terça-feira, 28 de agosto de 2012

22do DOMINGO DO T.C.-B-(02-09-12)

1ª leitura Dt 4,1-2.6-8

O que de Deus esperamos é a benção e a vida em abundância, pois, Ele é o Senhor da vida. Quando a vida é ameaçada, a existência no dia -a - dia não parece ter sentido, é como se estivesse vazia; quando a autoestima está pelo chão e o peso dos próprios limites humanos e morais se tornam uma carga insuportável, nos dirigimos a Ele, do qual tudo origina, esperando um sinal, uma guinada, come se estivéssemos renascendo.

No próprio mundo interior surge a pergunta: por que não se faz presente? Por que deixa correr, se ele é Pai e nos ama como filhos? Ampliando o horizonte, nos perguntamos o porquê do mal, da tolerância d’Ele para com a injustiça e a morte antes do tempo de muitos inocentes, e muitas outras perguntas que brotam da ideia de Deus que assumimos em aberta contradição com a experiência do momento. Assim, a confiança n’Ele é abalada e o desconcerto toma conta, até ao ponto de, muitas vezes, duvidar mesmo da existência de Deus.

O povo de Israel entra na terra prometida, após a caminhada no deserto. Chegou a meta prometida por Deus e Moisés convoca o povo para as oportunas orientações em sintonia com os termas da aliança , de maneira que o estilo de vida pessoal e a convivência social sejam bem sucedidas.

Primeira atitude, fundamental não só para eles, mas para as pessoas e comunidades de todos os tempos, é se dispor, convenientemente, à escuta “Agora, Israel,escuta as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir” . Escutar é muito mais que ouvir. Na escuta é envolvida a pessoa toda: coração, inteligência, vontade e todas as energias. Presume a paixão pela busca do que é correto e justo, juntamente à consciência que a resposta correta é dom do Senhor.

A resposta está mediada pelas leis o os decretos, pois, indicam o caminho e cuja finalidade específica motiva e justifica a obediência “para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida pelo Senhor Deus de vossos pais”. Possuir a terra prometida, não é simplesmente tomar posse do chão, mas implantar o estilo de vida pessoal e a organização social que alcancem a paz, a harmonia entre todos e com tudo, com outras palavras, o Reino de Deus.

Com isso será manifesto entre eles e aos povos todos que Deus reina, que o Senhor da vida é presente e atendido come mestre e guia. Portanto, Deus está entregando a terra prometida para que façam dela o lugar da permanente libertação do pecado, vivenciem a liberdade que lhes foi doada com a saída do Egito por meio da correta observância da finalidade das leis e decretos.

Portanto, devem acolhê-las com respeito e atitude conveniente “Nada acrescenteis, nada tirei, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso deus que vos prescrevo”, na plena compreensão da importância, do significado e da finalidade. A observância não deverá ser a simples execução ao pé da letra do texto, mas a criativa e ousada elaboração de atitudes e práticas em sintonia com a finalidade pela qual foram promulgadas.

O processo bem sucedido será manifestação de “vossa sabedoria e inteligência perante os povos” suscitando neles admiração e aprovação, assim que digam “Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!”. Com isso as autoridades e o povo são motivados investirem todas as energias na adesão à lei e organizar a vida individual e social em sintonia com ela.

Lembra a singular eleição do Senhor para com eles, que faz deles uma nação cujo Deus destaca sobre os deuses dos outros povos “Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor, nosso Deus, sempre que o invocamos?”. Sempre deverá ser invocado para receber o dom da ousadia, da criatividade, para não cair na simples execução da letra da lei.

A escuta é a lei fundamental de todo relacionamento bem sucedido. Muitos sofrimentos e fracassos devem-se à deficiente escuta. Portanto, é a primeira atitude do discípulo, pois, se torna tal por escutar o mestre. Da qualidade da escuta depende a formação da consciência, a adesão aos valores éticos, os critérios de discernimento, a convicção e determinação na ação.

A segunda leitura retoma estes aspectos.

2ª leitura Tg 1,17-18.21b-22.27

“Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto”. Assim, todo dom perfeito e imutável procede “do Pai das luzes, no qual não fá mudança, nem sombra de variação”. Com isso, o apóstolo afirma a constante fidelidade do amor do Pai para com os membros da comunidade.

Pois, “De livre vontade ele nos gerou, pela Palavra da verdade...”. Acolher e acreditar que a Palavra fecunda a nova realidade em si mesmo. Ela regenera, renova e transforma silenciosa e misteriosamente o ser profundo, estabelecendo a vitória sobre o mal e o pecado e libertando de tudo o que afasta e impede a comunhão e a familiaridade com Deus.

Trata-se da nova geração percebida pela confiança na eficácia do dom oferecido por Cristo, com sua morte e ressurreição. A ela é associada a consciência da renovada aliança, cujo efeito é como voltar à empolgação e entusiasmo do primeiro amor. Enfim, se percebe partícipe da vida eterna, da glória de Deus que se manifestará plenamente no fim dos tempos.

