Depois de ter se estabelecido em Jerusalém, construído o palácio real, Davi se propôs construir uma casa - Templo – para Deus e colocar nela a arca da Aliança, sinal da presença de Deus. Teria construído o Templo de maneira que o palácio real ficasse à direita do mesmo, pois, estar à direita de Deus é afirmar a dignidade de Filho. O pensamento dele era sincero e reto, sem segundas intenções, pois o profeta Natã aprovou o projeto.
Construir a casa tem sentido de estabilidade e, sobretudo, de permanência perene. É colocar um elemento que permanecerá por muito tempo. Portanto, construir uma casa a Deus pode ser expressão da vontade de pretender por parte de Deus permanência e estabilidade, aspectos estes que não competem ao rei e a nenhum ser humano.
Eis, então, o questionamento de Deus “Porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar?” e lembra a Davi tudo o que fez a favor dele “Fui eu que te tirei do pastoreio (...). Estive contigo em toda parte (...)” e anuncia o que realizará futuramente, concluindo “Eu o Senhor te anuncia que te fará uma casa” mais exatamente que estabelecerá uma descendência no decorrer dos séculos “suscitarei, depois de ti, um filho teu (...) e teu trono será firme para sempre”, como firme é a casa que queres construir.
Com esta atitude Deus quer lembrar a Davi que toda iniciativa procede dele, que não pode ser colocada em segundo plano, menos ainda ocultada, ainda quando a boa vontade e a correta atitude do rei podem levar a pensar o contrário. Deus não pretende mortificar a iniciativa e criatividade, mas ser suporte dela. Pelo contrário, a atividade e criatividade, desenvolvida em determinadas condições e para fins corretos, podem ser consideradas manifestação da iniciativa do Senhor. Portanto, recebem aprovação e sustento de grande importância.
Mais ainda. O relacionamento entre Deus e o rei se tornará tão forte e íntimo que o descendente prometido será para Deus como um filho “Eu serei para ele um pai e ele para mim um filho”. Há um abismo entre o projeto de Davi de construir o templo do Senhor, e o casamento que o Senhor estabelecerá para sempre com a descendência do rei.
A aliança, a união, a familiaridade será permanente. Diz o Senhor “Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre”. Portanto, a oposição instável x firme; transitório x perene; oferece a percepção da segurança e da eternidade que coloca a pessoa no limiar do mistério da existência, no qual encontrar o sentido da existência e o motivo para se comprometer nas exigências da aliança, desafiando o aleatório, o passageiro da condição humana, sobretudo da morte como inevitável limite e toda existência.
A importância desta mensagem ultrapassa a circunstância do evento. Há uma ligação entre o passageiro e o eterno, entre o presente e o futuro. Com outras palavras, há caminho e condições para ultrapassar o provisório, o contingente e se firmar no último e definitivo que constitui o motivo e o sentido do Advento.
A famosa frase de santo Agostinho “Senhor tu nos criaste para ti e nosso coração está inquieto até descansar em ti” aponta que só na comunhão e amizade com o Senhor, no ser para ele um filho e nele ser reconhecido como pai, está a serenidade, a felicidade plena de cada pessoa.
A descendência à qual o texto alude é o Senhor Jesus, constituído como referência imprescindível para a estabilidade do reino de Deus.
A segunda leitura mostra como participar desta realidade.
2da leitura Rm 16,25-27
Considerando o grande mistério no qual está mergulhado e envolvido. Paulo se dirige ao “único Deus, o sábio” o louvor e a glória, extensiva até o fim dos tempos, nos séculos. O mistério “mantido em sigilo desde sempre” se refere a uma realidade não só envolvida no silêncio, como o embrulho envolve o conteúdo, mas o silêncio é a fonte da qual emana o mistério mesmo.
Portanto, o silêncio é parte constitutiva do mesmo. Mergulhar no mistério, inevitavelmente é entrar no silêncio, pois, é mantido,sustentado e alimentado do mesmo. A sabedoria de Deus brota do silêncio que acompanha os séculos. Ela não o elimina nem o desmancha, pelo contrário o exige.
Por outro lado, sendo que Deus “tem o poder de vos confirmar na fidelidade ao meu evangelho” como pode levar a cumprimento esta tarefa se o destinatário não se aproxima no limiar do silêncio, se tornando ele mesmo “silêncio”? Com efeito, todos sabem que o silêncio é o ponto de partida para a eficaz escuta. Eis, então, brotar dele a palavra humana de Paulo que anuncia “à pregação de Jesus cristo, de acordo com a revelação do mistério (...) levado ao conhecimento”, conforme a determinação de Deus.
O “meu evangelho” de Paulo se refere ao anúncio da morte e ressurreição de Jesus. Ele experimentou como esta boa notícia se tornou boa realidade nele, e percebeu que, objetivamente, os efeitos deste mesmo evento são passados a toda pessoa e a criação.
A percepção da transformação, renovação e regeneração, deste evento se dá de forma misteriosa, não acessível ao raciocínio e a qualquer forma de percepção humana, mas só pela fé, pelo voto de confiança.
Com efeito, o evento Pascal mergulha a todos no amor de Deus. É este mesmo amor praticado por Jesus na sua atividade evangelizadora e selado com sua morte e ressurreição que confere a cada pessoa a transformação e a condição de nova criatura, embora não perceba nada disso do ponto de vista humano.
Este conteúdo da missão deve ser “levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-los à obediência da fé”. A obediência da fé é o passo necessário para que o objetivo da salvação operada por Cristo e oferecida como presente se torna subjetiva, ou seja, percebida como realidade da própria pessoa, em virtude da consciência da transformação e regeneração suscitada por ela. Um exemplo. O que adianta ter notícia que foi assinado a favor da pessoa um cheque de um milhão, se ele não pega e não acredita na informação. Assim a obediência da fé é isso mesmo, que devemos exercitar em cada Missa.
Com efeito, após a consagração, o celebrante anuncia que os efeitos da morte e ressurreição acabam de ser oferecidos para todos “Eis...” como “... o mistério da fé”. Com isso destaca o acontecer do amor de Deus a favor dos presentes, da humanidade, e da criação, de forma misteriosa.
A eficácia em cada pessoa do evento que acaba de acontecer depende do voto de confiança, baseado no pressuposto que a pessoa de Jesus representa as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares perante o Pai. Portanto, o que aconteceu nele, acontece em todos aqueles que confiadamente se deixam envolver pela atualização dos efeitos ma Missa.
Aceitar o presente, é aceitar o dom pelo qual o Pai nos acolhe como justos, e portanto restabelece a comunhão e a aliança perdidas. Isso é propriamente a “obediência da fé”. A resposta da assembleia “ Anunciamos (...). Proclamamos (...). Vem (...)” brota da consciência, esclarecida pelo voto de confiança, da transformação que acaba de acontecer.
O mistério se realizou e se manifestou, embora permaneça misterioso, “conforme determinação de Deus eterno” para acontecer o “hoje”(Lc 4,21) da salvação, cuja manifestação plena e definitiva acontecerá com a vinda do Ressuscitado no fim dos tempos.
Jesus é o evento, cuja entrada no mundo é descrita no evangelho.
Evangelho Lc 1,26-38
O texto é muito conhecido e comentado, sobretudo, pela figura de Maria, a maneira de se colocar no evento da anunciação e sua disponibilidade em colaborar positivamente ao convite da maternidade. Nela é representada toda pessoa que pela “obediência da fé” é convidada fazer de si mesma o lugar da salvação como representante da humanidade toda, e conscientemente responde positivamente.
Gosto de frisar que cada pessoa é a maneira humana de Deus ser no mundo. Portanto, na medida em que alcança se tornar gradativamente cada vez mais semelhante a Deus, não é só a vitória individual dela, mas dos sete bilhões das pessoas no mundo. É correto pensar cada um de nós como humanidade em miniatura.
Tudo começa com o anúncio desconcertante e inacreditável “O Senhor está contigo”. Esta presença, dom de Deus, é motivo de alegria. Contudo, a percepção da realidade tão inesperada e surpreendente, deixa a Maria, como se lhe faltasse o chão debaixo os pés, meio abalada. Ela é confortada pela palavra do anjo “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus”. Tudo é resgatado equilibrado pelo dom gratuito - a graça - de Deus.
Esta específica condição se atualiza em cada cristão consciente dos efeitos da morte e ressurreição de Cristo - a graça- nele. Ela, a graça, estabelece a presença do Senhor na profundidade do ser, cuja realidade enche a pessoa de alegria e confere consistência e firmeza no relacionamento com Deus.
Só então brota e compreende-se a missão “Eis que conceberás e darás a luz um filho (...) e o seu reino não terá fim”. A missão consiste em assumir o projeto de Deus a favor da humanidade. Sendo que Maria e nós somos miniaturas da humanidade, a salvação da humanidade é simultaneamente a nossa. Trata-se de assumir o que Deus determina conveniente e possível para cada pessoa. No caso de Maria a concepção do corpo de Jesus, no nosso a concepção no coração.
Missão impossível pelas simples condições humanas, daí a pergunta de Maria: “Como acontecerá isso?”. A resposta coloca em jogo o Espírito Santo e a vontade do Pai “O Espírito virá sobre ti (...) porque para deus nada é impossível”.
Então se fecha o círculo. Se Maria, assim como cada um de nós, acolhe no profundo do ser a presença do Senhor; se acredita em seu coração de ser agraciada pelo Senhor, a perplexidade é vencida pela certeza de que Deus não a deixará sozinha, pelo contrário, a acompanhará pela ação do Espírito Santo, em cada circunstância imprevista e sofrida que seja motivo pelo qual foi envolvida e associada ao desenho da salvação.
Maria se percebe sob o olhar e na presença de Deus. Não há registro das perguntas de caráter pessoal, familiar e social que normalmente surgem no interior da pessoa em situações como esta. Normalmente ao acontecer de eventos que mudam radicalmente a os projetos e os ritmos da vida ordinária, surgem muitas perguntas sobre as repercussões e consequências a todos os níveis que comporta.
Seria interessante saber as respostas de Maria, mas não há registro delas. Assim, podemos pensar que as possíveis respostas às perguntas acima indicadas são como englobadas, e em certos sentidos elaborados, por se perceber como “a serva do Senhor”.
O anúncio e a manifestação do projeto de Deus. Evidencia o pedido do serviço pelo qual só com a total dedicação e confiança no Senhor, e o reflexo nela mesmo, poderia ser desenvolvido convenientemente. Portanto, “Eis a serva”.
O “Eis” revela que Maria alcançou esta consciência. Ela se foi formando pelo diálogo com o anjo. No se manifestar Deus cria nela a percepção pela qual se coloca no singular relacionamento com o Senhor, no caso específico, na condição de serva. Posicionamento que deve tê-la fascinada, maravilhada e envolvida ao ponto tal de assumir sem reserva, incondicionalmente.
A Palavra e o Espírito Santo transformaram Maria de mulher comum em serva do Senhor. Para dar a luz o “Filho do Altíssimo” devia primeiro ser dada a luz como serva. É o mesmo que acontece com os grandes personagens da história de Israel. É à base de toda autêntica vocação.
Portanto, “faça-se em mim segundo a tua palavra!” é conclusão coerente com todo o processo: transformada pela Palavra e pelo Espírito - as duas mãos de Deus -, oferecerá a própria carne à Palavra e tudo de si mesma ao filho que nascerá dela.
A experiência dela é o que deveria ser, a de cada cristão. Com uma diferença: Ela concebeu o Verbo na carne, os cristãos no próprio coração.
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