segunda-feira, 25 de junho de 2012

FESTA DE SÃO PADRO E SÃO PAULO- B- (01-07-12)

1ª leitura At 12,1-11

Momento altamente dramático para a Igreja. Herodes, para agradar o povo, desencadeia uma violenta perseguição de torturas e de morte “prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar a espada Tiago, irmão de João”.

Não se sabe o motivo da perseguição. Dá para perceber que o surgir da Igreja estava incomodando o povo e as autoridades, pois, com certeza, a pregação, o convite à conversão, o estilo de vida da comunidade e dos cristãos mexiam com a vida e expectativas deles.

Se não fosse pela circunstância da Páscoa, também Pedro teria sido executado “Vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos”. Portanto, Herodes adiou a execução: “colocou-o na prisão (...) tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa”.

Podemos imaginar o estado de preocupação, de tensão e de pavor entre os membros da jovem Igreja que estava se constituindo. “Enquanto Pedro era mantido em prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele”. Cabe considerar como a intercessão perseverante da oração, talvez, não teve somente a finalidade de pedir a Deus a salvação de Pedro, mas de infundir coragem e perseverança para a comunidade no testemunho.

O mesmo texto relata a oração da comunidade em circunstâncias parecida “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra (...). Todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a Palavra de Deus” (At 4,24-31).

Pedir a coragem para não desistir, mostra a firmeza e profundidade da identidade com a pessoa de Jesus, pelo dom dos efeitos de sua e morte e ressurreição. O Espírito Santo fez que valorizassem mais este segundo aspecto do que a própria vida. Foi o efeito nova Pentecostes.

Momentos difíceis, provações de diferentes tipos, fazem parte da experiência de todos. Certo, há diferentes dificuldades e provações, algumas dramáticas e até trágicas, como a dos primeiros cristãos. Outras muito menores, as comuns de todos os dias.

Com respeito a estas últimas, refiro-me àquela que surgem pela fidelidade ao estilo de vida cristã e à dinâmica do evangelho na comunidade, na vida familiar, social e no serviço. Por serem elas contrárias, ou não em conformidade, com desejos e expectativas dos interlocutores, contrariam pessoas queridas, descontentam pessoas amadas, cujo carinho e amizade são importantes e suscitam mal estar e discordâncias.

Assim, para não perder amizade, afeto, para não ficarem mal frente a eles, muitos desistem da prática coerente ou se tornam ambíguas, comprometendo a própria identidade. O momento da prova é teste da autenticidade da identidade com o Senhor Ressuscitado.

Voltando a Pedro, a vontade de Deus se manifestou de maneira admirável e de repente. Cabe frisar como a intervenção é tão surpreendente por um lado e pouco espetacular pelo outro. Ela acontece entre visão e realidade. “Pedro não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão”. Talvez, Pedro pensasse que fosse uma simples visão sustentada pelo desejo pessoal e pela intercessão da comunidade. Talvez tinha se conformado com a morte iminente, sendo que esta foi o que aconteceu ao apostolo Tiago.

De fato, a intervenção surpreendeu o mesmo Pedro, que demorou entender a ação divina. Só percebeu a realidade do acontecido após sair da prisão em companhia do anjo e quando este último o deixou “Então, Pedro caiu em si e disse: Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”. É característica geral das manifestações divinas serem percebidas somente após a operação concluída.

De todas as maneiras, ela testemunha que Deus não está ausente nem indiferente às condições humanas. Sobretudo dos seus discípulos nas condições de extrema dificuldade.

Inclusive na experiência de são Paulo que terá um desfecho bem diferente, como relata a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18

Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele manifesta os sentimentos dele diante da morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde, atualmente, existe uma Igreja dedicada a ele.

Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, Paulo sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:

+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do Evangelho e constituição das comunidades cristãs. Emfim, um combate que deu resultado satisfatório para ele, na sua identificação com Cristo e na difusão do evangelho.

+ “Completei a corrida”. É próprio da consciência de quem fez tudo o que estava nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente, porque se trata do último e definitivo de Deus, que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”(1Cor 15). Contudo, é esta meta que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho, pois é já participação neste futuro e manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.

+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente. Nele encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.

Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua (do Senhor) manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.

No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, talvez, lhe era impossível perceber anteriormente, e precisamente de que “o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi pouca coisa, foi graças a presença do Senhor e causa de libertação “da boca do leão”.

Refere-se ao “leão” que motiva fugir do combate; parar ou desistir da corrida; desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o “leão” que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos comprometidos, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, os desmotivando de todo sério compromisso com o Senhor.

Emfim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.

