terça-feira, 31 de janeiro de 2012

5o DOMINGO DO T.C.-B- (05-02-12)

1ª leitura Jó 7,1-4.6-7

Jó abandonando toda defesa inútil contra o acusador Elifaz, que via em sua dor o castigo de Deus por algum pecado que teimosamente não queria reconhecer e continuando proclamar a própria inocência, considera a vida na sua existência humana.

Considera, depois de se perguntar se a vida não é dura luta para conseguir a paga do próprio esforço e trabalho, no meio de ilusões e preocupações, que a vida é todo um sofrimento. “Como um escravo suspira pela sombra, como assalariado aguarda sua paga, assim tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimento”.

Um sofrimento que parece não ter fim, pois, é constante e sem repouso algum, de dia e de noite. Jó sabe da própria retidão, pois viveu de forma plena e integral sua adesão à Aliança. Portanto, deveria receber de Deus, em virtude da lógica da retribuição, o reconhecimento, elogio e prêmio. Pelo contrário, recebe sofrimento sem fim, como descreve o texto.

Em Jó estão representados todos os homens e mulheres que sofrem injustamente, do ponto de vista da lógica da retribuição. Pessoas generosas, íntegras, muito dedicadas à causa de Deus, desprendidas de si mesmas para o bem dos outros e da humanidade. Como ele, muitas são rejeitadas, humilhadas e objeto de desgraças que parecem não terminar nunca.

A primeira reação é a revolta e a pergunta: por quê? É comum ouvir expressões “o que fiz de ruim para merecer tal sofrimento? Como pode Deus, o justo, permitir que isso aconteça?”. Efetivamente, o desconcerto, o abalo e o sem sentido da vida toma conta da mente e do coração. A pessoa se sente como defraudada, privada injustamente de algo que lhe pertence: o reconhecimento, a gratidão, em fim a felicidade.

Nela o desânimo, a desmotivação e depressão se tornam distanciamento, indiferença e até abandono do que é justo e reto, para entrar em outros caminhos. Mesmo que sejam ambíguos e muitas vezes levam a comportamentos ruins, contudo, oferecem gratificações. São as tentações de todos os dias. O Salmo 73 é uma boa síntese, em forma de oração meditativa, de tal experiência de chegar até a beira do precipício do mal e experimentas a salvação pela intervenção de Deus.

Não é o caso de Jó. Ele toma consciência no sofrimento, com lucidez e coragem, da condição humana “Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança”. Não há abatimento, mas só constatação de sua condição de sofredor que no horizonte simplesmente humano parece não ter saída.

Esta atitude é sustentada pelo específico relacionamento de retidão para com as exigências da Aliança. Ele sempre observou com diligência e atenção os mandamentos que selam o correto relacionamento com o Deus da Aliança. Portanto, se dirige a ele “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade!”. Muito discretamente lembra a Deus o compromisso da aliança, da terra prometida onde haverá paz, harmonia e felicidade, da abundancia que lhe foi tirada sem ter pecado sem entender o porquê.

O significado e o pedido de “lembrar” vão muito além do nosso entendimento comum. Não é só recordar um evento passado que fica no passado, mas chamar ao cumprimento, à realização, o que foi estabelecido e prometido. É como se dissesse: cumpre o que prometeste! Ele sabe que Deus é fiel. Sabe que vai cumprir, sabe que não engana, nem mente, ainda que não saiba como, nem quando. Há nele uma certeza que sustenta a esperança da salvação e a manifestação do poder de Deus que regenera e dá nova vida, que reintegra os excluídos e fundamenta a esperança de um futuro melhor aos desanimados e sem esperança.

Este mundo interior de Jó é o mesmo de Paulo, como é fácil perceber na segunda leitura.

2da leitura 1Cor 9,16-19.22-23

A identificação de Paulo com o Senhor Jesus é tão forte e consistente a ponto de afirmar “Ai de mim se não pregar o evangelho”. Com isso, não transmite uma informação nem uma sabedoria adquirida pelo estudo diligente e com particular inteligência. Mas o que aconteceu nele enquanto convertido, por ter sido alcançado pelo Senhor no momento que lhe revelou os efeitos de sua morte e ressurreição. Então, Paulo percebeu e acreditou que “Cristo me amou e se entregou por mim”(Gal 2,20).

A boa notícia do Evangelho se tornou nele boa realidade. A sintonia tão marcante e profunda gerou a transformação radical do próprio mundo interior e da própria vida. Como acontece nestas circunstâncias, este evento transformador não podia ficar fechado nele. Portanto, “Pregar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição”.

Cabe considerar e prestar atenção às atitudes e os pensamentos de Paulo, pois, revelam como ele percebeu corretamente a potencialidade do dom e as condições para que este dom continue enriquecendo a personalidade dele, aumentando a qualidade de vida.

Com efeito, o presente não é simplesmente como um objeto - uma casa, um livro, etc.- que será sempre o mesmo com o passar do tempo, uma realidade estática. Não. Ele é uma realidade dinâmica: cresce ou se deteriora. Depende da atitude para com ele: se torna experiência de plenitude; de satisfação, se transmitido; ou, o contrário, experiência de vazio e frustração, se fechado em si mesmo e para si mesmo.

Portanto, o tempo e o espaço são a oportunidade para se desenvolver ainda mais, para crescer na espiral cada vez mais abrangente ou, em caso contrário, que envolve sobre si mesmo.

No primeiro caso, ela não termina nunca porque tem a ver com a realidade e essência de Deus, pois, não só está presente no dom, mas é o dom mesmo, como se estivesse revestido, embalado na circunstância e contexto. Portanto, tem em si mesmo a força e a dinâmica inesgotável. No segundo caso Deus tem sempre menor espaço, é continuamente expulso, pois,a pessoa fica sozinha, isolada, com todas suas consequências negativas.

Paulo e o dom recebido se tornam uma só coisa. Ele se torna o dom de Deus para quem está disposto em acolhê-lo. Embora sendo ele o pregador por determinação e vontade própria, a iniciativa, a raiz, deste movimento não está nele “a iniciativa não é minha, trata-se de um encargo que me foi confiado”. Portanto, faz parte do dom a iniciativa da transmissão para outros.

Em virtude disso pode ter certeza da permanente presença do Senhor em toda circunstância, mesmo na mais difícil e sofrida. Há como uma certeza inabalável que o acompanha constantemente.

