1ª leitura At 2, 14a.36-41
Eis o anúncio fundamental que abalou toda Jerusalém, após a crucificação de Jesus “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza: Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus que vós crucificastes”. Uma autentica blasfêmia para os que o crucificaram. Em virtude de que esta reviravolta tão radical e absolutamente inesperada? Por ter visto o crucificado e ressuscitado, participe da vida que só Deus Pai, pela força do Espírito Santo, podia passar. Pois, o Pai aprovou em tudo o Filho, que todos haviam condenado como blasfemo.
Surpreende a firmeza a determinação e a coragem de Pedro em se dirigir ao povo que havia aprovado a condenação de Jesus. Mais ainda considerando que ele mesmo, com os outros discípulos, estava cheio de medo de sofrer a mesma sorte de do mestre. Com certeza foi a compreensão do significado e da importância do que Jesus realizou na Páscoa que sustentou a nova atitude dele “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza...”.
Pedro falou com forte convicção ao ponto que “Quando ouviram isso, eles ficaram com o coração aflito”. Atitude própria de quem toma consciência do erro involuntário, mas irreparável, da própria atitude para com Jesus. Tiveram como a convicção de ter “pisado na bola”. Meio perdidos perguntaram “o que devemos fazer?”.
A primeira palavra é “Convertei-vos”. Evidentemente, não se trata de conversão ética, de atitudes, de comportamentos errado, mas de conversão teológica, ou seja, da errada idéia que tinham de Deus. A passagem de blasfemo à do “Senhor e Cristo” é um salto de não pouca canta. Supõe redesenhar as próprias convicções, com respeito ao entendimento de Deus. Seguidamente, haverá também mudanças de atitudes e de comportamento.
Este tipo de conversão não caracteriza só o momento inicial, mas acompanha a vida toda do discípulo. O testemunho da vida de Pedro e dos apóstolos confirma que tiveram que repensar as próprias convicções sobre Deus devidas às novas circunstâncias, fatos inéditos e imprevistos, pelos quais não tinha referencia no passado e que obrigaram a formular novas respostas. O ponto focal, a estrela polar, é o significado, o valor e a dinâmica do evento pascal.
“e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados” . O batismo sela o evento da conversão e faz participe a pessoa dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. Ele sela a Aliança indissolúvel com Cristo. Assim como a certeza de pertencer a ele, e com ele a Deus de uma vez para sempre. Desde agora ele irá substituir o sinal exterior da aliança qual foi o da circuncisão. Ele, o batismo, é a circuncisão do novo coração para uma nova vida, no amor.
Isso é possível pela ação do Espírito Santo “E vós recebereis o dom do Espírito Santo”. A conversão teológica e seguidamente ética, é possível no horizonte do amor de Deus, exatamente pela presença e ação do Espírito.
Contemporaneamente surge a certeza da promessa que o mistério de Deus oferece “Pois a promessa é para vós e vossos filhos (...) todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar para si”. Passado, presente e futuro são plenamente envolvidos no mistério do Amor de Deus.
Eis, então, o sentido da apelação, da exortação que brota do coração de Pedro “Salvai-vos dessa gente corrompida”. É o apelo de quem conhece as duas faces contrapostas da realidade humana: a perdição e a salvação.
A pregação teve muito sucesso “mais o menos três mil pessoas se uniram a eles”, mas a tensão entre os dois mundos contrapostos e a luta para se manter na salvação continua, como testemunha a segunda leitura.
2da leitura 1Pd 2,20b-25
Trabalhar com amor, no amor e por amor, nem sempre encontra adesão e compreensão. Muitas vezes é o contrário. A isso se refere o texto “Se suportais com paciência aquilo que sofreis por ter feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus”. Paciência é a capacidade de sofrer.
Surpreende a anotação “De fato, para isto fostes chamados” se for entendida como um chamado a sofrer para sofrer, como se o sofrimento tivesse uma finalidade em si mesmo. Com efeito, o amor tem em si mesmo uma dimensão de sofrimento, por não ser entendido nem aceitos em seu conteúdo específico; por não ter aquela adesão ou retorno que constituiria a resposta certa às inquietudes e desejos profundos de realização da pessoa; por uma oposição , tal vez violenta, motivada pela inveja, pelo ódio, por mexer com privilégios injustos e outras atitudes anti éticas, etc.
