segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

SANTA MÃE DE DEUS, MARIA-B- (01-01-12)

1ª leitura Nm 6,22-27

Deus ordena explicitamente a “Aarão e seus filhos” que abençoem os filhos de Israel. Trata-se de invocar o nome Dele sobre o povo. Invocar é chamar a Deus em auxílio, suplicar proteção.

Deus por sua livre iniciativa estreitou a Aliança com o povo, após o ter libertado da escravidão do Egito. Em virtude da aliança, o conduz rumo à terra prometida, para fazer dele um sinal perante todos os povos da terra. O povo é escolhido para a missão de testemunhar com o cumprimento das exigências da Aliança e com o estilo de vida de fraternidade, de solidariedade, de união na prática do direito e da justiça e, desta forma, manifestar Deus como o próprio Rei. A qualidade do testemunho será motivo para a adesão dos povos da terra ao Deus de Israel e assim, acontecer o senhorio de Deus para com toda a humanidade.

Apesar de este bom propósito ter motivado a livre e entusiasta adesão do povo com a renovação da Aliança em Siquem, antes de entrar na terra prometida, Deus sabe da fragilidade do povo.

É um povo de cabeça dura, que não quer entender, que confia parcialmente e só na medida em que responde aos critérios e expectativas dele. Aspectos e obstáculos que levam ao fracasso do bom propósito.

Portanto, é preciso estabelecer momentos específicos. A benção é um destes momentos. Chamar a Deus em auxílio e suplicar proteção é para lembrar ao povo que Ele está presente, não esquece a promessa, menos ainda os abandona, pelo contrário, Ele é fiel. Para que, assim, revigorado e fortalecido na confiança o povo persista no caminho, na prática da Aliança e não desista do objetivo da missão.

Com efeito, a benção “O Senhor te abençoe e te guarde” mostra a finalidade, motivada pela compaixão de Deus para com o seu povo e suscitada pela invocação, como proteção e cuidado para não perder a confiança Nele e remotivar o caminho. É expressão do amor do pai para com os filhos. Não é este mesmo o significado de pedir a benção do pai e da mãe na experiência de todos os dias?

Ela consiste em se manifestar “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face (...) volte para ti o seu rosto”. Voltar o rosto para o povo e manifestar a face é próprio de quem deseja dar-se a conhecer e oferecer o melhor de sua pessoa, com a surpresa de passar a riqueza, a profundidade e todo o positivo que pode transmitir.

É atitude de grande consideração, voltada a estabelecer comunhão e familiaridade, a suscitar acolhimento e resposta positiva, para consolidar e reforçar cada vez mais o relacionamento.

Um relacionamento que por ser resposta de Deus à fragilidade e à fraqueza humana, confere consistência e força para estabelecer com inteligência e criatividade as condições para o reino de Deus acontecer.

“Volte para ti o seu rosto e te dê a paz”. Desta forma é atingido o mundo interior e incentiva a vivência comunitária, a sociedade, a humanidade toda ser construtora da harmonia e da paz.

O rosto e a face brilhante de Deus se manifestaram na pessoa humana de Jesus, como frisado pela segunda leitura.

2ª leitura Gl 4,4-7

“Quando se completou o tempo previsto” Trata-se do momento estabelecido por Deus, como algo que foi algo pensado com anterioridade e chegou o tempo previsto. Portando, corresponde a um projeto que ao longo do tempo foi se desenvolvendo e chegou o momento de acontecer.

“Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei”. O menino nascido em Belém é verdadeiro homem, como todo ser humano que nasce da mulher, nada mais, nada menos. Portanto, não é certa toda afirmação que, em virtude de ser Deus em forma humana, diminuem todo o que se refere à humanidade em função das vantagens da condição divina. Mais ainda, é homem como todo membro do povo de Israel sujeito à lei por ser descendente de Abrão e sujeito às Leis da aliança. Não lhe falta nada.

(Entre parêntesis, houve por mais de quatrocentos anos polêmica ao respeito, até que no Concílio celebrado em Calcedônia definiu-se que da pessoa de Cristo não pode ser tirado nada que diminui o humano e o divino, mesmo permanecendo desconhecidas como as duas realidades se relacionam entre elas na pessoa de Jesus).

O motivo do envio do Filho foi para “resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação divina (...) tudo isso por graça de Deus”. Da citação completa podemos tirar uma série de elementos que configuram o conteúdo da benção trazida por Jesus:

- O resgate da Lei, sendo que a maneira de ser interpretada e atuada(cumprida) desviou do fim para o qual foi promulgada. A tentativa de recolocá-la nos trilhos custou a Jesus a morte. Contudo sendo que o fez por amor ao povo e fidelidade à verdade, essa morte se tornou ressurreição.

- Por ter assumido a condição do pecador ele, que não tinha pecado, e, em virtude disso, se constituiu como representante de toda a humanidade de todos os tempos perante o Pai. Com sua morte e ressurreição não só nos resgatou da lei, nos libertou da escravidão e da morte, mas, nos passou a condição de justos perante do Pai. E, com isso, a participação à vida divina na condição de filhos adotivos. Filhos por ter aceitado e acreditado o dom do representante

- Pelo voto de confiança, “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!”. Pois, na condição de filhos o Espírito conforma a consciência em sintonia com a nova realidade pela qual se torna espontâneo e certo se dirigir a Deus com o termo afetuoso de Pai.