O eixo é a fé, o voto de confiança em Jesus e em si mesmo, como indica o Evangelho.

Evangelho Mt 16,13-19

Jesus tem ciência do novo que surgirá pela missão dele. Também tem certeza que do antigo não ficará “pedra sobre pedra”, assim como a impossibilidade de voltar atrás. Sua mesma palavra: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus” vale em primeiro lugar para Ele.

Para envolver neste processo a humanidade inteira, deve colocar as bases e fornecer os instrumentos para dar consistência e solidez ao processo. Nesta ótica, escolhe e associa a si mesmo os discípulos para que, caminhando e sendo instruídos por Ele, adquiram o conhecimento e as atitudes convenientes.

É nesse contexto que a metade do evangelho (a metade do caminho?) o evangelista coloca o texto de hoje. A resposta à pergunta de Jesus com respeito a “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem” (Filho do Homem é a maneira de Jesus se apresentar), oferece uma breve informação da multiplicidade das interpretações do povo com respeito à pessoa e à missão Dele. Contudo, ela é simplesmente introdutória à pergunta central dirigida aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. O verdadeiro interesse de Jesus é ter ciência do entendimento dos discípulos.

A resposta de Pedro “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” é elogiada por Jesus e indicada como revelação do “meu Pai que está no céu”. Mas, como acontece nas experiências de todos os dias, com as mesmas palavras as pessoas entendem coisas diferentes. O mesmo acontecerá com Pedro que entenderá, com estas palavras, algo bem diferente do que entende Jesus, motivo pelo qual haverá um choque muito áspero entre os dois. (Mc. 8, 32-33).

Contudo, Jesus afirma solenemente, com a sua autoridade, que aquela profissão de fé será a pedra da edificação da comunidade dos discípulos. Sinal disso troca o nome de Simão pelo de Pedro “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. A pedra, evidentemente, não é a pessoa de Pedro, mas a fé que Pedro acaba de professar, mesmo que o significado e o conteúdo certo dela sejam entendidos somente após a morte e ressurreição de Jesus. Haverá forças poderosas contrárias, mas a última palavra vitoriosa será dela “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.

Eu te darei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Portanto, o poder das chaves, de abrir e fechar, de ligar e desligar, entregado a Pedro - aos discípulos e a Igreja toda - por Jesus, não autoriza um exercício arbitrário, deixado ao bem querer e entender dele, mas ao critério de discernimento que tem como eixo a fé que acaba de professar.

Será a aplicação de uma fé libertadora, operadora daquela liberdade que ele experimentou na 1ª leitura. Será a chave que abrirá a prisão do condenado a morte e prestes a ser executado e devolverá a ele vida e futuro cheios de esperança.

Evidentemente, se trata não só das pessoas prestes a ser executados fisicamente, mas das que já experimentam a morte pela desumanização, pelo vazio interior e o sem sentido da existência, pela prática de vida imoral e pelo real afastamento da comunhão com Deus, e pelas quais está disponível a ação misericordiosa do Senhor.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA -B- (24-06-12)

1ª leitura Is 49,1-6

As palavras deste segundo cântico do Servo de Javé se dirigem a todas as nações, abrangem o mundo inteiro “Nações marinhas, ouvi-me, povos distantes, prestai atenção” . Quem fala é o Servo, eleito e chamado pelo Senhor “desde o ventre de minha mãe”.

O Servo sabe perfeitamente da característica da missão que o Senhor lhe confiou, pois, ele “fez de minha palavra uma espada afiada”, uma palavra que discerne e corta e separa o certo do errado, com segurança, determinação e plena consciência do que está fazendo.

Mais ainda, ele conta com a proteção do Senhor, em total disposição à vontade dele, no momento que achar oportuno intervir, como um eficaz instrumento “protegeu-me à sombra de sua mão e fez de mim uma flecha aguçada, escondida em sua aljava”.

Em fim, ele se percebe totalmente identificado com a pessoa e a missão do Senhor, pois, o mesmo disse-lhe “Tu és meu servo, Israel, em quem serei glorificado”. Os estudiosos afirmam que o sujeito pode ser uma pessoa individual ou, também, o povo de Israel. Em alguns dos quatro cânticos parece prevalecer o primeiro, em outros o segundo. De toda maneira, é importante neste trecho perceber o alcance e a característica de sua missão.

Contudo, a missão não alcança os frutos esperados: o Servo afirma “Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente”. Momento de grande desilusão e desconforto. A reação é se perguntar em que errou, porque não deu certo, se desistir ou não, se há motivo e condição para continuar. Neste momento de crise - juízo sobre o si mesmo e o desenvolvimento da missão - o Servo deve verificar a sintonia com o que o Senhor indicou e determinou.

