1ª leitura Is 49,1-6
As palavras deste segundo cântico do Servo de Javé se dirigem a todas as nações, abrangem o mundo inteiro “Nações marinhas, ouvi-me, povos distantes, prestai atenção” . Quem fala é o Servo, eleito e chamado pelo Senhor “desde o ventre de minha mãe”.
O Servo sabe perfeitamente da característica da missão que o Senhor lhe confiou, pois, ele “fez de minha palavra uma espada afiada”, uma palavra que discerne e corta e separa o certo do errado, com segurança, determinação e plena consciência do que está fazendo.
Mais ainda, ele conta com a proteção do Senhor, em total disposição à vontade dele, no momento que achar oportuno intervir, como um eficaz instrumento “protegeu-me à sombra de sua mão e fez de mim uma flecha aguçada, escondida em sua aljava”.
Em fim, ele se percebe totalmente identificado com a pessoa e a missão do Senhor, pois, o mesmo disse-lhe “Tu és meu servo, Israel, em quem serei glorificado”. Os estudiosos afirmam que o sujeito pode ser uma pessoa individual ou, também, o povo de Israel. Em alguns dos quatro cânticos parece prevalecer o primeiro, em outros o segundo. De toda maneira, é importante neste trecho perceber o alcance e a característica de sua missão.
Contudo, a missão não alcança os frutos esperados: o Servo afirma “Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente”. Momento de grande desilusão e desconforto. A reação é se perguntar em que errou, porque não deu certo, se desistir ou não, se há motivo e condição para continuar. Neste momento de crise - juízo sobre o si mesmo e o desenvolvimento da missão - o Servo deve verificar a sintonia com o que o Senhor indicou e determinou.
A resposta do Servo é positiva. Isso lhe permite afirmar “entretanto, o Senhor, me fará justiça, o meu Deus me dará recompensa”. Assim, a integridade do próprio ser, em sintonia com o agir correspondente, é fundamental para o equilíbrio humano, psicológico e moral e, dessa forma, atender à resposta do Senhor.
O fracasso e a desilusão acontecem, também, para com toda pessoa que, animada dos melhores propósitos e se dedicando com todo esmero e entusiasmo para um serviço à pessoa, ou à comunidade, não tem retorno nenhum. Neste caso a avaliação é sobre a bondade do fim, a autenticidade dos meios, as próprias atitudes sinceras e o comportamento transparente, sem segundos fins.
Em todo caso, o eixo é a integridade de si mesmo, com respeito a pratica do amor para com o próximo, da qual brota a voz do Senhor. Em primeiro lugar como certeza de que “o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa”, assim que, apesar do fracasso humano, isso não significa desinteresse, desatenção, por parte de Deus.
Pelo contrário, ele é mais presente interessado e participativo do que parece, pois é justo e sabe recompensar do jeito dele. Com certeza é um jeito surpreendente e inesperado por confirmar que continue a missão para recuperar “Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele”, aprovando de tal maneira o que fez, pois, “aos olhos do Senhor esta é a minha glória” . Mais ainda por lhe confiar uma missão ainda mais abrangente e, sem dúvida, mais desafiadora.
“Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó (...): eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra”. Assim, o estilo, o conteúdo e a teimosia da missão se tornam luz que ilumina muito mais que o povo eleito – Israel – mas todas as nações.
A responsabilidade do servo se universaliza, pois, é preciso que tenha consciência que o agir localmente tem relevância universal. É um aspecto que foge da consciência das pessoas, marcada pelo excessivo individualismo que as isola da percepção de que fazem parte da família humana, dos sete bilhões de homens e mulheres, da coletividade, chamadas à comunhão e à fraternidade.
A missão de João Batista tem esta característica, como indica a segunda leitura.
2da leitura At 13,22-26
Com poucas palavras o trecho faz o resumo e enquadra a missão de João Batista. Destaca-o como precursor, como aquele que tem a missão de preparar o povo para a chegada do esperado Messias, o Salvador, pois “a nós foi enviada esta mensagem de salvação”.
Em primeiro lugar “João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel”. A conversão consiste em voltar ao cumprimento da lei de Moisés, no respeito à Aliança com Deus em virtude da qual a gente se tornou o “povo eleito”, escolhido por Deus.
Com efeito, o povo estava muito longe de manifestar o que Deus esperava dele em virtude da Aliança. Os mestres da lei e as autoridades levaram o povo a uma condição de vida inaceitável. Não havia justiça, o direito era administrado a favor dos poderosos.
Não praticavam a fraternidade e solidariedade – a lei do amor característica da liberação doada por Deus com a saída da escravidão do Egito – que pudessem manifestar que Deus reinava no meio deles. Pelo contrário, muitas vezes era motivo de escândalo, apesar do rigoroso respeito à letra da lei a as exigências do culto e da prática da oração.
