domingo, 15 de abril de 2012

3ro DOMINGO DA PASCOA -B- (22-04-12)

1ª leitura At 3,13-15.17-19

“... e disso nós somos testemunhas”. Eles - os apóstolos - enquanto testemunhas, garantem transmitir a verdade com respeito ao que foram feitos partícipes, pela ação específica de Deus.

O evento no qual foram envolvidos e mergulhados constitui o maior desconcerto que o ser humano podia experimentar: o crucificado na sexta feira se apresentou a eles como o vivente, no domingo seguinte. O maldito de Deus - tal como era entendido o crucificado - se tornou o Salvador de todos.

Não se trata de um fantasma, de uma ilusão coletiva, de um espírito andarilho, da reanimação de um cadáver nem da reencarnação, mas do regate da vida corporal preenchida, transformada e aperfeiçoada pela presença e ação do Espírito Santo.

Com o evento de Pentecostes, ou seja, a ação do Espírito Santo neles, aconteceu a plena compreensão do evento da ressurreição. Isso suscitou neles coragem e ousadia surpreendentes, considerando que estavam, antes, todos no cenáculo com as portas trancadas, por medo de sofrerem o que aconteceu ao mestre.

Coragem e ousadia pelas acusações dirigidas ao povo e às autoridades “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos”. Deus reverteu o juízo deles sobre a pessoa e a obra de Jesus: de mentiroso e blasfemo se tornou quem justifica os mesmos que o mataram e todo o homem, de todas as épocas, que acreditarem nele.

É o que Pedro argumenta na continuação, atenuando a culpabilidade deles por motivo da ignorância “eu sei que agistes por ignorância, assim como vossos chefes”.Está projetando sobre eles a mesma ignorância dos apóstolos que abandonaram Jesus no momento da crucificação, particularmente ele- Pedro- que o renegou explicitamente. O próprio erro e fraqueza, assumidos conscientemente e com humildade, permitem compreender as mesmas atitudes em outros.

O que aconteceu na pessoa de Jesus, na sexta feira santa, responde ao que Deus “ havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer”.O que os profetas haviam anunciado não responde a um destino mecanicamente realizado, nem a uma necessidade iniludível que não podia ser de outra maneira, e, menos ainda o cumprimento de uma condenação que expiaria pelo sangue e o sofrimento, a culpa de outros, como se fosse um inevitável e necessário castigo.

“Haveria de sofrer” pela cabeça e coração duro dos homens em não acreditar na proposta e ação de Jesus, e por outro lado pela teimosia e determinação, cheia de amor do mesmo, em permanecer na sua atitude e pensamento, porque está em jogo fazer a vontade de Deus a favor dos mesmos que o rejeitavam. O sofrimento é simplesmente motivado pelo amor sem fim, até o extremo.

É esse amor que salva, purifica e transforma Jesus da morte, assim todos aqueles que acreditam ser representados por ele perante o Pai.

Eis, então a exortação de Pedro “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”. Duas condições para o perdão: o arrependimento e a conversão. A primeira é a sincera consciência do próprio erro, acompanhada pela dor do prejuízo provocado a uma pessoa inocente, mais ainda quando estava ensinando o caminho certo e de resgate do mal individual e social.

E logo a determinação de mudar a própria ideia sobre Deus, pois aquela apresentada por Jesus é totalmente diferente daquela conhecida e estabelecida até então. Portanto, a conversão se trata de sair da primeira ideia, de entrar na outra e proceder em sentido exatamente contrário. É uma conversão teológica antes de ética. Logicamente, mudando a ideia de Deus, muda também o comportamento para consigo mesmo, com os outros, a sociedade e a criação.

Contudo a conversão não é alcançada de uma vez para sempre, é escolha de todos os dias. Daí a possibilidade de voltar atrás. A segunda leitura trata desta eventualidade.

2ª leitura 1 Jo 2,1-5ª

“Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis”. Cabe a pergunta: o que é pecado? Normalmente é entendido e colocado no âmbito ético, pois, é transgressão da lei, dos mandamentos. Portanto, o exame de consciência visa tomar ciência e assumir os próprios erros e faltas ao respeito.

Simplesmente isso, não se chega à raiz do pecado. Ele não é, em primeiro lugar, uma realidade ética, mas teológica. É a desconfiança, o desinteresse, a ignorância, a desvalorização com respeito à nova condição na qual o dom de Cristo, com sua morte e ressurreição, coloca objetivamente cada pessoa e a humanidade toda.

