domingo, 7 de agosto de 2011

20o DOMINGO DO T.C.-A-(14-08-11)

1ª leitura Is 56,1.6-7

O templo de Jerusalém polariza a vida nacional e alguns do povo lutam pelo exclusivismo nacionalista. Para estes, só os descendentes legítimos da raça pertencem ao povo eleito.
Para ter uma idéia. J.Jeremias, grande estudioso da bíblia, informa que, depois da investigação no arquivo do templo até a quinta geração, no caso um descendente da tribo sacerdotal- a de Levi-, tivesse o próprio sangue misturado com o de outra raça era excluído do serviço. A pureza racial era, para alguns, determinante aos efeitos da salvação. (Algo disso tem na ,polemica de Jesus para com os fariseus, que avançam suas pretensões em função da descendência de Abraão).
Eis a ordem do Senhor: “Cumpri o dever e praticai a justiça”. Em que consiste o dever? O respeito e a fidelidade às exigências da Aliança. O respeito dos termos da Aliança faz do povo, o “povo de Deus”. E o cumprimento de suas exigências, consolida e fortifica a identidade, em virtude da qual Deus reconhece nele o seu povo e o povo tem a certeza d e pertencer a Deus.
Praticai a justiça” é o correto relacionamento com Deus, assim como o correto relacionamento interpessoal e social. Praticar a justiça é a maneira de manifestar o evidente Senhorio de Deus sobre o seu povo. Isso se desdobra nas atitudes indicadas quais “prestando-lhe culto, honrando o nome do Senhor, servindo-o...”.
Assim, “minha salvação está prestes a chegar e minha justiça não tardará a manifestar-se” . A salvação consistirá na paz, entendida como harmonia entre todos e com tudo. É justo todo o que faz da pessoa um sujeito mais humano, mais capaz de se doar para gerar fraternidade, sem discriminação de algum tipo.
É justo todo o que faz o povo se identificar praticando o direito e o cumprimento da Lei, contra a prepotência e o abuso em prejuízo dos desamparados: o pobre, a viúva , o órfão, o estrangeiro... Assim, se cumpre a justiça, que ultrapassa a condição humana e manifesta sua origem e proveniência de Deus.
Tudo isso, não fica circunscrito ao povo eleito, como exclusividade dele, mas abrange também os estrangeiros “Aos estrangeiros que aderem ao Senhor,...” . É abertura surpreendente. A profecia se dirige a eles. Em virtude de honrar o nome do Senhor, o mesmo diz “ a esses conduzirei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; aceitarei com agrado em meu altar seus holocaustos...”.
Honrar o nome do Senhor é sinônimo de amá-lo. Melhor, é acolher o amor com que nos ama, pelo cumprimento dos mandamentos. Eis, então uma indicação chave. O critério de pertencer ao povo de Deus vai alem do critério da descendência, ultrapassa o da raça e se concretiza no binômio confiança-amor. Com outras palavras, do amor confiante, com sincero coração e inteligência perspicaz.
Este critério vale não só para os estrangeiros, mas para todos, pois o cumprimento da Aliança depende disso. Portanto, não se trata só da concessão inédita a favor dos estrangeiros, mas apontar ao centro, e as condições para ser realmente e não só mecanicamente o povo de Deus, o povo da Aliança.
É nesta ótica que se podem entender as palavras de Paulo na segunda leitura.

2ª leitura Rm 11,13-15.29-32

São Paulo considera a ligação entre a missão dirigida aos pagãos e a salvação dos seus compatriotas. Muito o angustia a não aceitação de Cristo por parte de seu povo. Garante que “honrarei o meu ministério” para com os primeiros, na esperança de “despertar o ciúme nos de minha raça” de maneira tal de “salvar alguns deles”.
Ponto de partida da reflexão é o compromisso por parte de Deus, que certamente será cumprido pela fidelidade do Mesmo, pois, “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”. Pois, a salvação é para uns e para os outros.
A ligação consiste no singular jogo pelo qual, em primeiro termo, a desobediência de uns ajudou o outro e depois, em segundo termo, é vice-versa. Dirige-se aos pagãos: “Outrora, vós fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes a misericórdia, em conseqüência da desobediência deles”. Com efeito, os compatriotas rejeitando Jesus fizeram que o sacrifício Dele tivesse valor universal e, portanto, se abriu a porta da salvação para todos os povos. É o que Paulo está comprovando com a sua pregação e adesão dos pagãos a Cristo.
Agora ele aguarda e espera o processo contrário: “Assim, são eles agora os desobedientes, para que, em conseqüência da misericórdia usada convosco, alcancem finalmente a salvação”.
A chave do mecanismo e de toda a dinâmica é a misericórdia de Deus, sustentada pela vontade de salvar a todos. Paulo o afirma explicitamente “ Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”(1Tm2,4). Por isso, Deus ativa sua misericórdia “Com efeito, Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos”.
Que o estrangeiro possa ser motivo de conversão dos integrantes do povo de Deus, dos que praticam a Aliança e dos herdeiros da promessa, é uma perspectiva que ultrapassa toda imaginação e expectativa no contexto de então. Contudo, é a visão e a certeza que move Paulo. Visão grandiosa, inimaginável e estupenda e,ao mesmo tempo, capaz de motivar toda dedicação, sofrimento e provação, como as que Paulo experimentou ao longo de toda sua vida .
Retomando o tema da primeira leitura, são estes estrangeiros que amam e “honram o nome do Senhor”, na aceitação do dom de Cristo oferecido pela sua morte e ressurreição. Com isso, se cumpre toda justiça e a realização do plano de Deus para toda a humanidade.
É o paradoxo e a ironia que os excluídos na visão dos integrantes do polvo eleito, se tornem os que mediam a salvação a favor dos mesmos. Isso revela que os caminhos do Senhor fogem de toda previsão e cálculo humano. É a surpresa de constatar como Deus age de maneira tal que todos tenham acesso à salvação, tendo acesso a ela todos aqueles que se deixam tocar pela dinâmica é a morte e ressurreição do Filho. Pois, a misericórdia é para todos, indistintamente.
Ela é amor que caminha de mãos dada com a fé , como testemunha o evangelho.

