1ª leitura Is 63,16b-17. 19b; 64,2b-7
Há momentos em que devido às péssimas e lastimosas condições de vida cabe se analisar e se perguntar o porquê da condição atual e suas causas. A insatisfação e o sofrimento do presente levam olhar para trás.
Assim, no horizonte do povo eleito, do povo da aliança, sobressai a resposta. “Tu te irritaste, porque nós pecamos (...). Não há quem invoque o teu nome, quem se levante para encontrar-se contigo ”. Perderam o temor de Deus e o coração deles se endureceu.
Assim, o povo - a maioria, não todos, v.4 -, não deu importância, não tomou a serio as condições da Aliança, não acreditou e, menos ainda, cultivou o correto relacionamento com o Senhor, apesar de tê-lo experimentado como libertador, como redentor e como Pai na saída do Egito, terra de escravidão e do domínio do mal.
Deus ficou desiludido e desconcertado. A reação dele é própria de toda pessoa defraudada “Tu te irritaste, porque nós pecamos (...) escondeste de nossa tua face e nos entregaste à mercê de nossas maldades”.
E as consequências estão aí “Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas obras são como um pano sujo; murchamos todos como folhas, e nossas maldades empurram-nos como o vento”.
Como então, também hoje, estamos dominados por gente corrupta, que em ausência da lei, ou se burlando dela, mandam e desmandas a próprio gosto, cultuando o deus dinheiro e da prepotência do poder. Só pensar na especulação e crise financeira em nível mundial, a exploração da natureza com suas consequências para o meio ambiente, as guerras e as violências espalhadas no mundo...
Nessas condições o pensamento e o olhar se dirigem a Deus, e paradoxalmente se tornan cobrança, como se Ele fosse o culpável: “Como nos deixaste andar longe de teus caminhos e endureceste nossos corações para não termos o teu temor?”.
Eis, então, o resgate dos sentimentos, da condição de filhos e da consciência de ser integrantes da obra de Deus “tu és nosso pai, nosso redentor; eterno é o teu nome (...), Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obras de tuas mãos”, e, sobretudo, da memória “Nunca se ouvi dizer (...) que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que neles esperam”.
Daí a súplica de todo coração “Por amor de teus servos (...) volta atrás. Ah! se rompesses os céus e descesses!” para oferecer ao povo a condição e a possibilidade de restabelecer a nova ordem e recompor a Aliança. Pois, há pessoas bem disposta a isso “Vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos”.
Contudo, a permanente vinda e presença do Senhor é aquela que o povo descobre na observância dos termos da Aliança. É a força e a vida de Deus em nosso meio, para não cair na tentação, da sedução do poder e do dinheiro e do egoísmo do individualismo.
Mas, também, está na indignação dos homens de toda raça, cultura a nação, de todo movimento em sintonia com a justiça e o direito, para uma eficaz legislação e organização mundial que não permita o que tristemente estamos assistindo. A força dos indignados é a força de Deus, é antecipação de sua vinda última e definitiva.
O sentido do Advento é ao mesmo tempo antecipar e ao mesmo tempo aguardar a vinda do Ressuscitado, o futuro que se faz presente, mesmo se reservando como futuro.
Atualização já presente na comunidade de Corintos em todo homem de boa vontade, por Jesus ter restabelecido a Aliança, e as pessoas terem respondido positivamente a ela.
2da leitura 1Cor 3-9
Paulo se dirige aos integrantes da comunidade, lembrando o agir, o dom, de Deus e a nova condição deles, pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, que transformou a vida dele. Este mesmo dom foi passado a eles, e consequentemente Paulo afirma dar “graças a Deus sempre a vosso respeito (...) por ele fostes chamados à comunhão com seu filho, Jesus Cristo, Senhor nosso”. É a comunhão que ele está experimentando. Portanto, falando a eles está manifestando a própria experiência, a própria vivencia, de comunhão com o Senhor.
Pelo dom de Deus “nele fostes enriquecidos em todo, em toda palavra e em todo conhecimento, à medida que o testemunho sobre Cristo se confirmou entre vós”. A medida está ligada à transmissão do dom dentro e fora da comunidade, ao aprofundamento do mesmo na prática da caridade, pelo qual se percebe a grandeza, a profundidade e a participação ao mistério de Deus.
Portanto, o enriquecimento deve-se à dinâmica da caridade (é muito mais da esmola!). Palavra e conhecimento adquirem a condição de verdade, pela pratica da caridade que faz mergulhar na plenitude da vida, na plenitude do amor, que é Deus mesmo. Eis, então, que o testemunho de Cristo toma firmeza e consistência neles.
