segunda-feira, 28 de novembro de 2011

2do DOMINGO DO ADVENTO -B-(04-12-11)

1ª leitura Is 40,1-5.9-11

O texto é o começo do livro da consolação “Consolai o meu povo, consolai-o, diz o vosso Deus” , pois, está para terminar o exílio e a escravidão em terra estrangeira de Babilônia, na qual o povo foi deportado.

Foi entendimento comum que a causa da escravidão e da deportação foi o pecado, o desvio da Aliança. “Falai ao coração de Jerusalém (...) sua servidão acabou e a expiação de suas cul pas foi cumprida”. Falar ao coração e consolar manifesta atitude de preocupação, de carinho e interesse do Senhor para com o seu povo.

A expiação das culpas tem o sabor não da vingança ou do “olho por olho e dentes por dentes”, mas da pedagogia da correção. Com efeito, “Recebeu das mãos do Senhor, o dobro por todos os seus pecados” pode ser entendido como a necessária disposição de firmeza e de severidade para desmotivar e desanimar todo intento de voltar ao pecado, à transgressão da aliança. Portanto, é uma manifestação da preocupação do carinho de Deus para com o seu povo, como um pai de família preocupado para que o filho não volte aos erros anteriores.

O Senhor pede que o povo se disponha convenientemente ao evento “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso deus. Nivelem-se (...) rebaixem-se (...) endireite-se (...) alisem-se (...)”. É como um novo êxodo rumo à terra prometida, só que esta vez não é desconhecida, mas a terra que Deus lhes confiou e Jerusalém como capital.

Mas voltar a ela para reconstruir a nação, para se reorganizar nos termos da Aliança, supõe a mesma atitude, o mesmo esforço, a mesma purificação de então. Assim, o deserto e a solidão são formidáveis lugar, condição de purificação e de encontro com o Senhor. Portanto “a glória do Senhor então se manifestará... como renovação da Aliança,como identidade com a vontade do Senhor, no sentido de pertencer ao Senhor e de ter o Senhor Deus como próprio pai e rei.

“... e todos os homens verão juntamente o que a boca do Senhor falou” manifestação do acontecer do reino de Deus, na pratica di direito e da justiça. Trata-se de criar as condições para realizar a fraternidade e a solidariedade, sobretudo, para com os mais pobres e necessitados, por implantar a harmonia e a paz não só entre os integrantes do povo, mas com os estrangeiros, com todos os povos da terra.

O sonho de Deus de então é também o de hoje. Cada Advento é voltar ao mesmo propósito, é reassumir o mesmo compromisso, é creditar que merece todo esforço e investimento das próprias capacidades para dar um passo na frente, apesar das dificuldades e forças contrárias dentro e fora da Igreja.

Então haverá condição para anunciar “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor vem com poder (...) eis à sua frente a vitória”, a presença, o poder, a vitória que transparece na vida do povo por acolher e praticar a Aliança.

Assim, a Lei, a normativa da Aliança, é a maneira de Deus pastorear o seu povo. “Como um pastor, ele- Deus- apascenta o rebanho, reúne (...) carrega-os (...) tange as ovelhas mães” Ela , corretamente entendida e desenvolvida, é expressão d vivencia legal da Aliança com Deus.

Não é a Lei que segura a Aliança. É o contrário. O envolvimento no temor de Deus, no desejo de agradar a ele com amorosa e positiva aceitação de sua inspiração e guia é que sustenta e motiva a Lei. Cumprir a lei pela lei, na mera observância da letra, leva ao desvio da Aliança.

Infelizmente é o que acontecerá. E Deus estabelecerá a nova e eterna Aliança na pessoa de Jesus, pano de fundo da segunda leitura.

2da leitura 2Pd 3,8-14

O dia do Senhor, o retono do Ressuscitado está demorando. Este dia é apresentado como um evento no qual “os céus acabarão (...) os elementos, devorados pelas chamas (...) a terra será consumida com tudo o que nela se fez”. Viver nesta expectativa próxima, até iminente, significa redesenhar o sentido da existência, reformular projetos e programas de vida, aguardando com certa preocupação a chegada do evento que vai mexer radicalmente tudo e todos.

A demora cria sérios problemas e perguntas às quais os apóstolos não podem se substrair. Eis, então, que Pedro enfrenta o desafio e argumenta “O dia do Senhor chegará como um ladrão”, pois, é a promessa do Ressuscitado e o sentido da ressurreição do Senhor. É certo que tudo e todos serão tocados pelo evento.

Com efeito, a ressurreição de Jesus é manifestação de que Deus em Jesus, como representante da humanidade e da criação, tomou conta da mesma e a destinou à glória dele com a vida do Ressuscitado. Será um evento transformador e renovador em todos os aspectos.

