1ª leitura 2Cr 36,14-16. 19-23
O texto é uma consideração retrospectiva e releitura teológica da história de israel. Trata-se do juízo global da história do povo, afim de que os destinatários entendam o porquê e o significado do que aconteceu. E’ se aproximar da historia para apreender dela que certo e errado, pois, a experiência refletida e avaliada é fonte de sabedoria.
Destaca na primeira parte a infidelidade do povo à Aliança “Todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades”. Conscientemente imitaram “as práticas abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha santificado em Jerusalém”. O desvio foi tão marcante e incisivo que “eles zombavam dos enviados de Deus, desprezavam as suas palavras”.
O que levaram eles a esta condição não se sabe. Quais os fatores que causaram o desvio e determinaram as atuais atitudes não é dito. Só se registra o fato que a coisa se tornou insuportável por parte de Deus “Até que o furor do Senhor se levou contra o seu povo e não houve mais remédio”.
Deus se prodigou, fiz tudo o que devia e podia fazer para motivar o seu povo ao respeito da Aliança “dirigia-lhes frequentemente a palavra por meio de mensageiros, admoestando-os com solicitude todos os dias, porque tinha compaixão do seu povo e da sua própria casa”. Tudo foi em vão.
A motivação de tanta persistência é a compaixão. Deus percebe que o desfecho levará o povo sofrer consequências ruim e desastrosa. Infelizmente o povo está bem longe tomar em consideração que possa acontecer tão fechado está na própria autossuficiência e segurança.
O sofrimento de Deus se pode comparar a de um pai, cujo filho está caminho a se prejudicar enormemente e rejeita todo conselho, advertência e orientação sem acreditar que vai cair no precipício.
A desgraça do filho é come se fosse a dele. Com certeza estaria disposto a carregar com ela se com isso pudesse evitar a caída da desgraça sobre o filho. Eis então surgir a compaixão, sentimento de quem sofre como se as vísceras se contorcessem.
Deus está disposto a passar por cima da desobediência, da rebeldia, por não ter acatado a orientações respeito às exigências da Aliança, mas de nada adiantaria, o povo continuaria na mesma. O único que lhe queda é manifestar a decepção e o desespero pela teimosia do seu povo em não querer entender o ruim iminente “o furor do Senhor se levantou contra o seu povo não houve mais remédio”.
De fato, o abomino da desolação vai acontecer com a invasão de Nabucodonosor, com a destruição de Jerusalém e a deportação do povo ao exílio de Babilônia. Quando acontecer já é tarde para se arrepender e voltar atrás.
Contudo, a misericórdia de Deus prevalece e se faz presente depois do tempo previsto - setenta anos - pelo profeta com a chegada ao trono de Pérsia de Ciro. O rei, pagão, se torna o mediador da misericórdia de Deus para com o seu povo, tendo estabelecido o fim do exílio em terra estrangeira.
Eis, a continuação, o segundo êxodo, a oportunidade para voltar à terra prometida “Assim fala Ciro (...). Quem dentre de vós todos pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, esteja com ele, e que se ponha a caminho”
Infelizmente, voltando à terra prometida o povo continuará na infidelidade. Parece que esquecendo, ou deixou de lado, o ensino do desterro de novo voltará a dar as costas à Aliança.
Deus deverá intervir outra vez da maneira mais radical com a entrega do Filho, cujos efeitos são Paulo reconhece e agradece como testemunha a segunda leitura.
2da leitura Ef 2,4-10
O agir de Deus a favor da humanidade é caracterizado pelo especifico aspeto da caridade que é a misericórdia “Deus é rico em misericórdia”. Em Deus a misericórdia sempre prevalece sobre todo tipo de desgaste pessoal e do povo causada pelo pecado, pelo afastamento e irresponsabilidade com respeito à Aliança, como relacionado na primeira leitura.
A misericórdia é doada gratuitamente, cujo efeito é a salvação “E’ por graça que vós sois salvos!”. A afirmação categórica, pois aponta à nova condição que a morte de Jesus gerou naquele que, “mediante a fé” acolhe o dom. Acolher o dom supõe se perceber como se ele mesmo tivesse sido crucificado em lugar de Cristo.
O efeito é que “Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus”. Portanto surpreendentemente e com estupor os que acreditam se percebem como já sentados com Cristo, na glória do Pai, “em virtude de nossa união com Jesus Cristo”. Ter aceitado e acreditado no dom os coloca em Cristo, pois, com ele forma uma realidade só, como o amante no amado unido pelo amor.
“Assim, pela bondade que nos demonstrou em Jesus Cristo”, Deus a quis mostrar não só pela entrega do Filho, mas,ainda mais, pela radical gratuidade dela o grande amor com que nos amou “quando estávamos mortos por causa das nossas faltas”.
O povo e as autoridades não tinham nenhuma condição para entender e apreciar o que estava acontecendo a favor deles, paradoxalmente, no mesmo momento e com o mesmo ato da rejeição deles. Contudo, Deus age e completa o seu projeto de amor.
A reviravolta neles, pela qual percebem o maldito de Deus - tal era considerado o crucificado -, se tornar salvador para eles mesmos, é graça, dom, que procede de Deus “isso não vem de vós; é dom de Deus!”.
