do mudo”.
Os efeitos da intervenção não serão automáticos, mecânicos, mas exigirão aceitação e colaboração dos destinatários, pois, toda ação de Deus é eficaz só a estas condições. Aceitação e condição consistirão em assumir e renovar o compromisso da Aliança, e torná-la eficaz na pratica do direito e da justiça. Então se identificarão “Os que o Senhor salvou”.
Estes “voltarão para casa (...) com infinita alegria (...) cheios de gozo e contentamento, não mais conhecerão a dor e o pranto”. Será como a nova criação, a implantação do reino de Deus. O sonho de Deus para o resgate de cada pessoa e da humanidade está ao alcance de todos, assim como a presença e a intervenção Dele no concreto dos relacionamentos humanos. Ele “vem para vos salvar” se sintonizar com a Promessa que ultrapassa o presente, mas que já está nele - neste sentido é, também, futura-, e se disponibilizar em antecipá-la nas condições e circunstâncias, provisórias e parciais, do dia-a-dia.

2da leitura Tg 5,7-10

A condição de salvados, de já participar da vida e das condições oferecida pela Aliança, (no caso do Novo Testamento é a nova e eterna Aliança, implantada com a morte e ressurreição de Jesus. Ela, com a morte e ressurreição, aponta ao futuro, ao destino e à Promessa) motiva a afirmação do Apostolo “Ficai firmes até a vinda do Senhor (...) porque a vinda do Senhor está próxima”.
Depois de dois mil anos, de que vinda, de que proximidade se trata? No tempo do escrito, era esperada a vinda do Ressuscitado como iminente “Eis que o juiz está às portas”. Depois, os apóstolos e a comunidade perceberam que não era assim. Então, como tocava no evangelho do primeiro domingo, cabe se pergunta: se trata de um evento cronológico, ou o fato de ter alcançado a plenitude pela qual os cristãos percebem que, ainda permanecendo uma realidade misteriosa e oculta no âmbito histórico, Deus já está “tudo em todos”, como Paulo afirma em primeira Corintios15,28, ultrapassando o elemento cronológico e adiando-o a uma data que ninguém sabe ( ou que nunca acontecerá, porque a eternidade poderia ser uma dimensão do tempo e não sua exclusão)?
Se a vinda constitui o específico da espera do Natal, que o Advento celebra, então cabe pensar na segunda parte da pergunta, ou seja, à aproximação ao evento de Plenitude, adiado a uma indefinida, em quanto ao tempo e ao espaço, intervenção de Deus, mas, já presente e atuante pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus.
Este processo faz que Deus nasça no coração, no profundo de cada pessoa. É um processo que não tem fim por um lado, e pelo outro, liga o Natal com o evento Pascal, assim que os dois se associam rumo à plenitude cuja meta e destino final é assegurado pela Promessa de Deus. Desta forma, a vida toda é a grande gestação de Deus em nós, cujo Natal será sempre presente e futuro simultaneamente, até ser introduzido naquela realidade ocultada pela barreira da morte.
Eis, então, o convite: “ficai firmes e fortalecei vossos corações” exercitando aquela confiança e esperança própria do agricultor, quem sabe aguardar e esperar na certeza que o que semeou dará o seu fruto esperado “ Vede o agricultor: ele espera.. .”. Contudo sabe o autor que este processo tem suas dificuldades, pois, indica de se deixar inspirar e tomar por modelo “o sofrimento e firmeza dos profetas, que falaram em nome do Senhor”.
João Batista é uma figura eminente em tal sentido como relata o evangelho.

