domingo, 3 de julho de 2011

15o DOMINGO DO T.C.-A-(10-07-11)

1ª leitura Is 55,10-11

O texto atribui à palavra de Deus uma realidade objetiva, uma força excepcional, capaz de superar todo obstáculo e executar a vontade de Deus. Ela é comparada à chuva e à neve “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vem irrigar...”. Metáfora muito eficaz que transmite a idéia da força e poder indiscutível da palavra de Deus.
Ela “não voltará para mim vazia; antes realizará tudo que for de minha vontade, e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”. Cabe perguntar: em que consiste a vontade do Senhor e o que pretende conseguir?
Em primeiro lugar afirma , como a chuva e a neve,que a palavra chega a todos indistintamente. Todos a recebem, ninguém fica excluído. É preciso criar as condições para que isso aconteça. Eis, então, o primeiro passo do discípulo, do profeta, do evangelizador: anunciar a palavra.
O anúncio inclui a devida argumentação do que é proposto. Assim, é preciso dar razão da própria adesão e ela; da transformação que suscita e da esperança com respeito ao futuro e ao destino pessoal e da humanidade toda. Com outras palavras, perceber o valor, a importância e o sentido da proposta.
A palavra pode ser acolhida ou não. Por acolhida, deve-se entender o comprometimento. Não se trata de simples informação ou de curiosidade. Trata-se de acreditar nela de maneira tal que marca o caminho, constitui a filosofia de vida com respeito ao relacionamento consigo mesmo, com os outros, com a sociedade, com o mundo e com a criação e o destino do próprio viver.
Mas, também, pode não ser acolhida. Diferentes motivos podem sustentar tal atitude. De fato, ela no entra no horizonte dos próprios interesses de maneira significativa e marcante. Pode ser objeto de informação, de conhecimento, de atenção em situações particulares e momentâneas, mas incide superficialmente o de maneira inconsistente no projeto global da própria vida.
Eis, então, a segunda missão da palavra: discernir. Assim, a vontade e os efeitos pela qual foi enviada é determinar o posicionamento de todos com respeito à proposta de vida que ela oferece. O evangelho frisa como o velho Simeão, tendo em seus braços Jesus, profetizará que “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações” ( Lc 2, 34-35).
O envio da palavra responde por um lado à vontade do Senhor e pelo outro lado à exigência de libertação da criação toda, como explicita a segunda leitura.

2da leitura. Rm 8, 18-23

A palavra será motivo de contradição, como profetizou Simeão. Gerará divisão, tensão e sofrimento entre as pessoas. E, também, naquelas que a divulgam, pelas múltiplas dificuldades que encontrarão no desenvolvimento da missão.
Neste pano de fundo, Paulo afirma “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós”. O entendimento dele é sustentado pela presença e ação do Espírito nele e na criação.
Devido ao evento da Pentecostes “sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto. E não somente ela, mas nós também,que temos os primeiros frutos do Espírito”.
O que está acontecendo é como o parto, a geração de uma nova realidade, de uma nova vida. Ele, o parto, pelo lado da criação traz a esperada libertação da vaidade e da escravidão da corrupção. E pelo lado do cristão a “adoção filial e a libertação para o nosso corpo”.
Ponto determinante e final do processo, ansiosamente esperado, é “o momento de se revelarem os filhos de Deus”, na condição de pessoas investidas da adoção filial e participes plenamente da ressurreição de Cristo.
Assim, o parto envolverá simultaneamente os cristãos e a criação. Pelos primeiros se tratará da manifestação “da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Pela criação “a liberdade da escravidão (da vaidade) da corrupção” e, assim, participar da liberdade e da glória dos mesmos filhos de Deus.
Eis, porque Paulo afirma “De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelares os filhos de Deus” e se sente investido de uma missão que ultrapassa a pregação às pessoas, à comunidade e abrange a criação toda, que será mergulhada na gloria de Deus. Assim, também a criação chegará à condição de novo céu e da nova terra, libertada do que se opõe à vontade do Criador.
Paulo sabe da “ glória que deve ser revelada em nós”. E como ela está intima e profundamente ligada à ação evangelizadora que reprisa nele e nos cristãos a experiência da morte e ressurreição de Cristo.
Portanto, o apostolo, comparando os sofrimentos do presente e a gloria futura afirma com plena consciência “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós”.
A metáfora do parto faz pensar ao momento inicial do processo, ou seja, à fecundação. Assim, a fecundação e o inicio do processo se da naqueles que recebem a palavra de Deus e se deixam envolver por ela. Sem este ponto de partida a criação ficará sem esperança de libertação e de participar da glória de Deus.
É a palavra de Deus (a carta de Pedro a compara explicitamente ao sêmen masculino) o elemento que ativa o processo. Contudo, ele pode não chegar ao bom fim, como indica o evangelho.