Então, o pecado consiste na fraqueza, na inconsistência e superficialidade que faz da condição de ressuscitados com ele, de nova criatura, de filhos no Filho, de estar sentado no céu com Cristo à diretita do Pai - e outras afirmações no mesmo teor que abundam nos escritos de são Paulo - uma simples informação e não uma realidade consistente e sólida que conforma e sustenta a consciência do próprio ser e o agir correspondente.

Esta condição impossibilita a observância dos mandamentos, porque percebidos como imposição, como obrigação e não como resposta de gratidão e de amor pelo imenso dom recebido.

Portanto, o exame que se limita ao âmbito ético, à mera observância dos mandamentos, é como dar atenção ao fruto não amadurecido ou podre e não à causa porque ficou tal.

Certo que do pecado (teológico) decorrem os pecados (éticos). Assim, mesmo tirando os pecados com a absolvição sacramental, daí a pouco tudo se repete, se a mesma absolvição não atinge - pela pouca profundidade e consistência da fé - o pecado. (Jesus dirá explicitamente aos que sarou: “tua fé te salvou”. Daí decorre o grande sentido de frustração e de inutilidade do sacramento da reconciliação).

A verdade profunda do ponto de vista espiritual é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O efeito da morte e ressurreição de Jesus tira o pecado (e os pecados) da raiz do ser, sara, renova e transforma a pessoa toda. Contudo o mal, com sua força sedutora, continua ameaçando-a e, muitas vezes, atinge o seu objetivo.

Portanto, “se alguém pecar, temos, juntos do Pai, um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é vítima de expiação (...) pelos pecados do mundo inteiro”. A expiação realizada por Cristo é atualizada e passada pela fé nos quatro sacramentos: o batismo, a missa, a reconciliação e a unção do doente. (Quando fé e amor forem autênticos e puros, nem se precisa do sacramento).

A expiação age como as ondas do oceano na praia. Se o pecador estivesse caminhando beira mar e deixasse as pegada na areia, voltando, olhando para trás, não as veria mais, porque canceladas pelas ondas do imenso amor de Deus.

Tudo isso pela fé em Cristo, como mediador e representante, cuja ressurreição é, entre outros aspectos, a manifestação da vitória em nós do pecado, comprovada pela determinação de fidelidade sempre maior e mais perfeita em guardar “os seus mandamentos”.

Tudo se fundamenta na ressurreição, como indica o evangelho.

Evangelho Lc 24,35-48

A ressurreição foi um evento que surpreendeu a todos, totalmente inesperado. Os discípulos “ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”. Mesmo depois de Jesus ter falado e manifestar que não era um fantasma “ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos”. Não é difícil imaginar o estado de ânimo e o desconcerto deles.

Em primeiro lugar Jesus passa certeza da própria identidade “sou eu mesmo! (...) mostrou-lhes as mãos e os pés” e de que se trata de sua presença corporal, mesmo com umas características que ultrapassam a simples corporeidade costumeira, pois, “apareceu no meio deles” de maneira que os deixou pensar num fantasma, assim que ficaram assustados e cheios de medo.

Para convencê-los “Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne e ossos (...). Ele tomou um pedaço de peixe assado e comeu diante deles”. Trata-se realmente de ressurreição corporal. Um acontecimento inédito, cujo significado é ainda mais intrigante e Jesus procura explicar e motivar.

Disse-lhes “ São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco”,frisando, indiretamente, que não entenderam nada, e por isso a enorme paciência de Jesus para com eles em virtude da qual, mais uma vez, explica “era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos”.

Apesar de todo este patrimônio os discípulos não entenderam, pois, a interpretação dele foi muito longe, em outra direção. Eis, então, a importância do correto entendimento e da fiel transmissão do conteúdo. A direção norteadora é o acontecer do Reino nas concretas circunstancias do momento, que é tal pela prática do direito e da justiça capaz de integrar as diversidades de povos, línguas e religiões no acontecer do amor, como Jesus ensinou e praticou.

Tudo isso tem uma admirável síntese nas palavras de Jesus, em sintonia com as Escrituras, que abre a inteligência dos discípulos: “ O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”.

Assim o que aconteceu nele é para que eles, e todos os homens, entendessem a ideia certa de quem é Deus, do tipo de envolvimento dele com as pessoas e a humanidade toda, da sua filosofia e da prática de vida. Com uma palavra, o conteúdo do amor verdadeiro.

“A conversão e o perdão dos pecados” se realiza neles por acreditarem que o dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, tirou o pecado, em sintonia com o que foi comentado na segunda leitura.

“Vós sereis testemunhas de tudo isso”, um exemplo vivente dessa transformação, que permitirá enxergar o ressuscitado em todo ser humano que te chama por nome – Maria; que te fala das Escrituras a partir da vivência autêntica delas – Emaús; e que acredita na eficácia da palavra – a pescaria no lago de Tiberíades.

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