A resposta do Servo é positiva. Isso lhe permite afirmar “entretanto, o Senhor, me fará justiça, o meu Deus me dará recompensa”. Assim, a integridade do próprio ser, em sintonia com o agir correspondente, é fundamental para o equilíbrio humano, psicológico e moral e, dessa forma, atender à resposta do Senhor.

O fracasso e a desilusão acontecem, também, para com toda pessoa que, animada dos melhores propósitos e se dedicando com todo esmero e entusiasmo para um serviço à pessoa, ou à comunidade, não tem retorno nenhum. Neste caso a avaliação é sobre a bondade do fim, a autenticidade dos meios, as próprias atitudes sinceras e o comportamento transparente, sem segundos fins.

Em todo caso, o eixo é a integridade de si mesmo, com respeito a pratica do amor para com o próximo, da qual brota a voz do Senhor. Em primeiro lugar como certeza de que “o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa”, assim que, apesar do fracasso humano, isso não significa desinteresse, desatenção, por parte de Deus.

Pelo contrário, ele é mais presente interessado e participativo do que parece, pois é justo e sabe recompensar do jeito dele. Com certeza é um jeito surpreendente e inesperado por confirmar que continue a missão para recuperar “Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele”, aprovando de tal maneira o que fez, pois, “aos olhos do Senhor esta é a minha glória” . Mais ainda por lhe confiar uma missão ainda mais abrangente e, sem dúvida, mais desafiadora.

“Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó (...): eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra”. Assim, o estilo, o conteúdo e a teimosia da missão se tornam luz que ilumina muito mais que o povo eleito – Israel – mas todas as nações.

A responsabilidade do servo se universaliza, pois, é preciso que tenha consciência que o agir localmente tem relevância universal. É um aspecto que foge da consciência das pessoas, marcada pelo excessivo individualismo que as isola da percepção de que fazem parte da família humana, dos sete bilhões de homens e mulheres, da coletividade, chamadas à comunhão e à fraternidade.

A missão de João Batista tem esta característica, como indica a segunda leitura.

2da leitura At 13,22-26

Com poucas palavras o trecho faz o resumo e enquadra a missão de João Batista. Destaca-o como precursor, como aquele que tem a missão de preparar o povo para a chegada do esperado Messias, o Salvador, pois “a nós foi enviada esta mensagem de salvação”.

Em primeiro lugar “João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel”. A conversão consiste em voltar ao cumprimento da lei de Moisés, no respeito à Aliança com Deus em virtude da qual a gente se tornou o “povo eleito”, escolhido por Deus.

Com efeito, o povo estava muito longe de manifestar o que Deus esperava dele em virtude da Aliança. Os mestres da lei e as autoridades levaram o povo a uma condição de vida inaceitável. Não havia justiça, o direito era administrado a favor dos poderosos.

Não praticavam a fraternidade e solidariedade – a lei do amor característica da liberação doada por Deus com a saída da escravidão do Egito – que pudessem manifestar que Deus reinava no meio deles. Pelo contrário, muitas vezes era motivo de escândalo, apesar do rigoroso respeito à letra da lei a as exigências do culto e da prática da oração.

Assim, João pregava o retorno à Aliança, pois era conhecimento comum que, com a chegada do Messias, seria iniciado o processo de purificação e renovação do povo, separando os cumpridores dos descumpridores da Lei – entrada no reino de Deus para os primeiros e o fogo da lixeira para os segundos – expulsando os invasores romanos e instaurando o antigo esplendor do reino de Israel, como aos tempos do rei Davi.

João percebe chegar o momento de terminar a sua missão, quando comparecer Jesus e, no batismo que ele mesmo lhe administrou, compreender que daí para frente devia dar espaço à atuação dele, e ele se retirar.

A fama e aceitação por parte do povo foi grande ao ponto que pensavam que ele fosse o Messias. Com efeito, o quadro referencial era em sintonia com os conhecimentos e expectativas do povo. João, com grande honestidade, procura desmanchar explicitamente esse mal entendido “Eu não sou aquele que pensais que seja!”.

E indica a Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Anteriormente, convida o povo prestar atenção - “Mas vede: depois de mim vem aquele” – a um novo sujeito presente no meio deles e desconhecido, do qual faz uma apresentação surpreendente “nem mereço desamarrar as sandálias”.

Com certeza, nem o Batista tinha ideia do desconcerto e do reboliço que iria trazer Jesus. Mexer com a Lei, mesmo com o propósito de aperfeiçoá-la e levá-la ao cumprimento do fim pela qual foi instruída, foi muito além do que o Batista pensava. A crise foi de tal tamanho que mandou perguntar a Jesus se de verdade ele era o Messias ou se deviam esperar outro.

