domingo, 23 de janeiro de 2011
4to DOMINGO DO TEMPO COMUM-A-(30-01-11)
1ª leitura Sf 2,3; 3,12-13
“achareis talvez um refúgio no dia da cólera do Senhor”. O profeta faz umas considerações a partir do dia da cólera do Senhor, no qual manifestará sua forte desconformidade para com o seu povo, por não ter respeitado a aliança, por ter desviado dela.
A cólera é expressão da perturbação do animo de quem não entende, ou não aceita, de algo que não podia ou não devia ter acontecido. Usando este antropomorfismo da cólera, Ele se revela profundamente mexido e perturbado pela infidelidade do povo.
É como quem não entende como o povo, depois das repetidas provas de amor, depois de ter experimentado sua repetida ação libertadora, ainda persiste em desviar do caminho, ainda não tem confiança nas indicações e se deixa levar por outra proposta, por outros caminhos, que, entre outras coisas, experimentou ser prejudiciais para ele mesmo.
A cólera, então, não é castigo, nem desejo de vingança nem prática da justiça de “aqui se faz aqui se paga”. É expressão da dor para com o povo muito amado, pela decepção. É manifestação de quem se pergunta: Como pode ser que o povo se comporte desta forma? O que fiz de errado para merecer uma resposta tão decepcionante?
No rigor deste dia, quem se poderá salvar? A resposta: os pobres que praticam os preceitos do Senhor, a justiça, e procuram a humildade “Buscai o Senhor, humildes da terra, que pondes em pratica seus preceitos; praticai a justiça, procurai a humildade”. Assim justiça e humildade caminham juntas. Faz parte da justiça reconhecer e aceitar a verdade sobre si mesmo como ser limitado, fraco, vulnerável, como pessoas que lida “com o pó, com a terra”com o que é baixo e inconsistente, se comparado com a grandeza e imensidade de Deus. Portanto, é um binômio perfeitamente compreensível e aceitável que posiciona corretamente o pobre no relacionamento com Deus.
Os humildes conscientes desta realidade e ao mesmo tempo confiantes em Deus, serão poucos “um punhado de homens humildes e pobre”, numericamente, um “resto de Israel”. Este resto “no nome do Senhor porá sua esperança”. Eis então configurado o verdadeiro pobre, aquele que socialmente dispõe dos meios necessários para viver (não o lascado, este no povo de Deus não deveria existir, se o mesmo povo praticasse a justiça e o direito da Aliança), não acumula para si mesmo e coloca sua confiança amorosa no Senhor. É o pobre que teme o Senhor.
Este estilo de vida é fonte de paz e de serenidade. Eles, os integrantes do resto de Israel, “não cometerão iniqüidades nem falarão mentiras; não se encontrará neles em sua boca uma língua enganadora”. No meio de um povo iníquo, mentiroso e enganador, terão uma conduta eticamente correta, serão testemunha da presença e ad a ação de Deus.
O que eles ganharão com isso? Merece investir neste estilo de vida, sendo que a sociedade e o prestigio social propõe convida assumir bem outros estilos?”. “Serão apascentado e repousarão, e ninguém os molestará”. No meio das turbulência e contradições da vida, no meio das provações e dificuldades, conseguirão uma segurança uma harmonia interior que lhes permitirá serem eles mesmos, seja qual for o que acontecer, mesmo no meio das pedras do dia-a-dia. Exatamente pela intimidade , familiaridade com o Senhor.
Daí as condições para o desenvolvimento da sabedoria divina, indicada pela segunda leitura.
2da leitura 1Cor 1,26-31
Paulo indica aos membros da comunidade refletir a partir da própria realidade sócio-cultural “Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus”. Assim, considerando a instrução, o poder político e social de seus integrantes a conclusão evidente é que “Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido”. Com efeito, os humildes da terra da primeira leitura não constituem um modelo, uma proposta de vida, ambicionados por quem pretende alcançar um destaque social.
Contudo, ai estão o plano e a sabedoria de Deus: “Deus escolheu o (...) fraco, (...) o que é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante”. Passar de importante à inútil é uma mudança radical. Reverter a condição de “sábio e forte” à “estúpido e fraco”, não é coisa de pouca conta. Da para imaginar o desconcerto, a desilusão de quem fica envolvido nesta experiência. Portanto, o que está em jogo é algo que merece muita atenção e reflexão.
Deus demonstrou seu poder e sua sabedoria salvando os que crêem por meio de um instrumento tão fraco, que nenhum poderoso ou sábio deste mundo teria pensado fosse adequado para a salvação: a cruz. Ninguém teria pensado, nem de longe, uma pessoa executada na cruz poderia ser indicada como Salvador.