Cabe a pergunta: porque uns acreditam e outro não? O dom é só para alguns? Deus faz diferença entre uns e outros? Evidente que não. O dom é reconhecido como tal quando acolhido e aceito.
O que motiva esta atitude é a condição humana e a sede de verdade, de sentido, de plenitude, de infinito que está nela. Por outro lado, também, a consciência que a resposta não está nela, assim, a humildade – a verdade sobre si mesmo - abre a inteligência e a pessoa toda à recepção do dom de Deus.
O dom de Deus se torna eficaz pelo duplo movimento: por um lado porque procede de Deus e é Deus mesmo, e pelo outro pelo consentimento, pela colhida, por acreditar na eficácia do dom. Em síntese o duplo movimento faz parte do processo de transformação interior pelo qual, como Paulo, a pessoa afirma “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo nafé, crendo no Filho de Deus, que me amou e pro mim se entregou”( Gl 2,20).
Torna-se evidente que em primeiro termo a salvação “Não vem das obras”, como se fosse um premio pelas boas ações e o correto comportamento dentro das exigências da Aliança. Se assim fosse a salvação seria fruto das nossas mãos. Neste caso não é difícil prever o orgulho que suscitaria como anota Paulo “para que ninguém se orgulhe”.
Acolhido eficazmente o dom tem força recriadora, como um segundo e definitivo nascimento, em virtude do qual Paulo afirma “Pois é ele que nos fez; nós fomos criados em Jesus Cristo para as obras boas”.
Ser recriado em Cristo, pelo dom, nos capacita às obras boas. Portanto, os preceitos, os mandamentos, são a prova da correta transformação operada ma pessoa pelo dom do evento pascal de Cristo.
De outra maneira como seria possível amar os inimigos, fazer o bem pelos que nos odeiam? As obras boas são consequências, não causa da salvação. Obras “que Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” previa a transformação interior.
O evangelho retoma e mesmo tema.
Evangelho Jo 3,14-21
Jesus faz referencia à famosa serpente de bronze que Moises levantou no deserto, assim que todos os que olharem para ela eram salvos. Foram mordidos no meio do deserto - lugar da prova, da tentação, mas também da purificação - pela duvida, por reter que Deus os abandonou e assim entrou neles o veneno letal da desconfiança na presença e na promessa de Deus, como se tudo fosse mentira e engano. No meio do deserto, nesta condição sem futuro, sem esperança, sem meio para sobreviver, o destino é a morte certa, pois, é o que estava acontecendo.
“Do mesmo modo como Moises levantou a serpente no deserto, assim é necessário (...) para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”. Há momentos na vida muito críticos, nada está dando certo: atividades, projetos, esperanças e sonhos, tudo se azera. Isso configura o deserto no qual a pessoa se encontra sozinha.
Aí a mordida da serpente, se repete o drama do povo de séculos trás. Aí a mordida venenosa do desanimo e da depressão; do vazio e do caminhar sem rumo, sem meta, toma conta da pessoa. Não tendo como remediar e sair dessa, muitos enfraquece ao ponto de se abandonarem às atitudes e práticas autodestruidoras.
O contraveneno está em Cristo crucificado. Na cruz ele passa pela mesma experiência na forma mais radical que ser humano possa pensar. Jesus está no deserto, pois, todos o abandonaram. O povo é ausente, embora recebesse benefícios, milagres e sinais surpreendentes. Os discípulos um o traiu, outro o renegou, todos fugiram. Até a presença do Pai se escureceu pela força e o poder do pecado que agiu sobre ele e o afastou do Pai, assim como o tornou irreconhecível os olhos do mesmo Pai.
Naquilo que humanamente seria o total desespero, ele não desistiu de acreditar nele mesmo, na sua identidade e na sua missão. Podemos dizer que bebeu do próprio poço, o poço do amor à humanidade, sustentado pelos “rios de água viva (que) jorraram do seu interior”(Jo 7,37).
Não desconfiou da promessa do Pai, pois tinha a certeza que, de uma maneira ou outra, se cumprirá. Abandonado sim, mas não separado. O amor suscitou a resistência e a perseverança até o fim e se tornou nele o contraveneno eficaz à morte. Daí que a morte revela o paradoxo da vida eterna, da vida sem fim, da glória de Deus.
Contraveneno que ele já coloca no coração, na inteligência no ser humano - porque ele é ser humano - e se torna eficaz pela fé, por acreditar que assim é. A salvação do desespero está aí, em interiorizar esta condição e em acreditar na verdade. E’ preciso ter “os lhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé. Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia, e assentou-se à direita do trono de Deus”(Eb 12,2)
O que faz a diferença é exatamente isso “Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado”. Não acredita quem pratica o mal e persevera nele, estes homens “preferiram as trevas à luz”.
“Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas obras são realizadas em Deus”. Assim, as obras dele se tornam as obras de Deus, pela singular união da fé nos efeitos da morte e ressurreição, pois, o agir se torna como luz que ilumina o caminho e o sentido das ações como realidades que provem de Deus e a Ele levam.
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