Daí brota e sustentam-se duas atitudes. Ele se pergunta: “Em que consiste o meu salário?”. Com outras palavras, que ganho? Responde “Em pregar o evangelho, oferecendo-o de graça, sem usar os direitos que o evangelho me dá”. Assim, a gratuidade da transmissão do dom recebido é recompensa, é ao mesmo tempo salário. Pois, desta maneira experimenta o salto qualitativo da própria vida.

Então decorre a segunda atitude “eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível (...) para certamente salvar alguns”, a atitude do autêntico servidor voltado com determinação para o bem de todos, mesmo sabendo que nem todos responderão positivamente.

“Por causa do evangelho eu faço tudo, por ter parte dele”. O evangelho o chama ser parte integrante dele, no momento que nele palavra e vida se tornam única realidade: Deus origem e cumprimento da obra na pessoa de Paulo e de todos ao que acreditam nele.

Esta síntese se manifesta plenamente na pessoa de Jesus, como relata o evangelho.

Evangelho Mc 1,29-39

O texto apresenta um quadro dos diferentes momentos do dia e as respectivas atividades de Jesus, como se quisesse mostrar o desenvolvimento da missão nas circunstancias do -dia -a-dia.

De manhã está na sinagoga, centro da vida sócio-religiosa do povo. “Jesus saiu da sinagoga”, não diz se nela pregou, se ensinou, ou que fez. Cabe o supor, pois, era comum e motivo de mérito convidar o pregador ao almoço. Por outro lado, as pessoas que o acompanham são discípulos, portanto, pode ser um convite de amizade e cortesia. . De fato foi à casa de Simão e André e ficou até à tarde.

Seja neste momento que na tarde manifesta o seu poder. Trata-se do poder de sua palavra e de sua atitude, que o configura aos olhos da gente como o Messias que está implantando o reino de Deus, como tinha e continua anunciando. De fato, “os companheiros foram à procura de Jesus. Quando o encontraram, disseram: Todos estão te procurando”. Evidentemente foi um momento marcante e entusiasmante para o povo e os discípulos.

Na casa de Pedro “segurou a mão” da sogra de Pedro que “estava de cama com febre”, levantou-a, colocou-a de pé e em condições de servi-los. A mão que segura, é a versão, a expressão física, da força e poder da Palavra, que sara e coloca a sogra em condição de servir.

Na tarde, manifesta o mesmo poder que manifestou na sinagoga de Cafarnaum - vê o comentário do evangelho do domingo anterior- expulsando muitos demônios e curando os doentes “E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era”.

O panorama muda totalmente a continuação “De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto”. É o retrato da solidão, dele consigo mesmo, longe do povo e da vida da cidade, na hora do silêncio antes do começo do dia, em diálogo com o Pai na oração.

O que está realizando na sua atividade pastoral não é simplesmente o resultado do próprio entendimento e da própria vontade, mas do diálogo com o Pai. Indicação muito importante. Em que consistiu o conteúdo da oração, se foi oração de pedido, de agradecimento, de intercessão o súplica, se foi conversa de avaliação e discernimento não sabemos. Fica registrado o tempo e o lugar da entrada em comunhão com o Pai.

Esta escolha e determinação foi uma iniciativa dele “os companheiros foram á procura dele”, pois, não sabiam desta sua atitude e nem perguntaram o porquê e o sentido, tão preocupados estavam para com a reação positiva do povo “Todos estão te procurando”, como se quisessem que Jesus aproveitasse a próprio vantagem o momento favorável.

Deve ter desconcertado a resposta “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza!”. Cabe pensar que na oração teve clareza de como se comportar após o êxito do dia anterior com respeito à missão que está desenvolvendo. Não devia deixar lugar à fácil entusiasmo e condescendência com as expectativas imediatas do povo, que, tal vez, visse nele uma realização do reino bem diferente daquela que devia implantar com a sua morte e ressurreição. “Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. Estas últimas palavras manifestam a consciência do que deve fazer e a determinação em cumpri-lo.

Com certeza, ter sarado e levantado a sogra de Pedro, as muitas curas e expulsões dos demônios eram sinais da presença do reino de Deus, mas cuja implantação definitiva requer bem outros aspectos que só na Páscoa serão realizados e manifestados.

Aspectos que o povo, no momento, não estava em condição de entender e, portanto, com o perigo de acreditar em Jesus como “curandeiro”, que não corresponde à finalidade da missão.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

4to DOMINGO DO T.C.-B- (29-01-12)

1ª leitura Dt 18,15-20

Deus suscita um mediador entre ele e o povo. Era de conhecimento geral que ninguém pode continuar vivendo após ver a Deus, pois, era morte certa. Daí no monte Horeb, onde Deus deu a Moisés a Lei e estreitou a Aliança com o povo, o povo a manifesta a vontade dele “Não quero mais escutar a voz do Senhor meu Deus, nem ver este grande fogo, para não acabar morrendo”.

Soa um pouco esquisito e incompreensível o morrer por escutar a voz e ver o grande fogo da presença de deus, ou seja, estar no limiar da presença de Deus e participar da realidade dele. Ele criou-nos e chama à amizade e comunhão com ele; ele se manifesta por livre autodeterminação e o resultado é a morte dos destinatários. Então, encontrá-lo é uma desgraça?

Deus aceita de bom agrado o pedido “Está bem o que disseram”, e concorda em colocar um mediador: o profeta “Farei surgir para eles, do meio de seus irmãos, um profeta semelhante a ti”. Com isso Deus concorda que para ter experiência direta Dele é preciso um tempo de preparação. Ela é o fruto amadurecido de uma caminhada, na qual gradativamente, por etapas, vão se criando as condições necessárias para ver a Deus face a face.

De todas as maneiras, a aproximação ao mistério de Deus e o envolvimento nele de forma mais o menos profunda ou intensa faz parte da seriedade e consistência da caminhada com respeito à observância das exigências da aliança manifestadas na Lei.

Para orientar o povo na correta observância da Aliança, ou para conferir se as decisões –escolhas – dele estão em sintonia com a mesma, Deus determina colocar na boca do profeta “as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar”. Ele será como a consciência crítica de Deus com respeito à bondade ou pelo menos da síntese entre a finalidade da Lei e as circunstâncias sociais e pessoais do dia- a -dia.

Missão muito importante e decisiva do mediador - do profeta – para o crescimento bem sucedido do povo como povo que pertence a Deus e das pessoas como integrantes do reino, para ser sal e fermento da terra e luz para todas na nações. Com efeito, Israel tem responsabilidade para com todas elas, para que pelo testemunho dele todas se aproximem a Deus.

Portanto, Deus estará muito presente e atento à ação do profeta “Eu pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. As palavras do profeta são as mesmas palavras do Senhor, é como se ele mesmo estivesse presente e as proferisse.

Do correto desenvolvimento da missão depende não só a vida do povo e das pessoas, mas do mesmo profeta. Deus o alerta “Mas o profeta que tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que eu não lhe mandei...”.

Isso pode acontecer por agradar aos destinatários, por medo de incomodar as pessoas o a instituição e sofrer retaliações, por negligência e desatenção, ou simplesmente por levar algumas vantagens.

Pode acontecer dele “falar em nome de outros deuses” por ter perdido a confiança no Deus da aliança, mas ao mesmo tempo querer abusar da reconhecida autoridade por parte do povo para proceder desonestamente, pois, neste caso “esse profeta deverá morrer”.

Isso quer dizer que o profeta mesmo deverá por muita atenção para se manter em sintonia com Deus, pois é possível desviar e trair. Não pode se acomodar, ou se deixar seduzir por circunstâncias ou eventos enganosos. É pedido a ele uma dedicação total à missão.

Para isso deve ser um sujeito livre. É o que Paulo aponta na segunda leitura.

2da leitura 1Cor 7,32-35

Paulo, sem dúvida, é o profeta por excelência. Depois da conversão em damasco dedicou-se totalmente e com especial vigor e intensidade à evangelização, viajando e fundando comunidades no mundo então conhecido. Uma delas é a comunidade à qual dirige a carta.

A carta é resposta às discordâncias, desentendimento, brigas e outros aspectos que dificultam a correta convivência em nome do motivo fundamental pelo qual estão congregados e compartilham o Caminho no dia -a -dia.

Entre ele o entendimento entre matrimônio e virgindade. Responde no capítulo sete do qual é tirado o texto de hoje. Ponto de partida é o desejo de “levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações”. Diz expressamente de que ele “gostaria que estivessem livres de preocupações” e manifesta a preferência da virgindade sobre o casamento, que em outras partes do mesmo capítulo considera como mal menor por causa da incontinência sexual.

Com certeza manifesta uma consideração bastante negativa dela, tal vez em consideração do que estava vendo de pouco confortante. Deixando de lado isso, argumenta “O homem não casado é solicito pelas coisas do Senhor e procura agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar à mulher”. E vice versa, e conclui “assim, está dividido”.

Acredito que foi uma avaliação circunstancial e, tal vez, muito rápida sem tomar em conta a amplitude dos casos e das circunstâncias que levam a ficar dividido. Hoje é um pouco difícil sustentar a superioridade da virgindade sobre o matrimônio sob este ponto de vista. Em primeiro lugar porque os dois são um caminho de santidade, e também porque temos testemunhos de que o matrimônio não foi em nada obstáculo, o motivo de divisão do Senhor, e de que não permita a dedicação total de si mesmo à causa do evangelho. Pelo contrário.

A afirmação de Paulo tem um elemento objetivo, evidentemente. De fato, quem não casa não tem os compromissos e responsabilidades específicas que o casado tem e, portanto, pode-se dedicar exclusivamente à causa do Reino. Não por isso não há oportunidades nem circunstâncias para ficar divido.

Por exemplo, a pessoa fica dividida por agradar à instituição à qual pertence, por não incomodar companheiros, com as autoridades, por falar e tomar atitude que os interlocutores gostam, assim, de receber elogios e aprovação, em troca do sincero e verdadeiro serviço à causa do Senhor.

Para não falar de quem se aproveita para perseguir vantagens de todo tipo, se valendo da autoridade do cargo que lhe é reconhecido e exerce. Portanto, o desejo de Paulo de que os cristãos fiquem “livres de preocupações” vai muito além da condição de casados ou de virgens. Fundamentalmente depende da consistência e identidade com a pessoa e a missão de Jesus, a percepção prévia, a exemplo de Paulo, de que Ele (Jesus) “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20) e com isso criou nele (Paulo) uma nova condição, um novo ser, como também deve criar em nós.

Então, desenvolve-se a missão profética no estilo de Jesus, como mostra o evangelho.

Evangelho Mc 1,21-28

Jesus desenvolve o começo de sua missão na sinagoga, o lugar designado pela instituição para o culto, o ensino da tradição e tudo que dela é preciso saber para ser um legal temente de Deus.

“E começou a ensinar. Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei”. A diferença suscitou admiração, seja pelo conteúdo – mesmo que não especifique, basta pensar, por exemplo, no sermão da montanha – ou na forma, onde deve ter manifestado uma competência qualitativamente superior aos Mestres da Lei, designados para tal função.

Não é difícil distinguir entre a fala da autoridade e o falar com autoridade. A primeira se exerce em virtude da designação a uma função determinada, pela qual é reconhecida competência em virtude de critérios comuns que a instituição reconhece como válidos.

Não necessariamente a pessoa é envolvida profundamente e participa consequentemente. É a instituição que confere a autoridade. Jesus dirá dos mestres da Lei: façam o que eles dizem, mas não o que ele fazem, porque dizem, mas não fazem.

O pessoal da sinagoga deve ter percebido que Jesus fala do que vive, e vive do que fala. Fala com a autoridade de quem está envolvido e plenamente identificado com todo o seu ser no que propõe à atenção dos ouvintes. Nele podem perceber a autenticidade da proposta pela integridade da pessoa, com respeito a ela.

Cabe especificar que a pessoa íntegra é tal porque assume plenamente sua realidade: fala e se comporta pelo que é, não há rachadura nela. Jesus deve ter falado com respeito à integridade deles em quanto descendentes de Abraão, integrantes do povo eleito, destinatários da aliança e herdeiros da promessa.

E manifestou o que é viver em sintonia com isso tudo. Deve ter colocado para eles condições pela quais era imediata a possibilidade de resgatar esta integridade, contrariamente ao que ensinavam os mestres da Lei. Daí a surpresa e a maravilha do povo.

Acolher o que ele está propondo tem um poder muito grande, se torna um evento libertador. É o que acontece em continuação no “homem possuído por um espírito mau”. Em que consiste a especificidade deste espírito mau não é dito explicitamente. Parece-me que se pode deduzir do contexto.

“Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”, afirma o possuído. A admiração geral pela integridade de Jesus se tornou nele convicção de que Jesus é o Santo de Deus. Mais ainda, vê nela o poder destruidor “Viestes para nos destruir?”. Destruir o que? Os elementos que configuram o mundo interior dele, a prática de vida, que faz dele uma pessoa desintegrada, dividida (2da leitura!), dos quais não consegue se libertar e os escraviza.

Jesus teve que intervir com força “Cala-te e sai dele!”. Dirige-se ao homem com firmeza e ordena que se afaste de tudo isso e acredite na proposta libertadora que acaba de apresentar.

No homem se desencadeia uma luta extrema, pois não é fácil uma mudança tão radical e rápida “Então e espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu”. Em fim, se libertou.

A fé na Palavra e nos sacramentos - são palavras eficazes - particularmente a Missa, restitui e devolve à pessoa à integridade da qual falamos. O espírito mau em nós é a desconfiança, a desatenção, o desinteresse e tudo aquilo que impede a percepção do novo ser que, continuamente, é reconstituído na integridade de filho, de herdeiro da promessa e capacitado de nova vida.

Esta transformação em nós não é coisa de pouca conta. Devidamente percebida suscita a mesma reação dos presentes na sinagoga “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem”. Como o homem possuído, a luta para realmente assumir o que Jesus faz a nosso favor em cada missa, não é mole. Trata-se de uma violência consigo mesmo que sacode todo o ser. E Jesus mesmo alertou que só os violentos entrarão no reino. A luta de cada um consigo mesmo, talvez, seja a pior de todas. Também para com nós Jesus age com firmeza, como foi com o possuído. Então...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

3ro DOMINGO DO T.C.-B-(22-01-12)

1ª leitura Jn 3,1-5.10

Nínive, capital da Assíria, uma nação pagã que não pertence ao povo de Israel. Contudo, Deus confia a Jonas a missão de pregar nela o convite à conversão. Um hebreu pregar a conversão numa capital estrangeira de grande dimensão, pois, “eram necessários três dia para ser atravessada”. Uma missão humanamente impossível e destinada ao fracasso, além de ser objetivamente um perigo para a integridade física do pregador.

Depois da tentativa fracassada de fugir da missão, Jonas “pôs-se a caminho de Nínive, conforme a ordem do Senhor (...) entrou na cidade (...) pregava ao povo dizendo: Ainda em quarenta dias, e Nínive será destruída”. Quarenta é um numero simbólico, significa um tempo demorado, mas suficiente para reconsiderar e rever o que levaria à catástrofe.

Esta situação faz pensar ao tempo presente. Nínive é o mundo todo. O perigo da destruição do planeta é constantemente alertado por motivos ecológicos, demográficos, atômicos e financeiros. Os entendidos alertam que o tempo se faz cada vez mais curto e se aproxima o momento da irreversibilidade no qual não haverá remédio nem possibilidade de retorno.

Perante o perigo anunciado, todo o mundo parou “os ninivitas acreditaram em Deus, aceitaram fazer jejum, e vestiram de saco, desde o superior ao inferior”, para reconsiderar o próprio estilo de vida. Indistintamente todos se solidarizam na atitude própria de quem revisa seriamente a própria conduta, caracterizada por dois elementos: jejuar e vestir de saco.

O jejum, a privação e carência de alimento, é colocar a própria pessoa na condição física, psicológica e intelectual adequada para manter atenção sobre um determinado assunto particularmente difícil de destrinchar e de urgente solução. Ele favorece analisá-lo seriamente e com profundidade, e assim encontrar a resposta conveniente.

Vestir de saco e se colocar sobre a cinza é atitude exterior, sinal da própria pobreza e incapacidade de chegar à solução apropriada. É manifestar a própria pobreza e a disponibilidade a receber ajuda do alto, de quem tem condição de orientar a busca rumo à solução oportuna.

Desta forma, todo ser da pessoa, sua realidade interior e exterior está orientada a Deus. É a maneira para acolher o convite de Deus e acreditar na sua presença e ação. É o que marcou a atitude interior dos ninivitas, após a pregação de Jonas “Os ninivitas acreditaram em Deus”.

Com certeza a pregação dele foi convincente. Jonas deve ter argumentado de tal maneira mostrando que o estilo de vida deles, a conduta individual, o relacionamento entre eles e outros aspectos da organização deles estavam voltados para o prejuízo deles mesmos, com perigo de chegar à autodestruição.

O resultado foi positivo, pois, “os ninivitas se afastaram do mau caminho”, redesenharam a própria organização e relacionamento sobre modelos que agradara a Deus. Assim, Deus “compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhe, e não fez”.

Deus não modificou o seu propósito porque os homens, todos indistintamente, se mexeram. Teve compaixão e suspendeu o que tinha pensado fazer. De fato, o arrependimento mexe com o coração de Deus. Vendo a boa vontade e o empenho em corrigir o caminho errado e tomando as devidas providências “ Vendo Deus as suas obras de conversão” se contorcem as entranhas dele - a compaixão -por participar do sofrimento deles e torcer de que cheguem à renovação da vida.

Ele suspendeu, porque sabe do perigo e das possibilidades dos homens em repetir os mesmos erros, e, portanto, reativar o que suspendeu.

A solução para não voltar ao mal é indicada pela segunda leitura.

2da leitura 1Cor 7,29-31

A firmeza da conversão está em entender o conteúdo dela na perspectiva escatológica, ou seja, do último e definitivo da vida pessoal, da história e da criação que Jesus Cristo mostrou com sua morte e ressurreição e ao qual tudo e todos estão orientados, atraídos como o ferro pelo imã.

Então, eis as palavras de Paulo “Eu digo irmãos: o tempo está abreviado”. A primeira consideração é pensar no momento da manifestação última e definitiva de Deus com o “retorno” do Ressuscitado como iminente. E de fato, era o que esperavam as primeiras comunidades.

Contudo, o abreviado pode-se referir ao fato que este último e definitivo já está presente. Assim, o tempo presente, cada minuto que corre entre o passado e o futuro, pode se tornar experiência de vida tão intensa e plena , a mais completa participação da condição humana, aqui e agora - à glória de Deus.

Desta forma ao tempo presente é associada a condição de eternidade, em sentido de a eternidade não ser a ausência do tempo no seu decorrer entre passado e futuro, mas a característica do tempo cronológico. Neste sentido, cada minuto pode se tornar um tempo eterno.

Esta possibilidade é oferecida pelo evento pascal e se torna viável pela fé. Viver em Cristo, por Cristo e com Cristo, abrevia o tempo entre o “já” instalado pela sua morte e ressurreição e o “ainda não” do fim dos tempos. Fim no sentido de finalidade pelo qual o tempo foi criado, não simplesmente da sucessão entre passado e futuro.

Portanto os dois tempos convivem juntos. Com a morte perdemos o cronológico, mas permanece o qualitativo. Ou melhor, o qualitativo transformará o cronológico de uma maneira que desconhecemos, suposto que é parte constitutiva da vida do ser humano ( como também o espaço do corpo e da criação em geral) e, portanto, não pode der perdido, mas sim transformado.

“Pois a figura deste mundo passa”. O termo figura diz com respeito ao exterior, o superficial, algo de fácil transformação. O mundo como figura é tal não só pelo cronológico, mas pela dinâmica do amor necessária para alcançar aquela plenitude à qual o mundo está chamado e que constitui a verdadeira realidade dele.

Daí as considerações do trecho, como uma consequência “Então que, doravante, os que tem mulher vivam como se não tivessem, os que choram, como se não chorassem, os que (...) como se não (...)”. Não se trata de desprezo, rejeição ou de afastamento, mas de considerar à luz do último e definitivo -o escatológico -a real consistência e valor de todo o que é submetido à caducidade do tempo cronológico.

Perder esta percepção se corre o risco de distorcer a importância e o valor do presente, como os ímpios no livro da sabedoria (2,1-5), pelos quais a vida passa e não fica nada, tudo evapora e se perde como neve ao sol. Daí, então, a determinação de agir com prepotência, arrogância e desrespeito pra com todos, com conduta antiética deplorável.

Neste pano de fundo não é difícil determinar o conteúdo da conversão à qual se refere o evangelho.

Evangelho Mc 1, 14-20

Depois que João Batista foi preso”, pois, já acabou a atividade dele. Como consequência da missão, em vez de gratidão e reconhecimento acaba na prisão. Jesus o elogiará, mas não faz nada para tirá-lo daí, nem vai visitá-lo. O único contato é a resposta aos enviados de (um) João desconcertado (pelo modo)sobre como Jesus está desenvolvendo a missão. Do ponto de vista humano, o comportamento de Jesus deixa perplexo, não é fácil de entender.

Jesus começa a missão expondo a característica e a exigência para sintonizar com ela e participar da sua finalidade “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”.

A característica é que “o Reino de Deus está próximo”, não em sentido que está muito perto e, portanto, ainda tem que chegar, mas que já é presente. No discurso na sinagoga de Nazaré manifesta que “hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (lc 4,21). Se tivesse falado que se cumprirá daí pouco tempo, come realidade muito perto, não teria acontecido o alvoroço, a confusão, que aconteceu.

O reino está acontecendo nele como ser humano, pois, é manifestação da realidade de Deus por ser ele parte integrante de Deus mesmo. O que a história de Israel e o povo estavam esperando chegou, está presente.

Neste sentido o tempo da espera chegou ao seu ponto final. A partir de agora o tempo mesmo assume outra característica, que combina com a o aspecto cronológico, próprio do entendimento comum quando se fala de tempo.

Podemos dizer que ao tempo cronológico - o presente como passagem entre passado futuro - faltava o aspecto qualitativo. A Boa noticia é exatamente esta, tornar boa realidade cada minuto da própria vida: fazer do tempo o tempo favorável.

Ele, como mestre e guia, oferecerá o necessário para que cada momento da existência se torne um evento favorável neste sentido. Desta forma o tempo cronológico se enche de eternidade.

Para atingir o objetivo pede aos destinatários a disposição específica de quem confia e se dispõe à novidade, sabendo que vai mexer radicalmente nas convicções religiosas e morais consolidadas pela tradição e sustentadas pelos mestres e autoridades do momento.

A exigência que põe é a confiança e a conversão: “Convertei-vos e crede”. A mudança é tão radical que não se trata de corrigir ou reformar o que já existe, é como sair do caminho costumeiro entrar em outro e proceder em direção contrária ao primeiro.

Dirá Jesus que não se trata de colocar um pano novo sobre in tecido velho, ou colocar vinho novo em odres velhos, porque seria pior. Trata-se de uma transformação radical de quem sabe refazer o velho em novo, de reinterpretar a lei de maneira tal que, aplicada corretamente, alcance o fim pelo qual foi promulgada.

Já a chamada dos primeiros apóstolos é uma amostra do que vai vir. Chama gente comum, trabalhadores, gente do povo. Duas são as exigência que põe. A primeira é que se tratará de uma colaboração que nada tem a ver com a vida anterior “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”. Será lago absolutamente novo. Seguir a ele será se dispor à aprendizagem, como alunos para com o mestre e ter confiança nele, mesmo quando a lição se torna difícil.

A segunda exigência é a determinação que coloca em segundo lugar as exigências e os afetos familiares. É se dispor totalmente para a missão e a causa que a sustenta “Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e pariram, seguindo Jesus”. Quais terão sido o pensamento e a reação do pai não sabemos: “perder” dois filhos de um momento para outro. Seria interessante saber se para este pai a boa notícia de Jesus se tornou boa realidade naquele momento.

O evangelho nunca foi mole.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

2o DOMINGO DO T.C.-B-(15-01-12)

1ª leitura 1Sm 3,3b-10.19

“Samuel estava dormindo no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus”. O episódio acontece na casa Senhor, envolvendo Eli e Samuel, duas pessoas que já cultivam intimidade e familiaridade voltadas para o serviço de Deus. São pessoas identificadas com a vida e a tradição do povo de Israel.

Deus intervém por livre espontânea iniciativa, chamando o jovem Samuel com o mesmo timbro de voz do profeta Eli, registre-se a chamada se repete por duas vezes, antes de Eli entender o significado e a importância do acontecimento “Eli compreendeu que era o Senhor que estava chamando o menino”.

“Samuel ainda não conhecia o Senhor”, mas Eli o conhecia. Por um lado Eli deve ter ficado surpreendido de que Deus se manifestasse com a sua mesma voz, pelo outro, foi este mesmo detalhe que lhe permitiu perceber a verdade do que estava acontecendo. Era a sua voz, mas não era ele que estava se manifestando.

O que abriu a inteligência de Eli foi o comportamento de Samuel que ele não tinha (chamado)pensado e menos ainda pedido “Tu me chamaste, aqui estou”. Os dois já tinham familiaridade, morava juntos e participava da vida do outro. Em nível diferente já estavam inseridos no mesmo ambiente, no templo, tinham o mesmo estilo de vida, e Samuel cultivava pronta e sincera devoção para com Elias, pois, eis a prontidão e disponibilidade no momento da suposta chamada.

A chamada do Senhor brota do contexto muito bem definido em ternos de inserção na realidade do povo, em sintonia com a presença di Senhor e respeito à Aliança, A arca era, pois, o sinal dessa presença e o testemunho visível da Aliança no Sinai. Ela acompanhou a caminhada do povo à terra prometida. Era fundamental para a memória, para a tradição do povo de Israel.

Estar na casa do Senhor, ver, participar, é aspecto imprescindível para o salto qualitativo da própria existência. Não é casualidade ou sem significado que Deus se manifeste com a mesma voz de Eli. Pois, manifesta continuidade, sintonia, com o acontecer da abertura novo horizonte que nem o próprio Eli consegue entender, pois, isto é assunto de Deus.

Eli conduz Samuel até aí. Daí para frente já não é incumbência dele, mas só de Deus e de Samuel. Eli cumpriu sua missão, termina seu serviço, deixa o palco da história e, neste, entra Samuel.

Samuel e Deus caminharão juntos. A primeira atitude do profeta é escutar. É o que Samuel faz, respondendo à terceira chamada do Senhor “Fala, que teu servo escuta”. Escutar é muito mais do que ouvir. Ouvir é só o primeiro momento, segue o envolvimento da pessoa toda, sua adesão e transformação pessoal em ordem à missão.

“Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”. Caminhar com o Senhor é um processo de crescimento, pois, a missão não é só um bem para os destinatários, mas também para o mesmo profeta. Com efeito, a missão é assumida por parte de Samuel com determinação e dedicação totalizante, que compromete a pessoa toda e por toda a vida.

A segunda leitura mostra os efeitos decorrentes da transformação.

2da leituras 1Cor 6,13c-15a.17-10

A conversão de Paulo, o mergulho nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, operou uma transformação radical com respeito à consciência dele consigo mesmo. Percebeu-se como outra pessoa, ou melhor, nele há como uma nova pessoa que vai crescendo e tomando sempre mais força e consistência, capaz de dominar e vencer o “Paulo velho” que, por um aspecto ou outro, não para de se manifestar com suas exigências mundanas e estimulá-lo a deixar o novo caminho e voltar a ser o que era antes. Ele relatará isso na carta aos romanos.

A partir desta experiência exprime para os Coríntios: “Quem adere ao Senhor torna-se com ele um só espírito (...) Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que mora em vós e que vos é dado por Deus? ”. A palavra espírito evoca sempre uma realidade imaterial, invisível, que foge ao domínio e ao poder humano. O contrario é corpo, do qual o homem há consciência, domínio e posse. Portanto, falar de que quem acredita se tornar com ele um só espírito parece algo aleatório, vago, imaterial de difícil compreensão.

Ao reforçar esta verdade acrescenta o fato de o corpo ser “santuário do Espírito Santo”, como encharcado e preenchido do Espírito de Deus. Tornar-se “com ele um só espírito” é alcançar um grau de sintonia e identificação muito expressivo e significativo pelo qual , referindo-se a si mesmo dirá “não sou eu que vivo,é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Esta identificação não é percebida, não é tomada a sério nem em consideração pelos membros da comunidade, por conta dos limites, da fraqueza, do pecado deles. Muito grande é a distância entre a realidade de Jesus Cristo e a deles.

Então, Paulo convida fixar a atenção sobre o fundamento e a causa dessa identificação. Elas estão aquém da compreensão, do comportamento moral. A causa é que “fostes comprados e por um preço muito alto”. Evidentemente se refere ao resgate na cruz, ao preço do sangue e da morte.

O efeito é que “não pertenceis a vós mesmos?”. Pois, tendo sido comprados, pertenceis ao comprador. Não é para passar de uma escravidão à outra, não adiantaria nada. “Foi para a liberdade que Cristo vos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos curveis de novo ao jugo da escravidão”(Gl5,1). Resgatados e livres para amar.

O fundamento desta realidade está no fato que o Espírito Santo “que mora em vós (...) vos é dado por Deus”. Com o resgate Cristo nos ganhou ser filhos adotivos de Deus, ao mesmo tempo em que o Espírito Santo é derramado nos nossos corações por parte do Pai.

Daí a exortação “Então, glorificai a Deus com o vosso corpo”. Portanto, glorificar a Deus é valorizar o corpo, em consideração do fato que “vossos corpos são membros de Cristo” porque membros da nova humanidade resgatada por ele. Mas, em geral, é fugir da imoralidade.

O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo”. Com efeito, toda paixão destrói o corpo, ou seja, a pessoa toda. É preciso a inteligente administração do corpo, particularmente dos impulsos emotivos e das paixões de todo tipo.

Paulo faz uma referência à paixão sexual “Em geral, qualquer pecado que uma pessoa venha cometer fica fora do seu corpo. Mas o fornicador peca contra o seu próprio corpo”. Por fornicador entende o sexo pelo sexo, desligado de todo compromisso sério de amor. O sexo não como linguagem do amor, mas voltado sobre si mesmo e finalizado em si mesmo. Assim que a pessoa se torna egocêntrica e incapaz de amar verdadeiramente. A distorção é tal que, no linguajar comum, “fazer amor” significa fazer sexo.

“O Senhor é para o corpo”, no sentido que o correto exercício da paixão e da linguagem sexual leva à pessoa toda - o corpo – descobrir na sexualidade a presença do Senhor que valoriza a existência toda. Nesse sentido há uma castidade no exercício da sexualidade. Com certeza há testemunhos a respeito, mas são pouco conhecidos e divulgados, seja por pudor que por temor. Com efeito, o registro geral vai à bem outra direção.

Jesus chama a pessoa toda, com seu corpo a segui-lo, como relata o evangelho.

Evangelho Jo 1,35-42

“Era por volta das quatro da tarde”. E’ particularmente significativo o evangelista lembrar a hora do seu primeiro encontro com Jesus. Não só pelo fato em si mesmo, mas pelo que desencadeou a continuação não só para ele, mas para a humanidade, para o universo e para Deus mesmo.

João teve a vida transformada de maneira tão radical que o primeiro encontro (torna-se) inesquecível em todos os seus detalhes, e cuja lembrança se torna uma benção que revigora o sentido da existência e motiva o louvor a Deus. Considerando a posterior o que significou para João aquele encontro não é para menos.

Lembra que foi João Batista quem indicou Jesus. Não foi um momento planejado, pois, aconteceu de forma circunstancial e casual, como algo natural e espontâneo “vendo Jesus passar”. Ele, que tinha anunciado a proximidade, o apresenta aos dois discípulos “Eis o cordeiro de Deus”.