- É uma mudança radical de perspectiva: da condição de pecador, escravo e excluído à de filho, partícipe da vida de Deus, do reino e herdeiro da glória de Deus “Assim, já não és escravo, mas filho; e se és filho também herdeiro”.

Perceber tudo isso, interiorizando e acreditando a nova condição, se manifesta no comportamento indicado pelas bem-aventuranças, e pela reinterpretação ousada e criativa dos mandamentos na ótica do amor ensinado por Jesus.

-“tudo isso por graça de Deus”, por Deus revelar o seu rosto e brilhar a sua face, motivando e sustentando atitudes e comportamentos de paz de forma gratuita, visando unicamente o bem das pessoas e da humanidade.

É o que aconteceu nos pastores e em Maria; deveria acontecer em todo cristão consciente.

Evangelho Lc 2,16-21

Os pastores, cuja condição ético-social foi comentada o domingo passado, “foram às pressas a Belém”. Apesar de todos os pesares foram decididos, sem demorar(sinal da pronta aceitação do anuncio e do convite do anjo). Portanto, a mesma determinação deve marcar a aproximação ao Senhor de todos, seja qual for a condição pessoal, sustentados pelo anúncio e a esperança de libertação, ou seja, do salto qualitativo da existência.

Eles “contaram o que lhes fora dito sobre o menino. E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam”. Devem ter passado informação e a experiência do que aconteceu para com eles com tal força e convicção que todos ficaram maravilhados e contagiados pelo evento.

Esta ação e atitude missionária suscitaram duas reações complementares, mesmo se referindo a dois sujeitos diferentes, qual Maria e os mesmos pastores. Maria “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Sendo que Maria representa a toda humanidade, a atitude de meditar envolvendo o mais profundo do ser e a pessoa, deve se tornar a mesma de toda pessoa atenta à mensagem e ao testemunho transmitido.

Os eventos com os quais Deus se manifesta são de tal profundidade e importância que precisam ser guardados e meditados porque constituem um patrimônio indispensável para o caminho bem sucedido.

Voltar com lucidez e inteligência ao conteúdo deste patrimônio, nos momentos qualificados da própria caminhada que marcam para sempre um antes e um depois, é garantia que a benção do Senhor está presente, acompanha e inspira a resposta e a atitude adequada, além de enriquecer o mesmo patrimônio.

Os pastores “voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito”. Obedecendo ao convite do anjo não ficaram desiludidos, pelo contrário. Devem ter experimentado uma verdadeira e significativa transformação do próprio mundo interior, da imagem deles com eles mesmos, percebendo a ação salvadora, neles, da presença de Deus naquele menino e, por conseguinte, neles mesmos.

A missão exercida por estes pastores: ter acolhido o dom, ter se movido na direção indicado por ele e transmitido o conteúdo dele, assim como o próprio envolvimento, os tornou exultantes de alegria.

Lembrando que eles tinham consciência de serem considerados pecadores públicos e, portanto, com certeza, excluídos do reino de Deus com a chegada do messias, o desenvolvimento da missão foi motivo de resgate, de regeneração, de salvação. Em última análise, a benção é a missão. Com efeito, o dom para se tornar eficaz e aumentar sua forca e poder deve ser transmitido. Assim a missão abrange o começo, o desenvolvimento e a meta da ação de Deus. É o processo, de salvação.

“Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus”. O nome de Jesus significa Salvador, cuja ação já se fez presente nos pastores e no coração de Maria, como antecipação do evento determinante e decisivo ao respeito de sua morte e ressurreição.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

