1ª leitura Jr 31, 31-34
O Senhor, analisando retrospectivamente a historia e a atualidade do povo de Israel com respeito ao comprimento da Aliança, comunica, por meio do profeta, sua amargura, desilusão e defraudação com respeito ao cumprimento dela, pois, “eles a violaram”, não a respeitaram e não se comportaram corretamente.
Parece-me que Deus, no avaliar as causas, se atribui como um defeito, uma carência no proceder dele. Valeu-se do seu poder e força para que o povo a respeitasse “eu fiz valer a força sobre eles” e, apesar dele agir com determinação e força, de nada adiantou.
Então, olha para frente, para o futuro, e promete “Eis que virão dias (...) em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança”. O termo, o sinal dela- a Lei - não será escrito nas tábuas de pedra, algo exterior à pessoa, mas, diz o Senhor “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração”.
O coração é o centro vital da pessoa, é a sede da inteligência e do afeto, no nosso entendimento. Portanto ela se tornará como algo constitutivo, profundo e inseparável da pessoa. Impossível ignorar ou não prestar atenção a ela. Possível é tirar, afastar ela do próprio coração, porque seduzido ou fascinado por outras leis.
É a última chance que Deus joga a favor do seu povo. Se der certo – pelas pessoas que derem certo – diz Deus “serei seu Deus e eles serão meu povo”. O casamento será completo e definitivo, uma vez para sempre de ambas as partes.
Nesta nova condição “Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor! ’”, pois a comunhão, a familiaridade, a intimidade e amizade é o que elabora, em termos de meios e condições, toda instrução e a meta do conhecimento.
Portanto, pela Bíblia, conhecer não é só uma aprendizagem de como proceder ou do que fazer, mas a qualidade do relacionamento. De imediato, se entende que não terá fim, pois, não nos conhecemos a nós mesmos, imagina se dá para conhecer o outro e os outros, com as novidades e diferenças que os sustentam e acompanham. É um processo que não termina nunca.
Este conhecimento é elaborado no coração, pois, envolve a pessoa toda, sua história passada, o presente - no momento mesmo de se aproximar um ao outro - e também o futuro, no seu componente de sonho, de projeto e, sobretudo, de destino e meta.
Com isso, Deus incentiva e anima cada pessoa, a comunidade e a humanidade toda, rumo ao sentido pleno da vida, resumido naquela famosa frase do filosofo “penso, portanto existo” com uma modificação “amo, portanto existo”. Este segundo aspecto não faz diferença para com ninguém e está ao alcance de todos, indistintamente. É de imediata compreensão e execução, pois é o que a aliança deposita no coração, no profundo do ser humano. Daí que o texto afirma “Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles”.
O certo do processo é o perdão “ pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”. Com efeito, o perdão - o dom para ... - oferece o dom da escuta, do acolhimento, da transparência, da comunhão na busca da verdade, de caminhar lado ao lado na pratica da justiça e do direito, deixando para trás as experiências negativas, frustrante, e até dolorosas.
Trata-se da vontade de recomeçar, de colocar uma pedra sobre o passado. Certo que na pessoa as experiências negativas ficam na memória, pois são indeléveis, mas são como feridas fechadas, cicatrizadas. A pessoa olha para elas, mas não produzem dor. Pertencem ao passado e ficam no passado.
Então o perdão é regeneração, um novo nascer, abre um futuro cheio de esperança, a vontade de redesenhar os relacionamentos, a vida mesma, aproveitando-se, também, das experiências negativas do passado.
Tudo isso porque há uma verdade que ultrapassa os limites, os erros, as fraquezas dos relacionamentos humanos. Ela sempre interpela, motiva e incentiva a não ficar parado, bloqueado, desanimado, pelo contrário, puxa para retomar e recomeçar . A força da verdade é inscrita no coração do homem em virtude da Aliança estabelecida.
É a mesma que sustenta Cristo no momento mais dramático da vida dele ao qual se refere a segunda leitura.
2da leitura Hb 5,7-9
O trecho é de grandíssima importância e se refere a Jesus no Jardim das Oliveiras, na quinta feira santa, “nos dias de sua vida terrestre”, no começo da Paixão. Os evangelhos relatam o que aconteceu, algumas palavras deles, assim como a angústia até suar sangue.
Este texto é outra versão da famosa súplica “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!” (Lc 22,42), e manifesta com desconcertante crueza o estado de ânimo de Jesus que “dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte”.
Talvez surpreenda esta atitude de Jesus. É opinião comum que, sendo Filho de Deus, sabia o que ia acontecer, pois, faz parte da missão dele, assumida deliberadamente, para isso veio ao mundo. Mesmo assim, a reação dele tão dramática evidencia como ter carregado sobre si mesmo o pecado do povo - a desconfiança, indiferença, desinteresse, oposição e rejeição do que ele ia apresentando e propondo – constitui uma experiência tão desconcertante e dramática cuja expressão e reação assumem tais aspectos.
