1ª leitura Gn 3,9-15
Adão e Eva acabam de pecar, pois, comeram do fruto explicitamente proibido por Deus. O pecado se apresentou perante eles com a perspectiva de que “vossos olhos se abrirão e serão como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,5). Desconfiaram da ordem de Deus e ficaram seduzidos da proposta da serpente. Dai as consequências.
O Senhor Deus os perdeu de vista. No silêncio, ressoa a voz de Deus “Onde estás?”, apelo à consciência do homem. Já a pergunta é preocupante, pois, perdeu-se o relacionamento habitual de Adão e Eva com quem lhes deu a vida e os colocou no jardim. Deus não é mais o companheiro do diálogo, o soberano que desce ao anoitecer no seu estupendo parque para encontrar o amigo mais querido.
A resposta oferece um primeiro efeito do pecado: “Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi”. Antes, não tinha vergonha de estar nu, e menos ainda medo da presença de Deus. Mudou a imagem dele consigo mesmo e ao mesmo tempo o relacionamento com Deus.
De imediato Deus percebe a causa “comeste da árvore, cujo fruto te proibi comer?”. Adão bota a culpa na mulher e indiretamente a Deus “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu o fruto, e eu comi”. Eva que antes era “osso dos meus ossos a carne da minha carne”, agora é “a mulher”, como uma desconhecida, ao passo que se dirige a Deus como se afirmasse : o que é que você me deu?
Eva, por sua vez, bota responsabilidade na serpente “A serpente me enganou e eu comi” .É curiosa a tentativa, quase infantil, de Adão e Eva descarregarem a responsabilidade da culpa deles, ao invés de colocá-la nas motivações interiores da escolha. Procuram o culpável “fora de si” e da própria responsabilidade.
É assim apresentado o mundo na realidade atual, carregando as consequências do pecado. Assim, para o homem toda a culpa é da mulher e, para a mulher, a culpa está na serpente. Deus não interroga a serpente para não lhe dar o direito de existir, para condená-la ao silêncio e para chamar a humanidade à própria responsabilidade. O mal existe, e cada pessoa deve se colocar e se opor com liberdade e responsabilidade.
Deus se dirige à serpente “Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias de tua vida!” O pecado é rastejar no pó, na lama. Por outro lado, Deus “formou o ser humano do pó da terra” e, portanto, deixa entrever que o pecado é constitutivo da realidade do homem. A pessoa pode se manter livre dele cultivando o entrosamento e a amizade com Deus, pelo acolhimento e confiança na palavra dele.
Deus se dirige à serpente “serás maldita entre todos os animais domésticos” o que significa isso? Que Deus amaldiçoa? Amaldiçoar é tomar distância para não ser acusado de cumplicidade, é afirmar de maneira categórica: “Eu não tenho nada a ver contigo”. É condenar uma realidade ao fracasso, a não existir, porque está sob o controle de quem pronuncia a maldição.
A maldição de Deus contra a serpente se amplia ainda mais na descrição da luta acirrada entre a semente da serpente – os pecadores – e a semente da humanidade justa. Do pecado sai uma tensão que atravessa a história toda; é como se estivesse implantada uma luta contínua entre o bem e o mal. O relacionamento serpente-homem manifesta o relacionamento do homem com o mal, no qual mergulhou e afundou.
A mulher abriu a porta à potência do mal, e, por punição, esta deverá ficar sempre aberta, e o homem será diariamente exposto ao assalto do mal do qual conhece os efeitos. Na luta com a serpente, o homem não tem esperança, trata-se de questão de vida ou morte. Trata-se de luta entre descendências - “entre tua descendência e a dela”- e totalmente sem esperança de vitória, mesmo que se ativem virtudes heróicas. Nisso consiste a maldição: o ápice é essa luta sem esperança, na qual serpente e homem vão se desgastando e consumindo.
Na leitura da tradição da Igreja, o sujeito não é a semente em sentido genérico, mas a pessoa do Messias. Com Ele a luta contra o mal terá o seu momento decisivo. Mais ainda, a mesma tradição, reconhece Maria, como a mãe do Messias.
O texto se torna, então, um “proto-evangelho”, um anúncio de esperança, mesmo que seu teor inicial tenha sido o de proclamar a realidade da história como um grande campo de batalha entre o bem e o mal. Enfim, se é certo que a serpente “ferirá”, o bem, que é mais forte, “esmagará”. Esse trecho nos liberta da permanente sensação de um mal sempre triunfante.
Pelo contrário o mal foi e continuamente pode ser vencido, como indica a segunda leitura.
2da leitura 2 Cor 4, 13-18-5,1
Paulo se manifesta em virtude da fé “Eu creio, e por isso falei”, que também é a fé dos integrantes da comunidade. Ela (a fé) fundamenta a certeza “de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco”.
Portanto, o apostolo afirma “De fato, sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo foi destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna”. O destino do resgate da pessoa toda na glória de Deus, testemunhado pela ressurreição da pessoa de Jesus é o horizonte interpretativo da verdade da existência e dos corretos critérios da ação.
