1ª leitura Is 49,3.5-6
O texto apresenta a singular figura do Servo de Yavé como um sujeito singular. Mas, também, se refere a ele como Israel, ou seja, o povo que pertence a Deus. É ao mesmo tempo uma pessoa, representante do povo todo e, também, povo de Deus. Desta forma é estabelecida uma ligação muito forte entre a pessoa e o povo. As duas realidades, mesmo que distintas, não se podem separar, pois, pertencem à mesma realidade.
“Tu és meu Servo, Israel, em que serei glorificado”. Pela ação do servo se manifestará a glória do Senhor. Portanto, a atitude e missão de servo não è mera submissão, que normalmente comporta limitações da liberdade, coação da vontade, diminuição da personalidade, humilhação, constrangimento, escravidão dolorosa e humilhante.
Pelo contrário, sendo a glória, a presença dinâmica e amorosa de Deus que resgata do mal e do pecado, preenche de vida o presente e de esperança o futuro. Ela constitui o evento pelo qual conjuntamente o Servo e o povo participam da realização da própria existência.
O Servo percebe como sua existência e eleição procedem da misteriosa vontade de Deus, pois, “O Senhor... ele me preparou desde o nascimento para ser seu Servo”. Isso lhe confere a necessária condição para agir em nome o Senhor, de contar com a presença e o acompanhamento dele, de cumprir a missão em sintonia com a vontade dele. Com outras palavras, tem consciência do próprio status no desenvolvimento da missão que lhe é confiada.
Esta missão consiste em “que eu recupere Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele”. Por causa do desrespeito da Aliança, por ter se afastado da condição de povo libertado da escravidão do mal, por desconfiar da promessa de Deus - com uma palavra, o pecado- o povo está sofrendo o exílio, o afastamento da terra prometida e da comunhão com Deus. Pois, o Senhor se propõe resgatá-lo e de oferecer outra oportunidade, de começar de novo e restabelecer a comunhão.
“Aos olhos do Senhor esta é a minha glória”. Afirmação importante porque a glorificação do Servo, sua realização como pessoa, a plenitude de sentido de sua própria existência, consiste em se dedicar ao bem do povo, à missão voltada para o resgate de uma situação na qual, o povo por culpa própria se meteu.
O Servo não será um juiz, nem um novo chefe que imporá uma nova ordem restauradora. Não, imporá, pela sua autoridade, um estilo de vida que garanta um futuro diferente pela execução de suas leis e normas. Trata- se de “recuperar”, de resgatar e de voltar ao que já estava estabelecido e acontecendo e que foi desatendido e transcurado. Pois, esta recuperação tem como efeito voltar a “unir-se” na comunhão com o próprio Senhor.
A correta ação do Servo terá abrangência universal “Não basta seres meu Servo para restaurar (...) e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra”. Com isso é destacada a enorme importância da ação do Servo e de sua responsabilidade no correto desenvolvimento da missão. Isso lhe confere maior dignidade, maior esmero e dedicação. Sentir- se investido da tamanha responsabilidade pode gerar medo e vontade de se afastar, como, também, estreitar com maior determinação a comunhão e a amizade com o Senhor no horizonte da confiança amorosa. Neste segundo caso, se manifestará, também, a extensão da gloria de do Senhor e do Servo conjuntamente.
Esta ação de Servo destaca particularmente em são Paulo, como faz entrever a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 1,1-3
Paulo saúda os cristãos de Corinto como apóstolo, eleito a testemunha, por vontade de Deus, dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ele experimentou no profundo da própria existência o que é ser tocado por tais efeitos. Em virtude disso se tornou Servo de Jesus Cristo no processo de evangelização dirigido à humanidade toda.
Ele se dirige aos membros da comunidade- a igreja do Corinto- que pelo batismo são colocados em Cristo Jesus e, portanto, separados do que não é ele e não lhe pertence. Portanto, “foram santificados em Cristo Jesus” não em sentido ético e de perfeição moral, mas de separados do mundo e do que afasta da comunhão com Cristo, porque constituídos no profundo do ser “outro Cristo”.
Esta nova condição deve ser ulteriormente trabalhada e desenvolvida no dia- a- dia de maneira tal que o agir corresponda a este novo ser que, por sua vez, em virtude de tal ação vai se fortificando e se consolidando. É porque são santos que são “chamados a ser santos”.
Esta santidade não é só patrimônio dos membros da comunidade de Corinto, porque desenvolvida “junto com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso”. Sendo que moram e vivem em qualquer lugar, e, portanto, não são dos “nossos”, não participam da comunidade, como o invocam se o desconhece? Por que caminho, de que forma tomam ciência do nome dele ao ponto de se identificar e invocar o nome dele, ou seja, a realidade mais verdadeira e profunda de Jesus Cristo?
