terça-feira, 15 de novembro de 2011

FESTA DE CRISTO REI-A-(20-11-11)

1ª leitura Ez 34,11-12.15-17

O texto faz parte do juízo de Deus para com os chefes do povo. O Senhor tem palavras duríssimas contra eles, pois, os repreende para não se preocuparem do povo, mas de si mesmos, dos próprios interesses. Não tomaram conta dele, e das pessoas como o pastor responsável faz para com as ovelhas. O efeito foi que as ovelhas “foram dispersas num dia de nuvens e escuridão”.

Todo tem responsabilidades uns para com os outros, em virtude da solidariedade e da fraternidade próprias da condição humana; do relacionamento do dia- a dia- na família, no serviço e no convívio social. Em todo caso, todos exercem o pastoreio.

Mas o texto se refere aos que exercem autoridade sobre o povo, aos chefes. Eles têm especial responsabilidade com respeito a pratica da justiça e do direito para com as pessoas mais vulneráveis, expostas a todo tipo de exploração e engano por parte dos poderosos.

Não ter cumprido com isso, não tomar conta do bem das ovelhas, suscitou a indignação do Senhor. Pois, as ovelhas ficaram muito prejudicadas e com elas o sonho esvanecido; a expectativa do Senhor com respeito ao cumprimento das exigências da Aliança, frustradas. Grande é a desilusão do Senhor.

Eis, então, a determinação do mesmo de tomar conta pessoalmente das ovelhas e de proporcionar todos os cuidados necessários “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas (...) vou cuidar delas (...) vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersas”.

Elenca detalhadamente os cuidados “fazê-las repousar (...) procurara perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a de perna quebrada, fortalecer a doente,” expressão da compaixão, da misericórdia e do carinho para com elas. Não da para suportar a violência, a injustiça, a opressão e a maldade para com elas.

A indignação do Senhor transparece “Vou (...) vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito”. Outras traduções indicam a atitude do Senhor muito severa para com as ovelhas gordas e fortes. Trata-se do “vigiar” que traz consigo o castigo. Pois, a condição delas é a dos chefes, que a custa das ovelhas fracas engordaram e se fortaleceram que desrespeitaram a justiça e o direito e condenaram muitas ovelhas ao sofrimento e à vida desumana.

É facílimo o paralelismo com a realidade humana e social hodierna. Não se precisa de palavras para expor o que está debaixo dos olhos de todos. Infelizmente, assistimos a situações e sofremos condições pelas quais cabe se perguntar onde está o Senhor, como pode permitir que aconteça tanta injustiça, opressão etc., inclusive por parte daqueles que professam adesão à pessoa do Senhor e fazem dela o eixo da própria vida. O profeta Isaias declara que por causa deles muitos se afastam do Senhor...

Contudo, fica firme o compromisso do Senhor de cuidar, apascentar conforme ao direito e a justiça, de implantar uma nova ordem social. Assim, cada pessoa será atendida pessoalmente por ele e receberá o que precisa para o bem individual e a correta participação ao convívio social “eu farei justiça entre ovelha e outra, entre carneiro e bodes”.

Com efeito, a justiça de Deus toca a pessoa na sua individualidade e especificidade. Com sua ação o Senhor chega ao mais profundo do ser humano e cria as condições para regenerar, renovar e transformar a pessoa toda “Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar”. Devolve a ela a condição de gente, para se encontrar com a autenticidade de si mesma e exercer o pastoreio que o Senhor espera dela.

É Jesus o agir de Deus nos termos indicados pela segunda leitura.

2da leitura 1Cor 15,20-26.28

Paulo afirma “na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (...) e assim também em Cristo todos reviverão”. Com o termo primícias indica a ressurreição como primeiro fruto da ação salvadora, coroamento do evento Pascual. A ressurreição dele é potencialmente a ressurreição de todo homem, de todo tempo e lugar, pois, a pessoa de Jesus os representa a todos perante o Pai.

“Em primeiro lugar Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Pertencem a Cristo os que acreditam nele e se deixam tocar e transformar gratuitamente pelos efeitos da sua morte e ressurreição.

Esta, propriamente, é a justiça de Deus. Com efeito, Jesus, resistindo ativamente- tendo tolerância zero para com a ação de todos aqueles que queriam assumisse outras atitudes, que ensinasse conforme aos cânones estabelecidos pela instituição de então – e resistindo passivamente, no sentido que carregou toda rejeição até a cruz da sexta feira santa, tornou justa a humanidade de todos os tempos perante o Pai.

Tudo isso, em virtude de ser o representante dela. Portanto, pertencem a Cristo toda pessoa que aceita o dom oferecido e se deixa envolver por ele na condição de regenerado e transformado. Isso é justo aos olhos de Deus: devolver a dignidade e a vida às ovelhas perdidas. O conteúdo primeiro e específico da fé é exatamente isso.

Na Missa, após a consagração, a indicação do celebrante “eis o mistério da fé” e a resposta da assembléia apontam à atualização desta verdade. Assim, as palavras ao final da oração Eucarística em ternos de louvor e glória ao Pai na unidade do Espírito Santo são motivadas pelo que Cristo fez e atualiza na celebração a nosso favor. O consentimento é manifestado com o amém.