De toda maneira a presença e ação dele são importantes para apreciar o tamanho do salto qualitativo da conversão oferecida por Jesus e apreciar a diferença entre ele e aquele do qual não merece “desamarrar as sandálias”.

O nascimento dele já marca uma ruptura com a tradição - processo que Jesus completará – como mostra o evangelho.

Evangelho Lc 1,57-66.80

O nascimento de João Batista foi recebido com medo e perplexidade por parte do povo “Todos os vizinhos ficaram com medo (...).E todos os que ouviam a notícia, ficaram pensando ‘O que virá a ser este menino?”.

Em primeiro lugar por Isabel ter concebido o filho já quando toda esperança parecia inútil, mesmo que isso tenha sido lido como um sinal de favor e predileção por parte do Senhor. Tudo isso levava a pensar que, por gratidão a Deus, fosse plenamente respeitada a tradição de impor, na circuncisão, o nome do pai.

O desconcerto foi quando a mãe disse “Não! Ele vai chamar-se João!” e o pai, perante o desconcerto de todos, confirmou “João é o seu nome. E todos ficaram admirados. No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus”.

O nome, para a cultura de então, indica a missão e a realidade profunda da pessoa. “João” significa “Deus bondoso”, “Deus misericordioso”. Portanto, já isso indica o futuro do menino, pois ele será a manifestação da bondade e misericórdia de Deus.

É o que acontecerá com a missão de chamar o povo à conversão, na espera iminente da chegada do Messias, para que a bondade misericordiosa de Deus que o Messias traz se concretize na vida pessoal e social, como indicado na segunda leitura.

O fato do pai dele – Zacarias – retomar a palavra e louvar a Deus era um sinal inconfundível do favor, do consentimento de Deus a ruptura da tradição e do que o filho deverá ser e exercitar, chegado o momento oportuno.

O povo ficou pensativo “O que virá a ser este menino?”. Perfeitamente compreensível, o passado já não sustenta o presente e o futuro é totalmente desconhecido, se não for pela intenção de realizar através dele a bondade e misericórdia de Deus. Em que consistirá realmente ninguém sabe, nem há sinais disso. E tudo o que se desconhece gera perplexidade e temor.

Os fatos posteriores confirmarão que “De fato, a mão do Senhor estava com ele”, pois desenvolverá a missão sendo reconhecido pelo povo como um enviado de Deus. As autoridades, pelo contrário, desconfiaram e não acreditaram nele, como Jesus mesmo dirá.

Jesus mesmo reconhecerá a grandeza de João Batista, mesmo afirmando que o menor no reino é maior do que ele. Pois, a conversão pedida por Jesus será muito maior do que aquela de João...

De toda maneira, com visão retrospectiva, o evangelista comenta “E o menino crescia e se fortalecia no espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel”, se tornando um modelo de integridade, coerência e dedicação à missão, se purificando na noite obscura da fé na cadeia, para terminar sua vida por causa da fidelidade à Lei - que o Messias estava mexendo, com grande desconcerto dele – e pela intriga na corte do rei.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

11mo DOMINGO DO T.C.-B- (17-06-12)

1ª leitura Ez 17,22-24

“Vou plantá-lo sobre o alto monte de Israel”. A ação do Senhor aponta para uma maior visibilidade, de maneira que todos indistintamente percebam e conheçam o agir dele, assim como a manifestação da presença dele, pois o “monte”significa o lugar da revelação de Deus.

“Eu mesmo tirarei um galho da copa do cedro, do mais alto de seus ramos arrancarei um broto e o plantarei sobre um monte alto e elevado”. O cuidado de Deus para com ele se manifestará de maneira que “todas as árvores do campo saberão que eu sou o Senhor”.

A imagem do pequeno galho lembra a ação de Deus para algo muito pequeno, insignificante, frágil e precário. A fidelidade de Deus à promessa, juntamente a seu poder e força fará dele o contrário do que num primeiro momento ele é. “Ele produzirá folhagem, dará frutos e se tornará um cedro majestoso”, pois alcançará a plenitude se sua potencialidade.

O estupor e a maravilha tomarão conta de todos, também em consideração de que o desenvolvimento a plenitude dele será oportunidade para o bem, o sossego e a alegria de todos os pássaros, de todos aqueles que podem se deliciar e receber benefícios de sua condição “Debaixo dele pousarão todos os pássaros, à sombra de sua ramagem as aves farão ninhos”. Para todos será motivo de alegria, paz e bem-estar.

