segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

2o DOMINGO DO T.C.-B-(15-01-12)

1ª leitura 1Sm 3,3b-10.19

“Samuel estava dormindo no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus”. O episódio acontece na casa Senhor, envolvendo Eli e Samuel, duas pessoas que já cultivam intimidade e familiaridade voltadas para o serviço de Deus. São pessoas identificadas com a vida e a tradição do povo de Israel.

Deus intervém por livre espontânea iniciativa, chamando o jovem Samuel com o mesmo timbro de voz do profeta Eli, registre-se a chamada se repete por duas vezes, antes de Eli entender o significado e a importância do acontecimento “Eli compreendeu que era o Senhor que estava chamando o menino”.

“Samuel ainda não conhecia o Senhor”, mas Eli o conhecia. Por um lado Eli deve ter ficado surpreendido de que Deus se manifestasse com a sua mesma voz, pelo outro, foi este mesmo detalhe que lhe permitiu perceber a verdade do que estava acontecendo. Era a sua voz, mas não era ele que estava se manifestando.

O que abriu a inteligência de Eli foi o comportamento de Samuel que ele não tinha (chamado)pensado e menos ainda pedido “Tu me chamaste, aqui estou”. Os dois já tinham familiaridade, morava juntos e participava da vida do outro. Em nível diferente já estavam inseridos no mesmo ambiente, no templo, tinham o mesmo estilo de vida, e Samuel cultivava pronta e sincera devoção para com Elias, pois, eis a prontidão e disponibilidade no momento da suposta chamada.

A chamada do Senhor brota do contexto muito bem definido em ternos de inserção na realidade do povo, em sintonia com a presença di Senhor e respeito à Aliança, A arca era, pois, o sinal dessa presença e o testemunho visível da Aliança no Sinai. Ela acompanhou a caminhada do povo à terra prometida. Era fundamental para a memória, para a tradição do povo de Israel.

Estar na casa do Senhor, ver, participar, é aspecto imprescindível para o salto qualitativo da própria existência. Não é casualidade ou sem significado que Deus se manifeste com a mesma voz de Eli. Pois, manifesta continuidade, sintonia, com o acontecer da abertura novo horizonte que nem o próprio Eli consegue entender, pois, isto é assunto de Deus.

Eli conduz Samuel até aí. Daí para frente já não é incumbência dele, mas só de Deus e de Samuel. Eli cumpriu sua missão, termina seu serviço, deixa o palco da história e, neste, entra Samuel.

Samuel e Deus caminharão juntos. A primeira atitude do profeta é escutar. É o que Samuel faz, respondendo à terceira chamada do Senhor “Fala, que teu servo escuta”. Escutar é muito mais do que ouvir. Ouvir é só o primeiro momento, segue o envolvimento da pessoa toda, sua adesão e transformação pessoal em ordem à missão.

“Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”. Caminhar com o Senhor é um processo de crescimento, pois, a missão não é só um bem para os destinatários, mas também para o mesmo profeta. Com efeito, a missão é assumida por parte de Samuel com determinação e dedicação totalizante, que compromete a pessoa toda e por toda a vida.

A segunda leitura mostra os efeitos decorrentes da transformação.

2da leituras 1Cor 6,13c-15a.17-10

A conversão de Paulo, o mergulho nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, operou uma transformação radical com respeito à consciência dele consigo mesmo. Percebeu-se como outra pessoa, ou melhor, nele há como uma nova pessoa que vai crescendo e tomando sempre mais força e consistência, capaz de dominar e vencer o “Paulo velho” que, por um aspecto ou outro, não para de se manifestar com suas exigências mundanas e estimulá-lo a deixar o novo caminho e voltar a ser o que era antes. Ele relatará isso na carta aos romanos.

A partir desta experiência exprime para os Coríntios: “Quem adere ao Senhor torna-se com ele um só espírito (...) Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que mora em vós e que vos é dado por Deus? ”. A palavra espírito evoca sempre uma realidade imaterial, invisível, que foge ao domínio e ao poder humano. O contrario é corpo, do qual o homem há consciência, domínio e posse. Portanto, falar de que quem acredita se tornar com ele um só espírito parece algo aleatório, vago, imaterial de difícil compreensão.

Ao reforçar esta verdade acrescenta o fato de o corpo ser “santuário do Espírito Santo”, como encharcado e preenchido do Espírito de Deus. Tornar-se “com ele um só espírito” é alcançar um grau de sintonia e identificação muito expressivo e significativo pelo qual , referindo-se a si mesmo dirá “não sou eu que vivo,é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Esta identificação não é percebida, não é tomada a sério nem em consideração pelos membros da comunidade, por conta dos limites, da fraqueza, do pecado deles. Muito grande é a distância entre a realidade de Jesus Cristo e a deles.

Então, Paulo convida fixar a atenção sobre o fundamento e a causa dessa identificação. Elas estão aquém da compreensão, do comportamento moral. A causa é que “fostes comprados e por um preço muito alto”. Evidentemente se refere ao resgate na cruz, ao preço do sangue e da morte.

O efeito é que “não pertenceis a vós mesmos?”. Pois, tendo sido comprados, pertenceis ao comprador. Não é para passar de uma escravidão à outra, não adiantaria nada. “Foi para a liberdade que Cristo vos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos curveis de novo ao jugo da escravidão”(Gl5,1). Resgatados e livres para amar.

O fundamento desta realidade está no fato que o Espírito Santo “que mora em vós (...) vos é dado por Deus”. Com o resgate Cristo nos ganhou ser filhos adotivos de Deus, ao mesmo tempo em que o Espírito Santo é derramado nos nossos corações por parte do Pai.