NATAL DO SENHOR 2011

1ª leitura Is 9,1-6

Na noite de Natal, momento de união familiar, de harmonia e paz, de festa; caem como um meteorito as palavras “tu os abateste como na jornada de Madiã. Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas”. O dia de Madiã se refere à grande e desconcertante evento da vitória de poucos homens contra um exército tido como invencível, que teria destruído Israel.
A “tropa de assalto”, um punhado de homens animados e sustentados pela promessa do Senhor, passa a imagem de pessoas determinadas que agem com convicção, apesar da desproporção de forças. Os “Trajes manchados de sangue” indicam a intensidade e violência da batalha, além de toda previsão. Com efeito, foi um massacre. Um quadro totalmente diferente do que se espera no dia de Natal, tal vez porque preanuncia a missão e o destino do menino que nasce em Belém.
A vitória sobre os inimigos é evento de libertação da escravidão da violência e da opressão “O jugo que oprimia o povo, -a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais- tu os abatestes como na jornada de Madiã”.
A condição de opressão e escravidão do povo é percebida como imersão na escuridão e nas sombras da morte “O povo que andava na escuridão (...) que habitavam nas sombras da morte”. Sobre este povo “Uma grande luz (...) uma luz resplendeceu”: a libertação e com ela a condição de resgatar à dignidade uma existência diminuída e humilhada.
Botas e trajes manchados de sangue “tudo será queimado e devorado pelas chamas” como se não tivesse que deixar rastro do acontecido, como se o fogo engolisse para sempre a violência e a guerra, como se todo o mal tivesse que desaparecer da face da terra.
O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar estas coisas”. No evento de Madiã por meio de poucos homens. Mais na frente, por meio do menino cujo nascimento é anunciado “nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho”, juntamente ao ponto dramático da missão e sua trágica conclusão, para conseguir a libertação e salvação do povo.
Pois, o menino deverá enfrentar corajosamente a luta para quebrar o “jugo” da injustiça, a carga da distorção da Aliança para a vantagem dos poderosos e chefes do povo, para destruir “a carga sobre os ombros” e implantar a nova ordem social ma justiça e no direito com a chegada do reino de Deus queimando “o orgulho dos fiscais”. A luta extrema será na cruz, na qual o menino, já adulto, será afogado em seu próprio sangue.
O menino “traz aos ombros a marca da realeza”. Realeza bem diferente daquela que estamos acostumados considerar. É aquela da entrega da própria vida pela causa da justiça, da fraternidade universal. É a realeza do amor pela qual Deus oferece as condições para que todos experimentem a salvação, visibilizando-a no acontecer do reino de Deus. Então “a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi (...) a partir de agora e para todo o sempre”.
Nesta perspectiva ao menino são atribuídas as qualidades de “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz”. Ele será o guia certo para implantar e consolidar a verdadeira fraternidade entre os homens, de maneira tal que o dom de si mesmo para o bem do outro no horizonte da justiça e do direito se trone, ao mesmo tempo, a plena realização de si mesmo.
O respeito e a solidariedade entre povos e culturas diferentes, no horizonte da fraternidade universal, é o acontecer de maneira corajosa e criativa da justiça e do direito. É o acontecer do reino de Deus como uma espiral em continua expansão, que abrange tudo e todos na dinâmica que será implantada pela morte e ressurreição do menino; dinâmica da vivência de Deus na condição humana, dinâmica da condição do homem assumir para si a condição de divinizado.
Eis, portanto, a passagem da escuridão à luz e seus efeitos “Fizeste crescer a alegria, aumentaste a felicidade”. Os termos crescer e aumentaste indicam o processo de expansão acima indicado. Processo que não terá fim, pois a glória de Deus não é um ponto de chegada, mas uma espiral que não termina nunca.
Todos se regozijam em tua presença, como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos” .É a satisfação de quem recolhe os frutos do comportamento correto e confere que valeu trabalhar o dom oferecido pelo menino, já adulto, com a morte e ressurreição dele.
É o argumento da segunda leitura.

2da leitura Tt 2,11-14

Paulo se dirige ao destinatário “Caríssimo: A graça de Deus se manifestou”.A graça é a pessoa de Jesus, a missão dele e, sobretudo, os efeitos de sua morte e ressurreição. Manifestou-se no sentido de que compareceu no mundo na pessoa do menino nascido em Belém. Ele, dom gratuito - a graça – oferecido indistintamente a toda pessoa traz “salvação para todos os homens”.
A salvação acontece no profundo do ser da pessoa. É neste nível que a pessoa se percebe como um novo sujeito, transformado e regenerado por acolher o dom e acreditar na eficácia dele. Nisto consiste, propriamente, a fé, produto da simultaneidade de dois votos de confiança: na bondade e verdade do oferecido, e acolhimento confiante da eficácia do dom.
Assim, na consciência se forma a imagem de um novo sujeito. Com outras palavras, o ser - a realidade mais intima e profunda da pessoa - se percebe modelado, como faz o oleiro com o barro, como um sujeito ao qual são perdoados os pecados e apresentado como justo perante Deus Pai; no qual é restabelecida a Aliança, que havia quebrado com o pecado, e partícipe da vida de Deus, a vida eterna, como antecipação da plenitude da gloria que se manifestará no fim dos tempos.
A pessoa é mergulhada no mistério de Deus, pois, a fé reproduz nela os efeitos da vitória de Jesus Cristo sobre o mal e o pecado. Cabe especificar, que apesar disso, o mal e o pecado continuarão exercitando a tentação e a sedução deles. A adesão de coração e a consolidação, do dom por meio da Palavra de Deus, dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, sustentam a comunhão, o permanecer nele, ou seja, o acontecer cada dia da salvação e com ela a vitória sobre o mal e o pecado.
Mergulhar no dom, no mistério de Deus, tem uma dimensão propedêutica (preparatória), pois “ Ela - a graça – nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas...”, como se defender e não cair na tentação da descrença e das paixões que destroem a integridade da pessoa. A esta altura o pecado não é invencível, como muito acreditam ser inevitável.
... e a viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade”, três dicas que conformam o retrato da pessoa que vivencia a profunda comunhão com o Senhor. Assim, o grau e a intensidade da vivência é espelho do grau e da intensidade da comunhão com o Senhor, Portanto, é também um teste para conferir, além da vontade, dos sentimentos e das emoções, a consistência e a verdade da comunhão.
Cabe acrescentar que a vivência ética consolida a certeza da vinda do Senhor, por participação do mesmo amor Dele, especialmente quando provada e fortalecida pelas provações e dificuldades e até da mesma cruz, como foi para Jesus. Assim, ética e glória são as duas faces da mesma moeda: o mergulho no mistério de Deus. Portanto, a ética dá sustentação para aguardar “a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”.
Esta verdade confere o sentido último a toda existência, motiva imitar o estilo de vida de Jesus e a fidelidade à missão que confiou a todo cristão. Missão que imitará a dele “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem”. Pois, devolvendo o dom recebido se manifesta a plenitude da comunhão com o Senhor e o acontecer do reino nos discípulos e nas pessoas e nas realidades atingidas pela ação pastoral deles.
O evangelho revela o sentido do nascimento do menino em Belém para toda a humanidade.

