segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

4to DOMINGO DO T.C.-B- (29-01-12)

1ª leitura Dt 18,15-20

Deus suscita um mediador entre ele e o povo. Era de conhecimento geral que ninguém pode continuar vivendo após ver a Deus, pois, era morte certa. Daí no monte Horeb, onde Deus deu a Moisés a Lei e estreitou a Aliança com o povo, o povo a manifesta a vontade dele “Não quero mais escutar a voz do Senhor meu Deus, nem ver este grande fogo, para não acabar morrendo”.

Soa um pouco esquisito e incompreensível o morrer por escutar a voz e ver o grande fogo da presença de deus, ou seja, estar no limiar da presença de Deus e participar da realidade dele. Ele criou-nos e chama à amizade e comunhão com ele; ele se manifesta por livre autodeterminação e o resultado é a morte dos destinatários. Então, encontrá-lo é uma desgraça?

Deus aceita de bom agrado o pedido “Está bem o que disseram”, e concorda em colocar um mediador: o profeta “Farei surgir para eles, do meio de seus irmãos, um profeta semelhante a ti”. Com isso Deus concorda que para ter experiência direta Dele é preciso um tempo de preparação. Ela é o fruto amadurecido de uma caminhada, na qual gradativamente, por etapas, vão se criando as condições necessárias para ver a Deus face a face.

De todas as maneiras, a aproximação ao mistério de Deus e o envolvimento nele de forma mais o menos profunda ou intensa faz parte da seriedade e consistência da caminhada com respeito à observância das exigências da aliança manifestadas na Lei.

Para orientar o povo na correta observância da Aliança, ou para conferir se as decisões –escolhas – dele estão em sintonia com a mesma, Deus determina colocar na boca do profeta “as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar”. Ele será como a consciência crítica de Deus com respeito à bondade ou pelo menos da síntese entre a finalidade da Lei e as circunstâncias sociais e pessoais do dia- a -dia.

Missão muito importante e decisiva do mediador - do profeta – para o crescimento bem sucedido do povo como povo que pertence a Deus e das pessoas como integrantes do reino, para ser sal e fermento da terra e luz para todas na nações. Com efeito, Israel tem responsabilidade para com todas elas, para que pelo testemunho dele todas se aproximem a Deus.

Portanto, Deus estará muito presente e atento à ação do profeta “Eu pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. As palavras do profeta são as mesmas palavras do Senhor, é como se ele mesmo estivesse presente e as proferisse.

Do correto desenvolvimento da missão depende não só a vida do povo e das pessoas, mas do mesmo profeta. Deus o alerta “Mas o profeta que tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que eu não lhe mandei...”.

Isso pode acontecer por agradar aos destinatários, por medo de incomodar as pessoas o a instituição e sofrer retaliações, por negligência e desatenção, ou simplesmente por levar algumas vantagens.

Pode acontecer dele “falar em nome de outros deuses” por ter perdido a confiança no Deus da aliança, mas ao mesmo tempo querer abusar da reconhecida autoridade por parte do povo para proceder desonestamente, pois, neste caso “esse profeta deverá morrer”.

Isso quer dizer que o profeta mesmo deverá por muita atenção para se manter em sintonia com Deus, pois é possível desviar e trair. Não pode se acomodar, ou se deixar seduzir por circunstâncias ou eventos enganosos. É pedido a ele uma dedicação total à missão.

Para isso deve ser um sujeito livre. É o que Paulo aponta na segunda leitura.

2da leitura 1Cor 7,32-35

Paulo, sem dúvida, é o profeta por excelência. Depois da conversão em damasco dedicou-se totalmente e com especial vigor e intensidade à evangelização, viajando e fundando comunidades no mundo então conhecido. Uma delas é a comunidade à qual dirige a carta.

A carta é resposta às discordâncias, desentendimento, brigas e outros aspectos que dificultam a correta convivência em nome do motivo fundamental pelo qual estão congregados e compartilham o Caminho no dia -a -dia.

Entre ele o entendimento entre matrimônio e virgindade. Responde no capítulo sete do qual é tirado o texto de hoje. Ponto de partida é o desejo de “levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações”. Diz expressamente de que ele “gostaria que estivessem livres de preocupações” e manifesta a preferência da virgindade sobre o casamento, que em outras partes do mesmo capítulo considera como mal menor por causa da incontinência sexual.

Com certeza manifesta uma consideração bastante negativa dela, tal vez em consideração do que estava vendo de pouco confortante. Deixando de lado isso, argumenta “O homem não casado é solicito pelas coisas do Senhor e procura agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar à mulher”. E vice versa, e conclui “assim, está dividido”.

Acredito que foi uma avaliação circunstancial e, tal vez, muito rápida sem tomar em conta a amplitude dos casos e das circunstâncias que levam a ficar dividido. Hoje é um pouco difícil sustentar a superioridade da virgindade sobre o matrimônio sob este ponto de vista. Em primeiro lugar porque os dois são um caminho de santidade, e também porque temos testemunhos de que o matrimônio não foi em nada obstáculo, o motivo de divisão do Senhor, e de que não permita a dedicação total de si mesmo à causa do evangelho. Pelo contrário.