O que está falhando é o quando. Particularmente, hoje, não é só isso, mas também a modalidade da vinda e as consequências em termos apocalípticos. Tomando ao pé da letra a descrição pavorosa da vinda, se acostuma ligar os eventos assustadores da natureza, o perigo atômico, os gravíssimos problemas sociais a sinais premonitórios do fim. Mas será isso mesmo?

O que nos esperamos, de acordo com sua promessa, são novos céus e uma nova terra...”. Não aponta a outro céu e outra terra, mas este céu e esta terra transformados, pelo triunfo da justiça “...onde habitará a justiça” . Tudo o que não responde à justiça “tudo se vai desintegrar (...) quando os céus em chamas vão derreter e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão”.

Sobre o corpo massacrado e morto de Jesus, em virtude de sua entrega de amor para o triunfo da justiça, o Espírito Santo - o fogo de Amor - liberou Jesus da morte, o renovou e transformou... Portanto, o que aconteceu nele, acontecerá para toda a humanidade. Não entendo porque haveria um processo diferente.

Parece-me que mais que acontecimentos naturais apocalípticos - a natureza tem suas leis e seu destino- o evento ultimo e definitivo, com a vinda do Ressuscitado, será a investida do Espírito Santo, cujos efeitos serão como o fogo descrito, que purifica e transforma tudo e todo.

Purificação e transformação que já fazem parte do dia-a-dia do cristão consciente em nível do conhecimento “Uma coisa vós não podeis desconhecer, caríssimos: para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia. O senhor não tarda (...). Ele está usando de paciência (...) quer que todos venham a converter-se. O dia chegará(...)”. E em nível de prática de vida coerente “esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura e sem mancha e em paz”.

Este processo tem em João Batista uma referencia muito significativa, como o Evangelho indica.

Evangelho Mc 1,1-8

“Inicio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Não se trata simplesmente do inicio cronológico, com respeito à atividade e missão de Jesus. Mas, também, do inicio do processo pelo qual a boa noticia de Jesus se torna boa realidade na vida da pessoa e da comunidade.

“Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho”. João Batista desenvolve a missão e chama o povo ao deserto, tradicionalmente lugar do encontro com Deus e de conversão, e incentiva enfaticamente “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” .

Na proximidade da chegada do messias prega “um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. Pecados por desrespeitar a Lei e afastar da Aliança. A conversão esperada consiste em voltar ao respeito da Lei, exigência da Aliança. Pois, com a chegada do Messias haverá o juízo: para os cumpridores a salvação, a participação no Reino e para os outros o fogo eterno. Ninguém poderá escapara nem com a morte, pois a ressurreição dos mortos é exatamente para que o juízo os alcance.

Trata-se fundamentalmente da conversão ética, sem dúvida muito importante, mas não determinante, pelo que Jesus fará acontecer. A retidão para com a Justiça não é dispensável, pois, “A sabedoria não entra numa alma que planeja o mal nem mora no corpo devedor ao pecado” (Sb 1,4).

É o primeiro passo. O mesmo João enxerga que muito mais há de vir “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu”. Sabe que o agir dele é circunstanciado e abrange um horizonte limitado, propedêutico a algo maior. Não percebe a magnitude, em termos de renovação e transformação, do que vai acontecer com a pregação de Jesus. Prova está que do cárcere “enviou seus discípulos para lhe perguntarem ‘És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro? ’” (Mt 11,3).

Percebe a ínfima pequenez dele “Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias”. Contudo, não é motivo para ficar com um pé atrás o acanhado perante os poderosos. Pelo contrario, está bem determinado em desenvolver a missão que lhe compete, ao ponto de desafiar o rei com as consequências que sabemos.

Mas percebe também a distancia entre a missão dele e a do Messias. “Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”. Com certeza João Batista não tinha ideia do que poderia significar o batismo “com o Espírito Santo”, pois ele acontecerá com a morte e ressurreição de Jesus.

Pois, Jesus disse “ Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra!”(Lc 12,49). É o fogo do Espírito Santo. É o batismo, mergulho, ma morte e ressurreição.

Com Jesus continua o processo de conversão, de purificação e de transformação com o fogo do Espírito, por meio da Palavra e de sua ação sacramental, que investe o os que acreditam nele e terá seu ponto final na vinda do Ressuscitado, como evento último e definitivo,motivo próprio do Advento e da esperança de todos os tempos.

Importante é tomar consciência que estamos neste processo, que participamos plena e ativamente dele por assumir o estilo de vida, a pratica e a missão de Jesus e, para com ele mergulhar no evento final, para que Deus seja tudo em todos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

1o DOMINGO DO ADVENTO -B- (27-11-11)

1ª leitura Is 63,16b-17. 19b; 64,2b-7

Há momentos em que devido às péssimas e lastimosas condições de vida cabe se analisar e se perguntar o porquê da condição atual e suas causas. A insatisfação e o sofrimento do presente levam olhar para trás.