Evangelho Lc 2,1-14

Maria deu à luz os eu filho primogênito”. Se não fosse pela morte e ressurreição deste menino já adulto, o nascimento teria passado despercebido. O evento pascal orientou as lâmpadas da humanidade sobre Ele. Foi então que os discípulos entenderam quem verdadeiramente era Jesus.
O humano e o divino na pessoa de Jesus abrem horizontes para nova compreensão de nós mesmo e de toda a criação. Ficando só no aspecto individual, há uma simbiose no sentido de que o mais humano é divino e vice-versa.
Assim, na primeira criação Deus faz a pessoa sua imagem, para que se torne semelhante a Ele. Na segunda criação é o contrário. Com a ressurreição, faz a pessoa semelhante a Ele, para Ele assumir plenamente a maneira humana de ser “tudo em todos” ( 1 Cor 15,28) no novo mundo.
Mais exatamente este processo de divinização da pessoa e da humanização de Deus, começa na pessoa desde sua entrada no mundo, pelo dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e o envolvimento livre e consciente da mesma no estilo de vida e prática correspondente. Assim, a pessoa vai se tornando cada vez mais semelhante a Deus e vice-versa, no sentido indicado acima. Processo que nunca terminará, acredito nem com a vinda do Ressuscitado, porque Deus e a pessoa viverão para sempre, contudo, marcará o momento da constituição última e definitiva, sem possibilidade de retorno ou de desviar.
Cabe se perguntar se “a glória do Senhor” que envolveu os pastores em luz, tem a ver com a percepção deste projeto. Os pastores se considerando, pela teologia de então elaborada pela instituição, excluídos do reino por levarem os rebanhos sobre pastos alheios (E, portanto, ladrões sem possibilidade de devolver o prejuízo mais o 25%, condição para ser perdoados) “ficaram com muito medo”. E não era para menos: de excluído a incluídos ao sumo grau, sem entender o porquê e o como.
Como por Maria, o anjo intervém “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria (...) nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”. Tal vez seja um detalhe importante que o anjo não se refere ao homem Jesus, filho de Maria, mas a Cristo Senhor, o titulo que compete ao Ressuscitado.
Apesar da surpresa e do medo os pastores se dirigem à cidade de Davi e se aproximam ao sinal indicado pelo anjo “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Um encontro muito humano de familiaridade de e de ternura.
Então irrompe o divino “E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste”. Acontecimento ao mesmo tempo humano e divino. Revelação inesperada e de repente, não acompanhada pelo medo por parte doa pastores, mas envolvidos na percepção que os homens são amados por Deus.
Em primeiro lugares eles, os excluídos, os já condenados pela teologia oficial, e todos indistintamente que acolherão o convite de se aproximar ao Salvador e se deixar transformar pela morte e ressurreição dele.
Assim que a “glória a Deus no mais alto do céu e a paz na terra”, cantada pela multidão da corte celeste, se torne a realidade da nova criação, reunindo a glória a Deus e a paz na terra na prática do amor que o Salvador ensinou “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. (Jo15,12).

FELIZ NATAL
e
PROSPERO ANO NOVO

COM MUITA BENÇÃO DE DEUS

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

4o DOMINGO DO ADVENTO-B-(18-12-11)

