1ª leitura Jn 3,1-5.10
Nínive, capital da Assíria, uma nação pagã que não pertence ao povo de Israel. Contudo, Deus confia a Jonas a missão de pregar nela o convite à conversão. Um hebreu pregar a conversão numa capital estrangeira de grande dimensão, pois, “eram necessários três dia para ser atravessada”. Uma missão humanamente impossível e destinada ao fracasso, além de ser objetivamente um perigo para a integridade física do pregador.
Depois da tentativa fracassada de fugir da missão, Jonas “pôs-se a caminho de Nínive, conforme a ordem do Senhor (...) entrou na cidade (...) pregava ao povo dizendo: Ainda em quarenta dias, e Nínive será destruída”. Quarenta é um numero simbólico, significa um tempo demorado, mas suficiente para reconsiderar e rever o que levaria à catástrofe.
Esta situação faz pensar ao tempo presente. Nínive é o mundo todo. O perigo da destruição do planeta é constantemente alertado por motivos ecológicos, demográficos, atômicos e financeiros. Os entendidos alertam que o tempo se faz cada vez mais curto e se aproxima o momento da irreversibilidade no qual não haverá remédio nem possibilidade de retorno.
Perante o perigo anunciado, todo o mundo parou “os ninivitas acreditaram em Deus, aceitaram fazer jejum, e vestiram de saco, desde o superior ao inferior”, para reconsiderar o próprio estilo de vida. Indistintamente todos se solidarizam na atitude própria de quem revisa seriamente a própria conduta, caracterizada por dois elementos: jejuar e vestir de saco.
O jejum, a privação e carência de alimento, é colocar a própria pessoa na condição física, psicológica e intelectual adequada para manter atenção sobre um determinado assunto particularmente difícil de destrinchar e de urgente solução. Ele favorece analisá-lo seriamente e com profundidade, e assim encontrar a resposta conveniente.
Vestir de saco e se colocar sobre a cinza é atitude exterior, sinal da própria pobreza e incapacidade de chegar à solução apropriada. É manifestar a própria pobreza e a disponibilidade a receber ajuda do alto, de quem tem condição de orientar a busca rumo à solução oportuna.
Desta forma, todo ser da pessoa, sua realidade interior e exterior está orientada a Deus. É a maneira para acolher o convite de Deus e acreditar na sua presença e ação. É o que marcou a atitude interior dos ninivitas, após a pregação de Jonas “Os ninivitas acreditaram em Deus”.
Com certeza a pregação dele foi convincente. Jonas deve ter argumentado de tal maneira mostrando que o estilo de vida deles, a conduta individual, o relacionamento entre eles e outros aspectos da organização deles estavam voltados para o prejuízo deles mesmos, com perigo de chegar à autodestruição.
O resultado foi positivo, pois, “os ninivitas se afastaram do mau caminho”, redesenharam a própria organização e relacionamento sobre modelos que agradara a Deus. Assim, Deus “compadeceu-se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhe, e não fez”.
Deus não modificou o seu propósito porque os homens, todos indistintamente, se mexeram. Teve compaixão e suspendeu o que tinha pensado fazer. De fato, o arrependimento mexe com o coração de Deus. Vendo a boa vontade e o empenho em corrigir o caminho errado e tomando as devidas providências “ Vendo Deus as suas obras de conversão” se contorcem as entranhas dele - a compaixão -por participar do sofrimento deles e torcer de que cheguem à renovação da vida.
Ele suspendeu, porque sabe do perigo e das possibilidades dos homens em repetir os mesmos erros, e, portanto, reativar o que suspendeu.
A solução para não voltar ao mal é indicada pela segunda leitura.
2da leitura 1Cor 7,29-31
A firmeza da conversão está em entender o conteúdo dela na perspectiva escatológica, ou seja, do último e definitivo da vida pessoal, da história e da criação que Jesus Cristo mostrou com sua morte e ressurreição e ao qual tudo e todos estão orientados, atraídos como o ferro pelo imã.
Então, eis as palavras de Paulo “Eu digo irmãos: o tempo está abreviado”. A primeira consideração é pensar no momento da manifestação última e definitiva de Deus com o “retorno” do Ressuscitado como iminente. E de fato, era o que esperavam as primeiras comunidades.
Contudo, o abreviado pode-se referir ao fato que este último e definitivo já está presente. Assim, o tempo presente, cada minuto que corre entre o passado e o futuro, pode se tornar experiência de vida tão intensa e plena , a mais completa participação da condição humana, aqui e agora - à glória de Deus.
Desta forma ao tempo presente é associada a condição de eternidade, em sentido de a eternidade não ser a ausência do tempo no seu decorrer entre passado e futuro, mas a característica do tempo cronológico. Neste sentido, cada minuto pode se tornar um tempo eterno.
Esta possibilidade é oferecida pelo evento pascal e se torna viável pela fé. Viver em Cristo, por Cristo e com Cristo, abrevia o tempo entre o “já” instalado pela sua morte e ressurreição e o “ainda não” do fim dos tempos. Fim no sentido de finalidade pelo qual o tempo foi criado, não simplesmente da sucessão entre passado e futuro.
