1ª leitura Ez 33,7-9
O trecho aponta à responsabilidade do profeta, e,portanto, de cada pessoa que serve fielmente o Senhor, com respeito ao correto relacionamento para com o próximo. Diz o Senhor “Quanto a ti, filho do homem, eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel”. O vigia, sobretudo de noite, está acordado e atento a todo o que acontece ao seu redor, com a finalidade de proteger, advertir e convocar, para a defesa e o bem do povo todo.
O profeta recebeu do Senhor o encargo de passar a mensagem Dele “Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome”. Evidentemente, está em sintonia com as exigências e o cumprimento da Aliança
O destinatário é o ímpio, com outras palavras, a pessoa que fala a age como se o Senhor não existisse. Hoje diríamos o ateu, não só o teórico que nega a existência de Deus, ou o agnóstico (naquela época absolutamente impensável), mas aquele desinteressado da Lei e pratica sem contar com ela. O ímpio está totalmente por fora dos caminhos e do horizonte de vida proposto pelo do Senhor. E, portanto, está se expondo à morte.
A este o Senhor se dirige por meio do profeta confiando-lhe a missão “Se eu disser ao ímpio que ele vai morrer, e tu não lhe falares, advertindo-o a respeito de sua conduta, ímpio vai morrer por própria culpa, mas eu te pedirei contas da sua morte”. O pensamento vai à pergunta de Deus dirigida a Caim e a resposta deste “ Onde está teu irmão Abel (...) Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão Abel?”( Gn 4,9). A responsabilidade para com o próximo é imprescindível do ponto de vista de Deus. Portanto, o profeta tem que se aproximar ao ímpio. Tem que buscá-lo, não deve esperar que chegue voluntaria ou espontaneamente a ele.
É a missão não só do profeta, mas de cada cristão. Cabe uma pergunta: com qual sentimento e atitude interior tomar a iniciativa e se aproximar? Quais os tópicos da correta aproximação?
Em primeiro lugar é preciso supor que nenhuma pessoa é totalmente ruim. Pois, há nela as raízes do bem, ainda que abafadas ou não desenvolvidas. Sem este otimismo é difícil dar o primeiro passo. A continuação é dever não ter sentimentos, e menos ainda, atitudes de juiz. Não se trata de julgar, mas de facilitar nele a compreensão do próprio erro, do próprio limite, com a finalidade de resgatar o bem que está nele.
A tal fim, o enviado, deve se manifestar de maneira sincera e transparente. Deve falar com a serenidade que procede do coração de quem, pelo amor ao bem presente no outro, acredita na possibilidade de que o ímpio o vê, o assuma, acredite, e, conseguintemente, investe a própria inteligência, vontade e memória, ativando o caminho de conversão. É o resgate dele por ele mesmo.
Trata-se de facilitar a salvação da pessoa. Ela acontece por tomar consciência da transformação- libertação operada nela pela palavra do Senhor no profundo do ser dela. É o surgir da nova imagem, da nova realidade, assim como a indicação da meta e dos meios para alcançá-la. Ao mesmo tempo é como uma luz para discernir as escolhas certas e as atitudes convenientes do dia-a-dia.
É importante se aproximar sabendo que pode haver resposta negativa “Mas, se advertires o ímpio (...) e ele não se arrepender...”. Não por isso o enviado deve se sentir fracassado, pois, ele “salvará sua vida”, não em sentido simplesmente de ter evitado um prejuízo. Mas de ter acrescentado a vida nele, tendo vivenciado a salvação para consigo por aceitar com paciência o sofrimento e a humilhação da rejeição; por acreditar e perceber que valeu afirmar a verdade do Senhor; por esperar que no futuro - que só Deus sabe quando- a semente dará fruto; por ter consciência de que, tal vez, apesar da boa vontade e determinação, cometeu involuntariamente erros...
Em fim, a vida não é só existência física, é todo o ser em harmonia com todos e com tudo. É a realidade do amor, vivenciada com coragem e determinação, vencendo todo obstáculo humano e confiando na presença do Senhor.
A segunda leitura desenvolve o tema.
2da leitura Rm 13,8-10
“Não fiqueis devendo nada a ninguém...”. A consciência de dever algo a alguém surge por não ter feito o que podia e devia ser feito, ou pelo remorso de não ter feito bastante. Contudo, há algo inesgotável e impossível ao respeito: o amor mútuo. É o que Paulo indica “... a não ser o amor mútuo”.
O amor é Deus mesmo, sua nascente é Deus. Portanto, o amor mútuo, se for expressão e concretização do amor de Deus, mesmo crescendo qualitativa e quantitativamente, por sua natureza estabelecerá o relacionamento de um para o outro sempre aquém do devido, pois, é inesgotável.
Portanto, “quem ama o próximo está cumprindo a Lei” se refere não à meta alcançada, mas ao processo e a dinâmica que se expande como uma espiral e abrange sempre mais tudo e todos, em virtude do inesgotável amor de Deus.
Assim, a observância dos mandamentos é entendida como manifestação concreta desse amor, pois os mandamentos se resumem no “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
Nestes dias tive oportunidade de ler um texto hebraico que apresenta a tradução do preceito nestes termos “Amarás para o teu próximo como para te mesmo”. E acrescenta “A Lei não pede de amar o próximo, pede de amar para o próximo. Nesta sutil diferença, tal vez, esteja toda a Lei”
Para o autor, “Amarás o...” se refere só a Deus. Conseqüentemente o texto completo soa assim: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma (...) para o teu próximo como para te mesmo”. A mudança é notável.