1ª leitura dois Sm 7,1-5.8b-12.14a.16

Depois de ter se estabelecido em Jerusalém, construído o palácio real, Davi se propôs construir uma casa - Templo – para Deus e colocar nela a arca da Aliança, sinal da presença de Deus. Teria construído o Templo de maneira que o palácio real ficasse à direita do mesmo, pois, estar à direita de Deus é afirmar a dignidade de Filho. O pensamento dele era sincero e reto, sem segundas intenções, pois o profeta Natã aprovou o projeto.
Construir a casa tem sentido de estabilidade e, sobretudo, de permanência perene. É colocar um elemento que permanecerá por muito tempo. Portanto, construir uma casa a Deus pode ser expressão da vontade de pretender por parte de Deus permanência e estabilidade, aspectos estes que não competem ao rei e a nenhum ser humano.
Eis, então, o questionamento de Deus “Porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar?” e lembra a Davi tudo o que fez a favor dele “Fui eu que te tirei do pastoreio (...). Estive contigo em toda parte (...)” e anuncia o que realizará futuramente, concluindo “Eu o Senhor te anuncia que te fará uma casa” mais exatamente que estabelecerá uma descendência no decorrer dos séculos “suscitarei, depois de ti, um filho teu (...) e teu trono será firme para sempre”, como firme é a casa que queres construir.
Com esta atitude Deus quer lembrar a Davi que toda iniciativa procede dele, que não pode ser colocada em segundo plano, menos ainda ocultada, ainda quando a boa vontade e a correta atitude do rei podem levar a pensar o contrário. Deus não pretende mortificar a iniciativa e criatividade, mas ser suporte dela. Pelo contrário, a atividade e criatividade, desenvolvida em determinadas condições e para fins corretos, podem ser consideradas manifestação da iniciativa do Senhor. Portanto, recebem aprovação e sustento de grande importância.
Mais ainda. O relacionamento entre Deus e o rei se tornará tão forte e íntimo que o descendente prometido será para Deus como um filho “Eu serei para ele um pai e ele para mim um filho”. Há um abismo entre o projeto de Davi de construir o templo do Senhor, e o casamento que o Senhor estabelecerá para sempre com a descendência do rei.
A aliança, a união, a familiaridade será permanente. Diz o Senhor “Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre”. Portanto, a oposição instável x firme; transitório x perene; oferece a percepção da segurança e da eternidade que coloca a pessoa no limiar do mistério da existência, no qual encontrar o sentido da existência e o motivo para se comprometer nas exigências da aliança, desafiando o aleatório, o passageiro da condição humana, sobretudo da morte como inevitável limite e toda existência.
A importância desta mensagem ultrapassa a circunstância do evento. Há uma ligação entre o passageiro e o eterno, entre o presente e o futuro. Com outras palavras, há caminho e condições para ultrapassar o provisório, o contingente e se firmar no último e definitivo que constitui o motivo e o sentido do Advento.
A famosa frase de santo Agostinho “Senhor tu nos criaste para ti e nosso coração está inquieto até descansar em ti” aponta que só na comunhão e amizade com o Senhor, no ser para ele um filho e nele ser reconhecido como pai, está a serenidade, a felicidade plena de cada pessoa.
A descendência à qual o texto alude é o Senhor Jesus, constituído como referência imprescindível para a estabilidade do reino de Deus.
A segunda leitura mostra como participar desta realidade.

2da leitura Rm 16,25-27

Considerando o grande mistério no qual está mergulhado e envolvido. Paulo se dirige ao “único Deus, o sábio” o louvor e a glória, extensiva até o fim dos tempos, nos séculos. O mistério “mantido em sigilo desde sempre” se refere a uma realidade não só envolvida no silêncio, como o embrulho envolve o conteúdo, mas o silêncio é a fonte da qual emana o mistério mesmo.
Portanto, o silêncio é parte constitutiva do mesmo. Mergulhar no mistério, inevitavelmente é entrar no silêncio, pois, é mantido,sustentado e alimentado do mesmo. A sabedoria de Deus brota do silêncio que acompanha os séculos. Ela não o elimina nem o desmancha, pelo contrário o exige.
Por outro lado, sendo que Deus “tem o poder de vos confirmar na fidelidade ao meu evangelho” como pode levar a cumprimento esta tarefa se o destinatário não se aproxima no limiar do silêncio, se tornando ele mesmo “silêncio”? Com efeito, todos sabem que o silêncio é o ponto de partida para a eficaz escuta. Eis, então, brotar dele a palavra humana de Paulo que anuncia “à pregação de Jesus cristo, de acordo com a revelação do mistério (...) levado ao conhecimento”, conforme a determinação de Deus.
O “meu evangelho” de Paulo se refere ao anúncio da morte e ressurreição de Jesus. Ele experimentou como esta boa notícia se tornou boa realidade nele, e percebeu que, objetivamente, os efeitos deste mesmo evento são passados a toda pessoa e a criação.
A percepção da transformação, renovação e regeneração, deste evento se dá de forma misteriosa, não acessível ao raciocínio e a qualquer forma de percepção humana, mas só pela fé, pelo voto de confiança.
Com efeito, o evento Pascal mergulha a todos no amor de Deus. É este mesmo amor praticado por Jesus na sua atividade evangelizadora e selado com sua morte e ressurreição que confere a cada pessoa a transformação e a condição de nova criatura, embora não perceba nada disso do ponto de vista humano.
Este conteúdo da missão deve ser “levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-los à obediência da fé”. A obediência da fé é o passo necessário para que o objetivo da salvação operada por Cristo e oferecida como presente se torna subjetiva, ou seja, percebida como realidade da própria pessoa, em virtude da consciência da transformação e regeneração suscitada por ela. Um exemplo. O que adianta ter notícia que foi assinado a favor da pessoa um cheque de um milhão, se ele não pega e não acredita na informação. Assim a obediência da fé é isso mesmo, que devemos exercitar em cada Missa.
Com efeito, após a consagração, o celebrante anuncia que os efeitos da morte e ressurreição acabam de ser oferecidos para todos “Eis...” como “... o mistério da fé”. Com isso destaca o acontecer do amor de Deus a favor dos presentes, da humanidade, e da criação, de forma misteriosa.
A eficácia em cada pessoa do evento que acaba de acontecer depende do voto de confiança, baseado no pressuposto que a pessoa de Jesus representa as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares perante o Pai. Portanto, o que aconteceu nele, acontece em todos aqueles que confiadamente se deixam envolver pela atualização dos efeitos ma Missa.
Aceitar o presente, é aceitar o dom pelo qual o Pai nos acolhe como justos, e portanto restabelece a comunhão e a aliança perdidas. Isso é propriamente a “obediência da fé”. A resposta da assembleia “ Anunciamos (...). Proclamamos (...). Vem (...)” brota da consciência, esclarecida pelo voto de confiança, da transformação que acaba de acontecer.
O mistério se realizou e se manifestou, embora permaneça misterioso, “conforme determinação de Deus eterno” para acontecer o “hoje”(Lc 4,21) da salvação, cuja manifestação plena e definitiva acontecerá com a vinda do Ressuscitado no fim dos tempos.
Jesus é o evento, cuja entrada no mundo é descrita no evangelho.

