terça-feira, 10 de abril de 2012

2do DOMINGO DA PASCOA -B-(15 -04-12)

1ª leitura At 4,32-35

Este resumo desenvolve o tema da comunhão dos bens. Como base desta comunhão temos o trecho a seguir: “A multidão dos fieis era um só coração e uma só alma”. Daí decorre que: “Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum”.

Com efeito, ter um só coração e uma só alma é estabelecer um vínculo muito profundo de comunhão acompanhado por um sentimento de pertencer uns aos outros: ele em mim e eu nele. Pois estabeleceu-se um vínculo, uma ligação estável e permanente; como uma aliança, assumida com plena consciência e responsabilidade.

Isto é fruto dos efeitos da adesão pessoal a Jesus Cristo. Tocado e transformado pelos efeitos da morte e ressurreição; tomada consciência da comunhão com Ele, da transformação do próprio ser, se conforma no próprio mundo interior do comum patrimônio de graça, de dons materiais e espirituais entre todos aqueles que acreditam e seguem Jesus Cristo.

Esta nova e singular percepção de si mesmo e dos outros na mesma fé sustenta o relacionamento na caridade. Leva à comunhão de tudo. São os apóstolos eixo da comunhão, pois, “levavam o dinheiro, e o colocavam aos pés dos apóstolos”. Os chefes, as autoridades, da comunidade eram de absoluta confiança.

A transformação pessoal é acompanhada pela transformação social. A primeira é garantias do correto comportamento ético com respeito à administração do convívio social, o exercício da política.

Portanto “Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas vendiam-nas (...). Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um”. Mesmo considerando que nas primeiras comunidades cristã era iminente a espera, o retorno, do Ressuscitado e com ele a implantação definitiva do reino, surpreende positivamente o estilo de vida e terem alcançado um grau de entendimento, de sintonia e de partilha tão expressivo.

Com certeza, as comunidades eram numericamente pequenas, integradas, composta de poucas pessoas, portanto, unindo isso ao entusiasmo da primeira hora e da iminência do retono de Jesus Cristo, se criam as condições para acontecer o que o texto testemunha.

Na atualidade, estamos bem longe de realizar isso nas comunidades cristãs. Talvez alguns grupos bem integrados em nível de fé e especificamente voltados a esta prática consiga resultados apreciáveis. Normalmente são alguns grupos religiosos.

De toda maneira fica registrado a ligação entre a autêntica fé, o envolvimento profundo no mistério do amor de Deus, identificação com Cristo Jesus e uma específica prática do uso do dinheiro, assim como a dimensão social da caridade exercida na prática da solidariedade, da partilha, da atenção à necessidades individuais.

Neste sentido, caridade, solidariedade e ética formam o tripé da política, da organização e vivência da coletividade no respeito das diversidades raciais, sociais, culturais e religiosas. Com efeito, a política é ética ou não é política, mas, justamente, apostrofada como politicagem.

A dimensão social da caridade se manifesta na política, por sua vez ela é possível pela interiorização dos valores éticos e espirituais ensinados e oferecidos pela morte e ressurreição de Jesus Cristo.

A este segundo aspecto se refere o trecho da segunda leitura.

2da leitura 1Jo 5,1-6

O apóstolo João afirma “E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé”. Com efeito, pela fé a pessoa assume a realidade e os valores acima indicados e configura uma nova personalidade, diametralmente contrária àquela oferecida e conformada à realidade do mundo, todo o contrário da nova personalidade, que afasta e contrário á comunhão com Cristo.

Vencer o mundo é uma luta constante, levada até o extremo como foi pela experiência de Jesus Cristo. Nela o cristão pode contar com a presença, a força, a coragem do mesmo Cristo, pois, o acreditar torna como um o cristão e Jesus, até o ponto que são Paulo dirá “foi crucificado junto com Cristo” (Gl 2,19b).

É esta condição gerada pela fé que torna o cristão vencedor na luta “Quem é vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?”. O cristão, sendo que pertence a Cristo , e vice versa, participa do mesmo que aconteceu em Cristo Jesus que “veio pela água e pelo sangue (...) E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade”. A mesma luta vitoriosa Dele se atualiza no cristão.

O mesmo Espírito Santo que com Jesus participou desde o começo da caminhada e da vitória final de Jesus Cristo com a ressurreição, acompanha e está presente na luta do cristão no mundo. A mesma verdade que se manifestou em Jesus cristo se manifestará também nele.

“O Espírito (...) é a Verdade”. A verdade não é simplesmente a correspondência de uma ideia com o objeto indicado, nem a afirmação de uma lógica racional bem argumentada. É mais, uma obra, uma ação, que, em virtude da carga de amor que leva, consegue e passa ao interlocutor, ou destinatário, a capacidade de se regenerar, de encontrar coragem, força, esperança e vontade de fazer acontecer o novo que a se apresenta como possível, desafiando todo obstáculo.

Eis, então, o sentido do que coloca o apóstolo “Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus”. Com efeito, o cristão é filho adotivo de Deus, filho no Filho, portanto a vida dele é íntima e profundamente ligada à vida Deus pelo novo nascimento : “nasceu de Deus”.

A verdade, a consciência e a realidade desse nascimento têm seu teste no que o apóstolo coloca como continuação “e quem ama aquele que gerou alguém, amará também aquele que dele nasceu”. Com outras palavras, se amo a Deus que me gerou como filho adotivo, amarei também todos aqueles que ele gerou da mesma maneira do como eu foi gerado.

Pela morte e ressurreição de Jesus Cristo e pela sua atualização na eucaristia, objetivamente, a humanidade toda é gerada como filhos e filhas. Portanto, olhando para ela com os olhos de Deus, se ativam o sentimento e a vontade da prática da caridade para com todos indistintamente, até para com os inimigos, com os que odeiam, como Jesus dirá no evangelho.

