1ª leitura At 12,1-11
Momento altamente dramático para a Igreja. Herodes, para agradar o povo, desencadeia uma violenta perseguição de torturas e de morte “prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar a espada Tiago, irmão de João”.
Não se sabe o motivo da perseguição. Dá para perceber que o surgir da Igreja estava incomodando o povo e as autoridades, pois, com certeza, a pregação, o convite à conversão, o estilo de vida da comunidade e dos cristãos mexiam com a vida e expectativas deles.
Se não fosse pela circunstância da Páscoa, também Pedro teria sido executado “Vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos”. Portanto, Herodes adiou a execução: “colocou-o na prisão (...) tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa”.
Podemos imaginar o estado de preocupação, de tensão e de pavor entre os membros da jovem Igreja que estava se constituindo. “Enquanto Pedro era mantido em prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele”. Cabe considerar como a intercessão perseverante da oração, talvez, não teve somente a finalidade de pedir a Deus a salvação de Pedro, mas de infundir coragem e perseverança para a comunidade no testemunho.
O mesmo texto relata a oração da comunidade em circunstâncias parecida “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra (...). Todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a Palavra de Deus” (At 4,24-31).
Pedir a coragem para não desistir, mostra a firmeza e profundidade da identidade com a pessoa de Jesus, pelo dom dos efeitos de sua e morte e ressurreição. O Espírito Santo fez que valorizassem mais este segundo aspecto do que a própria vida. Foi o efeito nova Pentecostes.
Momentos difíceis, provações de diferentes tipos, fazem parte da experiência de todos. Certo, há diferentes dificuldades e provações, algumas dramáticas e até trágicas, como a dos primeiros cristãos. Outras muito menores, as comuns de todos os dias.
Com respeito a estas últimas, refiro-me àquela que surgem pela fidelidade ao estilo de vida cristã e à dinâmica do evangelho na comunidade, na vida familiar, social e no serviço. Por serem elas contrárias, ou não em conformidade, com desejos e expectativas dos interlocutores, contrariam pessoas queridas, descontentam pessoas amadas, cujo carinho e amizade são importantes e suscitam mal estar e discordâncias.
Assim, para não perder amizade, afeto, para não ficarem mal frente a eles, muitos desistem da prática coerente ou se tornam ambíguas, comprometendo a própria identidade. O momento da prova é teste da autenticidade da identidade com o Senhor Ressuscitado.
Voltando a Pedro, a vontade de Deus se manifestou de maneira admirável e de repente. Cabe frisar como a intervenção é tão surpreendente por um lado e pouco espetacular pelo outro. Ela acontece entre visão e realidade. “Pedro não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão”. Talvez, Pedro pensasse que fosse uma simples visão sustentada pelo desejo pessoal e pela intercessão da comunidade. Talvez tinha se conformado com a morte iminente, sendo que esta foi o que aconteceu ao apostolo Tiago.
De fato, a intervenção surpreendeu o mesmo Pedro, que demorou entender a ação divina. Só percebeu a realidade do acontecido após sair da prisão em companhia do anjo e quando este último o deixou “Então, Pedro caiu em si e disse: Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”. É característica geral das manifestações divinas serem percebidas somente após a operação concluída.
De todas as maneiras, ela testemunha que Deus não está ausente nem indiferente às condições humanas. Sobretudo dos seus discípulos nas condições de extrema dificuldade.
Inclusive na experiência de são Paulo que terá um desfecho bem diferente, como relata a segunda leitura.
2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18
Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele manifesta os sentimentos dele diante da morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde, atualmente, existe uma Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, Paulo sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do Evangelho e constituição das comunidades cristãs. Emfim, um combate que deu resultado satisfatório para ele, na sua identificação com Cristo e na difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É próprio da consciência de quem fez tudo o que estava nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente, porque se trata do último e definitivo de Deus, que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”(1Cor 15). Contudo, é esta meta que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho, pois é já participação neste futuro e manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente. Nele encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua (do Senhor) manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, talvez, lhe era impossível perceber anteriormente, e precisamente de que “o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi pouca coisa, foi graças a presença do Senhor e causa de libertação “da boca do leão”.
Refere-se ao “leão” que motiva fugir do combate; parar ou desistir da corrida; desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o “leão” que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos comprometidos, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, os desmotivando de todo sério compromisso com o Senhor.
Emfim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
O eixo é a fé, o voto de confiança em Jesus e em si mesmo, como indica o Evangelho.
Evangelho Mt 16,13-19
Jesus tem ciência do novo que surgirá pela missão dele. Também tem certeza que do antigo não ficará “pedra sobre pedra”, assim como a impossibilidade de voltar atrás. Sua mesma palavra: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus” vale em primeiro lugar para Ele.
Para envolver neste processo a humanidade inteira, deve colocar as bases e fornecer os instrumentos para dar consistência e solidez ao processo. Nesta ótica, escolhe e associa a si mesmo os discípulos para que, caminhando e sendo instruídos por Ele, adquiram o conhecimento e as atitudes convenientes.
É nesse contexto que a metade do evangelho (a metade do caminho?) o evangelista coloca o texto de hoje. A resposta à pergunta de Jesus com respeito a “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem” (Filho do Homem é a maneira de Jesus se apresentar), oferece uma breve informação da multiplicidade das interpretações do povo com respeito à pessoa e à missão Dele. Contudo, ela é simplesmente introdutória à pergunta central dirigida aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. O verdadeiro interesse de Jesus é ter ciência do entendimento dos discípulos.
A resposta de Pedro “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” é elogiada por Jesus e indicada como revelação do “meu Pai que está no céu”. Mas, como acontece nas experiências de todos os dias, com as mesmas palavras as pessoas entendem coisas diferentes. O mesmo acontecerá com Pedro que entenderá, com estas palavras, algo bem diferente do que entende Jesus, motivo pelo qual haverá um choque muito áspero entre os dois. (Mc. 8, 32-33).
Contudo, Jesus afirma solenemente, com a sua autoridade, que aquela profissão de fé será a pedra da edificação da comunidade dos discípulos. Sinal disso troca o nome de Simão pelo de Pedro “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. A pedra, evidentemente, não é a pessoa de Pedro, mas a fé que Pedro acaba de professar, mesmo que o significado e o conteúdo certo dela sejam entendidos somente após a morte e ressurreição de Jesus. Haverá forças poderosas contrárias, mas a última palavra vitoriosa será dela “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.
“Eu te darei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Portanto, o poder das chaves, de abrir e fechar, de ligar e desligar, entregado a Pedro - aos discípulos e a Igreja toda - por Jesus, não autoriza um exercício arbitrário, deixado ao bem querer e entender dele, mas ao critério de discernimento que tem como eixo a fé que acaba de professar.
Será a aplicação de uma fé libertadora, operadora daquela liberdade que ele experimentou na 1ª leitura. Será a chave que abrirá a prisão do condenado a morte e prestes a ser executado e devolverá a ele vida e futuro cheios de esperança.
Evidentemente, se trata não só das pessoas prestes a ser executados fisicamente, mas das que já experimentam a morte pela desumanização, pelo vazio interior e o sem sentido da existência, pela prática de vida imoral e pelo real afastamento da comunhão com Deus, e pelas quais está disponível a ação misericordiosa do Senhor.
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