A metáfora destaca o cuidado de Deus para com o seu povo. Mesmo que o povo esteja deportado - no exílio - em Babilônia e, portanto, sofrendo, desanimado, sem esperança e longe da terra prometida, acreditando ter sido abandonado por Deus pela infidelidade à Aliança, Deus renova sua promessa.

Ele mesmo tomará a iniciativa, com um pequeno resto de pessoas que permaneceram fiéis -um galho – para reconstruir o povo de Israel pela fidelidade à promessa estabelecida com a Aliança.

Se dependesse dos homens, não haveria remédio nem esperança, o povo se tornou como uma árvore seca. O desrespeito à Aliança, o desprezo aos mandamentos, o afastamento da prática da justiça e do direito, levou-os à nova escravidão em Babilônia, o novo Egito.

Cabe perguntar se a humanidade não está no mesmo caminho de autodestruição. Pelo menos, o perigo está aí com certeza. O crescimento do domínio do homem sobre a natureza e a qualidade de vida de poucos, a maior parte do poder político e financeiro concentrado nas mãos de um número sempre menor de pessoas; isto aponta para o perigo de que isso se torne um poder que, fugindo do controle e do bom senso atento às exigências da humanidade como um todo,pode gerar a catástrofe universal.

É urgente olhar à humanidade com os olhos de Deus, ter para com ela os mesmos sentimentos de Jesus que veio para oferecer o caminho para descobrir, cultivar e fazer duradoura a realidade do reino de Deus, capaz de integrar as diferentes raças, culturas, línguas e religiões na realidade na fraternidade e solidariedade universal.

O Antigo Testamento não conseguiu esta meta, apesar das repetidas intervenções de Deus por meio dos profetas e seus enviados. Também deste fracasso vai “tirar um galho” para indicar e oferecer a última e definitiva oportunidade.

O novo “galho” é Cristo, do qual Paulo percebe, em sua morte e ressurreição, o caminho e os meios para a nova humanidade atingir o objetivo, como mostra na segunda leitura.

2da leitura 2 Cor 5,6-10

Dirigindo-se aos membros da comunidade Paulo, também em nome de outros, afirma “estamos cheios de confiança e preferimos deixar a moradia do nosso corpo, para ir morar junto do Senhor”.

Para Paulo, o “galho” Jesus, se tornando Jesus Cristo, realizou em si mesmo a condição de “cedro majestoso” da primeira leitura, ponto de convergência e de recapitulação de tudo e de todos. Daí a confiança e o desejo de ir morar junto do Senhor. O discípulo e o Senhor ressuscitado se pertencem mutuamente, como o amante no amado unidos pelo amor.

“Amor atrai amor”- o lema da paróquia - “Por isso, também nos empenhamos a ser agradáveis a ele, quer estejamos no corpo, quer tenhamos deixado essa morada”. É a prática do temor de Deus, que acompanha esta vida, e pela intuição de Paulo, também a outra. Com efeito, a prática do amor procura não desagradar o amado até os mínimos detalhes.

Se o amor é realidade permanente de Deus na qual mergulharemos após a morte, é compreensível que o temor faça parte da vida não só no presente, mas também futura. Por outro lado se estabelece uma ligação muito estreita entre esta vida e a outra, após a morte, pelo resgate na comunhão com o Ressuscitado.

Assim, a compreensão da ressurreição não é devida às eventuais e esperadas aparições, nem por comunicações de espíritos andarilhos, nem por especulações filosóficas particularmente profundas e abrangentes, mas, simplesmente, por viver nesta vida a prática do amor que Jesus mandou praticar imitando a Ele.

Isso faz justiça a todo ser humano, sem distinção de raça cultura, religião, pois, o amor faz parte do patrimônio de cada ser humano. Daí, então, que a vida neste mundo é percebida como peregrinação rumo à comunhão com o Ressuscitado, passando pela barreira da morte “enquanto moramos neste corpo, somos peregrinos longe do senhor, pois caminhamos na fé e não na visão clara”.

A peregrinação é sustentada pela fé e motivada pela esperança. A carta aos hebreus define a fé como “a maneira de possuir o que se espera e de conhecer o que não se vê” (11,1). O que se espera - conformado no profundo do ser da pessoa pela prática do amor, como Jesus nos amou - já se torna realidade de vida eterna, que ultrapassa e vence a mesma morte, por efeito da confiança - a fé - nos efeitos da morte e ressurreição que sustenta e motiva a prática do amor.

Evidentemente, tudo isso é uma realidade perfectível, imperfeita e participa do processo de purificação e crescimento por causa das fraquezas humanas e do pecado. Por isso que não temos dela “visão clara”. Contudo, temos certeza do destino.

