segunda-feira, 26 de março de 2012

DOMINGO DE RAMOS -B- (01-04-12)

1a leitura Is 50,4-7

Com o terceiro cântico do “Servo de Javé”, do profeta Isaias, começa a Semana Santa. A figura do Servo de Javé é descrita nos quatro cânticos. Do terceiro é tirado o texto desta primeira leitura. (É muito importante ler e meditar conjuntamente aos outros três: Is 42,1-9; 49,1-9 e 52,13 até o final do cap.53). É a figura de um sujeito (uma pessoa, mas, alguns estudiosos dizem que é um “resto” fiel do povo de Israel) chamado, ungido, pelo Espírito. Ele, conforme a vontade de Deus deverá sofrer e entregar sua vida para resgatar e salvar o povo e a humanidade. Após a morte e ressurreição de Jesus, os discípulos e os apóstolos identificarão este personagem com Jesus mesmo.

Neste texto, o sujeito é claramente uma pessoa. Ela é diariamente instruída por Deus “O Senhor Deus deu-me língua adestrada (...) ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido” e ao mesmo tempo estimulada e motivada a prestar atenção. Não se trata de ouvir por ouvir nem para agradar, mas de “prestar atenção como um discípulo”, como quem apreende para praticar. Com efeito, a primeira atitude do discípulo é a de escutar com todo o coração, com toda a alma e com todo o ser. (Como não pensar ao relato evangélico de Marta e Maria, no qual Jesus elogia Maria por estar aos pés Dele escutando, tornando-se, desta forma, uma discípula!) O escutar é para “ que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida” e assim desenvolver corretamente a missão.

Missão que apresenta um aspecto, pelo menos, desconcertante: “ O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás” Pelo que se refere a Jesus, foi nas tentações no deserto que entendeu como as palavras de conforto as pessoas abatidas passavam uma lógica e uma expectativa totalmente contrárias ao desejo e entendimento dos ouvintes, e como as mesmas os teriam levado diretamente à cruz. Contudo, Ele não voltou atrás. Foi corajoso e decididamente para frente, até o fim.

Eis, então, a rejeição dramática, humilhante e de grande sofrimento “ Ofereci as costas para que me baterem e as faces para que me arrancarem a barba; não desviei o rosto dos bofetões e cusparadas”. Gestos e atitudes de grande desprezo. Foram interpretados pelos presentes - no caso de Jesus- como prova do abandono de Deus, por tê-lo blasfemado com suas palavras e pretensões messiânicas.

Notável a reação do Servo de Javé: “Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o animo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não serei humilhado” É surpreendente não se sentir humilhado nem abatido naquela situação e sofrendo daquela forma, se não for pelo auxílio do Senhor. Em que consistiu o auxílio não é especificado. Tal vez, podemos supor na base do fato que não se deixou abater nem se sentiu humilhado, que teve a percepção no profundo do ser de algo como “o poder de uma vida indestrutível” (Hb.7,16).

Esta percepção foi como a seiva da árvore que sustentou e motivou a radical fidelidade dele. Portanto, no momento da máxima provação, se tornou manifesta e geradora dos estados de animo indicados. Parece-me que a “vida indestrutível” se deve, é como o reflexo da fidelidade à missão. Assim, da para afirmar que o Servo de Javé tem acesso à transcendência e à experiência de Deus, no profundo do próprio ser, pela radical fidelidade na pratica do amor, pelo constante exercício da misericórdia e compaixão para com aqueles que estavam sem esperança. Pois o que salva não é o sofrimento pelo sofrimento, mas o amo - a verdade do próprio ser e da ação correspondente - que não deixa de se manifestar mesmo nas condições trágicas da rejeição.

Tudo isso bate com a experiência de Jesus que são Paulo sintetiza magistralmente na segunda leitura.

2da leitura Fl 2,6-11

É o hino dos primeiros cristão (o cantavam na liturgia?) que sintetiza a figura, o alcance e o significado da missão de Jesus. Muito foi escrito e muito se escreverá sobre ele, pela importância do conteúdo. É um texto que todo cristão deveria meditar e decorar.

Os versículos seis até oito falam da “descida” de Jesus no nível mais baixo do mal e do pecado. Os outros três do infinitamente oposto: a “subida” na exaltação no céu.

Em primeiro lugar, Jesus “esvaziou-se a si mesmo” da condição divina. Colocou como entre parêntesis sua condição divina; não quis usufruir das condições privilegiadas dela. É como se o Presidente renunciasse a todo privilegio, mordomia, honra, mesmo continuando a exercer suas funções.

Motivo da escolha foi se colocar na “condição de escravo e tornando-se igual aos homens”. Igual aos homens, no sentido de que mesmo não sendo afastado da comunhão com Deus, da familiaridade com o Pai nem privado da presença do Espírito Santo, se solidariza com o homem pecador, ou seja, do homem que é todo o contrário do que Ele é. Desta forma, coloca entre parêntesis sua condição divina. De fato, a carta aos Hebreus lembra que Jesus assumiu em toda a condição humana menos no pecado. Mais ainda, se iguala e se coloca na “condição de escravo”. Iguala-se para abaixo. É próprio de o escravo servir. Referido a Jesus, consistirá em resgatar a humanidade do afastamento de Deus.

Encontrado com aspecto humano” O povo o encontra como tal, como simples homem, e, ao mesmo tempo, com pretensões messiânicas - e até divinas, como Filho de Deus - que não condizem, de jeito nenhum, com o que Ele diz e faz. Pelo contrário, o povo e as autoridades o acham blasfemo e ateu, merecedor de morte ultrajosa.

Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Por livre determinação Jesus sofre em si mesmo dupla humilhação, simultaneamente, perante do Pai e perante do povo. Ele se apresenta como pecador perante o Pai, por representar a humanidade toda. Ao mesmo tempo, sofre a humilhação e a rejeição violenta de quem está representando: o povo, as autoridades, a humanidade toda.

Assim, por um lado, sofre o afastamento do Pai, como consequência do pecado, “Deus meu, Deus meu porque ma hás abandonado”. E pelo outro, a morte de cruz, como maldito de Deus “ Maldito seja aquele que for suspenso do madeiro” (Gl 3,13).

“Fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Obediente a um Pai que, absurdamente, determina entregar o filho inocente? Que cobra do filho o pecado da humanidade? Que o Pai entregue o filho è uma das afirmações mais espantosas do Novo Testamento, absolutamente desconcertante para o entendimento humano. Contudo, por um lado, o evento manifesta a cólera e o juízo de Deus para com o homem pecador. Pelo outro lado, o amor à verdadeira pratica de vida que tira o homem do mal e da própria autodestruição não é negociável, deve ser segurada, custe o que custar.

São estes dos aspectos que estão no fundo do evento: a cólera e o juízo de Deus, como expressão do amor traído pela pertinaz insistência do homem na própria autodestruição. Mas também, o amor do resgate salvador, por Jesus representar a humanidade toda que não de entrega ao pecado. Enfim, é o AMOR nas suas diferentes expressões que sustenta o evento todo.

“ Por isso, Deus o exaltou acima de tudo” O “ por isso”estabelece uma ligação entre o anterior e o posterior. Portanto, aponta à relação entre a cruz e a ressurreição, exatamente por ser a cruz posse da ressurreição. A ressurreição não é um super milagre, mas o efeito da entrega na cruz. Como a cruz foi motivada pelo amor, assim, também, a ressurreição: o amor da entrega é o mesmo que ressuscita. Este é o nome de Deus “Nome que está acima de todo nome” em virtude do qual Jesus é constituído “Cristo”, ungido, Messias e “Senhor” no céu, na terra e abaixo da terra “para a glória de Deus Pai”. Sendo a glória de Deus a vida do homem, na feliz expressão de Santo Irineu, esta se manifestará em todos os homens que aceitarão, pela fé, os efeitos da representação de Jesus Cristo perante o Pai, se tornando seguidores e imitadores do Filho, porque filhos de adoção.

Evangelho Mc 14,1- 15,47

O relato da paixão se presta para muitas considerações. Vou comentar o relativo à tentação. O relato das tentações no deserto, de Lucas, frisava “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13).

O tempo oportuno é este da crucificação. Eis a última tentação “As pessoas que passavam por ali o insultavam (...) salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!Do mesmo modo os sumos sacerdotes, como os mestres da Lei zombavam entre si dizendo ‘A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! O Messias, o rei de Israel...que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!”.

Jesus não se dobra, não cede. Sofre agora as mesmas tentações do deserto. Tal vez, o demônio esperava ter maior sucesso neste momento de fraqueza extrema e de sofrimento, juntamente à sedução do gesto tão espetacular. Na expectativa do povo e dos chefes não existe prova maior que esta com respeito à sua pretensão de ser o Messias.

Então, por que fica? Por que entra na morte? Para desfazer a ligação pecado - morte. Pecado e morte estão unidos, pois dirá são Paulo: “A morte é o salário do pecado” (Rm 6,23). A resistência extrema ao pecado levou Jesus à morte. Tendo entrado nela sem se dobrar ao pecado, quebra o elo que os une: “mesmo que morto viverá (...) não morrerá para sempre” (Jo 11,25). Consequentemente, à morte vai lhe faltar o que a sustenta e do qual é expressão e manifestação. Agora a morte tem outro significado, não é a última palavra da existência. Mais ainda tem outro destino, a ressurreição.

O que deixa desconcertado no relato da morte é a extrema solidão e repudio. Morreu abandonado na mais radical solidão, e repudiado por todos, até dos dois que foram crucificados com ele “Os que foram crucificados com ele também o insultavam”.

Até que estremo chegou: nenhuma piedade, nenhuma manifestação de compaixão e misericórdia, para com Ele que foi tudo piedade, compaixão e misericórdia. O impacto deve ter sido tão grande e desconcertante que os outros evangelhos introduziram elementos para suavizá-lo.