Paulo não explica isso. Ele o da como fato, como realidade já existente. Há de supor uma ação do Espírito Santo que vai muito além do que é percebido pela experiência e o sentido dos cristãos. Ela se pode identificar na conduta moral e na capacidade do dom de si mesmo em sintonia com a entrega de Cristo para o bem da humanidade, na qual, como Cristo enxerga a realidade de uma “vida indestrutível”(Hb 7,16).
Se assim for, ficaria confirmado que a dinâmica da morte e ressurreição ultrapassa a experiência pessoal de Cristo. Ou melhor, Cristo com a sua entrega manifestou o DNA da existência humana, o que torna verdadeiro homem todo ser humano, seja qual for a religião à qual pertence.
Desta forma o serviço ao evangelho é diretamente serviço à comunidade e ao mesmo tempo serviço à humanidade toda, pois, permite aos que não pertencem à comunidade de participar do grande mistério da redenção oferecido por Cristo para todos. Nesse sentido o servo se torna “luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra”, como frisava o final da primeira leitura.
Desta forma chega- se à centralidade de Jesus diretamente ou indiretamente. Centralidade que é reconhecida por João Batista no Evangelho.
Evangelho Jo 1,29-34
O João aqui apresentado é muito diferente daquele dos sinóticos, dos três evangelhos anteriores. Parece-me uma elaboração teológica visando a ligação entre o precursor e o Messias . Com efeito, o evangelho de João é fundamentalmente uma reflexão nesse sentido, mais que o relato de eventos históricos.
Perguntou-me: que relação quis destacar o autor entre João e Jesus, enquanto o primeiro precursor do segundo, à luz do evento da morte e ressurreição e da Pentecostes? Em que consiste, então, a missão e o ensinamento do precursor a partir disso?
Em primeiro lugar o apresenta como “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Refere-se ao Servo de Yavé descrito no quarto cântico de Isaias (Is 53, 7.12.- A primeira leitura se refere ao segundo cântico do mesmo Servo) e ao cordeiro pascal do livro do Êxodo, símbolo da libertação da escravidão do Egito. Apresenta Jesus como redentor que resgata a humanidade do pecado.
Evidentemente, esta apresentação não podia ser feita por João Batista, pois a teologia dele e a morte prematura excluem toda possibilidade. É a autor do evangelho - João Evangelista- ,que viu e estava presente no evento da morte e ressurreição, quem testemunha o significado, a importância e a abrangência do mesmo. Portanto, João evangelista tem clareza da realidade verdadeira de Jesus “Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus” “O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
Assim, ele atribui a João batista esta percepção enquanto parte constitutiva da missão do novo precursor, quem prepara o caminho ao acolhimento do evento da morte e ressurreição, em virtude da missão que Jesus desenvolveu na Páscoa.
O evangelista João projeta, por assim dizer, João batista como se desenvolvesse sua missão de precursor após a morte e ressurreição de Jesus. Então, se tornam aceitáveis as afirmações atribuídas e ele.
“... porque existia antes de mim” e uma evidente referencia ao prólogo do evangelista. Por duas vezes João batista afirma “eu não o conhecia” e relata o evento do batismo no Jordão de Jesus como o acontecer revelador. Com efeito, aquela circunstância foi manifestação da Trindade, que marcou o início da missão de Jesus e ficou na memória de todos os evangelistas. O batismo no Espírito será possível após os eventos da morte e ressurreição. À luz disso o evangelista resgata o significado do batismo no Jordão, e faz de João batista uma testemunha privilegiada “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu e permanecer sobre ele (...). Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer”.
O Espírito permaneceu e acompanhou Jesus até a morte “tudo está consumado. E inclinando a cabeça, entregou e espírito” (Jo 19,30), ou seja, toda a vida dele e sua missão, enquanto encharcada da presença do Espírito.
O mesmo Espírito, que ressuscitará Jesus dentre os mortos, será quem por meio do batismo tornará participes dos efeitos da morte e ressurreição do mesmo. Eis então a afirmação “este (Jesus Cristo) é quem batizará com o Espírito Santo”.
Esta pagina do evangelho, de não fácil compreensão, pretende testemunhar a missão de todo precursor, tendo como modelo João batista, partir do cumprimento da missão do Servo de Yavé realizado pela morte e ressurreição de Jesus.
Assim todo precursor, todo anunciador, do mistério de Deus realizado na pessoa de Jesus, todo novo João batista na atualidade, deve ter em si mesmo a clareza e a experiência dos tópicos indicados. É uma indicação importante por todo discípulo consciente.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
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Padre "Novo João Batista" é igual anuciador do Reino e colaborador de Jesus?
ResponderExcluirAdorei a explanação.