terça-feira, 23 de agosto de 2011

22o DOMINGO DO T.C.-A- (28-08-11)

1ª leitura Jr 20,7-9

Momento altamente dramático para o profeta. Ele é rejeitado e isolado pelo povo e pelas autoridades no desenvolvimento da missão que Deus lhe confiou. Missão que se revelou muito mais complicada do que pensava, tal vez por ter a certeza de ser enviado e acompanhado por Deus.
De fato,diz Jeremias, “ falo, levanto a voz, clamando contra a maldade e invocando calamidades” e com isso irrita a todos, pois , eles pensavam que podiam contar irrestritamente com a presença e proteção de Deus por ser o povo eleito e por Jerusalém ter o templo o lugar da presença do Mesmo.
Portanto, foi marcado como profeta da desventura, da desgraça, em contraposição ao otimismo generalizado. Em virtude disso “Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim (...) a palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro”. Sente-se como sufocado e desamparado, ao limite das suas possibilidades.
Volta, então, com o pensamento ao momento da chamada, quando Deus lhe confiou a missão, e lembra que foi como uma sedução à qual toda resistência foi vã “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mai forte, tiveste mais poder”. A sedução tem em si mesma a força enganosa da persuasão de maneira tal que, perdendo de vista todos os outros aspectos da realidade, leva a pessoa à entusiasta adesão.
Com a reflexão do depois, o profeta percebe a força sedutora de Deus “foste mais forte, tiveste mais poder” acompanhada pelo sentimento de decepção, de desilusão, por se ter deixado levar por ela. A realidade é bem diferente do que ele esperava...
A experiência de Jeremias é comum a toda pessoa que em virtude do sonho, do projeto de vida pessoal e social que o fascina e motiva a própria vida, se decide per entrar nele com toda a esperança de conseguir resultados significativos e satisfatórios. Depois chegam os reveses, os imprevistos, as provações, ou seja, os momentos da crise...
Nesta circunstância a primeira reação é como a do profeta “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”: deixar e se afastar da missão. E muitos desistem, abandonam, e vão por outro caminho...
Não é caso de Jeremias “Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem força para suportar”. Se o evento do chamado dele tivesse sido só uma sedução enganosa, tudo teria acabado. Foi seduzido enquanto aos resultados, às expectativas da missão. Tal vez, pelo excesso de entusiasmo e de otimismo dele, devido à juventude. Tal vez, pelas atitudes não pertinentes, por falta de adequado discernimento, como deixa entender mais na frente “ diz o Senhor: Se retornares, eu te faço retornar e estarás diante de mim. Se separares o valioso do que é vil serás como a minha boca” (Jr 15,19).
De fato a missão em si mesma fica de pé com toda sua força e ímpeto. A autenticidade do chamado de Deus se desvela nesse desdobramento. Por um lado é um fogo ardente que nada e ninguém podem tirar ou apagar; pelo outro, tem em si mesmo elementos de sedução humana que necessariamente serão purificados no desenvolvimento da mesma, como está acontecendo ao profeta..
A missão é, também, o âmbito do desenvolvimento da pedagogia de Deus, que acompanha e sustenta a atividade do enviado. Atividade que se mistura entre o certo e o errado, sustenta a sedução, e, portanto, necessitada de constante atenção e discernimento.
É a alerta que Paulo faz na segunda leitura.

2da leitura Rm 12,1-2

A exortação está alicerçada na “misericórdia de Deus”, pois, Paulo a experimentou plenamente, e foi marcado para ser o que ele é. Com profunda e sincera gratidão o apostolo retorna o dom que recebeu de Cristo a Deus “vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Com efeito, recebeu misericórdia pelo sacrifício de Jesus - o Santo-, conforme a vontade do Pai assumida pelo Filho no Espírito Santo.
Notável a afirmação que segue: “este é o vosso culto espiritual”. Com ela, aponta à existência do discípulo, dom de si mesmo no horizonte do amor gratuito, sincero, desinteressado e sem segundos fins, como o culto espiritual: o culto sustentado pelo Espírito Santo.
Assim, devolver o dom recebido é essencial para manter e aprofundar a comunhão com a Trindade e mergulhar, com sempre maior consciência e experiência, na vida eterna no presente. O objetivo da misericórdia de Deus é exatamente entrar nessa dinâmica de receber e devolver o dom, que garante e oferece estabilidade e consistência ao correto relacionamento com Deus.
Oferecer a própria vida requer atenção e discernimento. Atenção de “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos...”. Não só se trata de prestar atenção para tomar distancia dos critérios do mundo, que, por certos aspectos determinantes e decisivos da vida do dia-a-dia e do convívio social, são contrários aos de Deus. É ter consciência da inevitabilidade de ter que caminhar na contra- mão, com todas as conseqüências que acarreta...
Mas, também, ao mesmo tempo, se trata de renovar “...vossa maneira de pensar e de julgar”, em consideração dos diferentes povos, culturas e ambientes, das diferentes circunstâncias e condições de vida que, à luz da missão salvadora operada da Cristo, faz o discípulo capaz de responder criativa e adequadamente. Em virtude disso os destinatários se sentem envolvidos o mistério da morte e ressurreição de Cristo e se tornam, por sua vez, discípulos.
Para o discípulo, renovar a maneira de pensar e de julgar é uma atividade constante, sustentada pelo amor a Cristo e responde fielmente à causa do Evangelho, como continuador da missão Dele. Com efeito, a vontade de Deus consiste na salvação de todos “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”(1Tm 2,4). Para atingir o objetivo é necessária esta ação de discernimento “para que possais distinguir o que é vontade de Deus, isto é o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”.
Contudo, o não se conformar com o mundo, a transformação de pensar e de julgar não é fácil nem simples. É o que o evangelho mostra.