Evangelho Lc 1,26-38

O texto é muito conhecido e comentado, sobretudo, pela figura de Maria, a maneira de se colocar no evento da anunciação e sua disponibilidade em colaborar positivamente ao convite da maternidade. Nela é representada toda pessoa que pela “obediência da fé” é convidada fazer de si mesma o lugar da salvação como representante da humanidade toda, e conscientemente responde positivamente.
Gosto de frisar que cada pessoa é a maneira humana de Deus ser no mundo. Portanto, na medida em que alcança se tornar gradativamente cada vez mais semelhante a Deus, não é só a vitória individual dela, mas dos sete bilhões das pessoas no mundo. É correto pensar cada um de nós como humanidade em miniatura.
Tudo começa com o anúncio desconcertante e inacreditável “O Senhor está contigo”. Esta presença, dom de Deus, é motivo de alegria. Contudo, a percepção da realidade tão inesperada e surpreendente, deixa a Maria, como se lhe faltasse o chão debaixo os pés, meio abalada. Ela é confortada pela palavra do anjo “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus”. Tudo é resgatado equilibrado pelo dom gratuito - a graça - de Deus.
Esta específica condição se atualiza em cada cristão consciente dos efeitos da morte e ressurreição de Cristo - a graça- nele. Ela, a graça, estabelece a presença do Senhor na profundidade do ser, cuja realidade enche a pessoa de alegria e confere consistência e firmeza no relacionamento com Deus.
Só então brota e compreende-se a missão “Eis que conceberás e darás a luz um filho (...) e o seu reino não terá fim”. A missão consiste em assumir o projeto de Deus a favor da humanidade. Sendo que Maria e nós somos miniaturas da humanidade, a salvação da humanidade é simultaneamente a nossa. Trata-se de assumir o que Deus determina conveniente e possível para cada pessoa. No caso de Maria a concepção do corpo de Jesus, no nosso a concepção no coração.
Missão impossível pelas simples condições humanas, daí a pergunta de Maria: “Como acontecerá isso?”. A resposta coloca em jogo o Espírito Santo e a vontade do Pai “O Espírito virá sobre ti (...) porque para deus nada é impossível”.
Então se fecha o círculo. Se Maria, assim como cada um de nós, acolhe no profundo do ser a presença do Senhor; se acredita em seu coração de ser agraciada pelo Senhor, a perplexidade é vencida pela certeza de que Deus não a deixará sozinha, pelo contrário, a acompanhará pela ação do Espírito Santo, em cada circunstância imprevista e sofrida que seja motivo pelo qual foi envolvida e associada ao desenho da salvação.
Maria se percebe sob o olhar e na presença de Deus. Não há registro das perguntas de caráter pessoal, familiar e social que normalmente surgem no interior da pessoa em situações como esta. Normalmente ao acontecer de eventos que mudam radicalmente a os projetos e os ritmos da vida ordinária, surgem muitas perguntas sobre as repercussões e consequências a todos os níveis que comporta.
Seria interessante saber as respostas de Maria, mas não há registro delas. Assim, podemos pensar que as possíveis respostas às perguntas acima indicadas são como englobadas, e em certos sentidos elaborados, por se perceber como “a serva do Senhor”.
O anúncio e a manifestação do projeto de Deus. Evidencia o pedido do serviço pelo qual só com a total dedicação e confiança no Senhor, e o reflexo nela mesmo, poderia ser desenvolvido convenientemente. Portanto, “Eis a serva”.
O “Eis” revela que Maria alcançou esta consciência. Ela se foi formando pelo diálogo com o anjo. No se manifestar Deus cria nela a percepção pela qual se coloca no singular relacionamento com o Senhor, no caso específico, na condição de serva. Posicionamento que deve tê-la fascinada, maravilhada e envolvida ao ponto tal de assumir sem reserva, incondicionalmente.
A Palavra e o Espírito Santo transformaram Maria de mulher comum em serva do Senhor. Para dar a luz o “Filho do Altíssimo” devia primeiro ser dada a luz como serva. É o mesmo que acontece com os grandes personagens da história de Israel. É à base de toda autêntica vocação.
Portanto, “faça-se em mim segundo a tua palavra!” é conclusão coerente com todo o processo: transformada pela Palavra e pelo Espírito - as duas mãos de Deus -, oferecerá a própria carne à Palavra e tudo de si mesma ao filho que nascerá dela.
A experiência dela é o que deveria ser, a de cada cristão. Com uma diferença: Ela concebeu o Verbo na carne, os cristãos no próprio coração.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

3o DOMINGO DO ADVENTO-B-(11-12-11)