Nesta condição “não tendes falta de nenhum dom...” ,pois, tudo o que Deus podia doar já doou. É o dom do qual se desdobram todos os dons, tudo o que o homem precisa para uma existência bem sucedida está doado. Com isso, especifica Paulo, “ele vos dará perseverança em vosso procedimento irrepreensível” sendo que o dia -a dia - traz consigo provações, dificuldades e seduções, no qual se precisa firmeza e coerência para não desviar ou compactuar com situações que não condizem.
O mergulho cada vez mai profundo no dom e no envolvimento nos efeitos dele, faz que “aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo”. Ela acontecerá “o dia de nosso Senhor Jesus Cristo”, o dia último e definitivo de Deus a favor deles, da humanidade e da criação. Será o dia da vinda do Ressuscitado, no qual Deus Pai será tudo em todos.
Será como o novo nascimento, a participação plena à vida de Deus. Assim, o presente e o futuro, o caminho e a meta estão intimamente ligados. Por outro lado a ressurreição de Jesus Cristo é garantia e manifestação deste elo.
Como a morte e ressurreição dele està motivada pela pratica do amor, o melhor, da caridade, a mesma pratica atualizada na vida do cristão o faz participe da realidade divina e da percepção da realidade da mesma meta, do mesmo destino, Se a caridade é o dom de Deus para a vida presente, ao mesmo tempo é certeza do destino, da meta futura.
Paulo esperava a vinda do Ressuscitado como iminente. Mas não foi assim. O que isso significa e como entender? Toquei o assunto O domingo anterior, no comentário da segunda leitura.
Fica a verdade do evento, pelo qual precisa assumir a atitude certa indicada pelo evangelho.
Evangelho Mc 13,33-37
“Vigiai, porque não sabeis quando o dono de casa vem; à tarde (...)”. Mem Jesus diz sabê-lo, pois, é de conhecimento só do Pai. Mesmo assim, Jesus passa a certeza que vai acontecer, pelo singular relacionamento com o Pai. (Vai além de este comentário investigar como é que sendo Deus é ignorante do que è do Deus Pai. É, sem dúvida, um quebra cabeça).
Contudo, alerta: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento”. Não ter conhecimento é condição necessária para viver intensamente o presente. A vinda do “dono da casa” acontecerá, e ela condicionaria demais o presente se fosse conhecido o momento.
Mas, também, é alerta contra a desconfiança, a descrença, de que vai acontecer. Na natureza humana, é espontâneo desconfiar quando há demora. Surge a pergunta: será que vai acontecer? Será que houve um entendimento errado? Será que as condições da vinda não são aquelas que comunmente se entende? O que Paulo achava como próximo, já passaram mais de dois mil anos... Então?
Cuidado de não baixar a alerta, bem ficando desconhecida a hora da vinda “Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo”. Condição de quem se deixa levar pela passividade sustentada pela desconfiança, pelo desanimo de que não vai acontecer.
O que destaca no texto é a ligação entre presente e futuro, entre o caminho nesta vida e a meta. O presente tem espaço e tempo necessários para desenvolver a existência de maneira bem sucedida. Pois o dono “deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa”.
Assim, o tempo presente é de responsabilidade ativa, para o bem da humanidade e próprio conjuntamente “amarás o Senhor teu Deis para o teu próximo como para te mesmo”. Assim que amar ao “outro” - pessoa, comunidade, humanidade- é a maneira de amar a si mesmo. É o tempo para desenvolver criativa e corajosamente a própria tarefa, ou melhor, a missão incluída nela, como lembra a parábola dos talentos.
A certeza do evento final se tornará mais firme e o que se desvelará nele mais esclarecido, pelo correto desenvolvimento da missão. Missão e evento final são interligados. A missão faz perceber a realidade do evento, assim como este último motiva ainda mais a missão.
Santo Irineu, um grande teólogo dos segundo século depois de Cristo, faz uma afirmação muito importante “ A gloria de Deus é o homem vivente, e a vida do homem é louvor a Deus”. A glória de Deus se manifesta na caridade para com o “outro”, pois é essencial para a vida de cada ser humano, além do alimento, amar e ser amado. Por outro lado, quem se percebe amado tem condição de amar, de devolver o dom recebido a favor de outros menos favorecidos. O louvor a Deus é exatamente isso: a liturgia da vida.
A exortação final “ O que vos digo, digo a todos: vigiai”, não é uma simples atitude de espera passiva, mas aponta aguardar o evento futuro na pratica da caridade, porque ela é já o futuro que se faz presente no tempo, é antecipação do evento final. E condição pera que este seja percebido como o verdadeiro sentido e fim da existência pessoal, da humanidade a da criação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário