1ª leitura Nm 6,22-27
Deus ordena explicitamente a “Aarão e seus filhos” que abençoem os filhos de Israel. Trata-se de invocar o nome Dele sobre o povo. Invocar é chamar a Deus em auxílio, suplicar proteção.
Deus por sua livre iniciativa estreitou a Aliança com o povo, após o ter libertado da escravidão do Egito. Em virtude da aliança, o conduz rumo à terra prometida, para fazer dele um sinal perante todos os povos da terra. O povo é escolhido para a missão de testemunhar com o cumprimento das exigências da Aliança e com o estilo de vida de fraternidade, de solidariedade, de união na prática do direito e da justiça e, desta forma, manifestar Deus como o próprio Rei. A qualidade do testemunho será motivo para a adesão dos povos da terra ao Deus de Israel e assim, acontecer o senhorio de Deus para com toda a humanidade.
Apesar de este bom propósito ter motivado a livre e entusiasta adesão do povo com a renovação da Aliança em Siquem, antes de entrar na terra prometida, Deus sabe da fragilidade do povo.
É um povo de cabeça dura, que não quer entender, que confia parcialmente e só na medida em que responde aos critérios e expectativas dele. Aspectos e obstáculos que levam ao fracasso do bom propósito.
Portanto, é preciso estabelecer momentos específicos. A benção é um destes momentos. Chamar a Deus em auxílio e suplicar proteção é para lembrar ao povo que Ele está presente, não esquece a promessa, menos ainda os abandona, pelo contrário, Ele é fiel. Para que, assim, revigorado e fortalecido na confiança o povo persista no caminho, na prática da Aliança e não desista do objetivo da missão.
Com efeito, a benção “O Senhor te abençoe e te guarde” mostra a finalidade, motivada pela compaixão de Deus para com o seu povo e suscitada pela invocação, como proteção e cuidado para não perder a confiança Nele e remotivar o caminho. É expressão do amor do pai para com os filhos. Não é este mesmo o significado de pedir a benção do pai e da mãe na experiência de todos os dias?
Ela consiste em se manifestar “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face (...) volte para ti o seu rosto”. Voltar o rosto para o povo e manifestar a face é próprio de quem deseja dar-se a conhecer e oferecer o melhor de sua pessoa, com a surpresa de passar a riqueza, a profundidade e todo o positivo que pode transmitir.
É atitude de grande consideração, voltada a estabelecer comunhão e familiaridade, a suscitar acolhimento e resposta positiva, para consolidar e reforçar cada vez mais o relacionamento.
Um relacionamento que por ser resposta de Deus à fragilidade e à fraqueza humana, confere consistência e força para estabelecer com inteligência e criatividade as condições para o reino de Deus acontecer.
“Volte para ti o seu rosto e te dê a paz”. Desta forma é atingido o mundo interior e incentiva a vivência comunitária, a sociedade, a humanidade toda ser construtora da harmonia e da paz.
O rosto e a face brilhante de Deus se manifestaram na pessoa humana de Jesus, como frisado pela segunda leitura.
2ª leitura Gl 4,4-7
“Quando se completou o tempo previsto” Trata-se do momento estabelecido por Deus, como algo que foi algo pensado com anterioridade e chegou o tempo previsto. Portando, corresponde a um projeto que ao longo do tempo foi se desenvolvendo e chegou o momento de acontecer.
“Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei”. O menino nascido em Belém é verdadeiro homem, como todo ser humano que nasce da mulher, nada mais, nada menos. Portanto, não é certa toda afirmação que, em virtude de ser Deus em forma humana, diminuem todo o que se refere à humanidade em função das vantagens da condição divina. Mais ainda, é homem como todo membro do povo de Israel sujeito à lei por ser descendente de Abrão e sujeito às Leis da aliança. Não lhe falta nada.
(Entre parêntesis, houve por mais de quatrocentos anos polêmica ao respeito, até que no Concílio celebrado em Calcedônia definiu-se que da pessoa de Cristo não pode ser tirado nada que diminui o humano e o divino, mesmo permanecendo desconhecidas como as duas realidades se relacionam entre elas na pessoa de Jesus).
O motivo do envio do Filho foi para “resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação divina (...) tudo isso por graça de Deus”. Da citação completa podemos tirar uma série de elementos que configuram o conteúdo da benção trazida por Jesus:
- O resgate da Lei, sendo que a maneira de ser interpretada e atuada(cumprida) desviou do fim para o qual foi promulgada. A tentativa de recolocá-la nos trilhos custou a Jesus a morte. Contudo sendo que o fez por amor ao povo e fidelidade à verdade, essa morte se tornou ressurreição.
- Por ter assumido a condição do pecador ele, que não tinha pecado, e, em virtude disso, se constituiu como representante de toda a humanidade de todos os tempos perante o Pai. Com sua morte e ressurreição não só nos resgatou da lei, nos libertou da escravidão e da morte, mas, nos passou a condição de justos perante do Pai. E, com isso, a participação à vida divina na condição de filhos adotivos. Filhos por ter aceitado e acreditado o dom do representante
- Pelo voto de confiança, “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!”. Pois, na condição de filhos o Espírito conforma a consciência em sintonia com a nova realidade pela qual se torna espontâneo e certo se dirigir a Deus com o termo afetuoso de Pai.
- É uma mudança radical de perspectiva: da condição de pecador, escravo e excluído à de filho, partícipe da vida de Deus, do reino e herdeiro da glória de Deus “Assim, já não és escravo, mas filho; e se és filho também herdeiro”.
Perceber tudo isso, interiorizando e acreditando a nova condição, se manifesta no comportamento indicado pelas bem-aventuranças, e pela reinterpretação ousada e criativa dos mandamentos na ótica do amor ensinado por Jesus.
-“tudo isso por graça de Deus”, por Deus revelar o seu rosto e brilhar a sua face, motivando e sustentando atitudes e comportamentos de paz de forma gratuita, visando unicamente o bem das pessoas e da humanidade.
É o que aconteceu nos pastores e em Maria; deveria acontecer em todo cristão consciente.
Evangelho Lc 2,16-21
Os pastores, cuja condição ético-social foi comentada o domingo passado, “foram às pressas a Belém”. Apesar de todos os pesares foram decididos, sem demorar(sinal da pronta aceitação do anuncio e do convite do anjo). Portanto, a mesma determinação deve marcar a aproximação ao Senhor de todos, seja qual for a condição pessoal, sustentados pelo anúncio e a esperança de libertação, ou seja, do salto qualitativo da existência.
Eles “contaram o que lhes fora dito sobre o menino. E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam”. Devem ter passado informação e a experiência do que aconteceu para com eles com tal força e convicção que todos ficaram maravilhados e contagiados pelo evento.
Esta ação e atitude missionária suscitaram duas reações complementares, mesmo se referindo a dois sujeitos diferentes, qual Maria e os mesmos pastores. Maria “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Sendo que Maria representa a toda humanidade, a atitude de meditar envolvendo o mais profundo do ser e a pessoa, deve se tornar a mesma de toda pessoa atenta à mensagem e ao testemunho transmitido.
Os eventos com os quais Deus se manifesta são de tal profundidade e importância que precisam ser guardados e meditados porque constituem um patrimônio indispensável para o caminho bem sucedido.
Voltar com lucidez e inteligência ao conteúdo deste patrimônio, nos momentos qualificados da própria caminhada que marcam para sempre um antes e um depois, é garantia que a benção do Senhor está presente, acompanha e inspira a resposta e a atitude adequada, além de enriquecer o mesmo patrimônio.
Os pastores “voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito”. Obedecendo ao convite do anjo não ficaram desiludidos, pelo contrário. Devem ter experimentado uma verdadeira e significativa transformação do próprio mundo interior, da imagem deles com eles mesmos, percebendo a ação salvadora, neles, da presença de Deus naquele menino e, por conseguinte, neles mesmos.
A missão exercida por estes pastores: ter acolhido o dom, ter se movido na direção indicado por ele e transmitido o conteúdo dele, assim como o próprio envolvimento, os tornou exultantes de alegria.
Lembrando que eles tinham consciência de serem considerados pecadores públicos e, portanto, com certeza, excluídos do reino de Deus com a chegada do messias, o desenvolvimento da missão foi motivo de resgate, de regeneração, de salvação. Em última análise, a benção é a missão. Com efeito, o dom para se tornar eficaz e aumentar sua forca e poder deve ser transmitido. Assim a missão abrange o começo, o desenvolvimento e a meta da ação de Deus. É o processo, de salvação.
“Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus”. O nome de Jesus significa Salvador, cuja ação já se fez presente nos pastores e no coração de Maria, como antecipação do evento determinante e decisivo ao respeito de sua morte e ressurreição.
Nenhum comentário:
Postar um comentário