1a leitura Is 61,1-2a.10-11

O profeta é preenchido pelo Espírito de Deus. “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu”. A presença do Espírito é uma unção de consagração, pela qual a pessoa (ou tambèm um objeto) é separada e destinada para uma finalidade especifica. É unção interior,cujo sinal exterior é a unção com óleo.
Quem está atrás das palavas e da ação do profeta é Deus mesmo. Assim, Deus separa o profeta para a missão específica. Pois, “enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o tempo de graça do Senhor”.
A missão do profeta será proclamar um tempo de graça, momento oportuno para experimentar o dom gratuito da presença do Senhor e sua força regenaradora e transformadora. Com outras palavas, o acontecer da salvação.
Deus é atento e participa dos sofrimentos das pessoas. Faz parte Dele ser compassivo, sejam quais forem a causa e o tipo de sofrimento: humilhação, isolamento e desprezo, dependências, cárcere. Perante Dele está um ser humano diminuído na sua dignidade de ser criado a Sua imagem e semelhança. É uma condição desumana.
Ele criou a pessoa para a vida plena, colocou nela a marca - a imagem - de sua presença, para que no decorrer da existência se torne gradativamente sempre mais semelhante a Ele, na prática do que Ele é, na prática do Amor.
Assim, o sentimento de compaixão se torna ação misericordiosa, própria de quem se inclina de coração sincero sobre a lastimável condição da pessoa, para levantá-la, erguê-la à vida nova. A glória de Deus é o homem vivente, dizia Santo Irineu. E o agir de Deus é para que tenha vida em abundância.
O profeta ajusta-se plenamente à proposta , porque é o primeiro beneficiado por ele. De fato, isso é motivo de exultação: “Exulto de alegria no Senhor e minh’alma regozija-se em meu Deus” pelo que está experimentando. Por outro lado, não poderia exercitar, nem passar para outros algo que não faz parte dele, ou pelo menos, que não experimentou porque não estava envolvido.
Expressão de grande alegria e manifestação de profundos sentimentos ( semelhantes aos de Nossa Senhora, no hino de agradecimeto dela): “Ele me vestiu com a veste da salvação, envolveu-me (…) adornou-me (…)”. Tais sentimentos manifestam o impulso missionário e o motivo da dedicação a causa de Deus em quem está realmente tocado pela graça Dele. Com efeito, o dom recebido produz fruto de uma existência bem sucedida, quando é passado a outros. Cada qual é como a artéria que, deixando passar o sangue, mantém vivo e sadio o corpo e ela mesma.
“Assim como a terra (…), assim, Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações”. Justiça e glória caminham juntos, mais ainda, são as duas faces da mesma moeda: a salvação. É justiça de Deus tirar o homen da triste condição na qual se encontra, muitas vezes, por causa dos próprios pecados, pela atitude magnânima e gratuita de Deus.
É manifestação da glória de Deus a alegria, a abundância de vida do homem, por ter se reencontrado e por contribuir com a construção de uma sociedade em sintonia com o direito e a justiça. E, também, por conservar e respeitar a criação, jardim que Deus lhe confiou.
Tudo isso pede constante e alegre dedicação em colaborar com a obra de Deus. E vigiar para não se deixar levar por forças contrárias. É o que indica a segunda leitura.

2da leitura 1Ts 5,16-24

“Aquele que vos chamou é fiel; ele mesmo realizarà isso”. Paulo, baseado na própria experiência, passa aos cristãos a convicção da fidelidade de Deus e a certeza de que vai cumprir o que prometeu. Mais ainda, afirma que Deus mesmo age nele. Não estão sozinhos, podem contar com a familiaridade e a comunhão com Ele.
Portanto, sustentado por esta certeza, Paulo exorta “Afastai-vos de toda espécie de maldade!”. A sedução de outras propostas, a necessidade dos bens materiais, o fascínio de dominar mundos ocultos, o medo de ficar sozinho e isolado do convivio social e dos afetos das pessoas queridas, as provações e as dificuldades do dia-a-dia, dentre outros aspectos, são tentações para desviar do caminho do Senhor.
É preciso tomar atitude: assumir o que ajuda e afastar o que atrapalha. Positivamente aconselha “Estai sempre alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circustâncias, porque essa é, a vosso respeito, a vontade de Deus em Jesus Cristo”. A comunhão e a familiaridade com Deus leva consigo o estado de ânimo caracterizado pela alegria. Com outras palavras, pela serendidade interior, pela satisfação… É alegria que brota naturalmente, espontaneamente, não devida ou forçada por circustâncias ou vontade alheia.
Ela é acompanhada pela oração, pela ação de graças em todas circustâncias, em virtude da consciência de que “Deus dispõe todas as coisas para o bem dos que o amam” (Rm 8,28). Portanto não há circustância, mesmo que adversa, que não seja sustentada pela vontade de Deus, sempre orientada – a vontade Dele – para o bem de si mesmo ou dos outros. Vale lembrar que querer o bem dos outros é querer o próprio bem.
Paulo acrescenta ter cuidados de “Não apagueis o espírito! Não desprezeis as profecias…” no momento em que vai se afastando da vivência com o Senhor Deus, prevelece o disinteresse pela presença do espírito no profundo do próprio ser, e a desconfiança da profecia, daqueles que falam e argumentam a partir do ensino e da experiência da Palavra de Deus. Então, se abre a porta a todo tipo de maldade.
Nestes momentos de crise é importante a vigilância. Ela deve ser praticada com discernimento “…mas examinai tudo e guardai o que for bom” . É preciso distinguir o que è bom em sentido de ajuda, crescimento e aprofundamento dos objetivos da evengelização.
A evangelização é algo dinâmico, exige coragem e criatividade pelas circustâncias históricas em contínua evolução. Saber interpretar os “sinais dos tempos” na realidade em contínua mudança, significa discernir, à luz da Palavra do Senhor, e determinar a prática pastoral correspondente. É não apagar o espírito e vivenciar a profecia.
Aí está a ação de Deus para que “o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois – espírito , alma, corpo – seja conservado sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!”. A atenção está voltada para a vinda do Senhor, esperada como próxima. Assim, os que pertencem a Ele por se terem “conservados sem mancha”, participam plenamente da glória de Deus.
É João Batista quem anuncia e prepara o caminho da vinda do Senhor.

