segunda-feira, 23 de abril de 2012

4o DOMINGO DA PàSCOA -B- (29-04-12)

1ª leitura At 4,8-12

Este trecho apresenta a réplica de Pedro diante do Sinédrio - a máxima autoridade sócio religiosa de Israel - causada pela cura que ele operou em nome de Jesus. Agir em nome de Jesus e conseguir o efeito de curar os aleijados é afirmar que a “realidade do nome” atingiu profundamente o ser e a pessoa de Pedro.

Criou-se uma comunhão de vida, de ação e de destino tão profunda e envolvente de maneira tal que o agir de Pedro é o mesmo do Cristo. Só assim se pode compreender o acontecer do milagre. Entre parênteses, este estado não é permanente, adquirido de uma vez para sempre, mas um dom a ser cultivado constantemente. Prova está no desentendimento com Paulo, em Antioquia e outra perplexidade na ação que os textos registram.

Em ter que dar conta ao Sinédrio do acontecido, Pedro, com grande coragem e atrevimento, afirma que o agir dele foi “pelo nome de Jesus Cristo (...) aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos”. E, para acrescentar ainda mais a responsabilidade deles e o tamanho do erro, retoma a palavra da Escritura se referindo a Jesus como “a pedra, que vós, os construtores, desprezastes, e que se tornou pedra angular”.

Tudo isso devia soar a blasfêmia e absurdo aos ouvidos deles. Pedro estava se expondo à mesma sorte do mestre. Talvez a surpresa e o desconcerto da cura do aleijado, o evento anunciado da ressurreição e a firmeza das palavras de Pedro, assim como a coragem e a determinação da comparação, devem ter agido como freio para proceder a mais uma condenação.

A coragem e a força argumentadora de Pedro estão na percepção, pela ação do Espírito Santo em Pentecostes, do significado da ressurreição de Jesus e sua importância para o povo todo “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possam ser salvos”.

A salvação era esperada como o dom maior com a vinda do Messias, como início da nova humanidade, como última e definitiva intervenção de Deus, como um bem pelo qual merecia investir a vida toda e todos os seus bens. Era o sentido último de ser e de viver!

Ter percebido o acontecer da salvação na pessoa e na obra de Jesus com a ressurreição de entre os mortos; ter sido feito partícipe dela de forma gratuita, assim de se perceber justificado perante do Pai de todo pecado de incredulidade, de desconfiança, de ignorância, de abandono do Filho; ser readmitido à plena comunhão com Deus e partícipe da vida divina é uma transformação absolutamente inesperada.

A transformação não deixa outra atitude que a de Pedro, pois, ele encara a todos, se expondo custe o que custar. É assim manifesta a força e o poder da ressurreição pelo milagre que opera na transformação do ser de cada pessoa que abre o coração e a inteligência à obra realizada por Jesus a favor dela e, ao mesmo, tempo de toda a humanidade.

Mais que a atenção sobre o que realmente aconteceu no corpo, na pessoa de Jesus, sem dúvida de grande importância a ser investigado pelo necessário caráter de plausibilidade da fé, parece-me determinante fixar no próprio mundo interior a atenção à qualidade de vida - vida nova -gerada pela ressurreição.

Assim, cada pessoa e a humanidade têm condição de redesenhar profundamente o relacionamento consigo mesmo, com os outros, com a sociedade, com a criação em sintonia com a realidade do Reino de Deus que Jesus veio implantar na sua pessoa e com sua missão.

É a isso que alerta a segunda leitura.

2da leitura 1 Jo 3,1-2

A transformação e a nova realidade interior são o “grande presente de amor (que) o Pai nos deu” com a entrega do próprio Filho. Assim, todo cristão se torna filho no Filho, filho de Deus por adoção.

Com ênfase o texto frisa: “e nós o somos!” como para convencer de algo que ultrapassa, de muito, toda expectativa e imaginação: de pecadores, afastados e inimigos de Deus as pessoas se tornam filhos! Em virtude disso, é resgatada a amizade, a familiaridade a comunhão com Deus, e com isso a sintonia com o pensar e o agir do Mesmo.

Esta realidade não é compreendida por todos. Estes são o que João chama de mundo “Se o mundo não nos conhece”. Os motivos podem ser múltiplos: da rejeição consciente e lúcida da pessoa e missão de Jesus à falta de oportunidade e de atenção, passando pelo comportamento antiético em nível individual e social.