Destino no qual “todos nós temos de comparecer às claras perante o tribunal de Cristo, para cada um receber a devida recompensa - prêmio ou castigo - do que tiver feito ao longo de sua vida corporal”.

Assim, o momento em que se desvelará a realidade na qual Deus será “tudo em todos”, se manifestará, também, o grau e a qualidade da fé, esperança e amor da vida terrena e com ela o grau e a qualidade de participação na gloria de Deus, salvando a livre determinação do Senhor não ficar preso a lei da retribuição, pois, afirma o mesmo Paulo “onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça” (Rm5,20).

A primeira e a segunda leitura apontam à realidade última e definitiva, a mesma apresentada no evangelho.

Evangelho Mc 4,26-34

Jesus veio para mostrar e implantar o reino de Deus, realidade última e definitiva de todos e de todo. Humanidade e a criação têm e reconhecem a Deus como principio e fim da própria existência, perfeitamente integrada na realidade dele e encharcada pelo amor e plenitude da vida.

Jesus fala para a multidão “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra”. Evidentemente quem espalha é Deus mesmo, pois, se o Reino é D’Ele ninguém outro possui a semente.

A semente são os apóstolos, os discípulos, as testemunhas. Ele os indicará como sal, fermento, luz para a transformação das pessoas em outros discípulos, e do mundo como novo céu e nova terra.

Eles são chamados a ser palavra, semente. Pelo estilo de vida, pela palavra e testemunho deles são enviados no mundo, como semente que se espalha no terreno. Ao mesmo tempo são semeador e semente, não da para semear algo que não tenha que ver com eles mesmos, com o mais profundo do próprio ser.

Pela característica do poder de sedução do mundo e do domínio impositivo das leis e vontade dos governantes ao serviço do mesmo, esta semente se percebe como pouca coisa que nunca conseguirá o objetivo pela qual foi semeada.

Jesus responde que a semente possui em si mesma uma força surpreendente e capacidade de crescimento, que ela mesma desconhece “Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece”. Gradativamente atingirá o objetivo até chegar o momento oportuno da intervenção final última e definitiva de Deus - o momento da colheita - no qual Jesus Cristo entregará o reino ao Pai para que Deus seja “tudo em todos”(1Cor 15,28).

Jesus acrescenta outra comparação “O reino de deus é como um grão mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra”. Portanto, nada de espetacular, de admirável e surpreendente que suscite admiração maravilha e submissão incontestável, pelo contrário, passa como o menor, o mais insignificante, que não chama particular atenção.

“Quando é semeado cresce e se torna maior do que todas as hortaliças”. Também o crescimento se deve a uma dinâmica particularmente eficaz e surpreendente. Da fraqueza e insignificância se passa ao seu contrario. O contraste entre o início e o final é surpreendente e humanamente inesperado. Como explicar? A que se deve?

Tal vez seja isso que Jesus explicou aos discípulos. Pois, Jesus falava à multidão “por meio de parábolas, mas,quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo”. O evangelho não diz em que consistia essa explicação, mas se pode deduzir que esta força de crescimento surpreendente se deve ao estilo de vida e filosofia dele.

Com efeito, ele procede de maneira particularmente criativa e mexe com tudo e com todos com a finalidade de dar esperança e nova vida a todos os desanimados, excluídos e marginalizados, com a finalidade de construir um novo ser e uma nova sociedade, mesmo que isso signifique enfrentar o sofrimento até a morte pela oposição dos poderes constituídos.

Trata-se de fazer acontecer a salvação para todos, explorados e exploradores, os primeiros rejeitando a atitude de dominação e exploração passada pelo poder dominante; os segundo deixando a mesma e a prática correspondente, para assumir os dois a lei, o direito , a justiça e a fraternidade, que o pequeno galho e a semente tem em si mesmo, como expressão e prática do amor.

terça-feira, 5 de junho de 2012

10mo DOMINGO DO T.C. -B- (10-06-12)

1ª leitura Gn 3,9-15

Adão e Eva acabam de pecar, pois, comeram do fruto explicitamente proibido por Deus. O pecado se apresentou perante eles com a perspectiva de que “vossos olhos se abrirão e serão como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,5). Desconfiaram da ordem de Deus e ficaram seduzidos da proposta da serpente. Dai as consequências.

O Senhor Deus os perdeu de vista. No silêncio, ressoa a voz de Deus “Onde estás?”, apelo à consciência do homem. Já a pergunta é preocupante, pois, perdeu-se o relacionamento habitual de Adão e Eva com quem lhes deu a vida e os colocou no jardim. Deus não é mais o companheiro do diálogo, o soberano que desce ao anoitecer no seu estupendo parque para encontrar o amigo mais querido.

