1ª leitura Is 58,7-10
O Senhor se dirige a todo integrante do povo de Deus: “Invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, ele dirá:“ Eis-me aqui ”. A invocação é expressão da familiaridade, da intimidade e da sintonia da pessoa com o Senhor. O atendimento è a prova que o Senhor está ao lado dela, que caminha com ela, e nele pode confiar, pela sua atitude correta em sintonia com a vontade dele. Esta atitude o qualifica como o servo fiel, o temente de Deus.
O Senhor indica uma dupla afirmação em si mesma contrária uma da outra, mas coincidentes em conformar a personalidade correta que o Senhor espera dos integrantes do seu povo. Indica o que deve evitar e o que deve fazer.
É preciso destruir “teus instrumentos de opressão, e deixares hábitos autoritários e a linguagem maldosa”. É a coerência ética fundamental de quem sintoniza e cumpre com o significado espiritual e último da Aliança. Por outro lado, é a maneira de vivenciar a libertação do mal e do pecado que caracterizou a saída da escravidão do Egito e deve ser mantida e aprofundada. Caso contrário, instrumentos, hábitos e língua constituem os canais e os meios pelos quais se retorna à escravidão do Egito...
Com efeito, é essencial perceber os instrumentos psicológicos, morais e humanos da opressão, que não dão espaço à pessoa ser ela mesma, no exercício do próprio entendimento e da própria liberdade. É preciso deixar o autoritarismo, ou seja, o serviço da autoridade em virtude do cargo pelo cargo, sem a devida motivação e argumentação que possa dar sentido e razão do porque da ordem. A língua não tem ossos, mas quebras os ossos. Quando ela visa destruir e desmanchar todo relacionamento com pessoas e situações que não condizem com o próprio gosto e a própria expectativa, a maldade e a infâmia tomaram conta do coração da pessoa.
Estas permanentes armadilhas podem ser vencidas só “se acolheres de coração o indigente e prestares socorro ao necessitado” É exercer a compaixão e a misericórdia. É sintonizar e fazer próprio o sofrimento do outro, em virtude da mesma dignidade humana e do coração sensível para com quem sofre.
Daí decorre com convicção e simplicidade acolher a ordem do senhor “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa pobre e peregrino. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes sua carne”. É o dito pela sabedoria popular :“o gostinho de fazer o bem sem olhar a quem”.
Em fazer o bem já esta a recompensa. Ela se manifesta desta forma “Então, brilhará tua luz como aurora e tua saúde há de recuperar-se depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá”. Luz, como expressão e manifestação da satisfação interior, da alegria, da segurança. E recuperação mais depressa da saúde, pois, a alegria e a serenidade interior tem repercussão ma saúde física, como é comprovado, também, cientificamente.
A vitória no dia-a-dia sobre o mal, que sempre acompanha cada momento da existência, é possível em virtude da adesão ao evento da cruz de Jesus, transmitido pela predicação na forma indicada pela segunda leitura.
2da leitura 1Cor 2,1-5
Paolo faz algumas considerações sobre o anuncio do mistério de Deus através de sua pregação. Do ponto de vista das considerações racionais e da sabedoria humana é um mistério mesmo o que Paulo apresenta: a salvação da pessoa ,e da humanidade toda, realizada pelo Crucificado na sesta feira da Páscoa...
Paulo é consciente da enorme dificuldade de compreensão e de aceitação por parte de todo ouvinte mergulhado na experiência e na ciência humana. Portanto, se posiciona com respeito à sabedoria humana “não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana”, porque sabe que não há condições nem argumentos contundentes para convencer e, menos ainda, para provar a bondade e veracidade do seu testemunho.
No fundo, a cruz-ressurreição é o paradoxo que foge de toda consideração humana. É paradoxo exatamente porque a sabedoria humana não tem condição de desvendar de maneira convincente o enigma que encerra: a verdade está no contrário do que aparece.
Contudo, ele afirma “estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor”. Evidentemente, porque percebe o risco do fracasso da própria pregação e, por outro lado, o não poder prescindir da verdade paradoxal da cruz. Daí a atitude de optar com determinação pela sabedoria- incompreensível- da cruz “não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado”.
Esta escolha tem um motivo especifico. Pois, o saber do mistério da cruz oferece às palavras e à pregação dele “não discursos persuasivos da sabedoria, mas uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens”. Entra em campo o que S. Agostinho chama de mestre interior: O Espírito Santo.
