1ª leitura Is 40,1-5.9-11
O texto é o começo do livro da consolação “Consolai o meu povo, consolai-o, diz o vosso Deus” , pois, está para terminar o exílio e a escravidão em terra estrangeira de Babilônia, na qual o povo foi deportado.
Foi entendimento comum que a causa da escravidão e da deportação foi o pecado, o desvio da Aliança. “Falai ao coração de Jerusalém (...) sua servidão acabou e a expiação de suas cul pas foi cumprida”. Falar ao coração e consolar manifesta atitude de preocupação, de carinho e interesse do Senhor para com o seu povo.
A expiação das culpas tem o sabor não da vingança ou do “olho por olho e dentes por dentes”, mas da pedagogia da correção. Com efeito, “Recebeu das mãos do Senhor, o dobro por todos os seus pecados” pode ser entendido como a necessária disposição de firmeza e de severidade para desmotivar e desanimar todo intento de voltar ao pecado, à transgressão da aliança. Portanto, é uma manifestação da preocupação do carinho de Deus para com o seu povo, como um pai de família preocupado para que o filho não volte aos erros anteriores.
O Senhor pede que o povo se disponha convenientemente ao evento “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso deus. Nivelem-se (...) rebaixem-se (...) endireite-se (...) alisem-se (...)”. É como um novo êxodo rumo à terra prometida, só que esta vez não é desconhecida, mas a terra que Deus lhes confiou e Jerusalém como capital.
Mas voltar a ela para reconstruir a nação, para se reorganizar nos termos da Aliança, supõe a mesma atitude, o mesmo esforço, a mesma purificação de então. Assim, o deserto e a solidão são formidáveis lugar, condição de purificação e de encontro com o Senhor. Portanto “a glória do Senhor então se manifestará... como renovação da Aliança,como identidade com a vontade do Senhor, no sentido de pertencer ao Senhor e de ter o Senhor Deus como próprio pai e rei.
“... e todos os homens verão juntamente o que a boca do Senhor falou” manifestação do acontecer do reino de Deus, na pratica di direito e da justiça. Trata-se de criar as condições para realizar a fraternidade e a solidariedade, sobretudo, para com os mais pobres e necessitados, por implantar a harmonia e a paz não só entre os integrantes do povo, mas com os estrangeiros, com todos os povos da terra.
O sonho de Deus de então é também o de hoje. Cada Advento é voltar ao mesmo propósito, é reassumir o mesmo compromisso, é creditar que merece todo esforço e investimento das próprias capacidades para dar um passo na frente, apesar das dificuldades e forças contrárias dentro e fora da Igreja.
Então haverá condição para anunciar “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor vem com poder (...) eis à sua frente a vitória”, a presença, o poder, a vitória que transparece na vida do povo por acolher e praticar a Aliança.
Assim, a Lei, a normativa da Aliança, é a maneira de Deus pastorear o seu povo. “Como um pastor, ele- Deus- apascenta o rebanho, reúne (...) carrega-os (...) tange as ovelhas mães” Ela , corretamente entendida e desenvolvida, é expressão d vivencia legal da Aliança com Deus.
Não é a Lei que segura a Aliança. É o contrário. O envolvimento no temor de Deus, no desejo de agradar a ele com amorosa e positiva aceitação de sua inspiração e guia é que sustenta e motiva a Lei. Cumprir a lei pela lei, na mera observância da letra, leva ao desvio da Aliança.
Infelizmente é o que acontecerá. E Deus estabelecerá a nova e eterna Aliança na pessoa de Jesus, pano de fundo da segunda leitura.
2da leitura 2Pd 3,8-14
O dia do Senhor, o retono do Ressuscitado está demorando. Este dia é apresentado como um evento no qual “os céus acabarão (...) os elementos, devorados pelas chamas (...) a terra será consumida com tudo o que nela se fez”. Viver nesta expectativa próxima, até iminente, significa redesenhar o sentido da existência, reformular projetos e programas de vida, aguardando com certa preocupação a chegada do evento que vai mexer radicalmente tudo e todos.
A demora cria sérios problemas e perguntas às quais os apóstolos não podem se substrair. Eis, então, que Pedro enfrenta o desafio e argumenta “O dia do Senhor chegará como um ladrão”, pois, é a promessa do Ressuscitado e o sentido da ressurreição do Senhor. É certo que tudo e todos serão tocados pelo evento.
Com efeito, a ressurreição de Jesus é manifestação de que Deus em Jesus, como representante da humanidade e da criação, tomou conta da mesma e a destinou à glória dele com a vida do Ressuscitado. Será um evento transformador e renovador em todos os aspectos.