Assim, no horizonte do povo eleito, do povo da aliança, sobressai a resposta. “Tu te irritaste, porque nós pecamos (...). Não há quem invoque o teu nome, quem se levante para encontrar-se contigo ”. Perderam o temor de Deus e o coração deles se endureceu.

Assim, o povo - a maioria, não todos, v.4 -, não deu importância, não tomou a serio as condições da Aliança, não acreditou e, menos ainda, cultivou o correto relacionamento com o Senhor, apesar de tê-lo experimentado como libertador, como redentor e como Pai na saída do Egito, terra de escravidão e do domínio do mal.

Deus ficou desiludido e desconcertado. A reação dele é própria de toda pessoa defraudada “Tu te irritaste, porque nós pecamos (...) escondeste de nossa tua face e nos entregaste à mercê de nossas maldades”.

E as consequências estão aí “Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas obras são como um pano sujo; murchamos todos como folhas, e nossas maldades empurram-nos como o vento”.

Como então, também hoje, estamos dominados por gente corrupta, que em ausência da lei, ou se burlando dela, mandam e desmandas a próprio gosto, cultuando o deus dinheiro e da prepotência do poder. Só pensar na especulação e crise financeira em nível mundial, a exploração da natureza com suas consequências para o meio ambiente, as guerras e as violências espalhadas no mundo...

Nessas condições o pensamento e o olhar se dirigem a Deus, e paradoxalmente se tornan cobrança, como se Ele fosse o culpável: “Como nos deixaste andar longe de teus caminhos e endureceste nossos corações para não termos o teu temor?”.

Eis, então, o resgate dos sentimentos, da condição de filhos e da consciência de ser integrantes da obra de Deus “tu és nosso pai, nosso redentor; eterno é o teu nome (...), Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obras de tuas mãos”, e, sobretudo, da memória “Nunca se ouvi dizer (...) que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que neles esperam”.

Daí a súplica de todo coração “Por amor de teus servos (...) volta atrás. Ah! se rompesses os céus e descesses!” para oferecer ao povo a condição e a possibilidade de restabelecer a nova ordem e recompor a Aliança. Pois, há pessoas bem disposta a isso “Vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos”.

Contudo, a permanente vinda e presença do Senhor é aquela que o povo descobre na observância dos termos da Aliança. É a força e a vida de Deus em nosso meio, para não cair na tentação, da sedução do poder e do dinheiro e do egoísmo do individualismo.

Mas, também, está na indignação dos homens de toda raça, cultura a nação, de todo movimento em sintonia com a justiça e o direito, para uma eficaz legislação e organização mundial que não permita o que tristemente estamos assistindo. A força dos indignados é a força de Deus, é antecipação de sua vinda última e definitiva.

O sentido do Advento é ao mesmo tempo antecipar e ao mesmo tempo aguardar a vinda do Ressuscitado, o futuro que se faz presente, mesmo se reservando como futuro.

Atualização já presente na comunidade de Corintos em todo homem de boa vontade, por Jesus ter restabelecido a Aliança, e as pessoas terem respondido positivamente a ela.

2da leitura 1Cor 3-9

Paulo se dirige aos integrantes da comunidade, lembrando o agir, o dom, de Deus e a nova condição deles, pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, que transformou a vida dele. Este mesmo dom foi passado a eles, e consequentemente Paulo afirma dar “graças a Deus sempre a vosso respeito (...) por ele fostes chamados à comunhão com seu filho, Jesus Cristo, Senhor nosso”. É a comunhão que ele está experimentando. Portanto, falando a eles está manifestando a própria experiência, a própria vivencia, de comunhão com o Senhor.

Pelo dom de Deus “nele fostes enriquecidos em todo, em toda palavra e em todo conhecimento, à medida que o testemunho sobre Cristo se confirmou entre vós”. A medida está ligada à transmissão do dom dentro e fora da comunidade, ao aprofundamento do mesmo na prática da caridade, pelo qual se percebe a grandeza, a profundidade e a participação ao mistério de Deus.

Portanto, o enriquecimento deve-se à dinâmica da caridade (é muito mais da esmola!). Palavra e conhecimento adquirem a condição de verdade, pela pratica da caridade que faz mergulhar na plenitude da vida, na plenitude do amor, que é Deus mesmo. Eis, então, que o testemunho de Cristo toma firmeza e consistência neles.

Nesta condição “não tendes falta de nenhum dom...” ,pois, tudo o que Deus podia doar já doou. É o dom do qual se desdobram todos os dons, tudo o que o homem precisa para uma existência bem sucedida está doado. Com isso, especifica Paulo, “ele vos dará perseverança em vosso procedimento irrepreensível” sendo que o dia -a dia - traz consigo provações, dificuldades e seduções, no qual se precisa firmeza e coerência para não desviar ou compactuar com situações que não condizem.

