segunda-feira, 26 de março de 2012

DOMINGO DE RAMOS -B- (01-04-12)

1a leitura Is 50,4-7

Com o terceiro cântico do “Servo de Javé”, do profeta Isaias, começa a Semana Santa. A figura do Servo de Javé é descrita nos quatro cânticos. Do terceiro é tirado o texto desta primeira leitura. (É muito importante ler e meditar conjuntamente aos outros três: Is 42,1-9; 49,1-9 e 52,13 até o final do cap.53). É a figura de um sujeito (uma pessoa, mas, alguns estudiosos dizem que é um “resto” fiel do povo de Israel) chamado, ungido, pelo Espírito. Ele, conforme a vontade de Deus deverá sofrer e entregar sua vida para resgatar e salvar o povo e a humanidade. Após a morte e ressurreição de Jesus, os discípulos e os apóstolos identificarão este personagem com Jesus mesmo.

Neste texto, o sujeito é claramente uma pessoa. Ela é diariamente instruída por Deus “O Senhor Deus deu-me língua adestrada (...) ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido” e ao mesmo tempo estimulada e motivada a prestar atenção. Não se trata de ouvir por ouvir nem para agradar, mas de “prestar atenção como um discípulo”, como quem apreende para praticar. Com efeito, a primeira atitude do discípulo é a de escutar com todo o coração, com toda a alma e com todo o ser. (Como não pensar ao relato evangélico de Marta e Maria, no qual Jesus elogia Maria por estar aos pés Dele escutando, tornando-se, desta forma, uma discípula!) O escutar é para “ que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida” e assim desenvolver corretamente a missão.

Missão que apresenta um aspecto, pelo menos, desconcertante: “ O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás” Pelo que se refere a Jesus, foi nas tentações no deserto que entendeu como as palavras de conforto as pessoas abatidas passavam uma lógica e uma expectativa totalmente contrárias ao desejo e entendimento dos ouvintes, e como as mesmas os teriam levado diretamente à cruz. Contudo, Ele não voltou atrás. Foi corajoso e decididamente para frente, até o fim.

Eis, então, a rejeição dramática, humilhante e de grande sofrimento “ Ofereci as costas para que me baterem e as faces para que me arrancarem a barba; não desviei o rosto dos bofetões e cusparadas”. Gestos e atitudes de grande desprezo. Foram interpretados pelos presentes - no caso de Jesus- como prova do abandono de Deus, por tê-lo blasfemado com suas palavras e pretensões messiânicas.

Notável a reação do Servo de Javé: “Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o animo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não serei humilhado” É surpreendente não se sentir humilhado nem abatido naquela situação e sofrendo daquela forma, se não for pelo auxílio do Senhor. Em que consistiu o auxílio não é especificado. Tal vez, podemos supor na base do fato que não se deixou abater nem se sentiu humilhado, que teve a percepção no profundo do ser de algo como “o poder de uma vida indestrutível” (Hb.7,16).

Esta percepção foi como a seiva da árvore que sustentou e motivou a radical fidelidade dele. Portanto, no momento da máxima provação, se tornou manifesta e geradora dos estados de animo indicados. Parece-me que a “vida indestrutível” se deve, é como o reflexo da fidelidade à missão. Assim, da para afirmar que o Servo de Javé tem acesso à transcendência e à experiência de Deus, no profundo do próprio ser, pela radical fidelidade na pratica do amor, pelo constante exercício da misericórdia e compaixão para com aqueles que estavam sem esperança. Pois o que salva não é o sofrimento pelo sofrimento, mas o amo - a verdade do próprio ser e da ação correspondente - que não deixa de se manifestar mesmo nas condições trágicas da rejeição.

Tudo isso bate com a experiência de Jesus que são Paulo sintetiza magistralmente na segunda leitura.

2da leitura Fl 2,6-11

É o hino dos primeiros cristão (o cantavam na liturgia?) que sintetiza a figura, o alcance e o significado da missão de Jesus. Muito foi escrito e muito se escreverá sobre ele, pela importância do conteúdo. É um texto que todo cristão deveria meditar e decorar.

Os versículos seis até oito falam da “descida” de Jesus no nível mais baixo do mal e do pecado. Os outros três do infinitamente oposto: a “subida” na exaltação no céu.

Em primeiro lugar, Jesus “esvaziou-se a si mesmo” da condição divina. Colocou como entre parêntesis sua condição divina; não quis usufruir das condições privilegiadas dela. É como se o Presidente renunciasse a todo privilegio, mordomia, honra, mesmo continuando a exercer suas funções.

Motivo da escolha foi se colocar na “condição de escravo e tornando-se igual aos homens”. Igual aos homens, no sentido de que mesmo não sendo afastado da comunhão com Deus, da familiaridade com o Pai nem privado da presença do Espírito Santo, se solidariza com o homem pecador, ou seja, do homem que é todo o contrário do que Ele é. Desta forma, coloca entre parêntesis sua condição divina. De fato, a carta aos Hebreus lembra que Jesus assumiu em toda a condição humana menos no pecado. Mais ainda, se iguala e se coloca na “condição de escravo”. Iguala-se para abaixo. É próprio de o escravo servir. Referido a Jesus, consistirá em resgatar a humanidade do afastamento de Deus.