Daí a exortação “Então, glorificai a Deus com o vosso corpo”. Portanto, glorificar a Deus é valorizar o corpo, em consideração do fato que “vossos corpos são membros de Cristo” porque membros da nova humanidade resgatada por ele. Mas, em geral, é fugir da imoralidade.

O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo”. Com efeito, toda paixão destrói o corpo, ou seja, a pessoa toda. É preciso a inteligente administração do corpo, particularmente dos impulsos emotivos e das paixões de todo tipo.

Paulo faz uma referência à paixão sexual “Em geral, qualquer pecado que uma pessoa venha cometer fica fora do seu corpo. Mas o fornicador peca contra o seu próprio corpo”. Por fornicador entende o sexo pelo sexo, desligado de todo compromisso sério de amor. O sexo não como linguagem do amor, mas voltado sobre si mesmo e finalizado em si mesmo. Assim que a pessoa se torna egocêntrica e incapaz de amar verdadeiramente. A distorção é tal que, no linguajar comum, “fazer amor” significa fazer sexo.

“O Senhor é para o corpo”, no sentido que o correto exercício da paixão e da linguagem sexual leva à pessoa toda - o corpo – descobrir na sexualidade a presença do Senhor que valoriza a existência toda. Nesse sentido há uma castidade no exercício da sexualidade. Com certeza há testemunhos a respeito, mas são pouco conhecidos e divulgados, seja por pudor que por temor. Com efeito, o registro geral vai à bem outra direção.

Jesus chama a pessoa toda, com seu corpo a segui-lo, como relata o evangelho.

Evangelho Jo 1,35-42

“Era por volta das quatro da tarde”. E’ particularmente significativo o evangelista lembrar a hora do seu primeiro encontro com Jesus. Não só pelo fato em si mesmo, mas pelo que desencadeou a continuação não só para ele, mas para a humanidade, para o universo e para Deus mesmo.

João teve a vida transformada de maneira tão radical que o primeiro encontro (torna-se) inesquecível em todos os seus detalhes, e cuja lembrança se torna uma benção que revigora o sentido da existência e motiva o louvor a Deus. Considerando a posterior o que significou para João aquele encontro não é para menos.

Lembra que foi João Batista quem indicou Jesus. Não foi um momento planejado, pois, aconteceu de forma circunstancial e casual, como algo natural e espontâneo “vendo Jesus passar”. Ele, que tinha anunciado a proximidade, o apresenta aos dois discípulos “Eis o cordeiro de Deus”.

Cabe perguntar por que também João não foi atrás dele? Tal vez, porque consciente que a missão estava circunscrita ao que estava cumprindo, e que aí terminava sua missão, como havia deixado entender por afirmações anteriores. Neste caso, quis permanecer no que lhe foi indicado.

Para os dois começa um novo caminho, Aceitaram a indicação e foram atrás de Jesus “Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus”. Foi a confiança nas palavras de João e a esperança de encontrar o esperado dos tempos, a coragem e a curiosidade para conferir se, por fim, o messias era ele mesmo.

Jesus percebendo a aproximação deles pergunta o que estão procurando. Respondem perguntando “onde moras”. Por que os dois não perguntam direto quem é, se é certo o que afirmou João ?

Tal vez seja uma aproximação cautelosa, como pela beirada. Era opinião comum que o messias devia comparecer a noite da Páscoa no templo para dar inicio ao processo de renovação e implantação do Reino. Tivesse morado no templo ou em outro lugar que tivesse relação com ele, já seria um bom sinal.

Ele não indica um lugar, mas os convida a estar com ele “Vinde ver. Foram ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele”. Não há detalhe nem indicação onde estava morando e nem que o viram na morada dele, só o fato de que permaneceram com ele.

Provavelmente esperavam uma coisa e resultou outra. De toda maneira, o encontro foi convincente ao ponto que marcaram ma memória até a hora do encontro. O que fascinou foi estar com, a conversa e a pessoa dele.

Hoje temos acesso à mesma experiência, não fisicamente obviamente, mas pela bagagem da escritura, pelo testemunho daqueles que acompanharam e viveram com ele a tradição, pelas palavras e ações registradas no evangelho e, sobretudo pelo mestre interior: o Espírito Santo. Tudo isso é a patrimônio a disposição de toda pessoa pelo qual é possível se entusiasmar e perceber o que estes primeiros dois apóstolos experimentaram.

Prova do convencimento e até do entusiasmo deles, foi passar de imediato a notícia ao irmão de André, Pedro, e manifestar sem dúvida nenhuma “Encontramos o Messias”. Confirmaram que João indicou certo, e Pedro se deixou levar pelo irmão André até a presença de Jesus.

É o específico da missão de todo cristão, levar outros ao encontro com Jesus atingindo ao patrimônio acima indicado.

Passo sucessivo, o singular encontro de Pedro com Jesus, quem “olhou bem para ele”. Foi olhar de simpatia, ou algo mais? O que procurava em Pedro? Que encontrou que viu nele? Qual foi o motivo pelo qual o designa como futura pedra - rocha – dos que acreditarão nele não se sabe. Só determina isso depois de olhar bem. Percebeu o temperamento, a autenticidade, a determinação e a fraqueza pela qual o renegará? Não se sabe.

Fica só o testemunho que a vida destas pessoas mudou profundamente, de forma determinante, pelo que depois a continuação a história da caminhada registrará. O testemunho do encontro que é todo um mistério, uma surpresa, capaz de orientar decididamente a própria existência para a salvação, para uma vida bem sucedida para si mesmo, em quanto voltada e dedicada para o bem dos outros e da humanidade.

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