O mergulho cada vez mai profundo no dom e no envolvimento nos efeitos dele, faz que “aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo”. Ela acontecerá “o dia de nosso Senhor Jesus Cristo”, o dia último e definitivo de Deus a favor deles, da humanidade e da criação. Será o dia da vinda do Ressuscitado, no qual Deus Pai será tudo em todos.

Será como o novo nascimento, a participação plena à vida de Deus. Assim, o presente e o futuro, o caminho e a meta estão intimamente ligados. Por outro lado a ressurreição de Jesus Cristo é garantia e manifestação deste elo.

Como a morte e ressurreição dele està motivada pela pratica do amor, o melhor, da caridade, a mesma pratica atualizada na vida do cristão o faz participe da realidade divina e da percepção da realidade da mesma meta, do mesmo destino, Se a caridade é o dom de Deus para a vida presente, ao mesmo tempo é certeza do destino, da meta futura.

Paulo esperava a vinda do Ressuscitado como iminente. Mas não foi assim. O que isso significa e como entender? Toquei o assunto O domingo anterior, no comentário da segunda leitura.

Fica a verdade do evento, pelo qual precisa assumir a atitude certa indicada pelo evangelho.

Evangelho Mc 13,33-37

“Vigiai, porque não sabeis quando o dono de casa vem; à tarde (...)”. Mem Jesus diz sabê-lo, pois, é de conhecimento só do Pai. Mesmo assim, Jesus passa a certeza que vai acontecer, pelo singular relacionamento com o Pai. (Vai além de este comentário investigar como é que sendo Deus é ignorante do que è do Deus Pai. É, sem dúvida, um quebra cabeça).

Contudo, alerta: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento”. Não ter conhecimento é condição necessária para viver intensamente o presente. A vinda do “dono da casa” acontecerá, e ela condicionaria demais o presente se fosse conhecido o momento.

Mas, também, é alerta contra a desconfiança, a descrença, de que vai acontecer. Na natureza humana, é espontâneo desconfiar quando há demora. Surge a pergunta: será que vai acontecer? Será que houve um entendimento errado? Será que as condições da vinda não são aquelas que comunmente se entende? O que Paulo achava como próximo, já passaram mais de dois mil anos... Então?

Cuidado de não baixar a alerta, bem ficando desconhecida a hora da vinda “Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo”. Condição de quem se deixa levar pela passividade sustentada pela desconfiança, pelo desanimo de que não vai acontecer.

O que destaca no texto é a ligação entre presente e futuro, entre o caminho nesta vida e a meta. O presente tem espaço e tempo necessários para desenvolver a existência de maneira bem sucedida. Pois o dono “deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa”.

Assim, o tempo presente é de responsabilidade ativa, para o bem da humanidade e próprio conjuntamente “amarás o Senhor teu Deis para o teu próximo como para te mesmo”. Assim que amar ao “outro” - pessoa, comunidade, humanidade- é a maneira de amar a si mesmo. É o tempo para desenvolver criativa e corajosamente a própria tarefa, ou melhor, a missão incluída nela, como lembra a parábola dos talentos.

A certeza do evento final se tornará mais firme e o que se desvelará nele mais esclarecido, pelo correto desenvolvimento da missão. Missão e evento final são interligados. A missão faz perceber a realidade do evento, assim como este último motiva ainda mais a missão.

Santo Irineu, um grande teólogo dos segundo século depois de Cristo, faz uma afirmação muito importante “ A gloria de Deus é o homem vivente, e a vida do homem é louvor a Deus”. A glória de Deus se manifesta na caridade para com o “outro”, pois é essencial para a vida de cada ser humano, além do alimento, amar e ser amado. Por outro lado, quem se percebe amado tem condição de amar, de devolver o dom recebido a favor de outros menos favorecidos. O louvor a Deus é exatamente isso: a liturgia da vida.

A exortação final “ O que vos digo, digo a todos: vigiai”, não é uma simples atitude de espera passiva, mas aponta aguardar o evento futuro na pratica da caridade, porque ela é já o futuro que se faz presente no tempo, é antecipação do evento final. E condição pera que este seja percebido como o verdadeiro sentido e fim da existência pessoal, da humanidade a da criação.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

FESTA DE CRISTO REI-A-(20-11-11)

1ª leitura Ez 34,11-12.15-17

O texto faz parte do juízo de Deus para com os chefes do povo. O Senhor tem palavras duríssimas contra eles, pois, os repreende para não se preocuparem do povo, mas de si mesmos, dos próprios interesses. Não tomaram conta dele, e das pessoas como o pastor responsável faz para com as ovelhas. O efeito foi que as ovelhas “foram dispersas num dia de nuvens e escuridão”.