A afirmação de Paulo tem um elemento objetivo, evidentemente. De fato, quem não casa não tem os compromissos e responsabilidades específicas que o casado tem e, portanto, pode-se dedicar exclusivamente à causa do Reino. Não por isso não há oportunidades nem circunstâncias para ficar divido.

Por exemplo, a pessoa fica dividida por agradar à instituição à qual pertence, por não incomodar companheiros, com as autoridades, por falar e tomar atitude que os interlocutores gostam, assim, de receber elogios e aprovação, em troca do sincero e verdadeiro serviço à causa do Senhor.

Para não falar de quem se aproveita para perseguir vantagens de todo tipo, se valendo da autoridade do cargo que lhe é reconhecido e exerce. Portanto, o desejo de Paulo de que os cristãos fiquem “livres de preocupações” vai muito além da condição de casados ou de virgens. Fundamentalmente depende da consistência e identidade com a pessoa e a missão de Jesus, a percepção prévia, a exemplo de Paulo, de que Ele (Jesus) “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20) e com isso criou nele (Paulo) uma nova condição, um novo ser, como também deve criar em nós.

Então, desenvolve-se a missão profética no estilo de Jesus, como mostra o evangelho.

Evangelho Mc 1,21-28

Jesus desenvolve o começo de sua missão na sinagoga, o lugar designado pela instituição para o culto, o ensino da tradição e tudo que dela é preciso saber para ser um legal temente de Deus.

“E começou a ensinar. Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei”. A diferença suscitou admiração, seja pelo conteúdo – mesmo que não especifique, basta pensar, por exemplo, no sermão da montanha – ou na forma, onde deve ter manifestado uma competência qualitativamente superior aos Mestres da Lei, designados para tal função.

Não é difícil distinguir entre a fala da autoridade e o falar com autoridade. A primeira se exerce em virtude da designação a uma função determinada, pela qual é reconhecida competência em virtude de critérios comuns que a instituição reconhece como válidos.

Não necessariamente a pessoa é envolvida profundamente e participa consequentemente. É a instituição que confere a autoridade. Jesus dirá dos mestres da Lei: façam o que eles dizem, mas não o que ele fazem, porque dizem, mas não fazem.

O pessoal da sinagoga deve ter percebido que Jesus fala do que vive, e vive do que fala. Fala com a autoridade de quem está envolvido e plenamente identificado com todo o seu ser no que propõe à atenção dos ouvintes. Nele podem perceber a autenticidade da proposta pela integridade da pessoa, com respeito a ela.

Cabe especificar que a pessoa íntegra é tal porque assume plenamente sua realidade: fala e se comporta pelo que é, não há rachadura nela. Jesus deve ter falado com respeito à integridade deles em quanto descendentes de Abraão, integrantes do povo eleito, destinatários da aliança e herdeiros da promessa.

E manifestou o que é viver em sintonia com isso tudo. Deve ter colocado para eles condições pela quais era imediata a possibilidade de resgatar esta integridade, contrariamente ao que ensinavam os mestres da Lei. Daí a surpresa e a maravilha do povo.

Acolher o que ele está propondo tem um poder muito grande, se torna um evento libertador. É o que acontece em continuação no “homem possuído por um espírito mau”. Em que consiste a especificidade deste espírito mau não é dito explicitamente. Parece-me que se pode deduzir do contexto.

“Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”, afirma o possuído. A admiração geral pela integridade de Jesus se tornou nele convicção de que Jesus é o Santo de Deus. Mais ainda, vê nela o poder destruidor “Viestes para nos destruir?”. Destruir o que? Os elementos que configuram o mundo interior dele, a prática de vida, que faz dele uma pessoa desintegrada, dividida (2da leitura!), dos quais não consegue se libertar e os escraviza.

Jesus teve que intervir com força “Cala-te e sai dele!”. Dirige-se ao homem com firmeza e ordena que se afaste de tudo isso e acredite na proposta libertadora que acaba de apresentar.

No homem se desencadeia uma luta extrema, pois não é fácil uma mudança tão radical e rápida “Então e espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu”. Em fim, se libertou.

A fé na Palavra e nos sacramentos - são palavras eficazes - particularmente a Missa, restitui e devolve à pessoa à integridade da qual falamos. O espírito mau em nós é a desconfiança, a desatenção, o desinteresse e tudo aquilo que impede a percepção do novo ser que, continuamente, é reconstituído na integridade de filho, de herdeiro da promessa e capacitado de nova vida.

Esta transformação em nós não é coisa de pouca conta. Devidamente percebida suscita a mesma reação dos presentes na sinagoga “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem”. Como o homem possuído, a luta para realmente assumir o que Jesus faz a nosso favor em cada missa, não é mole. Trata-se de uma violência consigo mesmo que sacode todo o ser. E Jesus mesmo alertou que só os violentos entrarão no reino. A luta de cada um consigo mesmo, talvez, seja a pior de todas. Também para com nós Jesus age com firmeza, como foi com o possuído. Então...

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