O que está falhando é o quando. Particularmente, hoje, não é só isso, mas também a modalidade da vinda e as consequências em termos apocalípticos. Tomando ao pé da letra a descrição pavorosa da vinda, se acostuma ligar os eventos assustadores da natureza, o perigo atômico, os gravíssimos problemas sociais a sinais premonitórios do fim. Mas será isso mesmo?
“O que nos esperamos, de acordo com sua promessa, são novos céus e uma nova terra...”. Não aponta a outro céu e outra terra, mas este céu e esta terra transformados, pelo triunfo da justiça “...onde habitará a justiça” . Tudo o que não responde à justiça “tudo se vai desintegrar (...) quando os céus em chamas vão derreter e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão”.
Sobre o corpo massacrado e morto de Jesus, em virtude de sua entrega de amor para o triunfo da justiça, o Espírito Santo - o fogo de Amor - liberou Jesus da morte, o renovou e transformou... Portanto, o que aconteceu nele, acontecerá para toda a humanidade. Não entendo porque haveria um processo diferente.
Parece-me que mais que acontecimentos naturais apocalípticos - a natureza tem suas leis e seu destino- o evento ultimo e definitivo, com a vinda do Ressuscitado, será a investida do Espírito Santo, cujos efeitos serão como o fogo descrito, que purifica e transforma tudo e todo.
Purificação e transformação que já fazem parte do dia-a-dia do cristão consciente em nível do conhecimento “Uma coisa vós não podeis desconhecer, caríssimos: para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia. O senhor não tarda (...). Ele está usando de paciência (...) quer que todos venham a converter-se. O dia chegará(...)”. E em nível de prática de vida coerente “esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura e sem mancha e em paz”.
Este processo tem em João Batista uma referencia muito significativa, como o Evangelho indica.
Evangelho Mc 1,1-8
“Inicio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Não se trata simplesmente do inicio cronológico, com respeito à atividade e missão de Jesus. Mas, também, do inicio do processo pelo qual a boa noticia de Jesus se torna boa realidade na vida da pessoa e da comunidade.
“Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho”. João Batista desenvolve a missão e chama o povo ao deserto, tradicionalmente lugar do encontro com Deus e de conversão, e incentiva enfaticamente “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” .
Na proximidade da chegada do messias prega “um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. Pecados por desrespeitar a Lei e afastar da Aliança. A conversão esperada consiste em voltar ao respeito da Lei, exigência da Aliança. Pois, com a chegada do Messias haverá o juízo: para os cumpridores a salvação, a participação no Reino e para os outros o fogo eterno. Ninguém poderá escapara nem com a morte, pois a ressurreição dos mortos é exatamente para que o juízo os alcance.
Trata-se fundamentalmente da conversão ética, sem dúvida muito importante, mas não determinante, pelo que Jesus fará acontecer. A retidão para com a Justiça não é dispensável, pois, “A sabedoria não entra numa alma que planeja o mal nem mora no corpo devedor ao pecado” (Sb 1,4).
É o primeiro passo. O mesmo João enxerga que muito mais há de vir “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu”. Sabe que o agir dele é circunstanciado e abrange um horizonte limitado, propedêutico a algo maior. Não percebe a magnitude, em termos de renovação e transformação, do que vai acontecer com a pregação de Jesus. Prova está que do cárcere “enviou seus discípulos para lhe perguntarem ‘És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro? ’” (Mt 11,3).
Percebe a ínfima pequenez dele “Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias”. Contudo, não é motivo para ficar com um pé atrás o acanhado perante os poderosos. Pelo contrario, está bem determinado em desenvolver a missão que lhe compete, ao ponto de desafiar o rei com as consequências que sabemos.
Mas percebe também a distancia entre a missão dele e a do Messias. “Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”. Com certeza João Batista não tinha ideia do que poderia significar o batismo “com o Espírito Santo”, pois ele acontecerá com a morte e ressurreição de Jesus.
Pois, Jesus disse “ Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra!”(Lc 12,49). É o fogo do Espírito Santo. É o batismo, mergulho, ma morte e ressurreição.
Com Jesus continua o processo de conversão, de purificação e de transformação com o fogo do Espírito, por meio da Palavra e de sua ação sacramental, que investe o os que acreditam nele e terá seu ponto final na vinda do Ressuscitado, como evento último e definitivo,motivo próprio do Advento e da esperança de todos os tempos.
Importante é tomar consciência que estamos neste processo, que participamos plena e ativamente dele por assumir o estilo de vida, a pratica e a missão de Jesus e, para com ele mergulhar no evento final, para que Deus seja tudo em todos.
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