Além do impacto e desconcerto fica o testemunho do tamanho do amor de Deus por um lado, e até que ponto pode chegar o amor do discípulo em segui-lo: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12). O “como”, termo de comparação chega ao limite extremo, possível a ser imitado só se perceber e sentir no próprio mundo interior o que Le sofreu primeiro.

domingo, 18 de março de 2012

5to DOMINGO DA QUARESMA -B- (25-04-12)

1ª leitura Jr 31, 31-34

O Senhor, analisando retrospectivamente a historia e a atualidade do povo de Israel com respeito ao comprimento da Aliança, comunica, por meio do profeta, sua amargura, desilusão e defraudação com respeito ao cumprimento dela, pois, “eles a violaram”, não a respeitaram e não se comportaram corretamente.

Parece-me que Deus, no avaliar as causas, se atribui como um defeito, uma carência no proceder dele. Valeu-se do seu poder e força para que o povo a respeitasse “eu fiz valer a força sobre eles” e, apesar dele agir com determinação e força, de nada adiantou.

Então, olha para frente, para o futuro, e promete “Eis que virão dias (...) em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança”. O termo, o sinal dela- a Lei - não será escrito nas tábuas de pedra, algo exterior à pessoa, mas, diz o Senhor “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração”.

O coração é o centro vital da pessoa, é a sede da inteligência e do afeto, no nosso entendimento. Portanto ela se tornará como algo constitutivo, profundo e inseparável da pessoa. Impossível ignorar ou não prestar atenção a ela. Possível é tirar, afastar ela do próprio coração, porque seduzido ou fascinado por outras leis.

É a última chance que Deus joga a favor do seu povo. Se der certo – pelas pessoas que derem certo – diz Deus “serei seu Deus e eles serão meu povo”. O casamento será completo e definitivo, uma vez para sempre de ambas as partes.

Nesta nova condição “Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor! ’”, pois a comunhão, a familiaridade, a intimidade e amizade é o que elabora, em termos de meios e condições, toda instrução e a meta do conhecimento.

Portanto, pela Bíblia, conhecer não é só uma aprendizagem de como proceder ou do que fazer, mas a qualidade do relacionamento. De imediato, se entende que não terá fim, pois, não nos conhecemos a nós mesmos, imagina se dá para conhecer o outro e os outros, com as novidades e diferenças que os sustentam e acompanham. É um processo que não termina nunca.

Este conhecimento é elaborado no coração, pois, envolve a pessoa toda, sua história passada, o presente - no momento mesmo de se aproximar um ao outro - e também o futuro, no seu componente de sonho, de projeto e, sobretudo, de destino e meta.

Com isso, Deus incentiva e anima cada pessoa, a comunidade e a humanidade toda, rumo ao sentido pleno da vida, resumido naquela famosa frase do filosofo “penso, portanto existo” com uma modificação “amo, portanto existo”. Este segundo aspecto não faz diferença para com ninguém e está ao alcance de todos, indistintamente. É de imediata compreensão e execução, pois é o que a aliança deposita no coração, no profundo do ser humano. Daí que o texto afirma “Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles”.

O certo do processo é o perdão “ pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”. Com efeito, o perdão - o dom para ... - oferece o dom da escuta, do acolhimento, da transparência, da comunhão na busca da verdade, de caminhar lado ao lado na pratica da justiça e do direito, deixando para trás as experiências negativas, frustrante, e até dolorosas.

Trata-se da vontade de recomeçar, de colocar uma pedra sobre o passado. Certo que na pessoa as experiências negativas ficam na memória, pois são indeléveis, mas são como feridas fechadas, cicatrizadas. A pessoa olha para elas, mas não produzem dor. Pertencem ao passado e ficam no passado.

Então o perdão é regeneração, um novo nascer, abre um futuro cheio de esperança, a vontade de redesenhar os relacionamentos, a vida mesma, aproveitando-se, também, das experiências negativas do passado.

Tudo isso porque há uma verdade que ultrapassa os limites, os erros, as fraquezas dos relacionamentos humanos. Ela sempre interpela, motiva e incentiva a não ficar parado, bloqueado, desanimado, pelo contrário, puxa para retomar e recomeçar . A força da verdade é inscrita no coração do homem em virtude da Aliança estabelecida.

É a mesma que sustenta Cristo no momento mais dramático da vida dele ao qual se refere a segunda leitura.

2da leitura Hb 5,7-9

O trecho é de grandíssima importância e se refere a Jesus no Jardim das Oliveiras, na quinta feira santa, “nos dias de sua vida terrestre”, no começo da Paixão. Os evangelhos relatam o que aconteceu, algumas palavras deles, assim como a angústia até suar sangue.

Este texto é outra versão da famosa súplica “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!” (Lc 22,42), e manifesta com desconcertante crueza o estado de ânimo de Jesus que “dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte”.

Talvez surpreenda esta atitude de Jesus. É opinião comum que, sendo Filho de Deus, sabia o que ia acontecer, pois, faz parte da missão dele, assumida deliberadamente, para isso veio ao mundo. Mesmo assim, a reação dele tão dramática evidencia como ter carregado sobre si mesmo o pecado do povo - a desconfiança, indiferença, desinteresse, oposição e rejeição do que ele ia apresentando e propondo – constitui uma experiência tão desconcertante e dramática cuja expressão e reação assumem tais aspectos.