A resposta oferece um primeiro efeito do pecado: “Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi”. Antes, não tinha vergonha de estar nu, e menos ainda medo da presença de Deus. Mudou a imagem dele consigo mesmo e ao mesmo tempo o relacionamento com Deus.

De imediato Deus percebe a causa “comeste da árvore, cujo fruto te proibi comer?”. Adão bota a culpa na mulher e indiretamente a Deus “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu o fruto, e eu comi”. Eva que antes era “osso dos meus ossos a carne da minha carne”, agora é “a mulher”, como uma desconhecida, ao passo que se dirige a Deus como se afirmasse : o que é que você me deu?

Eva, por sua vez, bota responsabilidade na serpente “A serpente me enganou e eu comi” .É curiosa a tentativa, quase infantil, de Adão e Eva descarregarem a responsabilidade da culpa deles, ao invés de colocá-la nas motivações interiores da escolha. Procuram o culpável “fora de si” e da própria responsabilidade.

É assim apresentado o mundo na realidade atual, carregando as consequências do pecado. Assim, para o homem toda a culpa é da mulher e, para a mulher, a culpa está na serpente. Deus não interroga a serpente para não lhe dar o direito de existir, para condená-la ao silêncio e para chamar a humanidade à própria responsabilidade. O mal existe, e cada pessoa deve se colocar e se opor com liberdade e responsabilidade.

Deus se dirige à serpente “Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias de tua vida!” O pecado é rastejar no pó, na lama. Por outro lado, Deus “formou o ser humano do pó da terra” e, portanto, deixa entrever que o pecado é constitutivo da realidade do homem. A pessoa pode se manter livre dele cultivando o entrosamento e a amizade com Deus, pelo acolhimento e confiança na palavra dele.

Deus se dirige à serpente “serás maldita entre todos os animais domésticos” o que significa isso? Que Deus amaldiçoa? Amaldiçoar é tomar distância para não ser acusado de cumplicidade, é afirmar de maneira categórica: “Eu não tenho nada a ver contigo”. É condenar uma realidade ao fracasso, a não existir, porque está sob o controle de quem pronuncia a maldição.

A maldição de Deus contra a serpente se amplia ainda mais na descrição da luta acirrada entre a semente da serpente – os pecadores – e a semente da humanidade justa. Do pecado sai uma tensão que atravessa a história toda; é como se estivesse implantada uma luta contínua entre o bem e o mal. O relacionamento serpente-homem manifesta o relacionamento do homem com o mal, no qual mergulhou e afundou.

A mulher abriu a porta à potência do mal, e, por punição, esta deverá ficar sempre aberta, e o homem será diariamente exposto ao assalto do mal do qual conhece os efeitos. Na luta com a serpente, o homem não tem esperança, trata-se de questão de vida ou morte. Trata-se de luta entre descendências - “entre tua descendência e a dela”- e totalmente sem esperança de vitória, mesmo que se ativem virtudes heróicas. Nisso consiste a maldição: o ápice é essa luta sem esperança, na qual serpente e homem vão se desgastando e consumindo.

Na leitura da tradição da Igreja, o sujeito não é a semente em sentido genérico, mas a pessoa do Messias. Com Ele a luta contra o mal terá o seu momento decisivo. Mais ainda, a mesma tradição, reconhece Maria, como a mãe do Messias.

O texto se torna, então, um “proto-evangelho”, um anúncio de esperança, mesmo que seu teor inicial tenha sido o de proclamar a realidade da história como um grande campo de batalha entre o bem e o mal. Enfim, se é certo que a serpente “ferirá”, o bem, que é mais forte, “esmagará”. Esse trecho nos liberta da permanente sensação de um mal sempre triunfante.

Pelo contrário o mal foi e continuamente pode ser vencido, como indica a segunda leitura.

2da leitura 2 Cor 4, 13-18-5,1

Paulo se manifesta em virtude da fé “Eu creio, e por isso falei”, que também é a fé dos integrantes da comunidade. Ela (a fé) fundamenta a certeza “de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco”.

Portanto, o apostolo afirma “De fato, sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo foi destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna”. O destino do resgate da pessoa toda na glória de Deus, testemunhado pela ressurreição da pessoa de Jesus é o horizonte interpretativo da verdade da existência e dos corretos critérios da ação.