“... a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas”, pois, de tal modo se completa em cada pessoa sua obra criadora. Nisso consiste o “dom precioso e toda dádiva perfeita” de Deus Pai, pois, o humano se diviniza e o divino se humaniza em cada criatura.

Esta nova condição faz parte do caminho que crescendo em qualidade e extensão, abrange a humanidade toda e a criação. Tudo será percebido com os mesmos sentimentos de Deus, pois, nele são destinados a participarem da sua glória.

Eis, então a exortação “Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas”, sem resistência e gratidão a fim de que a Palavra se torne fecunda.

Não é fácil nem simples aceitar e se deixar envolver pelo dom, do qual a pessoa se considera não merecer e indigno e, além, não percebe nenhum sinal ou efeito de transformação. Para usar uma comparação, se trata da mesma dificuldade perante as palavras da consagração do pão e do vinho, cuja eficácia foge de todo tipo de verificação humana. A humildade consiste exatamente na confiança na Palavra.

A Palavra é Cristo mesmo - o que ensinou e fez - e ser nosso representante e mediador perante o Pai. Em virtude disso, os efeitos de sua morte e ressurreição são objetivamente implantados em cada pessoa “a Palavra que em vós foi implantada...” e da qual tomam ciência pela fé.

“... e que é capaz de salvar vossas almas”, dependendo da confiança, da fé. Sem a adesão do coração e da inteligência, pela humildade, a salvação objetiva, não se torna subjetiva, com outras palavras, realidade na pessoa. Porque toda salvação é encontro com o Senhor no amor mútuo: por um lado o dom e pelo outro a acolhida e resposta. É o que sustenta a eficácia dos sacramentos.

Sinal visível da eficácia é retornar o dom a Deus, repetindo o que fez para mim a favor dos outros, sobretudo aos pobres, injustiçados e menos favorecidos “ religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”.

Assim se atende à recomendação do apóstolo “sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”. A ilusão é de quem gratificado consigo mesmo acha ter alcançado a salvação. Só lembrar que, em primeiro lugar, a salvação é dom para toda a humanidade, como foi para todo o povo com a saída da escravidão do Egito. Caminho rumo à terra prometida - o reino de Deus - se segura ela vivenciando a liberdade para amar.

O amor verdadeiro é criativo e ousado a fim de devolver a esperança e resgatar a dignidade, como mostra o evangelho.

Evangelho Mc 7,1-8.14-15.21-23

Jesus polemiza abertamente com os fariseus - rigorosos executores nos mínimos detalhes das prescrições das normas e mandamentos - sustentados pelos teólogos deles, os escribas. A oportunidade é o não cumprimento por parte dos discípulos das obrigações legais com respeito à purificação. Eles perguntam a Jesus “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?”.

Pois, a pureza legal é tida como indispensável para entrar no reino de Deus, quando chegar o Messias. Só os puros entrarão no reino, os outros serão excluídos irremediavelmente. Eles ganharam o direito de entrar, pois, mais perfeito é o cumprimento das normas mais ganham méritos que asseguram a salvação. No fundo o que está em jogo é a salvação. Então se compreende como não respeitar as normas legais da purificação era, para eles, mostra de ateísmo.

Jesus responde citando o profeta Isaias e os chamando de hipócritas “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Hipócrita é aquele que antes de ser julgado pelo que realmente é, coloca como uma máscara para ocultar e se disfarçar. Trata-se de simples adesão exterior na execução de normas e participação do culto, e para Jesus “de nada adianta o culto que prestam”.

Mais grave ainda é que pretendem passar as normas como preceitos divinos, sendo que “ as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”por terem abandonado “o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”.O mandamento é aquele com respeito à justiça e o diretito, pois, tê-lo abandonado converteu o preceito divino em normas simplesmente humanas.

É uma alerta para os teólogos e as autoridades, pois, com as melhores intenções podem esvaziar desde dentro o mandamento divino, reduzindo-o a norma simplesmente humana, por perder o eixo e desviar da finalidade da nova e eterna Aliança. Pior ainda quando se troca a finalidade da instituição pelos interesses da mesma...

Testes do coração impuro, cheio de propósitos de maldade, são “as más intenções, imoralidades, (...) calúnia, orgulho, falta de juízo”. Assim, em vez da nova orem social, de relacionamentos profundamente humano, fraternais e solidários – virtudes próprias do Reino de Deus – se afunda no contrário.

A causa é não interiorizar no coração o sentido profundo e a finalidade da Palavra. Desinteresse, dúvida, indiferença, oportunismo etc., afastam da comunhão com o Senhor. Assim, bem participando do culto e cumprindo as obrigações religiosas, de nada adiantam para viver a liberdade doada pela Palavra.