Todo tem responsabilidades uns para com os outros, em virtude da solidariedade e da fraternidade próprias da condição humana; do relacionamento do dia- a dia- na família, no serviço e no convívio social. Em todo caso, todos exercem o pastoreio.

Mas o texto se refere aos que exercem autoridade sobre o povo, aos chefes. Eles têm especial responsabilidade com respeito a pratica da justiça e do direito para com as pessoas mais vulneráveis, expostas a todo tipo de exploração e engano por parte dos poderosos.

Não ter cumprido com isso, não tomar conta do bem das ovelhas, suscitou a indignação do Senhor. Pois, as ovelhas ficaram muito prejudicadas e com elas o sonho esvanecido; a expectativa do Senhor com respeito ao cumprimento das exigências da Aliança, frustradas. Grande é a desilusão do Senhor.

Eis, então, a determinação do mesmo de tomar conta pessoalmente das ovelhas e de proporcionar todos os cuidados necessários “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas (...) vou cuidar delas (...) vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersas”.

Elenca detalhadamente os cuidados “fazê-las repousar (...) procurara perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a de perna quebrada, fortalecer a doente,” expressão da compaixão, da misericórdia e do carinho para com elas. Não da para suportar a violência, a injustiça, a opressão e a maldade para com elas.

A indignação do Senhor transparece “Vou (...) vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito”. Outras traduções indicam a atitude do Senhor muito severa para com as ovelhas gordas e fortes. Trata-se do “vigiar” que traz consigo o castigo. Pois, a condição delas é a dos chefes, que a custa das ovelhas fracas engordaram e se fortaleceram que desrespeitaram a justiça e o direito e condenaram muitas ovelhas ao sofrimento e à vida desumana.

É facílimo o paralelismo com a realidade humana e social hodierna. Não se precisa de palavras para expor o que está debaixo dos olhos de todos. Infelizmente, assistimos a situações e sofremos condições pelas quais cabe se perguntar onde está o Senhor, como pode permitir que aconteça tanta injustiça, opressão etc., inclusive por parte daqueles que professam adesão à pessoa do Senhor e fazem dela o eixo da própria vida. O profeta Isaias declara que por causa deles muitos se afastam do Senhor...

Contudo, fica firme o compromisso do Senhor de cuidar, apascentar conforme ao direito e a justiça, de implantar uma nova ordem social. Assim, cada pessoa será atendida pessoalmente por ele e receberá o que precisa para o bem individual e a correta participação ao convívio social “eu farei justiça entre ovelha e outra, entre carneiro e bodes”.

Com efeito, a justiça de Deus toca a pessoa na sua individualidade e especificidade. Com sua ação o Senhor chega ao mais profundo do ser humano e cria as condições para regenerar, renovar e transformar a pessoa toda “Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar”. Devolve a ela a condição de gente, para se encontrar com a autenticidade de si mesma e exercer o pastoreio que o Senhor espera dela.

É Jesus o agir de Deus nos termos indicados pela segunda leitura.

2da leitura 1Cor 15,20-26.28

Paulo afirma “na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (...) e assim também em Cristo todos reviverão”. Com o termo primícias indica a ressurreição como primeiro fruto da ação salvadora, coroamento do evento Pascual. A ressurreição dele é potencialmente a ressurreição de todo homem, de todo tempo e lugar, pois, a pessoa de Jesus os representa a todos perante o Pai.

“Em primeiro lugar Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Pertencem a Cristo os que acreditam nele e se deixam tocar e transformar gratuitamente pelos efeitos da sua morte e ressurreição.

Esta, propriamente, é a justiça de Deus. Com efeito, Jesus, resistindo ativamente- tendo tolerância zero para com a ação de todos aqueles que queriam assumisse outras atitudes, que ensinasse conforme aos cânones estabelecidos pela instituição de então – e resistindo passivamente, no sentido que carregou toda rejeição até a cruz da sexta feira santa, tornou justa a humanidade de todos os tempos perante o Pai.

Tudo isso, em virtude de ser o representante dela. Portanto, pertencem a Cristo toda pessoa que aceita o dom oferecido e se deixa envolver por ele na condição de regenerado e transformado. Isso é justo aos olhos de Deus: devolver a dignidade e a vida às ovelhas perdidas. O conteúdo primeiro e específico da fé é exatamente isso.

Na Missa, após a consagração, a indicação do celebrante “eis o mistério da fé” e a resposta da assembléia apontam à atualização desta verdade. Assim, as palavras ao final da oração Eucarística em ternos de louvor e glória ao Pai na unidade do Espírito Santo são motivadas pelo que Cristo fez e atualiza na celebração a nosso favor. O consentimento é manifestado com o amém.