É o que aconteceu a Cristo “Também Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais seus passos”. A continuação descreve as atitudes éticas de Jesus, o quadro dos sofrimentos com o porquê e a finalidade dos mesmos “carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”.
Resistiu por nós a nosso favor, nos representando, a toda força e violência extrema que queria reconduzi-lo no marco de um Deus que assumisse as expectativas e os critérios que os homens - os pecadores -, achavam convenientes e necessários que Deus tivesse. Isso teria significado- para eles - mostrar aquela identidade com o Pai que repetidamente Jesus afirmava ter, mas que não conferiam nas atitudes e nas palavras dele. De fato, Jesus foi condenado por eles como blasfemo.
“Por suas feridas fostes curados”. Jesus não permitiu que o pecado tomasse conta dele. O pecado o massacrou, mas não entrou nele, não o subjugou. Aquela vitória sobre o pecado, aquele amor tão grande que deu a força a ele de sofrer e não se dobrar, foi a nossa vitória, ou melhor, a vitória de todos aqueles que em virtude da representação aceitam e acreditam nela, nesse dom gratuito.
Os efeitos: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda das vossas vidas”. Encontraram o rumo certo e o caminho, assim como quem os acompanha e cuida de não voltar atrás.
O tema e a missão do pastor é o próprio do Evangelho.
Evangelho Jo 10,1-10
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia”. É a meta da missão de Jesus. A vida em abundancia não se refere à vida após a morte, mas a esta vida terrena, que por ser adesão à pessoa de Jesus e caminhar com ele no desenvolvimento da missão, participa da plenitude que será desvelada plenamente só após a morte e com a vinda do Ressuscitado.
Duas afirmações destacam: a de porta e a de pastor. “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas (...) Quem entrar por mim, será salvo...”. A porta é a passagem obrigada; é ponto de união e de comunicação do ambiente com outro. Portanto, se designando como porta, Jesus quer indicar ele mesmo como passagem obrigada para entrar na vida em abundancia.
“... entrará e sairá e encontrará pastagem”. Parece-me que com estas palavras indique a atividade evangelizadora dentro e fora a comunidade, que abrange a todos indistintamente. Desta forma, o desenvolvimento da missão, da ação evangelizadora, se torna motivo de crescimento humano e espiritual, assim, como alimento necessário para manter a vida em abundancia. De fato, todo dom recebido, para que não apodreça e gere morte em quem o recebeu deve ser transmitido. Eis, então, uma possível interpretação de “entrar e sair” do texto.
Em outro texto, Jesus fala da “porta estreita” que conduz à salvação. E como é necessário fazer violência consigo mesmo para conseguir passar por ela. Refere-se à dinâmica da morte e ressurreição e particularmente em amar-nos uns os outros como ele nos amou, assumindo o estilo de vida e a filosofia dele.
Outra imagem é a do pastor. Há uma identidade profunda entre o discípulo e Jesus “quem não entra no redil das ovelhas pela porta- Jesus-, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante”. Pois são duas realidades intimamente conexas e necessárias, como a porta e entrar por ela, para guiar e apascentar o rebanho. Em virtude disso, o pastor, o evangelizador, o discípulo é como outro Jesus. A afirmação de Jesus é peremptória “ Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas”.
Por outro lado, há afinidade e sintonia entre o pastor e as ovelhas “as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora”,ou seja, as associa à missão. Se a transmissão do dom é necessária para a vida em abundancia e o pastor deseja que as ovelhas a alcancem, não há outro caminho e perspectiva.
“E, depois, de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz”. A missão é dom para todos. Daí a atenção de fazer sair a todas as ovelhas para que caminhem com ele na frente, como guia, orientador, se expondo em primeira pessoa , como em quem podem confiar serenamente.
O porquê desta confiança está no fato de que “conhecem a sua voz”. Voz que lhes se tornou familiar, que transmite segurança, pois, constataram e comprovaram a sincera e autentica dedicação para o bem delas. Com outras palavras, sintonizaram com o estilo de vida dele, concordaram com a filosofia dele e, sobretudo, perceberam a dedicação e o amor dele com e evento da morte e ressurreição.
Contudo, podem ser enganadas, ou seduzidas por outras propostas, por outras atitudes do falso pastor. É a alerta que Jesus se propõe apresentar a elas.
terça-feira, 10 de maio de 2011
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Gigi, parabéns pela reflexão. Como sempre você consegue me surpreender. Um fraterno abraço.
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