Cabe perguntar por que também João não foi atrás dele? Tal vez, porque consciente que a missão estava circunscrita ao que estava cumprindo, e que aí terminava sua missão, como havia deixado entender por afirmações anteriores. Neste caso, quis permanecer no que lhe foi indicado.

Para os dois começa um novo caminho, Aceitaram a indicação e foram atrás de Jesus “Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus”. Foi a confiança nas palavras de João e a esperança de encontrar o esperado dos tempos, a coragem e a curiosidade para conferir se, por fim, o messias era ele mesmo.

Jesus percebendo a aproximação deles pergunta o que estão procurando. Respondem perguntando “onde moras”. Por que os dois não perguntam direto quem é, se é certo o que afirmou João ?

Tal vez seja uma aproximação cautelosa, como pela beirada. Era opinião comum que o messias devia comparecer a noite da Páscoa no templo para dar inicio ao processo de renovação e implantação do Reino. Tivesse morado no templo ou em outro lugar que tivesse relação com ele, já seria um bom sinal.

Ele não indica um lugar, mas os convida a estar com ele “Vinde ver. Foram ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele”. Não há detalhe nem indicação onde estava morando e nem que o viram na morada dele, só o fato de que permaneceram com ele.

Provavelmente esperavam uma coisa e resultou outra. De toda maneira, o encontro foi convincente ao ponto que marcaram ma memória até a hora do encontro. O que fascinou foi estar com, a conversa e a pessoa dele.

Hoje temos acesso à mesma experiência, não fisicamente obviamente, mas pela bagagem da escritura, pelo testemunho daqueles que acompanharam e viveram com ele a tradição, pelas palavras e ações registradas no evangelho e, sobretudo pelo mestre interior: o Espírito Santo. Tudo isso é a patrimônio a disposição de toda pessoa pelo qual é possível se entusiasmar e perceber o que estes primeiros dois apóstolos experimentaram.

Prova do convencimento e até do entusiasmo deles, foi passar de imediato a notícia ao irmão de André, Pedro, e manifestar sem dúvida nenhuma “Encontramos o Messias”. Confirmaram que João indicou certo, e Pedro se deixou levar pelo irmão André até a presença de Jesus.

É o específico da missão de todo cristão, levar outros ao encontro com Jesus atingindo ao patrimônio acima indicado.

Passo sucessivo, o singular encontro de Pedro com Jesus, quem “olhou bem para ele”. Foi olhar de simpatia, ou algo mais? O que procurava em Pedro? Que encontrou que viu nele? Qual foi o motivo pelo qual o designa como futura pedra - rocha – dos que acreditarão nele não se sabe. Só determina isso depois de olhar bem. Percebeu o temperamento, a autenticidade, a determinação e a fraqueza pela qual o renegará? Não se sabe.

Fica só o testemunho que a vida destas pessoas mudou profundamente, de forma determinante, pelo que depois a continuação a história da caminhada registrará. O testemunho do encontro que é todo um mistério, uma surpresa, capaz de orientar decididamente a própria existência para a salvação, para uma vida bem sucedida para si mesmo, em quanto voltada e dedicada para o bem dos outros e da humanidade.

domingo, 1 de janeiro de 2012

EPIFANIA DO SENHOR -B- (08-01-12)

1ª Leitura Is 60 1-6.

“Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte”. Experiência sumamente gratificante. Gostaríamos de permanecer constantemente nela. Ela motiva o sentido profundo e verdadeiro da existência de todo ser humano. É o que, por diferentes caminhos, todos desejam e buscam.

Notável é o motivo de tão grande e intensa alegria. Ele não é de tipo intimista e individual, mas comunitário e social: “Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando desde longe com tuas filhas, carregadas nos braços”. A agregação de pessoas dispersas que moram longe; de mulheres que enfrentam a viagem com as crianças nos braços, deixa entender, por um lado, o esforço, a fadiga da viagem, e, pelo outro, destaca e valoriza o motivo pelo qual deve-se enfrentar tudo isso.

Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos”. Panorama triste e sombrio, sem horizonte, sem futuro nem esperança. Há momentos na vida individual, familiar ou social que, por diferentes causas, esta condição gera desânimo, pessimismo, depressão e tira todo sentido da vida. Às vezes por culpa própria, outras por circunstâncias alheias à própria responsabilidade. De toda a maneira, são circunstâncias de grande perturbação, de desconcerto e de abalo. A pessoa, ou os envolvido estão no chão, como prostrados.

Contudo, não é a última palavra “porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor (...) a sua glória já se manifesta sobre ti”. Cabe se perguntar: em que consiste a luz? O que é percebido como luz e motiva a reviravolta tão radical? O evento da transformação interior, de maneira que a pessoa assume outros critérios para analisar e avaliar o próprio caminho, permanecendo as complicadas condições de vida?

Uma intuição e projeto com respeito à nova organização da sociedade, em sintonia com as exigências da justiça e do direito, em sintonia com as indicações da aliança? Uma transformação, por parte das autoridades, das condições de vida social no horizonte da fraternidade e da solidariedade? “Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora”

A manifestação da glória do Senhor vai nessa linha, mesmo o texto não explicita claramente sobre isto. Por outro lado, que glória seria se os homens continuassem oprimidos, desrespeitados, humilhados, sem enxergar em si mesmo novos horizontes de resgate? Que motivo teriam para enfrentar as dificuldades da viagem, o risco presente em deixar uma realidade para ir ao encontro com outra, se esta última não oferece proposta e garantia de maior realização e de um futuro bem sucedido?

Tal vez a luz seja as duas realidades juntas, pois elas são como as duas pernas do novo caminhar De fato, “todos se reuniram e vieram a ti”. Daí a alegria e o júbilo, pois, ficarás radiante e com o coração batendo forte. Mais ainda, constatando que com eles chegarão outros povos, outras nações, com suas riquezas “pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações” .

Esta luz, o poder da glória de Deus atrairá povos que nem conhecem, além-mar, indicando a universalidade da ação de deus que por meio do testemunho do povo libertado e renovado convoca a todos os povos da terra, e Jerusalém se torna como a capital do novo reino.

O efeito será “uma inundação de camelos e dromedários... virão todos trazendo ouro incenso e proclamando a glória do Senhor”, ou seja, a experiência da harmonia e da paz universal. Assim, a fraternidade, a solidariedade, será o sinal da presença da glória do Senhor que motivará a partilha dos bens materiais- o ouro- e o correto louvor a Deus- o incenso-, na celebração da liturgia da vida.

A luz e a glória de Deus que já brilha sobre nós, têm o conteúdo indicado na 2ª leitura.