Evangelho Mt 11,2-11

João estava na prisão”. Situação dramática. Como pode ser que o precursor do Messias esteja na prisão e Ele não faz nada para tirá-lo de lá? Depois de tudo o que ele fez para lhe preparar o caminho? Será que fez alguma coisa errada? São todas perguntas legítimas. Para piorar ainda mais a situação, Jesus em vez de “limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”, ou seja, separar os dignos de entrar no reino dos condenados, como indicava a pregação de João o domingo passado, faz todo o contrário: come com os pecadores, se junta com pagãos, amigo de prostitutas, etc.
A crise de João se torna desconcerto “És tu, aquele que deve vir, ou devemos esperar um outro?”. Chegar a colocar esta pergunta manifesta o que os místicos indicam como a “noite escura”, ou seja, o momento em que a pessoa tem a sensação de ter sido abandonado por Deus, de ter errado tudo. É o momento mais alto do processo de conversão e de purificação.
Jesus responde aos enviados por João “ Ide contar a João o que estais vendo: Os cegos (...), os paralíticos (...), os leprosos (...) os surdos (...) , os mortos (...) e os pobres são evangelizados”. É como se dissesse: não estás vendo que a vida refloresce nos abatidos, a esperança toma conta dos desanimados etc. e, portanto, o evangelho, a boa noticia, da vinda do Reino está acontecendo? A vinda do reino não era para condenar, mas para oferecer mais uma chance de salvação para aqueles que estavam sem esperança.
Depois acrescenta uma mensagem para João mesmo: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim”. Feliz tu João se entender e aceitar tudo isso e vencer o que te escandaliza e te transtorna, em nome da vinda do reino muito diferente do que pensavas e esperavas. É o convite à conversão. Não se sabe qual foi a resposta e a atitude de João. Cabe supor que entendeu, e Deus lhe concedeu o dom da conversão, pelo que a continuação Jesus afirma dele. Mas que passou um momento altamente dramático e sumamente abalador passou, com certeza!
A continuação Jesus faz um elogio e um destaque muito significativo da pessoa de João “Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. É dele que está escrito ‘Eis que envio o meu mensageiro à sua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti (...) de todos os homens que já nasceram nenhum é maior do que João Batista”. Jesus aprecia, valoriza a dedicação, a determinação e a fidelidade de João à causa do Reino, embora com as limitações que logo ele se preocupará de corrigir, como já comentei. Nada foge a Ele do positivo da atitude, do comportamento e da missão de João, pois reconhece nele o mensageiro, o precursor que vai lhe preparando o caminho.
Contudo, há algo maior “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”. Perante a grandeza moral e a dedicação de João, surpreende esta afirmação. Quem teria mais qualidades humanas e morais do que ele? Como entender a comparação? O que pode dar razão dela? Quais são as condições para pertencer ao Reino, ainda seja como “menor”?
Falar de menor supõe estabelecer degraus, como uma escala de valores as quais a pessoa aderir em forma mais ou menos completa, parcialmente. Estar no reino é próprio de quem está ao serviço por ter interiorizado a filosofia de Jesus com respeito aos últimos, aos excluídos e marginalizado e ter praticado o relacionamento para com eles de maneira tal de infundir neles a esperança e a vontade de se resgatar da condição lastimável e adquirir uma nova vida... Esta dedicação, nem em todos será total e levada às extremas conseqüências como foi em Jesus.
As virtudes humanas e morais de João são necessárias também pelo “menor” no reino dos céus. Parece-me, portanto, de que não se trata simplesmente de virtudes pessoais, pois, o que faz a diferença é o conteúdo. A adesão ao reino é algo que eclipsa o conjunto da experiência espiritual e, em certo sentido, da personalidade de João. Ao “menor” se abre o horizonte da compreensão do mistério de Deus e da mística muito superior daquele de João. Se não fosse assim, não teria sentido o convite de conversão dirigido por Jesus ao mesmo João.
Portanto, com a vinda de Jesus temos a disposição o patrimônio que muitos não percebem, ou não recebem ajuda para percebê-lo, e cuja consciência e adesão introduz na experiência do verdadeiro Natal que estamos aguardando. Este consiste no fato que Deus constantemente gera em cada cristão, no coração dele, a imagem do próprio Filho.
Neste sentido, o Natal é a realidade mais profunda de todos os dias, pois, leva ao Natal onde tempo e eternidade cominam junto na glória de Deus.

2 comentários:

  1. Parabéns pela reflexão. Sabias palavras. Um fraterno abraço. Tranqüillo.

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  2. Padre muito bem observado a atitude de João Batista. Que messias é esse que almoça com cobradadores de impostos, anda com prostitutas ...
    Mas em Filipenses vem a respostas "Tinha condição Divina, mas se desfez e fez-se obdeiente...". Sendo Jesus o Humano Divino, é na atitude dele que devemos nos espelhar. Um grande abraço.

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