1ª Leitura Is 60 1-6.
“Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte”. Experiência sumamente gratificante. Gostaríamos de permanecer constantemente nela. Ela motiva o sentido profundo e verdadeiro da existência de todo ser humano. É o que, por diferentes caminhos, todos desejam e buscam.
Notável é o motivo de tão grande e intensa alegria. Ele não é de tipo intimista e individual, mas comunitário e social: “Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando desde longe com tuas filhas, carregadas nos braços”. A agregação de pessoas dispersas que moram longe; de mulheres que enfrentam a viagem com as crianças nos braços, deixa entender, por um lado, o esforço, a fadiga da viagem, e, pelo outro, destaca e valoriza o motivo pelo qual deve-se enfrentar tudo isso.
“Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos”. Panorama triste e sombrio, sem horizonte, sem futuro nem esperança. Há momentos na vida individual, familiar ou social que, por diferentes causas, esta condição gera desânimo, pessimismo, depressão e tira todo sentido da vida. Às vezes por culpa própria, outras por circunstâncias alheias à própria responsabilidade. De toda a maneira, são circunstâncias de grande perturbação, de desconcerto e de abalo. A pessoa, ou os envolvido estão no chão, como prostrados.
Contudo, não é a última palavra “porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor (...) a sua glória já se manifesta sobre ti”. Cabe se perguntar: em que consiste a luz? O que é percebido como luz e motiva a reviravolta tão radical? O evento da transformação interior, de maneira que a pessoa assume outros critérios para analisar e avaliar o próprio caminho, permanecendo as complicadas condições de vida?
Uma intuição e projeto com respeito à nova organização da sociedade, em sintonia com as exigências da justiça e do direito, em sintonia com as indicações da aliança? Uma transformação, por parte das autoridades, das condições de vida social no horizonte da fraternidade e da solidariedade? “Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora”
A manifestação da glória do Senhor vai nessa linha, mesmo o texto não explicita claramente sobre isto. Por outro lado, que glória seria se os homens continuassem oprimidos, desrespeitados, humilhados, sem enxergar em si mesmo novos horizontes de resgate? Que motivo teriam para enfrentar as dificuldades da viagem, o risco presente em deixar uma realidade para ir ao encontro com outra, se esta última não oferece proposta e garantia de maior realização e de um futuro bem sucedido?
Tal vez a luz seja as duas realidades juntas, pois elas são como as duas pernas do novo caminhar De fato, “todos se reuniram e vieram a ti”. Daí a alegria e o júbilo, pois, ficarás radiante e com o coração batendo forte. Mais ainda, constatando que com eles chegarão outros povos, outras nações, com suas riquezas “pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações” .
Esta luz, o poder da glória de Deus atrairá povos que nem conhecem, além-mar, indicando a universalidade da ação de deus que por meio do testemunho do povo libertado e renovado convoca a todos os povos da terra, e Jerusalém se torna como a capital do novo reino.
O efeito será “uma inundação de camelos e dromedários... virão todos trazendo ouro incenso e proclamando a glória do Senhor”, ou seja, a experiência da harmonia e da paz universal. Assim, a fraternidade, a solidariedade, será o sinal da presença da glória do Senhor que motivará a partilha dos bens materiais- o ouro- e o correto louvor a Deus- o incenso-, na celebração da liturgia da vida.
A luz e a glória de Deus que já brilha sobre nós, têm o conteúdo indicado na 2ª leitura.
2ª leitura Ef 3,2-3ª.5-6.
“Se ao menos soubésseis” É desejo profundo do coração de são Paulo que os destinatários da carta adquiram o conhecimento que ele estima. De grande importância e imprescindível para o alicerce e o fundamento do autêntico saber, sobre o qual se constrói e experimenta, com ele, a “ graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”.
Assim, o conhecimento é graça, é dom de Deus que motiva o esforço, o trabalho, a instrução, em sintonia com plano de salvação de Deus a favor dos destinatários e, por conseguinte, à humanidade toda.
A dedicação, a teimosia, os sofrimentos, as lutas, os êxitos e os fracassos e, enfim, a morte dele, testemunham como este dom foi acolhido e devolvido a Deus, com a finalidade de fazer conhecer aos homens de todos os lugares que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus cristo, por meio do Evangelho”.
Importante é devolver o dom, para que ele cresça em quem o transmite e em quem o recebe. Concretamente, Paulo, após experimentar a salvação no momento de sua conversão quando estava para entrar em Damasco, assumiu a mesma causa de Cristo a favor da salvação da humanidade toda. Recebeu o dom e de imediato sentiu a urgência de passá-lo a outros.
Consequentemente se dedicou em derrubar todo tipo de barreira, implantando os critérios da verdadeira fraternidade, sustentado pelo significado e o efeito da morte e ressurreição de Jesus Cristo. No mesmo efeito são mergulhados todos aqueles que, pela fé, aceitam este presente por meio de Evangelho, ou seja, do evento da sexta- feira Santa e do domingo da ressurreição.