Assim, João pregava o retorno à Aliança, pois era conhecimento comum que, com a chegada do Messias, seria iniciado o processo de purificação e renovação do povo, separando os cumpridores dos descumpridores da Lei – entrada no reino de Deus para os primeiros e o fogo da lixeira para os segundos – expulsando os invasores romanos e instaurando o antigo esplendor do reino de Israel, como aos tempos do rei Davi.
João percebe chegar o momento de terminar a sua missão, quando comparecer Jesus e, no batismo que ele mesmo lhe administrou, compreender que daí para frente devia dar espaço à atuação dele, e ele se retirar.
A fama e aceitação por parte do povo foi grande ao ponto que pensavam que ele fosse o Messias. Com efeito, o quadro referencial era em sintonia com os conhecimentos e expectativas do povo. João, com grande honestidade, procura desmanchar explicitamente esse mal entendido “Eu não sou aquele que pensais que seja!”.
E indica a Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Anteriormente, convida o povo prestar atenção - “Mas vede: depois de mim vem aquele” – a um novo sujeito presente no meio deles e desconhecido, do qual faz uma apresentação surpreendente “nem mereço desamarrar as sandálias”.
Com certeza, nem o Batista tinha ideia do desconcerto e do reboliço que iria trazer Jesus. Mexer com a Lei, mesmo com o propósito de aperfeiçoá-la e levá-la ao cumprimento do fim pela qual foi instruída, foi muito além do que o Batista pensava. A crise foi de tal tamanho que mandou perguntar a Jesus se de verdade ele era o Messias ou se deviam esperar outro.
De toda maneira a presença e ação dele são importantes para apreciar o tamanho do salto qualitativo da conversão oferecida por Jesus e apreciar a diferença entre ele e aquele do qual não merece “desamarrar as sandálias”.
O nascimento dele já marca uma ruptura com a tradição - processo que Jesus completará – como mostra o evangelho.
Evangelho Lc 1,57-66.80
O nascimento de João Batista foi recebido com medo e perplexidade por parte do povo “Todos os vizinhos ficaram com medo (...).E todos os que ouviam a notícia, ficaram pensando ‘O que virá a ser este menino?”.
Em primeiro lugar por Isabel ter concebido o filho já quando toda esperança parecia inútil, mesmo que isso tenha sido lido como um sinal de favor e predileção por parte do Senhor. Tudo isso levava a pensar que, por gratidão a Deus, fosse plenamente respeitada a tradição de impor, na circuncisão, o nome do pai.
O desconcerto foi quando a mãe disse “Não! Ele vai chamar-se João!” e o pai, perante o desconcerto de todos, confirmou “João é o seu nome. E todos ficaram admirados. No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus”.
O nome, para a cultura de então, indica a missão e a realidade profunda da pessoa. “João” significa “Deus bondoso”, “Deus misericordioso”. Portanto, já isso indica o futuro do menino, pois ele será a manifestação da bondade e misericórdia de Deus.
É o que acontecerá com a missão de chamar o povo à conversão, na espera iminente da chegada do Messias, para que a bondade misericordiosa de Deus que o Messias traz se concretize na vida pessoal e social, como indicado na segunda leitura.
O fato do pai dele – Zacarias – retomar a palavra e louvar a Deus era um sinal inconfundível do favor, do consentimento de Deus a ruptura da tradição e do que o filho deverá ser e exercitar, chegado o momento oportuno.
O povo ficou pensativo “O que virá a ser este menino?”. Perfeitamente compreensível, o passado já não sustenta o presente e o futuro é totalmente desconhecido, se não for pela intenção de realizar através dele a bondade e misericórdia de Deus. Em que consistirá realmente ninguém sabe, nem há sinais disso. E tudo o que se desconhece gera perplexidade e temor.
Os fatos posteriores confirmarão que “De fato, a mão do Senhor estava com ele”, pois desenvolverá a missão sendo reconhecido pelo povo como um enviado de Deus. As autoridades, pelo contrário, desconfiaram e não acreditaram nele, como Jesus mesmo dirá.
Jesus mesmo reconhecerá a grandeza de João Batista, mesmo afirmando que o menor no reino é maior do que ele. Pois, a conversão pedida por Jesus será muito maior do que aquela de João...
De toda maneira, com visão retrospectiva, o evangelista comenta “E o menino crescia e se fortalecia no espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel”, se tornando um modelo de integridade, coerência e dedicação à missão, se purificando na noite obscura da fé na cadeia, para terminar sua vida por causa da fidelidade à Lei - que o Messias estava mexendo, com grande desconcerto dele – e pela intriga na corte do rei.
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