1ª leitura Ez 17,22-24
“Vou plantá-lo sobre o alto monte de Israel”. A ação do Senhor aponta para uma maior visibilidade, de maneira que todos indistintamente percebam e conheçam o agir dele, assim como a manifestação da presença dele, pois o “monte”significa o lugar da revelação de Deus.
“Eu mesmo tirarei um galho da copa do cedro, do mais alto de seus ramos arrancarei um broto e o plantarei sobre um monte alto e elevado”. O cuidado de Deus para com ele se manifestará de maneira que “todas as árvores do campo saberão que eu sou o Senhor”.
A imagem do pequeno galho lembra a ação de Deus para algo muito pequeno, insignificante, frágil e precário. A fidelidade de Deus à promessa, juntamente a seu poder e força fará dele o contrário do que num primeiro momento ele é. “Ele produzirá folhagem, dará frutos e se tornará um cedro majestoso”, pois alcançará a plenitude se sua potencialidade.
O estupor e a maravilha tomarão conta de todos, também em consideração de que o desenvolvimento a plenitude dele será oportunidade para o bem, o sossego e a alegria de todos os pássaros, de todos aqueles que podem se deliciar e receber benefícios de sua condição “Debaixo dele pousarão todos os pássaros, à sombra de sua ramagem as aves farão ninhos”. Para todos será motivo de alegria, paz e bem-estar.
A metáfora destaca o cuidado de Deus para com o seu povo. Mesmo que o povo esteja deportado - no exílio - em Babilônia e, portanto, sofrendo, desanimado, sem esperança e longe da terra prometida, acreditando ter sido abandonado por Deus pela infidelidade à Aliança, Deus renova sua promessa.
Ele mesmo tomará a iniciativa, com um pequeno resto de pessoas que permaneceram fiéis -um galho – para reconstruir o povo de Israel pela fidelidade à promessa estabelecida com a Aliança.
Se dependesse dos homens, não haveria remédio nem esperança, o povo se tornou como uma árvore seca. O desrespeito à Aliança, o desprezo aos mandamentos, o afastamento da prática da justiça e do direito, levou-os à nova escravidão em Babilônia, o novo Egito.
Cabe perguntar se a humanidade não está no mesmo caminho de autodestruição. Pelo menos, o perigo está aí com certeza. O crescimento do domínio do homem sobre a natureza e a qualidade de vida de poucos, a maior parte do poder político e financeiro concentrado nas mãos de um número sempre menor de pessoas; isto aponta para o perigo de que isso se torne um poder que, fugindo do controle e do bom senso atento às exigências da humanidade como um todo,pode gerar a catástrofe universal.
É urgente olhar à humanidade com os olhos de Deus, ter para com ela os mesmos sentimentos de Jesus que veio para oferecer o caminho para descobrir, cultivar e fazer duradoura a realidade do reino de Deus, capaz de integrar as diferentes raças, culturas, línguas e religiões na realidade na fraternidade e solidariedade universal.
O Antigo Testamento não conseguiu esta meta, apesar das repetidas intervenções de Deus por meio dos profetas e seus enviados. Também deste fracasso vai “tirar um galho” para indicar e oferecer a última e definitiva oportunidade.
O novo “galho” é Cristo, do qual Paulo percebe, em sua morte e ressurreição, o caminho e os meios para a nova humanidade atingir o objetivo, como mostra na segunda leitura.
2da leitura 2 Cor 5,6-10
Dirigindo-se aos membros da comunidade Paulo, também em nome de outros, afirma “estamos cheios de confiança e preferimos deixar a moradia do nosso corpo, para ir morar junto do Senhor”.
Para Paulo, o “galho” Jesus, se tornando Jesus Cristo, realizou em si mesmo a condição de “cedro majestoso” da primeira leitura, ponto de convergência e de recapitulação de tudo e de todos. Daí a confiança e o desejo de ir morar junto do Senhor. O discípulo e o Senhor ressuscitado se pertencem mutuamente, como o amante no amado unidos pelo amor.
“Amor atrai amor”- o lema da paróquia - “Por isso, também nos empenhamos a ser agradáveis a ele, quer estejamos no corpo, quer tenhamos deixado essa morada”. É a prática do temor de Deus, que acompanha esta vida, e pela intuição de Paulo, também a outra. Com efeito, a prática do amor procura não desagradar o amado até os mínimos detalhes.
Se o amor é realidade permanente de Deus na qual mergulharemos após a morte, é compreensível que o temor faça parte da vida não só no presente, mas também futura. Por outro lado se estabelece uma ligação muito estreita entre esta vida e a outra, após a morte, pelo resgate na comunhão com o Ressuscitado.
Assim, a compreensão da ressurreição não é devida às eventuais e esperadas aparições, nem por comunicações de espíritos andarilhos, nem por especulações filosóficas particularmente profundas e abrangentes, mas, simplesmente, por viver nesta vida a prática do amor que Jesus mandou praticar imitando a Ele.