Evangelho Mt 3,1-23

É a conhecida parábola do semeador, cuja explicação o texto oferece com clareza e profundidade o significado de conteúdo. Cada pessoa e cada comunidade estão chamadas a se confrontar com ela.
A parábola foi colocada para dar animo e esperança aos missionários, aos discípulos, desanimados e até desmotivados pelos poucos frutos, pela desilusão de não ter o retorno esperado da própria atividade evangelizadora.
Com efeito, as palavras finais “produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente” garantem e passam a certeza de que o trabalho evangelizador chegará a completar as expectativas de Deus, como frisava o conteúdo da primeira leitura.
Parece-me que “a terra boa”, não se refere à pessoa ou à comunidade eticamente correta. A ética será fruto amadurecido do que previamente Deus mesmo oferece como preparação do terreno.
Neste sentido “a terra boa” é a realidade pessoal constantemente, adubada e irrigada pelo dom da morte de ressurreição do Senhor. Com efeito, o anuncio da Palavra tem como eixo central a proclamação de tal evento e de seus efeitos naqueles que acolhem o dom oferecido.
É isso que prepara a terra boa. Todos os obstáculos, os empecilhos e as condições que não permitem à terra de acolher e de produzir frutos após a semeadura, são tirados e anulados por esse dom.
A interiorização dos efeitos da morte e ressurreição - quais a remissão dos pecados, o restabelecimento da Aliança e a conseguinte percepção da vida em abundancia como participação, antecipação e garantia da vida futura que se manifestará no final dos tempos – cria as condições para produzir os frutos do estilo de vida e da filosofia de amor que Jesus praticou e pregou na sua ação evangelizadora e ensinou como caminho, verdade e vida.
Este “trabalho prévio” Deus o realiza constantemente na ação sacramental e particularmente na Eucaristia. É assim que se cria a necessária e eficaz ligação entre fé e vida, que caracteriza a autentica espiritualidade cristã. Tal vez, este aspecto prévio não é suficientemente percebido na sua importância.
Conseqüentemente a ligação fé vida sofre daquela fraqueza e inconsistência pela qual se manifesta a fratura entre a celebração da Eucaristia, o estar na Igreja, e a vida fora nos afazeres do dia a dia. A dificuldade de entrosamento leva à aceitação passiva que assim é, que não há remédio...
Por outro lado, é certo que a Eucaristia, não é só trabalho prévio, mas também fim. Ela é, participação do louvor e da glória de Deus. Com efeito, ela une os dois aspetos, o começo e o fim, que configuram o círculo do amor de Deus no qual a pessoa e a comunidade estão mergulhadas.
Eis, então, percebida a eficácia da palavra e as condições para que ela produza os frutos para os quais é destinada. Inclusive, aqueles frutos de discernimento entre aqueles que a assumem para valer e outros que optam ficar em outras filosofias e estilos de vida.
De todas as maneiras a palavras cumpre a sua missão.

Um comentário:

  1. Gigi, parabéns pela reflexão. Você conseguiu traduzir um sentimento a muito tempo guardado comigo. "De todas as maneiras a palavras cumpre a sua missão." A Palavra de Deus cumpre a sua missão independente dos ouvidos que a ouça ou do coração que a acolhe. Obrigado!!! Um fraterno abraço.

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