Era esperada como iminente a vida do Ressuscitado. Portanto, “por ocasião de sua vinda” este o acontecimento teria manifesto a todos a verdade da afirmação de Paulo. Era preciso cultivar a consciência de permanecer em Cristo, como condição de lhe pertencer, como o amante e o amado se pertencem mutuamente.

A vinda do Ressuscitado atingirá não são as pessoas, mas a humanidade e a criação. “A seguir, será o fim”, o ato último e definitivo de Deus a favor das obras de suas mãos. Ele consistirá em Cristo “entregar a realeza a Deus Pai”. A entrega ao rei do que lhe pertence: a humanidade e a criação redimida, pela constante atualização do mistério Pascual e a adesão a ele das pessoas e da humanidade.

A redenção de Cristo se visibilizará na luta permanente da humanidade no dia - a- dia-, pois, a luta de Cristo é a luta dos discípulos, dos seguidores, cuja vitória será manifesta quando “destruir todo principado e todo poder e força” contraria ao estilo de vida, à filosofia de Cristo “até que todos os inimigos estejam de baixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído será a morte”.

O mal e a morte não são as ultimas palavras na história das pessoas e da humanidade. Elas podem ser vencidas, antes de morrer, pela singular comunhão com Cristo, por Cristo e em Cristo... Tal vez seja esta percepção no meio das contradições e da ambigüidade da história e da vivencia do di- a - dia, que permite Paulo a surpreendente afirmação “E, quando todas as coisas estiverem submetidas a ele, então o próprio Filho se submeterá àqueles que lhe submeteu todas as coisas...”

Assim, a experiência e a vivencia do Deus conosco na pessoa de Jesus, bem tendo em si mesma todo o mistério de Deus, não o esgota. É como pretender que o oceano possa ser contido na garrafa... A obediência do Filho, a obediência dos discípulos, é a expressão da submissão à vontade do amor do Pai e do Filho pela humanidade.

Submeter ao Pai a humanidade redimida é a condição “... para que Deus seja tudo em todos”.O que significa, o alcance desta afirmação foge a toda consideração e pensamento humano. É presença no horizonte infinito, o indizível e inefável...

Algo desta surpresa é passada no texto do Evangelho.

Evangelho Mt 25, 31-46

É o conhecido texto do juízo universal, momento no qual a humanidade de todos os tempos será reunida “Quando o Filho do homem vier em sua glória (...) e ele separará uns dos outros”: salvação para uns e condenação ao “castigo eterno” para outros.

No contexto da salvação operada por Cristo, o Filho do homem na gloria adquirida por ter carregado sobre si mesmo o pecado da humanidade, choca esta sentencia que anula os efeitos da entrega Dele a favor de todo pecador... Ele morreu exatamente por estes que agora condena irremediavelmente ao castigo que não terá fim. Com a vinda dele acabou a compaixão e a misericórdia? A justiça se tornou retribuição, como no Antigo Testamento? São perguntas pelas quais, ainda, não encontrei uma resposta exaustiva...

O motivo da condenação ou da salvação é bem conhecido: “estava com fome e não me destes de comer...” para os primeiros, e “eu estava com fome e me destes de comer...” para os segundos. A condenação é para aqueles que voluntariam ou involuntariamente não se mexeram a favor do necessitado.

Descuido, indiferença, falta de atenção, preconceito, desprezo etc.. Os motivos podem ser múltiples, de fato, fechados sobre si mesmos - egocêntricos - foram insensíveis ou desatentos à compaixão e à misericórdia pelos que sofrem e precisam de ajuda. Deviam ser o bom pastor para com eles, mas nada disso aconteceu. Foram para frente como se o sofrimento dos outros fosse simplesmente problema deles. Tal vez, na melhor da hipótese, merecedores de expressões quais “coitadinhos”, “ninguém faz nada para com eles?”etc.

Surpreende a todos que o Ressuscitado se identifique com eles “Eu estava com fome (... ) com sede...”e mais ainda a resposta de quem lhe pergunta “quando foi que te vimos...?”. A resposta “Em verdade os digo que, todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” é particularmente importante.

Parece-me que não se trata de “ver” a Jesus no necessitado, nem de acrescentar não sei quais virtudes por eles serem carentes. Nada sustenta pensar ou da para perceber que sejam melhores dos outros, pois, como todos os seres humanos deixam desejar... Muitos deles são como ricos frustrados e assumem a mesma a mentalidade deles, explorando, por sua vez, os mais necessitados..Muitas vezes os sofrimentos e a carência os tornam insensíveis. Nada de sublimar a condição deles, pelo fato de Jesus se identificar com eles.

Contudo, a caridade feita a eles é ao mesmo Cristo e fonte de salvação. Perceber a presença de Cristo no pobre é o mesmo ato de fé de perceber a presença Dele na hóstia e no vinho consagrado. Não se percebe nada do ponto de vista humano e, contudo, se afirmam que o pão e o vinho são transubstanciados, transignificados e transfinalizados.