Pode-se entender o tamanho da reação considerando que o pecado o afasta dos homens por ser blasfemo, e também o afasta de Deus, por representar, perante o Pai, a humanidade pecadora, cujo efeito é o afastamento. Este duplo afastamento assume o aspecto dramático indicado. Com isso, pode-se perceber como o pecado isola a pessoa dos homens e de Deus e suas consequências são dramáticas.

“Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu”. Aquilo que o Filho sofreu foi por amor ao Pai e à humanidade, por testemunhar o verdadeiro caminho da vida em abundância da nova lei, implantada com sua palavra e ação.

Sofreu por obediência ao amor, no e com o amor. Com efeito, é o amor que expia o pecado, não a tortura, o sofrimento e a morte pela morte. Deus não é vindicativo, ou pior, desejoso do sofrimento e do sangue do Filho. Longe dele tudo isso. O sacrifício do Filho é manifestação da teimosia de Deus de permanecer no caminho certo, de mostrar a verdade da ação divina, custe o que custar.

“E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus”. A súplica, o forte clamor, as lágrimas no primeiro momento parece que não são atendidas, pois sofreu a morte. Contudo, por sua humanidade ter acolhido a dimensão divina do amor do Pai e do Espírito - o sofrimento de Jesus é o Deles, em virtude da paixão pela verdade - a potência do amor divinizou a humanidade massacrada de Jesus. É exatamente nesse amor que “foi atendido”.

Atendimento que se manifestou na continuação “ Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação para todos os que lhe obedecem”. A vitória dele sobre o pecado, pois não se dobrou a ele, é a vitória de todos os que aceitam ser representados por ele. Foi atendido no sentido que o amor é força da ressurreição da carne. Se antes podia morrer, agora não morrerá mais.

A esta singular união apontam as palavras de Jesus no evangelho.

Evangelho Jo 12,20-33

Alguns gregos - pagãos - disseram a Filipe “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”. O que poderia ser o simples interesse de encontrar uma pessoa muito nomeada pelo que está desenvolvendo, ou, tal vez, simples curiosidade se torna motivo para Jesus indicar o ver ele na sua realidade mais profunda e verdadeira. Um ver que vai muito além da experiência simplesmente humana.

Trata-se de ver ele no horizonte da glorificação, e anuncia que a hora chegou “em que o Filho do Homem - ele mesmo - vai ser glorificado”. A voz do Pai à invocação de Jesus “Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo”, indica que a santidade de Deus já está presente em Jesus por aquilo que veio desenvolvendo na sua missão, mas que ela terá uma manifestação e expressão ainda maior.

Cabe a pergunta: em que consiste a glorificação? É o que cabe da transcendência, do infinito de Deus, na pessoa humana, neste caso na pessoa humana de Jesus. Deus é infinito, nada e ninguém podem conte-lo, é como pretender conter o oceano no garrafão. Certo no garrafão está Deus, mas ele em quanto Deus é totalmente outro. Portanto, paradoxalmente se pode dizer que é e não é ao mesmo tempo. Contudo, ele está presente e salva. A glorificação é a realização e manifestação da salvação.

Jesus é a salvação de Deus por assumir o pecado do mundo. Ela se torna possível aos homens e ao mundo pelas suas palavras e ações, pois, está manifestando a gloria de Deus. Contudo, devido à força, teimosia e poder do pecado, Jesus está para experimentar na sua humanidade um salto qualitativo dela, uma nova glorificação mais surpreendente e radical. E indica o processo, as condições, o drama pessoal e o efeito social.

O processo é continuar em se manter a si mesmo firme e determinado até a morte ciente de que “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre então produz muito fruto”. A morte não é a conclusão de um desgaste natural do corpo nem um incidente de percurso, mas a resistência ativa - não se dobra - passiva - sofre as consequências - ao estilo, filosofia e organização de vida que afasta da comunhão com Deus, apesar de pretender o contrário.

As condições: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conserva-la-á para a vida eterna”. Trata-se do desapego de si mesmo, desta vida já glorificada, por assumir o estilo e a causa de Cristo “Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará”. Servo e patrão estão associados na mesma morte em virtude da afirmação e permanência na verdade, que já é adesão à maior e nova glorificação.

O drama pessoal:“Agora sinto-me angustiado. E que direi? Pai, livra-me desta hora!? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” é o correspondente à segunda leitura. Glorificar o nome é manifestar a amplitude, profundidade, grandeza e eficácia do amor. Isso converge na ressurreição.