Pode-se entender o tamanho da reação considerando que o pecado o afasta dos homens por ser blasfemo, e também o afasta de Deus, por representar, perante o Pai, a humanidade pecadora, cujo efeito é o afastamento. Este duplo afastamento assume o aspecto dramático indicado. Com isso, pode-se perceber como o pecado isola a pessoa dos homens e de Deus e suas consequências são dramáticas.
“Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu”. Aquilo que o Filho sofreu foi por amor ao Pai e à humanidade, por testemunhar o verdadeiro caminho da vida em abundância da nova lei, implantada com sua palavra e ação.
Sofreu por obediência ao amor, no e com o amor. Com efeito, é o amor que expia o pecado, não a tortura, o sofrimento e a morte pela morte. Deus não é vindicativo, ou pior, desejoso do sofrimento e do sangue do Filho. Longe dele tudo isso. O sacrifício do Filho é manifestação da teimosia de Deus de permanecer no caminho certo, de mostrar a verdade da ação divina, custe o que custar.
“E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus”. A súplica, o forte clamor, as lágrimas no primeiro momento parece que não são atendidas, pois sofreu a morte. Contudo, por sua humanidade ter acolhido a dimensão divina do amor do Pai e do Espírito - o sofrimento de Jesus é o Deles, em virtude da paixão pela verdade - a potência do amor divinizou a humanidade massacrada de Jesus. É exatamente nesse amor que “foi atendido”.
Atendimento que se manifestou na continuação “ Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação para todos os que lhe obedecem”. A vitória dele sobre o pecado, pois não se dobrou a ele, é a vitória de todos os que aceitam ser representados por ele. Foi atendido no sentido que o amor é força da ressurreição da carne. Se antes podia morrer, agora não morrerá mais.
A esta singular união apontam as palavras de Jesus no evangelho.
Evangelho Jo 12,20-33
Alguns gregos - pagãos - disseram a Filipe “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”. O que poderia ser o simples interesse de encontrar uma pessoa muito nomeada pelo que está desenvolvendo, ou, tal vez, simples curiosidade se torna motivo para Jesus indicar o ver ele na sua realidade mais profunda e verdadeira. Um ver que vai muito além da experiência simplesmente humana.
Trata-se de ver ele no horizonte da glorificação, e anuncia que a hora chegou “em que o Filho do Homem - ele mesmo - vai ser glorificado”. A voz do Pai à invocação de Jesus “Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo”, indica que a santidade de Deus já está presente em Jesus por aquilo que veio desenvolvendo na sua missão, mas que ela terá uma manifestação e expressão ainda maior.
Cabe a pergunta: em que consiste a glorificação? É o que cabe da transcendência, do infinito de Deus, na pessoa humana, neste caso na pessoa humana de Jesus. Deus é infinito, nada e ninguém podem conte-lo, é como pretender conter o oceano no garrafão. Certo no garrafão está Deus, mas ele em quanto Deus é totalmente outro. Portanto, paradoxalmente se pode dizer que é e não é ao mesmo tempo. Contudo, ele está presente e salva. A glorificação é a realização e manifestação da salvação.
Jesus é a salvação de Deus por assumir o pecado do mundo. Ela se torna possível aos homens e ao mundo pelas suas palavras e ações, pois, está manifestando a gloria de Deus. Contudo, devido à força, teimosia e poder do pecado, Jesus está para experimentar na sua humanidade um salto qualitativo dela, uma nova glorificação mais surpreendente e radical. E indica o processo, as condições, o drama pessoal e o efeito social.
O processo é continuar em se manter a si mesmo firme e determinado até a morte ciente de que “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre então produz muito fruto”. A morte não é a conclusão de um desgaste natural do corpo nem um incidente de percurso, mas a resistência ativa - não se dobra - passiva - sofre as consequências - ao estilo, filosofia e organização de vida que afasta da comunhão com Deus, apesar de pretender o contrário.
As condições: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conserva-la-á para a vida eterna”. Trata-se do desapego de si mesmo, desta vida já glorificada, por assumir o estilo e a causa de Cristo “Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará”. Servo e patrão estão associados na mesma morte em virtude da afirmação e permanência na verdade, que já é adesão à maior e nova glorificação.
O drama pessoal:“Agora sinto-me angustiado. E que direi? Pai, livra-me desta hora!? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” é o correspondente à segunda leitura. Glorificar o nome é manifestar a amplitude, profundidade, grandeza e eficácia do amor. Isso converge na ressurreição.
O efeito social “É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe do mundo vai ser expulso, e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”. Vai ser expulso o pecado e o mal correspondentes naqueles que reconsideram e modelam a vida social se inspirando à experiência do crucificado. Mas com certeza vai bater de frente com a politicagem que domina a sociedade, o “chefe do mundo” expulso pela porta tem amplas e cômodas janelas para entrar. Assim, a cruz, a derrota humana, é o lugar do servo, pois, “onde eu estou estará também o meu servo” e com ela a ressurreição também.
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