Assim, a intervenção dele é “por causa de vós”, para sustentar e aprofundar a fé no paradoxo da vida: tornar-se semelhante a Cristo, que salva mediante a morte. Compreender e assumir o que Jesus fez a favor de todos com sua morte e ressurreição é se abrir à “abundância da graça”, e perceber a transformação e regeneração de si mesmo, pelo dom que surpreende, pela eficácia que vai além de toda expectativa.
Este dom, acolhido por “um número maior de pessoas” faz “crescer a ação de graças para a glória de Deus”. A respeito, é muito conhecida a frase de Santo Irineu “A gloria de Deus é a vida dos homens, e a vida dos homens é louvar a Deus”, como reconhecimento e ação de graças pelo dom gratuito e imerecido da redenção.
A transmissão do dom recebido, por um lado encontra rejeição, provações e dificuldades que podem levar ao desânimo e a desistência. A isso Paulo faz alusão relativizando o sofrimento e o passageiro delas “Por isso, não desanimamos. Mesmo que o nosso homem exterior se vai arruinando” e qualifica as tribulações, que sabemos pesadas “volume insignificante de uma tribulação momentânea”.
Por outro lado, tudo isso é motivo para perceber como “o nosso homem interior (...) vai se renovando, dia a dia”. Assim que “acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável”. Tudo isso por ter os olhos fixos sobre o destino que “sendo invisível é eterno”.
Separar e afastar o homem do seu destino é obra de Satanás; do ser humano dividido em si mesmo por desconfiar da palavra e da proposta de Jesus. Jesus experimenta, em si mesmo, esta tentação e, no evangelho, indica a maneira de não ficar preso nela.
Evangelho Mc 3,20-35.
Para Jesus é um momento de grande sucesso pastoral “Jesus voltou a casa com os seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer” e, também, de duras críticas.
As críticas eram sustentadas pelos mestres da Lei “diziam que ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios”. Com isso afirmam que todo ser dividido em si mesmo, não tem futuro, está destinado a desaparecer, a morrer. “Se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído”.
A resposta de Jesus destaca o valor e a importância da integridade para que a existência se torne vida digna em plenitude. A pessoa mesma se torna Satanás quando dividida em si mesma, por um lado afirma uma coisa e pelo outro age contrariamente, com plena consciência da ambiguidade, tida como inevitável e necessária para a sobrevivência.
Foi o que Jesus experimentou nas tentações no deserto, por um lado ciente de sua divindade e pelo outro tentado a agir segundo os critérios dos homens. A tentação era que Ele agisse com os critérios humanos, apresentados pelo diabo. Seria o triunfo da ambiguidade, da divisão em si mesmo, o seu fracasso.
Com palavras duríssimas chamou a atenção a Pedro, depois da profissão de fé em Jesus como Messias, pois, não se dava conta do que estava exigindo de Jesus, e o chamou de Satanás, de pedra de tropeço.
Jesus, expulsando os demônios, afirma a chegada do reino de Deus (Mt 12,28). O ato de expulsar não se dá em virtude de uma força superior do Espírito, como se este tivesse um poder insuperável, capaz de vencer e eliminar os outros espíritos e desativar o poder deles. Seria confirmar o que supunham os mestres da Lei “pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios”.
O poder e a força do Espírito capacitam Jesus a criar na pessoa dividida, quebrada pela ambiguidade, o espaço e a condição para se recomporem na integridade. Nessa ação, Jesus não reivindica nada para si mesmo. A ligação da ação do Espírito com Ele é o evidente desinteresse do Espírito que ajuda, salva e renova, caracterizando, desta forma, a chegada do Reino.
O evidente desinteresse juntamente com a evidente ação salvadora dá conta do imperdoável, da blasfêmia contra o Espírito “todo pecado será perdoado aos homens (...). Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno”.
Por quê? Porque o relacionamento desinteressado e voltado para o bem qualifica a realidade do Amor, ao contrário do que pensavam os mestres da Lei que acreditavam no relacionamento pela força, ou seja, pelo poder e pelo domínio.
O imperdoável da blasfêmia contra o Espírito é não querer ver a manifestação da ação amorosa de Deus na ajuda desinteressada, é não acreditar na ação do Espírito nas reais condições humanas, é não levar a sério essa ação, apesar das provas evidentes e concretas.
Pelo seu comportamento e atitudes, a fama de Jesus louco - “possuído por um espírito mau”- deve ter chegado aos ouvidos dos familiares e da mãe. Eis, então, o encontro com ela e a surpreendente resposta de Jesus “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.
É uma resposta escatológica. Pois, com ela, indica o último e definitivo de quem participa e entra no reino de Deus pela adesão à sua pessoa e prática. Estabelece-se o relacionamento pelo qual a pessoa é familiar de todos e todos são reconhecidos como família dela.
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