Com efeito, o Espírito Santo é o Amor que corre entre o Pai que entrega o Filho por Amor, e o Filho que aceita a vontade do Pai e por Amor se entrega. Tudo se realiza e se desenvolve no horizonte do Amor, ou seja, no Espírito Santo. O poder de Deus é, portanto, o poder do Amor, pois “Deus é Amor”, como afirma são João na sua primeira carta.
Amor diz relacionamento. Portanto, a qualidade do relacionamento da Trindade com a humanidade, manifesta na cruz de Cristo, faz perceber a imensidade deste Amor e seu poder transformador e ressuscitador do pecado e da morte.
É o que Paulo experimentou e que ele afirma explicitamente na carta aos Gálatas “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou”(2,20).
Fora deste horizonte de amor, a sabedoria da cruz se torna incompreensível e inaceitável. Portanto, todo discípulo tem que se ater a ela, não como discurso o argumentação erudita da sabedoria humana, mas como experiência a ser passada e transmitida como testemunho.
É a verdade frisada pelo evangelho.
Evangelho Mt 5, 13-16
É preciso ligar com o discurso das bem-aventuranças do domingo passado. O “alegrai-vos e exultai porque é grande a recompensa” nesta terra, que, pela atitude do discípulo, já se tornou para ele um pedaço do céu e constitui a luz e o sal dos quais o mundo precisa. Daí as palavras de Jesus “ Vós sois o sal da terra (...). Vos sois a luz do mundo”.
Mas a alerta de Jesus frisa a possibilidade e o perigo de que o sal se torne insosso “Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos?”. Perde sua força e com ela o sentido de ser sal, se esvaziou de sua função, se descaracterizou. O perigo se faz realidade no momento que a pregação e as atitudes do discípulo assumem os critérios da sabedoria humana da segunda leitura. Seria como se Jesus tivesse cedido às tentações no deserto, ou tivesse descido da cruz, pouco minutos antes de morrer.
A sedução da sabedoria humana, trocada pela sabedoria da cruz, é sempre atual. Pois ela terá sempre mais audiência, reunirá sempre mais adeptos, será sempre mais convincente do que a “lógica” da cruz, ou melhor, o paradoxo da cruz. Discípulos que procuram o próprio sucesso em ternos de reconhecimento das próprias virtudes oratórias, das próprias capacidades organizativas, das próprias condições de lideres etc., estão seriamente expostos em cair no perigo.
O trágico são as conseqüências “com que o salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens”. Trata-se do fracasso total, da insignificância... É o que a igreja está experimentando quando compactua com interesses políticos, financeiros, e outras realidades em contrasto com a lógica da cruz (Tem pano para manga!...).
“Vós sois a luz do mundo”. Luz porque a lógica da cruz é, ao mesmo tempo, ressurreição. A ressurreição não é um premio por entregar a própria vida, não é um super milagre para a conversão dos incrédulos... É a manifestação da mesma força e realidade profunda da entrega.
Por que se deveria colocar a lâmpada “debaixo de uma vasilha”? Tal vez, por medo da critica, da rejeição. Tal vez, pelo temor de perder amizades, vantagens ou outro bem. Tal vez, pela vergonha de se expor ao ridículo, à ironia dos que se apelam à sabedoria humana. Tal vez, por comodismo, por desconfiar sobre a eficácia da pregação etc. Tal vez, por se encontrar na solidão, como Jesus se encontrou com ela na cruz.
Eis, então, a exortação final “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras”. Notável é considerar que a luz é condição para perceber e ver as boas obras. Portanto, a luz da sabedoria de Deus- a cruz- permite enxergar as boas obras como realidades encharcadas daquele específico amor que a o evangelho chama de caridade. Elas refletem a luz da caridade, ou seja, Deus mesmo, pois “Deus é caridade”
Portanto, a conclusão: “e louvem o vosso Pai que está nos céus”. Tudo procede de Deus-Amor tudo converge Nele, tem nele o seu ponto de chegada como louvor de sua glória presente nas pessoas, nos corretos relacionamentos entre elas e na humanidade, e como prática do direito e da justiça.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
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Gigi,
ResponderExcluirObrigado pelo texto. Continue postando as suas reflexões. Elas estão sendo muito importantes para nós.
Um fraterno abraço.
Tranqüillo Dias