Evangelho Jo 1,6-8.19-28

João “ veio como testemunha, para dar testemunho da Luz”. Eis, sintetizada, a missão dele. A Luz è necessária “ para que todos chegassem a fé” e João traz o testemunho dessa luz, pois, foi enviado por Deus e tem consciência da missão que lhe foi confiada. Luz que ilumina o novo caminho da aliança que o Messias irà implantar e será motivo de renovada confiança, para assim reconstruir a sociedade e a dignidade da pessoa nos moldes da justiça e do direito.
À interpelação João responde: “Eu sou a voz que grita no deserto: “ Aplainai o caminho do Senhor-conforme disse o profeta Isaias”.O evangelista faz referência ao texto da primeira leitura e do evangelho do domingo passado.( Portanto, è preciso retomar o comentário para entender o sentido da afirmção).
O inciso referido ao profeta Isaías, melhor o livro da consolação do segundo Isaías, coloca em evidência a ligaçao da missão dele com a do profeta, a atualização do novo êxodo e da nova aliança. Parece- me querer preanunciar o começo de uma etapa radicalmente nova.
Contudo, João se posiciona de maneira certa e verdadeira perante a pergunta dos interlocutores “ Quem és tu?”. A resposta não encaixa em nehuma categoria de pessoas que poderiam justificar a atividadeque està desenvolvendo. Ele quebra, põe fora todos os esquemas, ao ponto de motivar o questiona mento “ Por que então andas batizando, se nao és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?”.
Notável que jà desde o início há descontinuidade com a tradição. O efeito é o desconcerto e a perplexidade. Ao mesmo tempo é como amostra do que Jesus realizará em todos os níveis.Com isso, fica afirmada a absoluta libertade de Deus em confiar a missão da forma que achar mais oportuna, sem estar amarrado à determinações e experiências anteriores. A criatividade e a novidade faz parte do específico da ação de Deus.
João se apresenta em função da missão que lhe foi confiada. Não se preocupa a qual categoria de pessoas pertence, mas com o que deve desenvolver. “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim” Obriga os ouvintes a fixar a atenção sobre uma presença no meio deles desconhecida, que continuará a missão iniciada por ele.
A atenção se torna inda mais viva e desafiadora pelo que a continuação acrescenta “ Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias” . Se já é respeitado e tomado em consideração, mesmo com dúvidas e peplexidade ,pelo que está pregando e realizando, o que será a experiência com aquele do qual afirma ser tão superior a ele?
A intervenção de João objetiva suscitar a maior atenção possível. Aquela atenção que não deve ser simples curiosidade, mas, entender que o desconhecido já presente- o Messias- na sua autorevelação se manifestará de maneira tão surpreendente e inesperada que rompe todos os cânones e expectaivas, muito mais do que João està mostrando.
Esta revelação é a luz que o povo precisa,e que por certos aspectos será luz para o mesmo João , considerando que não os outros, mas ele mesmo ficará surpreendido até enviar desde o cárcere no qual está preso os seus discípulos para perguntar a Jesus se é ele ou não o que tinha que vir (Mt 11.3).
O tempo do Advento reproduz a mesma coisa, olhando o futuro da vinda do Messias, esta vez como Ressuscitado no fim dos tempos. Assim, o que vai chegar não é coisa de pouca conta e previsível. Pelo contrario, precisa de grande atenção, para pereceber a presença dele e entender os critérios da sua sabedoria e da missão como realidade última e definitiva da ação de Deus a favor de tudo e de todos.
Será uma atenção que dexará a todos surpeendidos e deconcertados, inclusive os mais preparados, como foi o caso de João. Talvez seja o repropor em nível universal a experiência de morte e ressureição que caracretizou este evento de faz dois mil anos.
O evidente fracasso humano, em termos de rejeição do estilo de vida, da filosofia de Jesus e conseginte perda dos bens materiais, do poder, das honras e até da propria vida, será simultaneamente percebido como participação ao inedito e surpreendente gloria de Deus, pela qual haverá experiencia do que significa Deus ser “tudo em todos” (1Cor 15,28).