Amarás o Senhor porque primeiro ele te amou. É o que frisa são João “Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos o seu filho”(1Jo 4,10). Portanto, a primeira atitude para com Deus é se deixar amar por Ele. É atitude “passiva”, no sentido de ser simplesmente o destinatário e receptor que se deixar envolver com todo o coração com toda alma e com todo o ser, com atitude de confiança e gratidão. Em virtude disso, experimenta-se, na e pela fé, o amor Dele em termos de remissão dos pecados, do restabelecimento da nova e eterna aliança e de participação à vida eterna, antecipação da glória futura. (Tudo isso é o que nos passa a celebração da Eucaristia).
Então, amar o Senhor para o teu próximo não é simplesmente desejar o crescimento humano e espiritual para ele. É torná-lo consciente que o amor para com ele- que está acontecendo por se aproximar conforme ao mandamento de Jesus “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15,12)-, é mesmo amor de Cristo que o envolve e o faz mergulhar no mistério de Deus. Eis, pois, a finalidade “de amar o Senhor... e o amaras para o teu próximo”: perceber de ser amado por Deus e se motivar para o compromisso evangelizador a favor dos outros.
Esta atitude é, ao mesmo tempo, a maneira de amar a si mesmo “... amarás como para te mesmo”. Com efeito, devolvendo o dom a Deus no amor para o meu próximo, acrescento a comunhão e a intimidade com Deus mesmo, cresço humana e espiritualmente na glória de Deus. O dom recebido é como o sangue que corre nas artérias. Correndo nelas, benéfica as artérias mesmas e o corpo todo simultaneamente. Mais ainda, esta atitude é condição para amar o próximo e a si mesmo simultaneamente, ou seja, para o crescimento humano e espiritual dos dois.
Portanto, “Amarás o Senhor teu Deus...” é colocar Deus como eixo, como ponto de referencia central, pois, ele é caridade. Por outro lado,“Amarás para o teu próximo como para te mesmo” indica que os dois- o próximo e te mesmo- são beneficiados ao mesmo tempo. Assim, Deus permanece Deus e o homem glorificado por e para Ele.
A glorificação da pessoa se declina no correto comportamento indicado pelo evangelho.
Evangelho Mt 18,15-20
“Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo”. Indicação na grande maioria dos casos amplamente desrespeitada. Normalmente se conversa com todos, menos com a pessoa envolvida... Contudo, o ofendido deve tomar a iniciativa de recompor o relacionamento, manifestando o próprio incomodo e a própria mágoa.
“Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão”. O condicional “Se” indica que se aproximar será a oportunidade para conferir em si mesmo e no irmão a qualidade e a consistência do relacionamento.
Se nos dois há motivo para manter e cultivar o sincero relacionamento de fraternidade, por um lado haverá condição de manifestar o desaponto com calma, serenidade e com coração apertado, motivando adequadamente o que e o porquê do desaponto o da mágoa. Isso supõe muito domínio das próprias emoções, e a consciência de ter sido atingido injustamente ou sem motivo. ( Caso contrário, a única saída é a humildade: reconhecer em parte ou totalmente o próprio erro...)
Pelo outro lado, se tiver boa e reta consciência, há condição para escutar e discernir corretamente, assim de sarar o que deve ser concertado, reconhecendo o próprio erro e motivando o próprio comportamento. Entre outros aspectos, é uma maneira para se tornar mais sábio. (Entre parêntesis, refletir sobre a própria experiência se torna fonte de sabedoria). Eis, então, o resultado final: “ganhaste o teu irmão”.
Mas, orgulho, vaidade, ciúme etc., são todos fatores que endurecem o coração, a pessoa se fecha sobre si mesma, nas próprias razões e argumentações ao ponto de ficar isolada de tudo e de todos, com a conseguinte exclusão do convívio comunitário.
Tal vez, seja licito supor que as palavras a continuação “tudo o que ligares na terra será ligado no céu , e tudo o que desligares na terra será desligado no céu” estejam ligadas a esta experiência. Estará ligado o que é conforme a este proceder e desligado o contrário. Assim, ter feito o que se devia e se podia fazer é já participar da realidade do céu. Portanto, deveria acrescentar o sentido de comunhão com Deus, apesar do eventual resultado negativo
O texto retoma o horizonte da vivencia comunitária e frisa o positivo dela “onde dois ou três estiveram reunidos em meu nome...”. Reunidos em seu nome é a consciência de mergulhar nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e a conseguinte vivencia imitando o estilo de vida dele, assumindo a sua filosofia como base da comunhão entre os irmãos em ordem à evangelização, em fazer própria a causa de Cristo. Nestas condições Cristo garante a sua presença “...eu estou aí, no meio deles”.
Portanto, todo pedido em sintonia com a realidade da comunhão e da evangelização “isso lhes será concedido por meu Pai que está no céu”. O discípulo é o continuador da missão de Jesus e, portanto, pode contar com a presença e ajuda do Pai pelo Espírito Santo, no levar para frente o plano de Deus, manifestado na pessoa de Jesus.
É necessária a iluminação e a força do Espírito para discernir na complexidade do mundo atual que é certo do que é errado, e para criar as respostas convenientes que determinam a prática de vida conveniente.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
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