“Podemos saber que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos”. O amor a deus não é outra coisa que devolver o amor com o qual somos amados. É devolver o dom e assim fortalecer e acrescentar o amor mesmo numa dinâmica que não termina. É inesgotável.

O apóstolo frisa os mandamentos como mediação do amor e especifica contra todo mal entendido “ E os seus mandamentos não são pesados, pois todo o que nasceu de Deus vence o mundo”. Não são pesados porque “amor atrai amor” como o imã atrai o ferro. Sem amor tudo se torna pesado, uma obrigação, um dever, uma troca de favores, enfim, algo imposto de fora ou pela necessidade, que não responde plenamente a vivência e necessidade do amor.

É o que configura o que o apostolo chama de “mundo”: a realidade de todos os dias carente ou até contrária à vivência do amor, ou melhor como diria são Paulo da caridade. A caridade é plenamente oferecida e implantada no coração do cristão pelo ressuscitado como testemunha o evangelho.

Evangelho Jo 20,19-31

Impressiona a entrada de Jesus no meio dos discípulos. Ninguém esperava isso. “Pondo-se no meio deles disse: ‘A paz esteja convosco’”, dirigiu-se a eles que estavam cheios de medo, desconcertado e abalados. Contudo, de imediato Jesus se apresenta para oferecer harmonia, confiança e esperança. Nada de cobrança, de reclamação pelo comportamento deles nos dias anteriores.

“Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado”, não só para mostrar a identidade com o crucificado na sexta feita, mas para manifestar que o poder do mal e a força do pecado estão vencidos no seu corpo e na sua pessoa. Os ferimentos mortais perderam seu poder e força, agora participam de uma vida surpreendente, que nunca tiveram pensado pudesse existir e que os deixa mais desconcertados ainda, mesmo se alegrando “de ver o Senhor”.

Tudo isso em virtude do amor que sustentou e motivou a entrega “os amou até o fim” (Jo 13,1). Assim, o amor que motiva a entrega é o mesmo amor que ressuscita. Desta forma, presente e futuro são intimamente unidos. A ressurreição não é um supermilagre, mas o triunfo do amor. O amor que dá sentido a esta vida é o mesmo que resgata o corpo após a morte.

Neste pano de fundo destacam-se as palavras de Jesus “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Assim, o relacionamento Pai-Filho no âmbito trinitário é modelo do relacionamento de Jesus para com os discípulos. Será possível pela ação do Espírito Santo “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo”. Este sopro lembra o do inicio da criação, significando que a ressurreição é o começo da nova criação. O último e definitivo da pessoa, da humanidade, da criação e do universo se faz presente na pessoa de Jesus com a ressurreição.

Com isso é manifesta a raiz, a implantação do reino de Deus e a finalidade da missão de Jesus. Em primeiro lugar o reino se implanta na humanidade de Jesus, e, a continuação, em todo discípulo e nas comunidades na medida da fidelidade deles à dinâmica da morte e ressurreição.

Antecipação da presença do reino, que se manifestará plenamente, com o “retorno” do Ressuscitado é o perdão dos pecados “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.

Parecem-me importante algumas considerações sobre apalavra perdão: Dom para ti. É o dom da misericórdia de Deus que regenera. É como o novo nascimento e uma nova criação. Contudo, a eficácia do dom se manifesta na restituição do mesmo a Deus. Esta dinâmica une profundamente três diferentes aspetos:

*Perdoar a si mesmo. Ponto de partida é a regeneração realizada pela fé nos efeitos da morte e ressurreição e ativada pela presença do Espírito Santo. Jesus afirmará aos curados por ele “a tua fé te salvou”. Trata-se da fé não diretamente na pessoa dele por ser filho de Deus, mas no que a palavra dele acolhida no coração gerou na pessoa em termos de transformação e regeneração. O novo ser assim criado consegue perdoar os pecados. Nesse sentido o perdão é o dom - para - ele. Por parte da palavra do Senhor.

* Perdoar o “outro”. O primeiro aspecto - o ponto anterior – possibilita olhar as ofensas e as faltas do “outro” com o mesmo olhar de Deus, com amor, oferecendo o resgate - a gratuidade da justificação -, a nova aliança e a perspectiva do futuro cheio de esperança. Pode-se chegar até amar os inimigos e rezar por aqueles que nos odeiam (Lc 6,27ss).

* Perdoar a Deus. Por ter deixado morrer uma criança de câncer; por não intervir no massacre de milhões de pessoas; por “permitir” que o mal continue semeando violências e injustiças; pela “ausência” nos momentos em que precisamos perceber a presença dele etc. Desta maneira retorna a ele o dom que nos deu, com os mesmos sentimentos dele. O dom - para –Ele, o perdão - carregando sobre si mesmo as “faltas” dele -, restabelece o relacionamento, consolida a nova aliança e sustenta a esperança do futuro cheio de vida.

É Deus que capacita amá-lo como ele ama. Com efeito, ele se aproxima, cancela a distância com a remissão do pecado; caminha ao lado de quem não quer saber dele; sustenta o sonho e a esperança em quem não vai além do que entende e experimenta com as próprias faculdades humanas. Portanto, é preciso voltar a ele, com as mesmas atitudes com as quais veio ao nosso encontro.

Por este retorno, Ele nos torna como Ele. O sonho “vós sereis como Deus”(Gn3,5) que seduz Eva, se torna realidade: O homem se torna. A maneira humana de Deus estar presente no mundo, e a comunidade, a plenitude do corpo de Cristo em Deus pela ação do Espírito Santo.

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