Ele, o evento, é a boa noticia do resgate e da redenção que se tornou boa realidade. Assim, a pregação, a aceitação, a memória- celebração daquele evento atualiza os mesmos efeitos e faz as pessoas partícipes da herança, do mesmo corpo e da mesma promessa.
Mais ainda, tudo isso constitui o que Paulo chama de mistério, manifestado a ele “por revelação tive conhecimento do mistério... (que) Deus acaba de revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas”. Ele teve conhecimento disso na porta de Damasco, quando a luz do mistério o envolveu. Assim, que quando Paulo fala de mistério, não entende, em primeiro lugar, uma realidade desconhecida e inacessível que fica tal, mas o evento pelo qual de forma misteriosa a pessoa é envolvida, iluminada e transformada, e faz da causa de Cristo a própria causa de vida.
Isso se deve à ação do Espírito, a eterna presença do Ressuscitado em nós. Ele revela a presença do Ressuscitado na pessoa de coração aberto. Este, consciente das próprias faltas e pecados, com humildade e gratidão, aceita o presente da própria redenção, do próprio resgate, ou seja, do perdão dos pecados, do resgate da aliança e da comunhão com Deus, pelo que Cristo fez e atualiza para ele.
Estas pessoas são os santos, não em sentido ético, mas porque são renovados, transformados na profundidade, na estrutura do próprio ser. Para usar uma comparação, são como a pessoa refeita, sarada e renovada, após sofrer o atropelamento esmagador e sem possibilidade de concerto. É o que acontece na celebração da Missa... Ela é sempre a mesma... Mas o efeito é sempre novo.
Para chegar a essa interiorização, para botar para dentro no coração a verdade deste dom, é preciso o caminho sintetizado pela experiência dos magos, como comentaremos no evangelho.
Evangelho Mt 2, 1-12
O texto apresenta estes misteriosos personagens - genericamente indicados como magos, sábios , sem especificar a origem de onde vem e sem relatar o que a experiência deles trouxe e significou para os povos de origem quando “retornaram para a sua terra”. Cabe pensar que o texto quer destacar simplesmente o motivo e as características do caminho deles.
O motivo: “Nós vimos a sua estrela de Oriente e viemos adorá-lo” A percepção de um sinal, interpretado como revelador da grandeza e importância do nascimento de um menino, suscita a determinação de chegar até ele e manifestar a própria atitude de adoração. Que descobriram, mais concretamente, naquele sinal - a estrela- não é dito. Deve ter sido algo muito forte para motivar numa viagem tão singular. Tal vez, o texto seja como uma parábola, mais que um evento real, pretendendo passar a mensagem que aquele menino é luz e ímã para todas as nações indistintamente.
De fato, hoje a estrela é a Ressurreição de Jesus. É sábio, portanto, investir na viagem para chegar perto dele, experimentar a sua presença e adorá-lo. Trata-se de viagem por caminhos desconhecidos e inexplorados. Portanto, a estrela é sinal de promessa, de algo inédito, de esperança, que suscita a coragem de arriscar na certeza que levará a bom fim, ao encontro com aquele que é preciso adorar.
Caminho andando, no meio da viagem, a estrela desaparece. Não há registro de desconcerto, de pânico, de sentimento de frustração, de decepção, de vontade de desistir ou de voltar atrás. (Isso é particularmente significativo para a nossa caminhada. Quantas vezes, dificuldades, provações de todo tipo motivam- erroneamente- a desistência ou o desvio do caminho).
Pelo contrário perguntam a quem supõem pode dar uma indicação: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” Receberão a resposta certa e, ao mesmo tempo, mexerão involuntariamente com uma situação que desembocará na matança de inocentes. Terrível e inexplicável contradição: êxito por uns- os magos- e morte prematura e injusta para outros ( este último aspecto é fruto da ambiguidade humana e da falsidade do governante. Quando se associam poder e medo o resultado é a matança dos inocentes...). É algo desconcertante, difícil de entender.
Contudo, a persistência, a perseverança e, sobretudo, a determinação são premiadas “Depois... eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”. E não era para menos, evidentemente. Chegaram à meta! Valeu. Tributaram-lhe a homenagem “e lhe ofereceram ouro (para o rei), incenso (para o Deus) e mirra (é a bebida da paixão, antes de morrer na cruz)”.
Todo cristão consciente pode se espelhar no caminho destes misteriosos personagens - os magos -, assim como todo homem de boa vontade na procura do sentido último e verdadeiro da existência.
Na luz, na estrela, da morte e ressurreição há o DNA da convivência entre os povos e as diferentes etnias e a manifestação da autêntica expressão religiosa que motiva e sustenta a comunhão, a fraternidade universal, no respeito das diversidades.
O futuro de Deus se faz presente nesta festa universal, o acontecer do reino que tem como seu eixo a pessoa de Cristo ressuscitado. Com efeito, é tradição que nesta festa a igreja anuncie a data da Páscoa de Ressurreição.
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