É preciso se despojar de todo critério humano, pois, a presença , o significado e a finalidade da presença do Senhor, como na Eucaristia, coloca quem pratica a caridade para com eles em outro nível, no horizonte da comunhão com o Senhor pela pura gratuidade do dom de si mesmo.

O amor nestes termos é salvação, é o culto espiritual. O contrario é isolamento e perdição.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

33o DOMINGO DO T.C.-A-(13-11-11)

“Uma mulher forte (...) vale muito mais do que as jóias”. A fortaleza é característica própria da pessoa que enfrenta os desafios, dificuldades e provações. Sabe viver em toda circunstância, particularmente as adversas, com coragem e determinação, sustentada pelos valores que constituem o patrimônio da própria cultura humana, religiosa e social.

Ela consegue desenvolver suas atividades de maneira bem sucedidas “Procura lã e linho, e com habilidade trabalha as suas mãos”. É atenta e generosa para com as pessoas carentes “Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos aos pobres”,pois, não esgota no âmbito familiar sua preocupação, sensibilidade e afeto.

O texto descreve uma mulher bem identificada consigo mesma, com sua missão de mãe e de esposa, com suas atividades e com o ambiente. Portanto, “ela vale mais do que as jóias”, é a companheira perfeita do marido que, nestas condições, “confia nela plenamente e não terá falta de recursos”. É a descrição de um quadro ideal e, de fato, o autor se pergunta “quem a encontrará?”...

Contudo, o eixo desta condição ideal está no temor do Senhor, enfaticamente motivo de louvor “a mulher que teme ao Senhor, essa sim, merece o louvor”. Até o que é próprio da feminilidade, o encanto e a beleza, é relativizado em função do temor ao Senhor, para o desenvolvimento bem sucedido. Não que sejam desvalorizadas, mas são integradas dentro do quadro do correto relacionamento com o Senhor.

Com efeito, o temor do Senhor - atitude reverencial e amorosa de quem pretende não desagradar até nos detalhes - confere o juízo, bom senso e cria as condições para elaborar o estilo de vida e as atitudes convenientes que o texto descreve.

Assim,ser autenticamente si mesma em sintonia com os valores nos quais acredita, cresce a identidade com o Senhor, presta atenção aos necessitados, aos carentes, tornando mais lúcida e consciente a caridade para com eles. Este testemunho, apreciado e valorizado, é colocado como exemplo de imitar “essa merece louvor! Proclamem o êxito de suas mãos, e na praça louvem-na as suas obras!”.

Evidentemente, hoje, a realidade e a condição da mulher têm bem outras características. Não há paralelismo com os do então. Contudo, permanece essencial e valido assumir como referencia central o temor do Senhor.

Na complexidade e nos desafios da vivencia pessoal e familiar , o temor do Senhor, à luz do estilo de vida de Jesus e do significado de sua morte e ressurreição, é o pano de fundo para discernir o certo do errado, o que é preciso assumir ou deixar para uma existência bem sucedida.

É a maneira para não desanimar nas dificuldades por um lado, e não ficar parado o acomodado ma mesmice, que produz tédio e tira o sabor da existência. Pelo contrario é estimulo e pano de fundo para a criatividade, para a coragem de ultrapassar limites convencionais, para a luta sustentada pela certeza de encontrar novas respostas e enxergar novos caminhos de satisfação.

É vivenciar a condição de filho da luz, à qual faz referencia Paulo na segunda leitura.

2da leitura 1Ts 5,1-6

Paulo distingue dois mundos contrapostos, o das trevas e o da luz. Ao mundo da luz pertencem os membros da comunidade “Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia”, por cuidarem e cultivarem o correto relacionamento com o Senhor, o temor de Deus, fonte e principio de toda sabedoria.

O ensino de Jesus e a pratica de vida correspondente, em sintonia com o estilo de vida, a filosofia e a missão dele, à luz do evento da morte e ressurreição, passam a certeza deles participarem do mesmo destino e de aguardarem com confiança e certeza o retorno por Ele prometido, antes de sua saída ao céu.

Portanto “Quanto ao tempo e à hora, meus irmãos, não há por que vos escrever. Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como ladrão de noite”. A vinda do Senhor ressuscitado é certa e acontecerá quando menos esperam, será uma surpresa “então e repente sobrevirá a destruição, como as dores de parto sobre a mulher grávida”. Momento, também, de pavor “E não poderão escapar”.

Destruição, pavor, evento apocalíptico descrito nos textos bíblicos com imagens terrificantes. Os cristãos da comunidade, e com eles Paulo, esperavam acontecesse no tempo bastante próximo.

(Entre parêntesis. Hoje, dois mil anos depois, como entender estas palavras? É o que o tempo de Advento indica como meta, destino, da historia da humanidade. Muitas perguntas ficam no ar, embora o a teologia específica sobre este assunto - a escatologia - procura respostas plausíveis à luz do mistério pascal).