A causa porque o “mundo (...) não conheceu o Pai”, é porque não teve experiência dele. Experiência que passa pela retidão individual, pela atitude responsável para consigo mesmo, no compromisso para o bem do próximo, na gratuidade e liberdade, voltado à pratica da verdade. Desta forma, colabora ativamente para fazer acontecer a justiça e o direito na vida social e no mundo.

Sendo Deus amor, ele é presente e se manifesta nos relacionamentos entre as pessoas, na organização da sociedade e no respeito da criação. Conhecer a ele não é, em primeiro lugar, uma ideia, um sentimento, uma emoção, mas um estilo de vida marcado pelas características do parágrafo anterior.

Quanto mais se aprimora e se mantém fidelidade a elas, apesar das provações e dificuldades, mas se experimenta a presença, o conhecimento do Pai. Para fazer uma comparação, é como olhar uma fotografia opaca e confusa, que gradativamente se torna nítida e distinta nos detalhes que dão realce e profundidade à mesma.

Contudo, a realidade de comunhão com Deus e de condição de filhos que experimentamos neste mundo é muito aquém do que experimentaremos futuramente, com a instalação última e definitiva do reino de Deus, no fim dos tempos “desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos!” O que nos aguarda é incomparável.

“Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é”. A experiência do ressuscitado passou uma certeza com respeito ao momento de quando ele se manifestar para toda a humanidade ao fim dos tempos: “seremos semelhantes a ele”.

O ser humano é criado a imagem e semelhança de Deus e no momento final, no qual “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28), se encontrará semelhante ao Ressuscitado. Na humanidade ressuscitada em Jesus Cristo, a divindade de Deus preenche, transforma e faz dela uma nova criação, uma humanidade regenerada na plenitude de Deus. Esta condição será comum a todos, no respeito e valorização da especificidade e diferença de cada um, levada à plenitude.

“Porque o veremos tal como é”: mediador e representante do toda a humanidade, pois, todos estão nele. Portanto, toda pessoa se perceberá parte de todos e em comunhão com todos, em sintonia com o que Jesus disse quando o informaram que sua mãe estava procurando-o: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”(Mc 3,34-35).

Esta solidariedade e comunhão universal é a meta da missão dele como pastor, como deixa entrever o evangelho.


Evangelho Jo 10,11-18


“Naquele tempo, disse Jesus: ‘Eu sou o bom pastor’”. Nestes tempos de rápidas mudanças, de complexidade, de incerteza, de precariedade, é quanto mais necessário quem indica a certeza da meta, o caminho e os meios para chegar. Trata-se de oferecer sentido à existência.

Em primeiro lugar, Jesus critica quem, pretendendo ser pastor, na realidade é um mercenário. Este age por interesses pessoais e, nos momentos difíceis, do perigo, “abandona as ovelhas e foge (...) e não se importa com as ovelhas”. Infelizmente é uma prática muito comum em nível familiar, social e político.

Característica básica do verdadeiro pastor é dar “ a vida por suas ovelhas”. Cristo pertence à humanidade toda, homens e mulheres de toda raça, cultura e religião, pois, entrou no mundo como mediador e representante dela. Portanto, “Eu dou minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”.

O dar a vida como ele a deu: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”(Jo 15.12) é o que gera comunhão e reconhece Jesus como próprio pastor, bem nas diferentes raças, culturas e religiões. Não precisa se homologar na cultura dominante nem rejeitar a própria religião, mas assumir o estilo e a filosofia de vida de Jesus.

Toda cultura, religião, inclusive o ateu e agnóstico, é integrado, pela vontade de Deus, como ovelha do rebanho por fazer da própria existência um dom para o bem do próximo e da humanidade, na prática do amor sem segundo fim e gratuitamente “Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecer em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual”( Rm 12,1).

No meio da complexidade do mundo atual e das inúmeras propostas de vida bem sucedida, três tópicos ajudam discernir a atitude e o comportamento que imitam o de Jesus Cristo. O que é proposto:

a) motiva e faz de cada pessoa um ser mais humano, o capacita a se doar como Jesus se doou até entregar da vida?

b) a vida familiar e social adianta na prática do direito e da justiça no intento de fazer acontecer e descobrir a presença do reino de Deus?

c) a natureza é respeitada de maneira que se torne e cresça como o jardim do Éden que Deus colocou nas mãos dos homens?

“É por isso que o Pai me ama”, porque Jesus ama a pessoa, a humanidade e a criação com o mesmo amor do Pai. Este amor mútuo é o motivo e a força da ressurreição, pois, em virtude do amor “Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente”. Talvez, isso vale para todo discípulo e não só para ele. Pois, “Essa é a ordem que recebi do meu Pai”: a mesma ordem que ele nos deu... Então...

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