Era esperada como iminente a vida do Ressuscitado. Portanto, “por ocasião de sua vinda” este o acontecimento teria manifesto a todos a verdade da afirmação de Paulo. Era preciso cultivar a consciência de permanecer em Cristo, como condição de lhe pertencer, como o amante e o amado se pertencem mutuamente.

A vinda do Ressuscitado atingirá não são as pessoas, mas a humanidade e a criação. “A seguir, será o fim”, o ato último e definitivo de Deus a favor das obras de suas mãos. Ele consistirá em Cristo “entregar a realeza a Deus Pai”. A entrega ao rei do que lhe pertence: a humanidade e a criação redimida, pela constante atualização do mistério Pascual e a adesão a ele das pessoas e da humanidade.

A redenção de Cristo se visibilizará na luta permanente da humanidade no dia - a- dia-, pois, a luta de Cristo é a luta dos discípulos, dos seguidores, cuja vitória será manifesta quando “destruir todo principado e todo poder e força” contraria ao estilo de vida, à filosofia de Cristo “até que todos os inimigos estejam de baixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído será a morte”.

O mal e a morte não são as ultimas palavras na história das pessoas e da humanidade. Elas podem ser vencidas, antes de morrer, pela singular comunhão com Cristo, por Cristo e em Cristo... Tal vez seja esta percepção no meio das contradições e da ambigüidade da história e da vivencia do di- a - dia, que permite Paulo a surpreendente afirmação “E, quando todas as coisas estiverem submetidas a ele, então o próprio Filho se submeterá àqueles que lhe submeteu todas as coisas...”

Assim, a experiência e a vivencia do Deus conosco na pessoa de Jesus, bem tendo em si mesma todo o mistério de Deus, não o esgota. É como pretender que o oceano possa ser contido na garrafa... A obediência do Filho, a obediência dos discípulos, é a expressão da submissão à vontade do amor do Pai e do Filho pela humanidade.

Submeter ao Pai a humanidade redimida é a condição “... para que Deus seja tudo em todos”.O que significa, o alcance desta afirmação foge a toda consideração e pensamento humano. É presença no horizonte infinito, o indizível e inefável...

Algo desta surpresa é passada no texto do Evangelho.

Evangelho Mt 25, 31-46

É o conhecido texto do juízo universal, momento no qual a humanidade de todos os tempos será reunida “Quando o Filho do homem vier em sua glória (...) e ele separará uns dos outros”: salvação para uns e condenação ao “castigo eterno” para outros.

No contexto da salvação operada por Cristo, o Filho do homem na gloria adquirida por ter carregado sobre si mesmo o pecado da humanidade, choca esta sentencia que anula os efeitos da entrega Dele a favor de todo pecador... Ele morreu exatamente por estes que agora condena irremediavelmente ao castigo que não terá fim. Com a vinda dele acabou a compaixão e a misericórdia? A justiça se tornou retribuição, como no Antigo Testamento? São perguntas pelas quais, ainda, não encontrei uma resposta exaustiva...

O motivo da condenação ou da salvação é bem conhecido: “estava com fome e não me destes de comer...” para os primeiros, e “eu estava com fome e me destes de comer...” para os segundos. A condenação é para aqueles que voluntariam ou involuntariamente não se mexeram a favor do necessitado.

Descuido, indiferença, falta de atenção, preconceito, desprezo etc.. Os motivos podem ser múltiples, de fato, fechados sobre si mesmos - egocêntricos - foram insensíveis ou desatentos à compaixão e à misericórdia pelos que sofrem e precisam de ajuda. Deviam ser o bom pastor para com eles, mas nada disso aconteceu. Foram para frente como se o sofrimento dos outros fosse simplesmente problema deles. Tal vez, na melhor da hipótese, merecedores de expressões quais “coitadinhos”, “ninguém faz nada para com eles?”etc.

Surpreende a todos que o Ressuscitado se identifique com eles “Eu estava com fome (... ) com sede...”e mais ainda a resposta de quem lhe pergunta “quando foi que te vimos...?”. A resposta “Em verdade os digo que, todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” é particularmente importante.

Parece-me que não se trata de “ver” a Jesus no necessitado, nem de acrescentar não sei quais virtudes por eles serem carentes. Nada sustenta pensar ou da para perceber que sejam melhores dos outros, pois, como todos os seres humanos deixam desejar... Muitos deles são como ricos frustrados e assumem a mesma a mentalidade deles, explorando, por sua vez, os mais necessitados..Muitas vezes os sofrimentos e a carência os tornam insensíveis. Nada de sublimar a condição deles, pelo fato de Jesus se identificar com eles.

Contudo, a caridade feita a eles é ao mesmo Cristo e fonte de salvação. Perceber a presença de Cristo no pobre é o mesmo ato de fé de perceber a presença Dele na hóstia e no vinho consagrado. Não se percebe nada do ponto de vista humano e, contudo, se afirmam que o pão e o vinho são transubstanciados, transignificados e transfinalizados.

É preciso se despojar de todo critério humano, pois, a presença , o significado e a finalidade da presença do Senhor, como na Eucaristia, coloca quem pratica a caridade para com eles em outro nível, no horizonte da comunhão com o Senhor pela pura gratuidade do dom de si mesmo.

O amor nestes termos é salvação, é o culto espiritual. O contrario é isolamento e perdição.

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