Portanto os dois tempos convivem juntos. Com a morte perdemos o cronológico, mas permanece o qualitativo. Ou melhor, o qualitativo transformará o cronológico de uma maneira que desconhecemos, suposto que é parte constitutiva da vida do ser humano ( como também o espaço do corpo e da criação em geral) e, portanto, não pode der perdido, mas sim transformado.
“Pois a figura deste mundo passa”. O termo figura diz com respeito ao exterior, o superficial, algo de fácil transformação. O mundo como figura é tal não só pelo cronológico, mas pela dinâmica do amor necessária para alcançar aquela plenitude à qual o mundo está chamado e que constitui a verdadeira realidade dele.
Daí as considerações do trecho, como uma consequência “Então que, doravante, os que tem mulher vivam como se não tivessem, os que choram, como se não chorassem, os que (...) como se não (...)”. Não se trata de desprezo, rejeição ou de afastamento, mas de considerar à luz do último e definitivo -o escatológico -a real consistência e valor de todo o que é submetido à caducidade do tempo cronológico.
Perder esta percepção se corre o risco de distorcer a importância e o valor do presente, como os ímpios no livro da sabedoria (2,1-5), pelos quais a vida passa e não fica nada, tudo evapora e se perde como neve ao sol. Daí, então, a determinação de agir com prepotência, arrogância e desrespeito pra com todos, com conduta antiética deplorável.
Neste pano de fundo não é difícil determinar o conteúdo da conversão à qual se refere o evangelho.
Evangelho Mc 1, 14-20
“Depois que João Batista foi preso”, pois, já acabou a atividade dele. Como consequência da missão, em vez de gratidão e reconhecimento acaba na prisão. Jesus o elogiará, mas não faz nada para tirá-lo daí, nem vai visitá-lo. O único contato é a resposta aos enviados de (um) João desconcertado (pelo modo)sobre como Jesus está desenvolvendo a missão. Do ponto de vista humano, o comportamento de Jesus deixa perplexo, não é fácil de entender.
Jesus começa a missão expondo a característica e a exigência para sintonizar com ela e participar da sua finalidade “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”.
A característica é que “o Reino de Deus está próximo”, não em sentido que está muito perto e, portanto, ainda tem que chegar, mas que já é presente. No discurso na sinagoga de Nazaré manifesta que “hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (lc 4,21). Se tivesse falado que se cumprirá daí pouco tempo, come realidade muito perto, não teria acontecido o alvoroço, a confusão, que aconteceu.
O reino está acontecendo nele como ser humano, pois, é manifestação da realidade de Deus por ser ele parte integrante de Deus mesmo. O que a história de Israel e o povo estavam esperando chegou, está presente.
Neste sentido o tempo da espera chegou ao seu ponto final. A partir de agora o tempo mesmo assume outra característica, que combina com a o aspecto cronológico, próprio do entendimento comum quando se fala de tempo.
Podemos dizer que ao tempo cronológico - o presente como passagem entre passado futuro - faltava o aspecto qualitativo. A Boa noticia é exatamente esta, tornar boa realidade cada minuto da própria vida: fazer do tempo o tempo favorável.
Ele, como mestre e guia, oferecerá o necessário para que cada momento da existência se torne um evento favorável neste sentido. Desta forma o tempo cronológico se enche de eternidade.
Para atingir o objetivo pede aos destinatários a disposição específica de quem confia e se dispõe à novidade, sabendo que vai mexer radicalmente nas convicções religiosas e morais consolidadas pela tradição e sustentadas pelos mestres e autoridades do momento.
A exigência que põe é a confiança e a conversão: “Convertei-vos e crede”. A mudança é tão radical que não se trata de corrigir ou reformar o que já existe, é como sair do caminho costumeiro entrar em outro e proceder em direção contrária ao primeiro.
Dirá Jesus que não se trata de colocar um pano novo sobre in tecido velho, ou colocar vinho novo em odres velhos, porque seria pior. Trata-se de uma transformação radical de quem sabe refazer o velho em novo, de reinterpretar a lei de maneira tal que, aplicada corretamente, alcance o fim pelo qual foi promulgada.
Já a chamada dos primeiros apóstolos é uma amostra do que vai vir. Chama gente comum, trabalhadores, gente do povo. Duas são as exigência que põe. A primeira é que se tratará de uma colaboração que nada tem a ver com a vida anterior “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”. Será lago absolutamente novo. Seguir a ele será se dispor à aprendizagem, como alunos para com o mestre e ter confiança nele, mesmo quando a lição se torna difícil.
A segunda exigência é a determinação que coloca em segundo lugar as exigências e os afetos familiares. É se dispor totalmente para a missão e a causa que a sustenta “Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e pariram, seguindo Jesus”. Quais terão sido o pensamento e a reação do pai não sabemos: “perder” dois filhos de um momento para outro. Seria interessante saber se para este pai a boa notícia de Jesus se tornou boa realidade naquele momento.
O evangelho nunca foi mole.
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