segunda-feira, 5 de março de 2012

3ro DOMINGO DA QUARESMA -B- (11-03-12)

1ª leitura Ex 20,1-17

E’ a pagina conhecida como os dez mandamentos, que apreendemos ao catecismo e constitui referência para determinar a condição de pecador, por transgredir em forma mais o menos grave um destes mandamentos.

Os mandamentos constituem o sinal do pacto, da Aliança com Deus. Assim, quemi assume os mandamentos estabelece a Aliança com Deus. A observância deles é conferir o bom estado da Aliança.

Ela foi estabelecida no Sinai depois da poderosa intervenção de Deus libertando o povo da escravidão do Egito, e encaminhando-o ao deserto rumo à terra prometida, terra de leite e mel, metáfora para indicar a paz e harmonia com todos e com tudo.

O povo nunca deverá esquecer o que Deus operou a favor dele com a libertação do Egito. É a base para entender e acolher a Aliança “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outro Deus fora de mim”.

O amor gratuito, sem segundos fins, de Deus para com o povo que não tinha características especiais para ser eleito, mas, o contrario, era um povo pequeno e insignificante no meio dos outros, é a nascente e o eixo de todo o que segue. Fora desse amor não tem sentido nem sustentação a Aliança.

Portanto, a palavra de Deus “Não terás outro Deus fora de mim” mais que atitude ciumenta, mesmo que cabe porque o amor tem uma dimensão deste gênero “pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento”, é alerta para que o povo não esqueça nem perca o alicerce, o fundamento, do pacto. Nunca houve nem haverá um Deus que se comportou para com ele como o Deus da Aliança.

E’ ensinado que transgredir os comandamentos, os termos da Aliança, é pecado. E’ assumir um comportamento que não condiz ou contrario ao que é mandado. E também que ganharemos o céu cumprindo fielmente eles, como se ao final da vida Deus tivesse que recompensar e gratificar a observância deles. Portanto, a Aliança, ou melhor, o esquecimento do sentido verdadeiro e profundo dela, se tornou como uma troca: eu respeito a tua orem e você me retribui pelo esforço e o fiel cumprimento dela.

Desta forma se introduziu um elemento de grande fragilidade na Aliança mesma. O cumprir por cumprir mesmo na perspectiva da recompensa não segura nem motiva com força o respeito dos termos da Aliança. E’ o que o povo experimentará ao longo de toda a caminhada no deserto e também após a entrada na terra prometida. Todo o Antigo Testamento testemunha a infidelidade do povo e, pelo contrário, a fidelidade de Deus à Aliança.

O que faz a diferença? Deus age por amor, porque é Amor. O povo responde por conveniência, por necessidade o por medo do castigo. Não se deixou envolver nem se mergulhou com coração agradecido e com todo o seu ser nesse amor. Não devolveu o a Deus amor com o qual foi e continua sendo amado.

Então, os comandamentos? Eles são tópicos, pontos de referencia para conferir a autenticidade e a consistência do amor a Deus, como resposta por ser amados por Ele. Esta resposta inclui simultaneamente Ele, as pessoas e a humanidade toda. As primeiras três tocam o relacionamento com ele e os outros com o próximo.

A síntese é o que está naquela tradução hebraica que já coloquei domingos anteriores. “Amaras o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente e com todas as tuas forças, e o amarás para o teu próximo como para ti mesmo”.

Constatada a fraqueza e a inconsistência do povo, Deus opta para o intervento radical, ultimo e definitivo, à qual se refere a segunda leitura.

2da leitura 1Cor 1,22-25

No Novo Testamento o sinal da Aliança é o sangue de Cristo derramado na cruz. Por isto, o evento pascal é Cristo crucificado. A libertação e salvação são obtidas mediante a fé no acontecimento da cruz, intima e profundamente ligado ao seu contrario, a ressurreição. Com a cruz se entra no coração, no mistério de Deus, se faz experiência da sabedoria de Deus.

“Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus”. No entendimento dos homes o poder divino se manifesta na faculdade de fazer milagres e a sabedoria é inteligência que penetra a profundidade da realidade e oferece novo conhecimento do mistério da vida e da criação.

Sendo Deus, por definição, Senhor de tudo e de todos, se projeta nele estas qualidades em nível de perfeição absoluta. Assim, uns o identificam com o poder milagroso e outros com a filosofia. E’ o que Paulo afirma “Os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria”. Para eles estes são sinais inconfundíveis e irrefutáveis do poder e da condição divina em quem pretende se apresentar como tal.

Paulo propõe a terceira via que ultrapassa as duas “nós, porém pregamos Cristo crucificado” . Paulo sabe que para os judeus é blasfêmia e para os gregos é simplesmente absurdo “escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos”. Contudo, ele se mantém firme e argumentará com inteligência fora do comum, como manifesta seus escritos, e em algumas circunstancias com poder verdade de sua afirmação.