Isso faz justiça a todo ser humano, sem distinção de raça cultura, religião, pois, o amor faz parte do patrimônio de cada ser humano. Daí, então, que a vida neste mundo é percebida como peregrinação rumo à comunhão com o Ressuscitado, passando pela barreira da morte “enquanto moramos neste corpo, somos peregrinos longe do senhor, pois caminhamos na fé e não na visão clara”.
A peregrinação é sustentada pela fé e motivada pela esperança. A carta aos hebreus define a fé como “a maneira de possuir o que se espera e de conhecer o que não se vê” (11,1). O que se espera - conformado no profundo do ser da pessoa pela prática do amor, como Jesus nos amou - já se torna realidade de vida eterna, que ultrapassa e vence a mesma morte, por efeito da confiança - a fé - nos efeitos da morte e ressurreição que sustenta e motiva a prática do amor.
Evidentemente, tudo isso é uma realidade perfectível, imperfeita e participa do processo de purificação e crescimento por causa das fraquezas humanas e do pecado. Por isso que não temos dela “visão clara”. Contudo, temos certeza do destino.
Destino no qual “todos nós temos de comparecer às claras perante o tribunal de Cristo, para cada um receber a devida recompensa - prêmio ou castigo - do que tiver feito ao longo de sua vida corporal”.
Assim, o momento em que se desvelará a realidade na qual Deus será “tudo em todos”, se manifestará, também, o grau e a qualidade da fé, esperança e amor da vida terrena e com ela o grau e a qualidade de participação na gloria de Deus, salvando a livre determinação do Senhor não ficar preso a lei da retribuição, pois, afirma o mesmo Paulo “onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça” (Rm5,20).
A primeira e a segunda leitura apontam à realidade última e definitiva, a mesma apresentada no evangelho.
Evangelho Mc 4,26-34
Jesus veio para mostrar e implantar o reino de Deus, realidade última e definitiva de todos e de todo. Humanidade e a criação têm e reconhecem a Deus como principio e fim da própria existência, perfeitamente integrada na realidade dele e encharcada pelo amor e plenitude da vida.
Jesus fala para a multidão “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra”. Evidentemente quem espalha é Deus mesmo, pois, se o Reino é D’Ele ninguém outro possui a semente.
A semente são os apóstolos, os discípulos, as testemunhas. Ele os indicará como sal, fermento, luz para a transformação das pessoas em outros discípulos, e do mundo como novo céu e nova terra.
Eles são chamados a ser palavra, semente. Pelo estilo de vida, pela palavra e testemunho deles são enviados no mundo, como semente que se espalha no terreno. Ao mesmo tempo são semeador e semente, não da para semear algo que não tenha que ver com eles mesmos, com o mais profundo do próprio ser.
Pela característica do poder de sedução do mundo e do domínio impositivo das leis e vontade dos governantes ao serviço do mesmo, esta semente se percebe como pouca coisa que nunca conseguirá o objetivo pela qual foi semeada.
Jesus responde que a semente possui em si mesma uma força surpreendente e capacidade de crescimento, que ela mesma desconhece “Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece”. Gradativamente atingirá o objetivo até chegar o momento oportuno da intervenção final última e definitiva de Deus - o momento da colheita - no qual Jesus Cristo entregará o reino ao Pai para que Deus seja “tudo em todos”(1Cor 15,28).
Jesus acrescenta outra comparação “O reino de deus é como um grão mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra”. Portanto, nada de espetacular, de admirável e surpreendente que suscite admiração maravilha e submissão incontestável, pelo contrário, passa como o menor, o mais insignificante, que não chama particular atenção.
“Quando é semeado cresce e se torna maior do que todas as hortaliças”. Também o crescimento se deve a uma dinâmica particularmente eficaz e surpreendente. Da fraqueza e insignificância se passa ao seu contrario. O contraste entre o início e o final é surpreendente e humanamente inesperado. Como explicar? A que se deve?
Tal vez seja isso que Jesus explicou aos discípulos. Pois, Jesus falava à multidão “por meio de parábolas, mas,quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo”. O evangelho não diz em que consistia essa explicação, mas se pode deduzir que esta força de crescimento surpreendente se deve ao estilo de vida e filosofia dele.
Com efeito, ele procede de maneira particularmente criativa e mexe com tudo e com todos com a finalidade de dar esperança e nova vida a todos os desanimados, excluídos e marginalizados, com a finalidade de construir um novo ser e uma nova sociedade, mesmo que isso signifique enfrentar o sofrimento até a morte pela oposição dos poderes constituídos.
Trata-se de fazer acontecer a salvação para todos, explorados e exploradores, os primeiros rejeitando a atitude de dominação e exploração passada pelo poder dominante; os segundo deixando a mesma e a prática correspondente, para assumir os dois a lei, o direito , a justiça e a fraternidade, que o pequeno galho e a semente tem em si mesmo, como expressão e prática do amor.
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