Evangelho Mt, 15, 21-28

Jesus está em terra estrangeira, entre os pagãos “a região de Tiro e Sidônia”. A fama dele chegou até ai, ultrapassou os confins de israel. Ele é abordado pela mulher cananéia como “Senhor, filho de Davi”. A mulher sabe que pertence a outra raça, a outro povo, que não é descendente do povo eleito, do povo do rei Davi. Contudo, suplica “tem piedade de mim, minha filha está cruelmente atormentada por um demônio”.
Com o termo “cruelmente”, manifesta o profundo sofrimento da mulher. Surpreende, portanto, o silencio de Jesus, tão sensível ao sofrimento e a dor das pessoas ...
Aos Apóstolos se manifestam como para se libertar do incomodo de uma circunstância desagradável “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”, Jesus responde com uma motivação que limita sua missão aos filhos de Israel. “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas de Israel”. Palavras e atitude desconcertantes, mais que suficiente para desanimar, desmotivar e afastar para sempre toda pessoa. Há como uma barreira insuperável.
A mulher, pelo contrário, com determinação e insistência volta suplicar e encara a resposta de Jesus, que a coloca em nível do cachorrinho, com genialidade e firmeza “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos”.
Uma força de animo, uma lucidez e prontidão tão singular são possíveis porque a mulher participa de maneira profunda de amor ao sofrimento da filha, e não poderia ser de outra maneira sendo a mãe. Mas também ela ficou muito envolvida com o que a palavra e a pessoa de Jesus operaram nela. Com certeza deve ter percebido no profundo si mesma a verdade e o surgir das condições pelas quais pode alcançar a saúde para a filha. Com outras palavras, entrou no mundo de Jesus, ou deixou que o mundo de Jesus entrasse nela. E acreditou.
É o que Jesus frisa explicitamente “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres! E desse momento sua filha ficou curada”. O que ela quer será feito porque em sintonia com o que Jesus suscitou no profundo dela, em virtude de tê-lo acolhido. Trata-se da fé dela no que Jesus realizou nela.
Portanto a grandeza da fé que Jesus elogia não é direta em primeiro lugar à sua pessoa, em quanto Jesus Filho de Deus todo poderoso. Mas, ao que ele operou em termos de transformação no mundo interior dela.
É a mesma fé que Jesus espera de toda pessoa que se aproxima a ele e diz de ter fé nele. É a fé na transformação interior com respeito aos valores, aos critérios, à filosofia de vida, que declina o novo estilo de vida e motiva abandonar o que não é conforme para assumir o que é conforma à nova realidade que vai surgindo e que já descobre presente nele .
Jesus com as palavras “Seja feito como tu queres” não satisfaz o capricho dela, ou simplesmente atende a insistência dela. Mas, prende consciência do que foi amadurecendo nela com o processo da transformação do mundo interior que a sua palavra e a sua pessoa operou.
Para concretizar, a Missa é um desses eventos. A Oração Eucarística - mas vale para a missa toda - realiza em nós a transformação. Mais exatamente: a remissão dos pecados; restabelece a nova ed eterna aliança e a participação na vida eterna, antecipo da glória que se manifestará no final dos tempo.
Percebendo esta transformação pela fé somos dignos de receber a eucaristia: o Corpo e o Sangue do Senhor. Não se trata de dignidade ética - pois somos pecadores, e nos apresentamos como tal - mas teológica, ou seja, aquelas é operada por Ele e assumida pela fé.
Eis, portanto, o ponto alto, o ponto de chegada da fé.

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