Contudo, se Paulo falou disso significa que ele teve percepção, intuição e certeza do acontecimento como realidade que vai acontecer, como momento determinante e definitivo da vida pessoal e da história da humanidade. É a ele que estamos orientados e destinados.

É realidade ligada à pessoa de Jesus e ao evento pascal. Modalidade e tempo poderão ser repensados e reformulados, mas a meta e o evento fazem parte do patrimônio da fé transmitido pela morte e ressurreição de Jesus e a vinda, em Pentecostes, do Espírito Santo.

Em contraposição Paulo explicita aos cristãos “Mas vós, meus irmãos, não estamos nas trevas (...). Não somos da noite nem das trevas...”, assim de ficar surpreendidos da vinda do Senhor. A vida com Cristo e em Cristo é como estar na luz, é participar da certeza da vinda e conformar a ela própria vida no dia- a dia-.

Conseqüentemente “... não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios”. Trata- se da alerta de não voltar ao estilo de vida de antes, como quem ignora esta verdade e leva uma conduta que não condiz, se deixando levar por todo excesso. O convite à sobriedade é usar dos bens necessários com equilíbrio e correta moderação. Assim, ter as condições físicas, psicológica e morais de aguardar a vinda iminente do Senhor com a atitude vigilante, própria de quem está já participando da alegria da proximidade da chegada .

Não é uma espera passiva, de braços cruzados, mas ativa, como ensina o evangelho

Evangelho Mt 25,14-30

A parábola mostra o homem que antes de viajar “entregou seus bens” e os distribuí, em quantidade diferentes a três dos seus servos. Estes últimos são conscientes das expectativas do patrão, “ Senhor, sei que és um homem severo pois, colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste”.

Por que esta severidade arrogante e surpreendente e, até, injusta sob o perfil dos critérios humanos? Que mensagem queria passar? Parece-me que queria ser como uma enérgica sacudida para eles não se acomodarem, para tomarem a sério, pelo temor reverencial, a entrega do dom. Ao mesmo tempo é uma alerta de que o dom deverá ser trabalhado com determinação e inteligência, pois, se lhes pedirá conta.

Os primeiros dois responderam positivamente, e apresentaram o fruto recebendo a aprovação, o elogio e mais confiança na administração dos bens do Senhor e o convite “Vem participar da minha alegria”.

A atenção vai para o terceiro, que justifica sua atitude “Senhor, sei que és um homem severo (...). Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence”. Ele motiva ser o medo, pela severidade do Senhor, o empecilho pelo qual preferiu enterrar o dom. Mas o Senhor aponta ele ser “Servo mau e preguiçoso”. Não tinha vontade de trabalhar o dom recebido e a preguiça falou mais alto.

O Senhor teria se conformado com que simplesmente tivesse depositado o dinheiro no banco “devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence”. Algo tão simples e de pouco empenho. Mas nem isso. Preferiu ocultar sua ma vontade atrás do medo pela severidade do patrão.

Tal vez se tivesse admitido e reconhecido o próprio erro e não disfarçá-lo atrás do medo pela severidade do patrão, teria conseguido o perdão e outra chance de se redimir. A falta de sinceridade manifestou a vontade de permanece na atitude errada e fechou toda alternativa de redenção. Tornou-se “servo inútil

Não tendo trabalhado o dom acabou perdendo o dom mesmo “Tirai dele o talento...”. É uma advertência e uma indicação de grande importância para permanecer no caminho da salvação e para chegar à meta. É preciso trabalhar o dom, no sentido que deve ser passado a outros. Pois, a transmissão do dom enriquece o destinatário, no caso que o acolha e se deixe tocar por ele. Ao mesmo tempo enriquece, também, o transmissor se ele opera na gratuidade e no desinteresse, sem segundas intenções. Isso permite que o transmissor cresça mesmo que o destinatário fique fechado o indiferente.

Pois a gratuidade e a liberdade de amar do transmissor fazem dele a testemunha da verdade pela dinâmica de oferecer o dom com toda convicção e generosidade. O crescimento é, ao mesmo tempo, entrar na alegria do Senhor.

“... e dai-o àquele que tem dez! Porque a todo aquele que tem será dado mais, e será em abundancia, mas aquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. É uma sentencia muito dura, chocante. Parece que não há misericórdia e compaixão para com a fraqueza deste servidor negligente, tal vez pelo motivo indicado acima, pela ambigüidade, pela hipocrisia dele. Com efeito, Jesus tem palavras duríssimas contra os hipócritas. Não vê para eles espaço de salvação.

A severidade do patrão “Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!” alerta sobre o resultado final e as conseqüências. Uma realidade que faz estremecer...