O efeito social “É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe do mundo vai ser expulso, e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”. Vai ser expulso o pecado e o mal correspondentes naqueles que reconsideram e modelam a vida social se inspirando à experiência do crucificado. Mas com certeza vai bater de frente com a politicagem que domina a sociedade, o “chefe do mundo” expulso pela porta tem amplas e cômodas janelas para entrar. Assim, a cruz, a derrota humana, é o lugar do servo, pois, “onde eu estou estará também o meu servo” e com ela a ressurreição também.

terça-feira, 13 de março de 2012

4to DOMINGO DA QUARESMA -B- (18-03-12)

1ª leitura 2Cr 36,14-16. 19-23

O texto é uma consideração retrospectiva e releitura teológica da história de israel. Trata-se do juízo global da história do povo, afim de que os destinatários entendam o porquê e o significado do que aconteceu. E’ se aproximar da historia para apreender dela que certo e errado, pois, a experiência refletida e avaliada é fonte de sabedoria.

Destaca na primeira parte a infidelidade do povo à Aliança “Todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades”. Conscientemente imitaram “as práticas abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha santificado em Jerusalém”. O desvio foi tão marcante e incisivo que “eles zombavam dos enviados de Deus, desprezavam as suas palavras”.

O que levaram eles a esta condição não se sabe. Quais os fatores que causaram o desvio e determinaram as atuais atitudes não é dito. Só se registra o fato que a coisa se tornou insuportável por parte de Deus “Até que o furor do Senhor se levou contra o seu povo e não houve mais remédio”.

Deus se prodigou, fiz tudo o que devia e podia fazer para motivar o seu povo ao respeito da Aliança “dirigia-lhes frequentemente a palavra por meio de mensageiros, admoestando-os com solicitude todos os dias, porque tinha compaixão do seu povo e da sua própria casa”. Tudo foi em vão.

A motivação de tanta persistência é a compaixão. Deus percebe que o desfecho levará o povo sofrer consequências ruim e desastrosa. Infelizmente o povo está bem longe tomar em consideração que possa acontecer tão fechado está na própria autossuficiência e segurança.

O sofrimento de Deus se pode comparar a de um pai, cujo filho está caminho a se prejudicar enormemente e rejeita todo conselho, advertência e orientação sem acreditar que vai cair no precipício.

A desgraça do filho é come se fosse a dele. Com certeza estaria disposto a carregar com ela se com isso pudesse evitar a caída da desgraça sobre o filho. Eis então surgir a compaixão, sentimento de quem sofre como se as vísceras se contorcessem.

Deus está disposto a passar por cima da desobediência, da rebeldia, por não ter acatado a orientações respeito às exigências da Aliança, mas de nada adiantaria, o povo continuaria na mesma. O único que lhe queda é manifestar a decepção e o desespero pela teimosia do seu povo em não querer entender o ruim iminente “o furor do Senhor se levantou contra o seu povo não houve mais remédio”.

De fato, o abomino da desolação vai acontecer com a invasão de Nabucodonosor, com a destruição de Jerusalém e a deportação do povo ao exílio de Babilônia. Quando acontecer já é tarde para se arrepender e voltar atrás.

Contudo, a misericórdia de Deus prevalece e se faz presente depois do tempo previsto - setenta anos - pelo profeta com a chegada ao trono de Pérsia de Ciro. O rei, pagão, se torna o mediador da misericórdia de Deus para com o seu povo, tendo estabelecido o fim do exílio em terra estrangeira.

Eis, a continuação, o segundo êxodo, a oportunidade para voltar à terra prometida “Assim fala Ciro (...). Quem dentre de vós todos pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, esteja com ele, e que se ponha a caminho”

Infelizmente, voltando à terra prometida o povo continuará na infidelidade. Parece que esquecendo, ou deixou de lado, o ensino do desterro de novo voltará a dar as costas à Aliança.

Deus deverá intervir outra vez da maneira mais radical com a entrega do Filho, cujos efeitos são Paulo reconhece e agradece como testemunha a segunda leitura.

2da leitura Ef 2,4-10

O agir de Deus a favor da humanidade é caracterizado pelo especifico aspeto da caridade que é a misericórdia “Deus é rico em misericórdia”. Em Deus a misericórdia sempre prevalece sobre todo tipo de desgaste pessoal e do povo causada pelo pecado, pelo afastamento e irresponsabilidade com respeito à Aliança, como relacionado na primeira leitura.

A misericórdia é doada gratuitamente, cujo efeito é a salvação “E’ por graça que vós sois salvos!”. A afirmação categórica, pois aponta à nova condição que a morte de Jesus gerou naquele que, “mediante a fé” acolhe o dom. Acolher o dom supõe se perceber como se ele mesmo tivesse sido crucificado em lugar de Cristo.

O efeito é que “Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus”. Portanto surpreendentemente e com estupor os que acreditam se percebem como já sentados com Cristo, na glória do Pai, “em virtude de nossa união com Jesus Cristo”. Ter aceitado e acreditado no dom os coloca em Cristo, pois, com ele forma uma realidade só, como o amante no amado unido pelo amor.

“Assim, pela bondade que nos demonstrou em Jesus Cristo”, Deus a quis mostrar não só pela entrega do Filho, mas,ainda mais, pela radical gratuidade dela o grande amor com que nos amou “quando estávamos mortos por causa das nossas faltas”.