Assim, a intervenção dele é “por causa de vós”, para sustentar e aprofundar a fé no paradoxo da vida: tornar-se semelhante a Cristo, que salva mediante a morte. Compreender e assumir o que Jesus fez a favor de todos com sua morte e ressurreição é se abrir à “abundância da graça”, e perceber a transformação e regeneração de si mesmo, pelo dom que surpreende, pela eficácia que vai além de toda expectativa.

Este dom, acolhido por “um número maior de pessoas” faz “crescer a ação de graças para a glória de Deus”. A respeito, é muito conhecida a frase de Santo Irineu “A gloria de Deus é a vida dos homens, e a vida dos homens é louvar a Deus”, como reconhecimento e ação de graças pelo dom gratuito e imerecido da redenção.

A transmissão do dom recebido, por um lado encontra rejeição, provações e dificuldades que podem levar ao desânimo e a desistência. A isso Paulo faz alusão relativizando o sofrimento e o passageiro delas “Por isso, não desanimamos. Mesmo que o nosso homem exterior se vai arruinando” e qualifica as tribulações, que sabemos pesadas “volume insignificante de uma tribulação momentânea”.

Por outro lado, tudo isso é motivo para perceber como “o nosso homem interior (...) vai se renovando, dia a dia”. Assim que “acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável”. Tudo isso por ter os olhos fixos sobre o destino que “sendo invisível é eterno”.

Separar e afastar o homem do seu destino é obra de Satanás; do ser humano dividido em si mesmo por desconfiar da palavra e da proposta de Jesus. Jesus experimenta, em si mesmo, esta tentação e, no evangelho, indica a maneira de não ficar preso nela.

Evangelho Mc 3,20-35.

Para Jesus é um momento de grande sucesso pastoral “Jesus voltou a casa com os seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer” e, também, de duras críticas.

As críticas eram sustentadas pelos mestres da Lei “diziam que ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios”. Com isso afirmam que todo ser dividido em si mesmo, não tem futuro, está destinado a desaparecer, a morrer. “Se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído”.

A resposta de Jesus destaca o valor e a importância da integridade para que a existência se torne vida digna em plenitude. A pessoa mesma se torna Satanás quando dividida em si mesma, por um lado afirma uma coisa e pelo outro age contrariamente, com plena consciência da ambiguidade, tida como inevitável e necessária para a sobrevivência.

Foi o que Jesus experimentou nas tentações no deserto, por um lado ciente de sua divindade e pelo outro tentado a agir segundo os critérios dos homens. A tentação era que Ele agisse com os critérios humanos, apresentados pelo diabo. Seria o triunfo da ambiguidade, da divisão em si mesmo, o seu fracasso.

Com palavras duríssimas chamou a atenção a Pedro, depois da profissão de fé em Jesus como Messias, pois, não se dava conta do que estava exigindo de Jesus, e o chamou de Satanás, de pedra de tropeço.

Jesus, expulsando os demônios, afirma a chegada do reino de Deus (Mt 12,28). O ato de expulsar não se dá em virtude de uma força superior do Espírito, como se este tivesse um poder insuperável, capaz de vencer e eliminar os outros espíritos e desativar o poder deles. Seria confirmar o que supunham os mestres da Lei “pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios”.

O poder e a força do Espírito capacitam Jesus a criar na pessoa dividida, quebrada pela ambiguidade, o espaço e a condição para se recomporem na integridade. Nessa ação, Jesus não reivindica nada para si mesmo. A ligação da ação do Espírito com Ele é o evidente desinteresse do Espírito que ajuda, salva e renova, caracterizando, desta forma, a chegada do Reino.

O evidente desinteresse juntamente com a evidente ação salvadora dá conta do imperdoável, da blasfêmia contra o Espírito “todo pecado será perdoado aos homens (...). Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno”.

Por quê? Porque o relacionamento desinteressado e voltado para o bem qualifica a realidade do Amor, ao contrário do que pensavam os mestres da Lei que acreditavam no relacionamento pela força, ou seja, pelo poder e pelo domínio.

O imperdoável da blasfêmia contra o Espírito é não querer ver a manifestação da ação amorosa de Deus na ajuda desinteressada, é não acreditar na ação do Espírito nas reais condições humanas, é não levar a sério essa ação, apesar das provas evidentes e concretas.

Pelo seu comportamento e atitudes, a fama de Jesus louco - “possuído por um espírito mau”- deve ter chegado aos ouvidos dos familiares e da mãe. Eis, então, o encontro com ela e a surpreendente resposta de Jesus “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

É uma resposta escatológica. Pois, com ela, indica o último e definitivo de quem participa e entra no reino de Deus pela adesão à sua pessoa e prática. Estabelece-se o relacionamento pelo qual a pessoa é familiar de todos e todos são reconhecidos como família dela.