Encontrado com aspecto humano” O povo o encontra como tal, como simples homem, e, ao mesmo tempo, com pretensões messiânicas - e até divinas, como Filho de Deus - que não condizem, de jeito nenhum, com o que Ele diz e faz. Pelo contrário, o povo e as autoridades o acham blasfemo e ateu, merecedor de morte ultrajosa.

Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Por livre determinação Jesus sofre em si mesmo dupla humilhação, simultaneamente, perante do Pai e perante do povo. Ele se apresenta como pecador perante o Pai, por representar a humanidade toda. Ao mesmo tempo, sofre a humilhação e a rejeição violenta de quem está representando: o povo, as autoridades, a humanidade toda.

Assim, por um lado, sofre o afastamento do Pai, como consequência do pecado, “Deus meu, Deus meu porque ma hás abandonado”. E pelo outro, a morte de cruz, como maldito de Deus “ Maldito seja aquele que for suspenso do madeiro” (Gl 3,13).

“Fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Obediente a um Pai que, absurdamente, determina entregar o filho inocente? Que cobra do filho o pecado da humanidade? Que o Pai entregue o filho è uma das afirmações mais espantosas do Novo Testamento, absolutamente desconcertante para o entendimento humano. Contudo, por um lado, o evento manifesta a cólera e o juízo de Deus para com o homem pecador. Pelo outro lado, o amor à verdadeira pratica de vida que tira o homem do mal e da própria autodestruição não é negociável, deve ser segurada, custe o que custar.

São estes dos aspectos que estão no fundo do evento: a cólera e o juízo de Deus, como expressão do amor traído pela pertinaz insistência do homem na própria autodestruição. Mas também, o amor do resgate salvador, por Jesus representar a humanidade toda que não de entrega ao pecado. Enfim, é o AMOR nas suas diferentes expressões que sustenta o evento todo.

“ Por isso, Deus o exaltou acima de tudo” O “ por isso”estabelece uma ligação entre o anterior e o posterior. Portanto, aponta à relação entre a cruz e a ressurreição, exatamente por ser a cruz posse da ressurreição. A ressurreição não é um super milagre, mas o efeito da entrega na cruz. Como a cruz foi motivada pelo amor, assim, também, a ressurreição: o amor da entrega é o mesmo que ressuscita. Este é o nome de Deus “Nome que está acima de todo nome” em virtude do qual Jesus é constituído “Cristo”, ungido, Messias e “Senhor” no céu, na terra e abaixo da terra “para a glória de Deus Pai”. Sendo a glória de Deus a vida do homem, na feliz expressão de Santo Irineu, esta se manifestará em todos os homens que aceitarão, pela fé, os efeitos da representação de Jesus Cristo perante o Pai, se tornando seguidores e imitadores do Filho, porque filhos de adoção.

Evangelho Mc 14,1- 15,47

O relato da paixão se presta para muitas considerações. Vou comentar o relativo à tentação. O relato das tentações no deserto, de Lucas, frisava “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13).

O tempo oportuno é este da crucificação. Eis a última tentação “As pessoas que passavam por ali o insultavam (...) salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!Do mesmo modo os sumos sacerdotes, como os mestres da Lei zombavam entre si dizendo ‘A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! O Messias, o rei de Israel...que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!”.

Jesus não se dobra, não cede. Sofre agora as mesmas tentações do deserto. Tal vez, o demônio esperava ter maior sucesso neste momento de fraqueza extrema e de sofrimento, juntamente à sedução do gesto tão espetacular. Na expectativa do povo e dos chefes não existe prova maior que esta com respeito à sua pretensão de ser o Messias.

Então, por que fica? Por que entra na morte? Para desfazer a ligação pecado - morte. Pecado e morte estão unidos, pois dirá são Paulo: “A morte é o salário do pecado” (Rm 6,23). A resistência extrema ao pecado levou Jesus à morte. Tendo entrado nela sem se dobrar ao pecado, quebra o elo que os une: “mesmo que morto viverá (...) não morrerá para sempre” (Jo 11,25). Consequentemente, à morte vai lhe faltar o que a sustenta e do qual é expressão e manifestação. Agora a morte tem outro significado, não é a última palavra da existência. Mais ainda tem outro destino, a ressurreição.

O que deixa desconcertado no relato da morte é a extrema solidão e repudio. Morreu abandonado na mais radical solidão, e repudiado por todos, até dos dois que foram crucificados com ele “Os que foram crucificados com ele também o insultavam”.

Até que estremo chegou: nenhuma piedade, nenhuma manifestação de compaixão e misericórdia, para com Ele que foi tudo piedade, compaixão e misericórdia. O impacto deve ter sido tão grande e desconcertante que os outros evangelhos introduziram elementos para suavizá-lo.

Além do impacto e desconcerto fica o testemunho do tamanho do amor de Deus por um lado, e até que ponto pode chegar o amor do discípulo em segui-lo: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12). O “como”, termo de comparação chega ao limite extremo, possível a ser imitado só se perceber e sentir no próprio mundo interior o que Le sofreu primeiro.

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