O povo e as autoridades não tinham nenhuma condição para entender e apreciar o que estava acontecendo a favor deles, paradoxalmente, no mesmo momento e com o mesmo ato da rejeição deles. Contudo, Deus age e completa o seu projeto de amor.

A reviravolta neles, pela qual percebem o maldito de Deus - tal era considerado o crucificado -, se tornar salvador para eles mesmos, é graça, dom, que procede de Deus “isso não vem de vós; é dom de Deus!”.

Cabe a pergunta: porque uns acreditam e outro não? O dom é só para alguns? Deus faz diferença entre uns e outros? Evidente que não. O dom é reconhecido como tal quando acolhido e aceito.

O que motiva esta atitude é a condição humana e a sede de verdade, de sentido, de plenitude, de infinito que está nela. Por outro lado, também, a consciência que a resposta não está nela, assim, a humildade – a verdade sobre si mesmo - abre a inteligência e a pessoa toda à recepção do dom de Deus.

O dom de Deus se torna eficaz pelo duplo movimento: por um lado porque procede de Deus e é Deus mesmo, e pelo outro pelo consentimento, pela colhida, por acreditar na eficácia do dom. Em síntese o duplo movimento faz parte do processo de transformação interior pelo qual, como Paulo, a pessoa afirma “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo nafé, crendo no Filho de Deus, que me amou e pro mim se entregou”( Gl 2,20).

Torna-se evidente que em primeiro termo a salvação “Não vem das obras”, como se fosse um premio pelas boas ações e o correto comportamento dentro das exigências da Aliança. Se assim fosse a salvação seria fruto das nossas mãos. Neste caso não é difícil prever o orgulho que suscitaria como anota Paulo “para que ninguém se orgulhe”.

Acolhido eficazmente o dom tem força recriadora, como um segundo e definitivo nascimento, em virtude do qual Paulo afirma “Pois é ele que nos fez; nós fomos criados em Jesus Cristo para as obras boas”.

Ser recriado em Cristo, pelo dom, nos capacita às obras boas. Portanto, os preceitos, os mandamentos, são a prova da correta transformação operada ma pessoa pelo dom do evento pascal de Cristo.

De outra maneira como seria possível amar os inimigos, fazer o bem pelos que nos odeiam? As obras boas são consequências, não causa da salvação. Obras “que Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” previa a transformação interior.

O evangelho retoma e mesmo tema.

Evangelho Jo 3,14-21

Jesus faz referencia à famosa serpente de bronze que Moises levantou no deserto, assim que todos os que olharem para ela eram salvos. Foram mordidos no meio do deserto - lugar da prova, da tentação, mas também da purificação - pela duvida, por reter que Deus os abandonou e assim entrou neles o veneno letal da desconfiança na presença e na promessa de Deus, como se tudo fosse mentira e engano. No meio do deserto, nesta condição sem futuro, sem esperança, sem meio para sobreviver, o destino é a morte certa, pois, é o que estava acontecendo.

“Do mesmo modo como Moises levantou a serpente no deserto, assim é necessário (...) para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”. Há momentos na vida muito críticos, nada está dando certo: atividades, projetos, esperanças e sonhos, tudo se azera. Isso configura o deserto no qual a pessoa se encontra sozinha.

Aí a mordida da serpente, se repete o drama do povo de séculos trás. Aí a mordida venenosa do desanimo e da depressão; do vazio e do caminhar sem rumo, sem meta, toma conta da pessoa. Não tendo como remediar e sair dessa, muitos enfraquece ao ponto de se abandonarem às atitudes e práticas autodestruidoras.

O contraveneno está em Cristo crucificado. Na cruz ele passa pela mesma experiência na forma mais radical que ser humano possa pensar. Jesus está no deserto, pois, todos o abandonaram. O povo é ausente, embora recebesse benefícios, milagres e sinais surpreendentes. Os discípulos um o traiu, outro o renegou, todos fugiram. Até a presença do Pai se escureceu pela força e o poder do pecado que agiu sobre ele e o afastou do Pai, assim como o tornou irreconhecível os olhos do mesmo Pai.

Naquilo que humanamente seria o total desespero, ele não desistiu de acreditar nele mesmo, na sua identidade e na sua missão. Podemos dizer que bebeu do próprio poço, o poço do amor à humanidade, sustentado pelos “rios de água viva (que) jorraram do seu interior”(Jo 7,37).

Não desconfiou da promessa do Pai, pois tinha a certeza que, de uma maneira ou outra, se cumprirá. Abandonado sim, mas não separado. O amor suscitou a resistência e a perseverança até o fim e se tornou nele o contraveneno eficaz à morte. Daí que a morte revela o paradoxo da vida eterna, da vida sem fim, da glória de Deus.

Contraveneno que ele já coloca no coração, na inteligência no ser humano - porque ele é ser humano - e se torna eficaz pela fé, por acreditar que assim é. A salvação do desespero está aí, em interiorizar esta condição e em acreditar na verdade. E’ preciso ter “os lhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé. Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia, e assentou-se à direita do trono de Deus”(Eb 12,2)

O que faz a diferença é exatamente isso “Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado”. Não acredita quem pratica o mal e persevera nele, estes homens “preferiram as trevas à luz”.

“Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas obras são realizadas em Deus”. Assim, as obras dele se tornam as obras de Deus, pela singular união da fé nos efeitos da morte e ressurreição, pois, o agir se torna como luz que ilumina o caminho e o sentido das ações como realidades que provem de Deus e a Ele levam.

segunda-feira, 5 de março de 2012

3ro DOMINGO DA QUARESMA -B- (11-03-12)

1ª leitura Ex 20,1-17

E’ a pagina conhecida como os dez mandamentos, que apreendemos ao catecismo e constitui referência para determinar a condição de pecador, por transgredir em forma mais o menos grave um destes mandamentos.

Os mandamentos constituem o sinal do pacto, da Aliança com Deus. Assim, quemi assume os mandamentos estabelece a Aliança com Deus. A observância deles é conferir o bom estado da Aliança.

Ela foi estabelecida no Sinai depois da poderosa intervenção de Deus libertando o povo da escravidão do Egito, e encaminhando-o ao deserto rumo à terra prometida, terra de leite e mel, metáfora para indicar a paz e harmonia com todos e com tudo.

O povo nunca deverá esquecer o que Deus operou a favor dele com a libertação do Egito. É a base para entender e acolher a Aliança “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outro Deus fora de mim”.

O amor gratuito, sem segundos fins, de Deus para com o povo que não tinha características especiais para ser eleito, mas, o contrario, era um povo pequeno e insignificante no meio dos outros, é a nascente e o eixo de todo o que segue. Fora desse amor não tem sentido nem sustentação a Aliança.

Portanto, a palavra de Deus “Não terás outro Deus fora de mim” mais que atitude ciumenta, mesmo que cabe porque o amor tem uma dimensão deste gênero “pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”, é alerta para que o povo não esqueça nem perca o alicerce, o fundamento, do pacto. Nunca houve nem haverá um Deus que se comportou para com ele como o Deus da Aliança.

E’ ensinado que transgredir os comandamentos, os termos da Aliança, é pecado. E’ assumir um comportamento que não condiz ou contrario ao que é mandado. E também que ganharemos o céu cumprindo fielmente eles, como se ao final da vida Deus tivesse que recompensar e gratificar a observância deles. Portanto, a Aliança, ou melhor, o esquecimento do sentido verdadeiro e profundo dela, se tornou como uma troca: eu respeito a tua orem e você me retribui pelo esforço e o fiel cumprimento dela.

Desta forma se introduziu um elemento de grande fragilidade na Aliança mesma. O cumprir por cumprir mesmo na perspectiva da recompensa não segura nem motiva com força o respeito dos termos da Aliança. E’ o que o povo experimentará ao longo de toda a caminhada no deserto e também após a entrada na terra prometida. Todo o Antigo Testamento testemunha a infidelidade do povo e, pelo contrário, a fidelidade de Deus à Aliança.

O que faz a diferença? Deus age por amor, porque é Amor. O povo responde por conveniência, por necessidade o por medo do castigo. Não se deixou envolver nem se mergulhou com coração agradecido e com todo o seu ser nesse amor. Não devolveu o a Deus amor com o qual foi e continua sendo amado.

Então, os comandamentos? Eles são tópicos, pontos de referencia para conferir a autenticidade e a consistência do amor a Deus, como resposta por ser amados por Ele. Esta resposta inclui simultaneamente Ele, as pessoas e a humanidade toda. As primeiras três tocam o relacionamento com ele e os outros com o próximo.

A síntese é o que está naquela tradução hebraica que já coloquei domingos anteriores. “Amaras o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente e com todas as tuas forças, e o amarás para o teu próximo como para ti mesmo”.

Constatada a fraqueza e a inconsistência do povo, Deus opta para o intervento radical, ultimo e definitivo, à qual se refere a segunda leitura.

2da leitura 1Cor 1,22-25

No Novo Testamento o sinal da Aliança é o sangue de Cristo derramado na cruz. Por isto, o evento pascal é Cristo crucificado. A libertação e salvação são obtidas mediante a fé no acontecimento da cruz, intima e profundamente ligado ao seu contrario, a ressurreição. Com a cruz se entra no coração, no mistério de Deus, se faz experiência da sabedoria de Deus.

“Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus”. No entendimento dos homes o poder divino se manifesta na faculdade de fazer milagres e a sabedoria é inteligência que penetra a profundidade da realidade e oferece novo conhecimento do mistério da vida e da criação.

Sendo Deus, por definição, Senhor de tudo e de todos, se projeta nele estas qualidades em nível de perfeição absoluta. Assim, uns o identificam com o poder milagroso e outros com a filosofia. E’ o que Paulo afirma “Os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria”. Para eles estes são sinais inconfundíveis e irrefutáveis do poder e da condição divina em quem pretende se apresentar como tal.

Paulo propõe a terceira via que ultrapassa as duas “nós, porém pregamos Cristo crucificado” . Paulo sabe que para os judeus é blasfêmia e para os gregos é simplesmente absurdo “escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos”. Contudo, ele se mantém firme e argumentará com inteligência fora do comum, como manifesta seus escritos, e em algumas circunstancias com poder verdade de sua afirmação.