Em Cristo o poder de Deus, a divindade dele, se manifesta em acolher incondicionalmente todo homem seja qual for sua condição de pecado, de pessoa corrupta, desviada, distorcida ou fragmentada. A sabedoria consiste em passar a ele a oportunidade e a condição de se reerguer, de sair do beco sem saída e de começar uma nova vida totalmente transformada e regenerada.

E’ o poder e a sabedoria do Amor, pois, Deus é amor. Em Cristo estes dois aspectos se atualizam e Paulo tem experiência deles a partir de sua surpreendente conversão entrando na cidade de Damasco. Ficou tão abalado e desconcertado que ficou por três dias sem entender nada, até que foi batizado por Ananias e se percebeu como um ser totalmente transformado.

À luz desta experiência eis o surgir nele o novo entendimento pelo qual se atreve afirmar com firmeza e ousadia “o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.

Portanto, tem que buscar a divindade no amor com o qual ele nos ama, não nos milagres ou na sabedoria humana. Jesus mesmo tinha alertado ao respeito “Naquele dia, muito vão me dizer: Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? Então eu lhes direi publicamente: ‘ Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal’”(Mt 7,22-23)

Retornar a buscar o divino no Jesus milagreiro ou como transmissor de um conhecimento intelectual superior é reconduzi-lo dentro os esquemas que desvirtuam sua verdadeira missão e identidade.

O Evangelho Jesus alerta sobre este perigo.

Evangelho Jo 2,13-25

“Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: ‘O zelo por tua casa me consumirá’”. O zelo é amor solicito e atento em desenvolver plenamente sua atividade voltada para a casa, ou seja, a restauração, o resgate do povo. Com efeito, o povo deve-se tornar a casa o templo onde ele mora pela pratica do direito e da justiça, manifestação do amor, do cuidado de Deus para as obras de suas mãos.

Para Jesus perceber que desvirtuaram a casa de Deus em comercio “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comercio!” era demais, algo insuportável, mesmo que o comercio dos animais a troca das moedas eram necessárias aos primeiros para o culto, e as segundas para oferecer o dízimo, pois, no tesouro do templo não podia entrar meda impura, qual era amoeda estrangeira.

Também hoje é insuportável para Deus fazer da humanidade toda, que é a sua casa, o lugar do comercio vendo à múltiplas formas de corrupção, exploração, de especulação financeira por parte de gente e lobby sem escrúpulos nenhum, só voltados à avidez do dinheiro, pois nem precisam de máscara, pois, a lei do livre mercado justifica tudo.

Cabe se perguntar: Em que consistiria o equivalente do gesto de Jesus? Quem teria a autoridade, determinação e força para colocar um gesto chocante como o dele e dizer : chega, assim não pode continuar! Pois o verdadeiro culto para Deus é a pratica do direito e da justiça, o cumprimento das exigências da nova e eterna Aliança.

Será que a Igreja esta muito voltados para os milagres, as devoções, as romarias, às palavras bonitas, profundas e inteligentes, deixando o papel profético que foi de Jesus em segundo lugar, motivando o afastamento como necessária atitude para não mexer com a política, por não ser âmbito da competência dos pastores mas só dos leigos? Não é abandonar os leigos para o compromisso sem condição de sustentar as dificuldades, pelos motivos bem conhecidos? O “zelo” não chega até ai?

A atitude tão ousada e desconcertante de Jesus suscitou, evidentemente, a reação, pois, só o Messias, o enviado de Deus, teria autoridade para fazer o que fiz “ Então os judeus perguntaram a Jesus: ‘Que sinal nos mostras para agir assim?’”.

A resposta os deixou ainda mais desconcertados “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei”. Terão pensado num louco. E também os apóstolos ficaram sem entender, pois, o evangelista anota que entenderam após a ressurreição “Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele”.

Em outra passagem do evangelho, Jesus falando da destruição do templo de Jerusalém dirá que não ficará pedra sobre pedra, significando que a separação de uma pedra da outra será de tal maneira que não se poderá recompor, ou seja, voltar atrás.

Assim, o evento pascal será o ponto de não retorno, não tanto para Deus que sempre foi fiel, mas pelos que aceitarão pela fé os efeitos dele. “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5), as antigas já passaram. O cristão tem seu ponto de partida e de identidade nos efeitos deste dom e o ponto de chegada à plenitude do mesmo dom com a vinda do ressuscitado.

Por isso Jesus, bem continuando em colocar sinais para o povo, para mostrar que tem autoridade e competência em ser ouvido e acreditado, não dará importância à manifestação deles “Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome”.

“Jesus não lhes dava crédito (...) ele conhecia o homem por dentro”,pois, só a conversão gerada pelo, pela nova Lei do Amor - síntese do decálogo - até o dom da vida ,que ele estava realizando na sua pessoa, e o envolvimento nos seus efeitos passariam a firmeza e a consistência que os sinais, os milagres, nunca podiam transmitir.

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