Evangelho Mt 16,21-27

Pedro acaba de professar sua fé em Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,17). É elogiado pelo Mesmo, e lhe confia o poder de ligar e desatar na terra e no céu tudo o que é conforme ou discorda dessa fé. Tudo bem. Com certeza é um momento de grande satisfação para Pedro e os apóstolos: uma sintonia e uma colaboração -atar e desatar- perfeita. Não falta nada. Parece ter chegado no nível de comunhão e entendimento invejável...
Mas, a continuação Jesus manifesta que o Messias “devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos (...) e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. Pedro, tal vez sob o efeito do elogio e da empolgação, chama a atenção de Jesus, cuja resposta, sem duvida, é particularmente chocante para ele e para todos “Vai longe satanás!”. É a mesma resposta com a qual Jesus despede o demônio no final das tentações!
A primeira pergunta é: como é possível um contraste tão radical no espaço de poucos minutos? Como é possível que aconteça em Pedro - e, portanto, em cada pessoa, em cada discípulo - uma divergência de tal magnitude? Pedro entendeu a realidade de Jesus, mas faltou discernimento para compreender corretamente as mediações e o conteúdo especifico da realidade do Messias, Filho de Deus.
Faltou discernimento porque, explica Jesus, “ não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens”. Ele e os apóstolos não assimilaram, ainda, os critérios de Deus apesar de ter escutado e visto a o comportamento e a atuação de Jesus. Não entender os critérios de Deus, leva Pedro, apesar do bom propósito e da vontade, a ser “uma pedra de tropeço” para Jesus mesmo.
Portanto, para o correto desenvolvimento da missão não é suficiente a boa intenção e a boa vontade. É preciso prestar atenção aos critérios de atuação, que a continuação Jesus explicita. “Se alguém quer me seguir renuncie a si mesmo...”. A determinação de segui-lo inclui a condição e a vontade de assumir os critérios e o estilo de vida dele. Portanto, é preciso se afastar dos próprios.
A identificação com Jesus é de tal portada que este passo é necessário e coerente. Mas traz consigo exatamente o que Pedro queria afastar “...tome a sua cruz e me siga”. Assim, a rejeição de Jesus será a mesma que sofrerão os apóstolos. Seguir a ele é ter o mesmo tratamento e o mesmo destino.
Mas, tudo isso encerra o paradoxo surpreendente “Pois, quem quiser salvar a própria vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”: a verdade se manifesta no seu contrário.
É esta realidade difícil de aceitar, pois, vai à contra mão do sentido, da expectativa, do desejo e da experiência humana. É proceder sabendo e aceitando as inevitáveis “batidas”de quem procede em tal direção... Precisa de muita fé, de boa identificação com Jesus, para se manter, não desviar nem desistir e retroceder.
Jesus sabe da dificuldade de Pedro (e de todos) entender e aceitar a sua mensagem e indica o motivo: o desejo inato do homem de poder, de domínio como realização da existência bem sucedida. Mas revela o engano dele, pois, no fundo se trata de perder irremediavelmente a própria vida. É o paradoxo em sentido contrario daquilo proposto por ele. “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?”.
E alerta que será perder sem possibilidade de resgate “O que poderá alguém dar em troca de sua vida?”. Aqui está a diferença: o perder proposto por ele é para encontrar a vida; o proposto pelos homens é perdê-la definitivamente.
Eis, então, as palavras para selar a bondade e a conveniência de sua proposta “Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”.
Trocar os critérios é questão de fé, de confiança, e em último termo de salvação, de entrar na comunhão com Deus.

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