Em Cristo o poder de Deus, a divindade dele, se manifesta em acolher incondicionalmente todo homem seja qual for sua condição de pecado, de pessoa corrupta, desviada, distorcida ou fragmentada. A sabedoria consiste em passar a ele a oportunidade e a condição de se reerguer, de sair do beco sem saída e de começar uma nova vida totalmente transformada e regenerada.

E’ o poder e a sabedoria do Amor, pois, Deus é amor. Em Cristo estes dois aspectos se atualizam e Paulo tem experiência deles a partir de sua surpreendente conversão entrando na cidade de Damasco. Ficou tão abalado e desconcertado que ficou por três dias sem entender nada, até que foi batizado por Ananias e se percebeu como um ser totalmente transformado.

À luz desta experiência eis o surgir nele o novo entendimento pelo qual se atreve afirmar com firmeza e ousadia “o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.

Portanto, tem que buscar a divindade no amor com o qual ele nos ama, não nos milagres ou na sabedoria humana. Jesus mesmo tinha alertado ao respeito “Naquele dia, muito vão me dizer: Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? Então eu lhes direi publicamente: ‘ Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal’”(Mt 7,22-23)

Retornar a buscar o divino no Jesus milagreiro ou como transmissor de um conhecimento intelectual superior é reconduzi-lo dentro os esquemas que desvirtuam sua verdadeira missão e identidade.

O Evangelho Jesus alerta sobre este perigo.

Evangelho Jo 2,13-25

“Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: ‘O zelo por tua casa me consumirá’”. O zelo é amor solicito e atento em desenvolver plenamente sua atividade voltada para a casa, ou seja, a restauração, o resgate do povo. Com efeito, o povo deve-se tornar a casa o templo onde ele mora pela pratica do direito e da justiça, manifestação do amor, do cuidado de Deus para as obras de suas mãos.

Para Jesus perceber que desvirtuaram a casa de Deus em comercio “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comercio!” era demais, algo insuportável, mesmo que o comercio dos animais a troca das moedas eram necessárias aos primeiros para o culto, e as segundas para oferecer o dízimo, pois, no tesouro do templo não podia entrar meda impura, qual era amoeda estrangeira.

Também hoje é insuportável para Deus fazer da humanidade toda, que é a sua casa, o lugar do comercio vendo à múltiplas formas de corrupção, exploração, de especulação financeira por parte de gente e lobby sem escrúpulos nenhum, só voltados à avidez do dinheiro, pois nem precisam de máscara, pois, a lei do livre mercado justifica tudo.

Cabe se perguntar: Em que consistiria o equivalente do gesto de Jesus? Quem teria a autoridade, determinação e força para colocar um gesto chocante como o dele e dizer : chega, assim não pode continuar! Pois o verdadeiro culto para Deus é a pratica do direito e da justiça, o cumprimento das exigências da nova e eterna Aliança.

Será que a Igreja esta muito voltados para os milagres, as devoções, as romarias, às palavras bonitas, profundas e inteligentes, deixando o papel profético que foi de Jesus em segundo lugar, motivando o afastamento como necessária atitude para não mexer com a política, por não ser âmbito da competência dos pastores mas só dos leigos? Não é abandonar os leigos para o compromisso sem condição de sustentar as dificuldades, pelos motivos bem conhecidos? O “zelo” não chega até ai?

A atitude tão ousada e desconcertante de Jesus suscitou, evidentemente, a reação, pois, só o Messias, o enviado de Deus, teria autoridade para fazer o que fiz “ Então os judeus perguntaram a Jesus: ‘Que sinal nos mostras para agir assim?’”.

A resposta os deixou ainda mais desconcertados “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei”. Terão pensado num louco. E também os apóstolos ficaram sem entender, pois, o evangelista anota que entenderam após a ressurreição “Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele”.

Em outra passagem do evangelho, Jesus falando da destruição do templo de Jerusalém dirá que não ficará pedra sobre pedra, significando que a separação de uma pedra da outra será de tal maneira que não se poderá recompor, ou seja, voltar atrás.

Assim, o evento pascal será o ponto de não retorno, não tanto para Deus que sempre foi fiel, mas pelos que aceitarão pela fé os efeitos dele. “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5), as antigas já passaram. O cristão tem seu ponto de partida e de identidade nos efeitos deste dom e o ponto de chegada à plenitude do mesmo dom com a vinda do ressuscitado.

Por isso Jesus, bem continuando em colocar sinais para o povo, para mostrar que tem autoridade e competência em ser ouvido e acreditado, não dará importância à manifestação deles “Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome”.

“Jesus não lhes dava crédito (...) ele conhecia o homem por dentro”,pois, só a conversão gerada pelo, pela nova Lei do Amor - síntese do decálogo - até o dom da vida ,que ele estava realizando na sua pessoa, e o envolvimento nos seus efeitos passariam a firmeza e a consistência que os sinais, os milagres, nunca podiam transmitir.