Cabe especificar que não é a cruz pela cruz que salva. Mas o que ela revela em termos de amor por parte do Crucificado. A santidade da pessoa de Jesus, a causa pela qual veio no mundo, a dedicação a ela- a causa- até enfrentar a morte na cruz, revelam a profundidade, a grandeza do amor dele,e do amor que sustenta vida da Trindade. É este amor que propriamente salva.
O amor não é questão de “sabedoria humana” nem de “poder” político e, menos ainda, de pertencer a uma classe social “nobre”. É questão de sintonizar com a verdade da existência, com o que faz dela uma realidade digna de ser assumida e praticada. É o que Jesus quis oferecer à humanidade e a mesma rejeitou violentamente, mas à qual ele quis permanecer fiel em nome da verdade mesma e do amor.
Essa verdade e amor -ele mesmo- é dom de Deus e patrimônio de todo cristão consciente, que se determina em responder ao dom devolvendo o mesmo com a mesma prática de vida a favor dos afastados de Deus. Só nessa ótica é possível “que ninguém possa gloriar-se diante dele”, diante de Deus, pois simplesmente está agindo em sintonia com o dom e devolvendo-o.
Pois, é pelo dom de Deus, oferecido na pessoa de Cristo, que estamos em Cristo “o qual se tornou para nós” representante perante do Pai, e representante do Pai perante a humanidade. Esta singular condição permite tenhamos acesso à “sabedoria, justiça, santificação e libertação”,ou seja, à condição divina. Por isso que Paulo dirá “quem se gloria, glorie-se no Senhor”.
Só vivenciando tudo isso é possível perceber a singularidade do estilo de vida dos bem-aventurados que o evangelho apresenta.
Evangelho Mt 5, 1-12a
É o famoso texto das bem-aventuranças. Como soaria o texto substituído o termo “bem-aventurado” por “parabéns”?Pois, disso mesmo se trata. Jesus ensina aos discípulos o que merece ser parabenizado: “ Jesus começou a ensiná-los” Mas, parabéns de que? Por serem pobres, aflitos, mansos, por promover a paz num mundo hostil... Por serem perseguidos, caluniados etc.? Quem se atreveria em falar isso a uma pessoa nessa situação? Parabenizamos todo o contrário... Como entender isso?
Estamos no pleno paradoxo do Evangelho: a verdade se manifesta no seu contrário... Jesus fala para aqueles que assumiram para valer a causa dele, a missão dele: “... por causa de mim”. Eles assumiram a causa como resposta de amor ao grande amor do qual falamos e por estarem em Cristo, como comentava na 2da leitura. Trata-se de pessoas profundamente tocadas e transformadas por este amor. Em virtude disso, o viver delas é Cristo, é se tornar, com humildade, testemunhas da continuação da presença de Cristo na história e nas circunstâncias concretas do dia-a-dia.
Nesse sentido Jesus está passando para eles o que é, e será, a experiência Dele no desenvolvimento da missão. Assim o discípulo experimentará todo o que Ele experimentou como homem, como pessoa, como Filho do Pai. Então, o discípulo entenderá o que é ser homem, o que é ser pessoa e o que é ser filho de Deus- filho no Filho-. Dai os parabéns.
Assim, o texto pode ser entendido como a peneira que discerne até que ponto o é realmente discípulo de Jesus. É evidenciado, assim, o grau de percepção e da vivencia do grande presente de amor que o Pai deu em termos de “sabedoria, justiça, santificação e libertação” (2da leitura), assim como a consistência, ou menos, da realidade de filho de Deus.
O texto deve ser assumido como um todo. Não dá para pensar uma bem- aventurança desligada da outra... Não dá, por exemplo, ter fome e sede de justiça...e ter um coração com segundos fins,com segundas intenções, um coração impuro...
Assim, o entusiasmo por uma bem- aventurança e a frieza pela outra; a prática significativa de uma e a prática insignificante da outra, determinam concretamente o espaço da conversão no processo de recepção do grande presente de amor e de identificação em Cristo.
Tudo isso nos diz o inesgotável do processo. Ele nos acompanha a vida toda e constitui a experiência da profunda alegria nessa vida, mesmo passando pelas dificuldades e provações que o texto aponta: “Alegrai-vos e exultai” se refere aqui e agora porque, misteriosamente, esse tipo de sofrimento tem e si mesmo essa verdade. É se alegrar interiormente pelo sentido de plenitude e satisfação de quem experimenta o acontecido como oportunidade de crescimento, de integração, de identificação com o que é ser pessoa bem sucedida e,na transparência, enxergar a presença que faz dela e de Cristo uma realidade só.
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