2ª leitura Ef 3,2-3ª.5-6.

“Se ao menos soubésseis” É desejo profundo do coração de são Paulo que os destinatários da carta adquiram o conhecimento que ele estima. De grande importância e imprescindível para o alicerce e o fundamento do autêntico saber, sobre o qual se constrói e experimenta, com ele, a “ graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”.

Assim, o conhecimento é graça, é dom de Deus que motiva o esforço, o trabalho, a instrução, em sintonia com plano de salvação de Deus a favor dos destinatários e, por conseguinte, à humanidade toda.

A dedicação, a teimosia, os sofrimentos, as lutas, os êxitos e os fracassos e, enfim, a morte dele, testemunham como este dom foi acolhido e devolvido a Deus, com a finalidade de fazer conhecer aos homens de todos os lugares que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus cristo, por meio do Evangelho”.

Importante é devolver o dom, para que ele cresça em quem o transmite e em quem o recebe. Concretamente, Paulo, após experimentar a salvação no momento de sua conversão quando estava para entrar em Damasco, assumiu a mesma causa de Cristo a favor da salvação da humanidade toda. Recebeu o dom e de imediato sentiu a urgência de passá-lo a outros.

Consequentemente se dedicou em derrubar todo tipo de barreira, implantando os critérios da verdadeira fraternidade, sustentado pelo significado e o efeito da morte e ressurreição de Jesus Cristo. No mesmo efeito são mergulhados todos aqueles que, pela fé, aceitam este presente por meio de Evangelho, ou seja, do evento da sexta- feira Santa e do domingo da ressurreição.

Ele, o evento, é a boa noticia do resgate e da redenção que se tornou boa realidade. Assim, a pregação, a aceitação, a memória- celebração daquele evento atualiza os mesmos efeitos e faz as pessoas partícipes da herança, do mesmo corpo e da mesma promessa.

Mais ainda, tudo isso constitui o que Paulo chama de mistério, manifestado a ele “por revelação tive conhecimento do mistério... (que) Deus acaba de revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas”. Ele teve conhecimento disso na porta de Damasco, quando a luz do mistério o envolveu. Assim, que quando Paulo fala de mistério, não entende, em primeiro lugar, uma realidade desconhecida e inacessível que fica tal, mas o evento pelo qual de forma misteriosa a pessoa é envolvida, iluminada e transformada, e faz da causa de Cristo a própria causa de vida.

Isso se deve à ação do Espírito, a eterna presença do Ressuscitado em nós. Ele revela a presença do Ressuscitado na pessoa de coração aberto. Este, consciente das próprias faltas e pecados, com humildade e gratidão, aceita o presente da própria redenção, do próprio resgate, ou seja, do perdão dos pecados, do resgate da aliança e da comunhão com Deus, pelo que Cristo fez e atualiza para ele.

Estas pessoas são os santos, não em sentido ético, mas porque são renovados, transformados na profundidade, na estrutura do próprio ser. Para usar uma comparação, são como a pessoa refeita, sarada e renovada, após sofrer o atropelamento esmagador e sem possibilidade de concerto. É o que acontece na celebração da Missa... Ela é sempre a mesma... Mas o efeito é sempre novo.

Para chegar a essa interiorização, para botar para dentro no coração a verdade deste dom, é preciso o caminho sintetizado pela experiência dos magos, como comentaremos no evangelho.

Evangelho Mt 2, 1-12

O texto apresenta estes misteriosos personagens - genericamente indicados como magos, sábios , sem especificar a origem de onde vem e sem relatar o que a experiência deles trouxe e significou para os povos de origem quando “retornaram para a sua terra”. Cabe pensar que o texto quer destacar simplesmente o motivo e as características do caminho deles.

O motivo: “Nós vimos a sua estrela de Oriente e viemos adorá-lo” A percepção de um sinal, interpretado como revelador da grandeza e importância do nascimento de um menino, suscita a determinação de chegar até ele e manifestar a própria atitude de adoração. Que descobriram, mais concretamente, naquele sinal - a estrela- não é dito. Deve ter sido algo muito forte para motivar numa viagem tão singular. Tal vez, o texto seja como uma parábola, mais que um evento real, pretendendo passar a mensagem que aquele menino é luz e ímã para todas as nações indistintamente.

De fato, hoje a estrela é a Ressurreição de Jesus. É sábio, portanto, investir na viagem para chegar perto dele, experimentar a sua presença e adorá-lo. Trata-se de viagem por caminhos desconhecidos e inexplorados. Portanto, a estrela é sinal de promessa, de algo inédito, de esperança, que suscita a coragem de arriscar na certeza que levará a bom fim, ao encontro com aquele que é preciso adorar.

Caminho andando, no meio da viagem, a estrela desaparece. Não há registro de desconcerto, de pânico, de sentimento de frustração, de decepção, de vontade de desistir ou de voltar atrás. (Isso é particularmente significativo para a nossa caminhada. Quantas vezes, dificuldades, provações de todo tipo motivam- erroneamente- a desistência ou o desvio do caminho).

Pelo contrário perguntam a quem supõem pode dar uma indicação: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” Receberão a resposta certa e, ao mesmo tempo, mexerão involuntariamente com uma situação que desembocará na matança de inocentes. Terrível e inexplicável contradição: êxito por uns- os magos- e morte prematura e injusta para outros ( este último aspecto é fruto da ambiguidade humana e da falsidade do governante. Quando se associam poder e medo o resultado é a matança dos inocentes...). É algo desconcertante, difícil de entender.

Contudo, a persistência, a perseverança e, sobretudo, a determinação são premiadas “Depois... eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”. E não era para menos, evidentemente. Chegaram à meta! Valeu. Tributaram-lhe a homenagem “e lhe ofereceram ouro (para o rei), incenso (para o Deus) e mirra (é a bebida da paixão, antes de morrer na cruz)”.

Todo cristão consciente pode se espelhar no caminho destes misteriosos personagens - os magos -, assim como todo homem de boa vontade na procura do sentido último e verdadeiro da existência.

Na luz, na estrela, da morte e ressurreição há o DNA da convivência entre os povos e as diferentes etnias e a manifestação da autêntica expressão religiosa que motiva e sustenta a comunhão, a fraternidade universal, no respeito das diversidades.

O futuro de Deus se faz presente nesta festa universal, o acontecer do reino que tem como seu eixo a pessoa de Cristo ressuscitado. Com efeito, é tradição que nesta festa a igreja anuncie a data da Páscoa de Ressurreição.