É a liberdade que brota do coração transformado, renovado e purificado pelo amor gratuito e desinteressado. É a liberdade de amar audácia e criativamente, para que todos tenham vida em abundância no dom de si mesmo, imitando o estilo de vida e a filosofia de Cristo, com quem vivemos o dia-a-dia e com a humanidade toda.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

21ro DOMINGO DO T.C.-B- (26-08-12)

1a leitura Gs 24, 1-2.15-17.18

Acabado o caminho no deserto, passado o rio Jordao, o povo d’Israel entra na terra prometida. Chega à terra que Deus prometeu, cumprindo a promessa feita com a saída do Egito. Libertado da escravidão do poder opressor e instruído pela Aliança, o povo deverá organizar a nova sociedade, conforme a Lei recebida por Moises no Sinai, implantando a justiça e o direito. Isso não só para o próprio bem, mas para ser referência e modelo para os outros povos da terra.

Antes de tomar posse “Josuè convocou a Siquém todas as tribos de Israel, seus anciãos, seus chefes, seus juizes e seus oficiais” para renovar a Aliança do Sinai. Momento marcante da identidade do povo, pois determina sua fisionomia, o caminho, a missão e o destino. Josué coloca perante dele a alternativa “ se vos desagrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem serviram os vosso pais além do rio, se aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais”.

Pois as múltiplas infidelidades do povo na caminhada no deserto levam Josué a esta solene celebração da Aliança. Os amorreus com sua cultura e seus deuses com certeza exercerão fascínio e atração sobre o povo. Consciente, pela experiência do deserto, da fraqueza e inconsistência do povo na confiança no Senhor, Josuè estabelece que o povo renove o compromisso da aliança com plena consciência e liberdade.

Quer conferir se a experiência do deserto e a chegada à terra prometida consolidaram, deram firmeza à confiança deles no Senhor. Por parte dele, nao te duvida nem insegurança “quanto a mim, eu e minha casa serviremos o Senhor”.

O povo responde manifestando sua determinação “Longe de nòs abandonarmos o Senhor para servir outros deuses”. Ela é sustentada pela leitura dos eventos da libertaçao do Egito, da caminhada no deserto e do cumprimento da promessa, constatando a presença do senhor no meio dele “O Senhor (…) nos tirou, a nòs e a nossos pais, da terra do Egito (…) operou maravilhosos prodígios e guardou-nos ao longo de todo o caminho que percorremos”. A conclusão é “ Nós tambem, nós serviremos o Senhor, porque ele é o nosso Deus “.

O trecho ensina como fazer memória de Deus e lembrar os eventos históricos da intervenção de Deus, de sua ação com “mão forte e braço extendido”. O credo do povo recolhe os eventos, as ações de Deus no transcurso da história. Eventos de libertaçao, de misericórdia, de perdão etc., pois, falar de Deus é relatar suas ações, sua bondade e eficácia.

Contrariamente ao nosso credo, que rezamos na Missa, caracterizado por conceitos, ideias, aprofundamentos intelectual com respeito às qualidades pessoais de Deus, a sua essência, a Trindade, a Igreja, no intento de desvendar o que puder sobre o mistério Dele, com linguagem de dificil compreensão, se não tiver alguma preparação de ordem filosófico e teológico.

Esta diferença afastou o povo da refelxão teológica, tida como competência de pessoas especialmente dedicadas a ela. O povo se acha incapacitado, despreparado para elaborar a compreensão adequada de Deus, de sua ação nos eventos e na história.

Jesus procurará derrubar este obstáculo. Exortará a multidão a discernir nos eventos do dia – a – dia a presença do Messias, observando com atenção o que está acontecendo, assim como sabem observar e discernir no aspecto do céu e da terra se haverá chuva ou calor. Reprenderá a eles “Hipocritas! Sabeis discernir o aspecto do céu e da terra: como é que neste tempo nao sabeis discerni-lo? E porque nao julgais por vós mesmos o que é justo?”(Lc 12,54-57).

A repreensão vale também para nós. O horizonte do discernimento é a lei e a filosofia do amor que ele istaurou, movido pela compaixão e a misericórdia, cuja finalidade - a vida em abundancia, a terra prometida - será alcançada por praticar a mesma dinâmica dele.

O que seria isso aplicado ao relacionamento esposo - esposa é o conteúdo da segunda leitura.

2da leitura Ef 5,21-32

Paulo coloca como pano de fundo da reflexão o temor de Cristo “Sujetai-vos uns aos outros no temor de Cristo”. O “ temor de Cristo” tem a ver com a grandeza e profundidade da pessoa de Jesus manifestada com a sua resurreição. Perceber o crucificado sentado na glória, à direita do Pai é participar duma experiência que deixa aterrado, quite.

Mas também, ter ciência interior que aquele evento manifesta a justificação dele e de toda a humanidade perante o Pai. Ter a certeza do perdão dos pecados, da nova e eterna aliança e, já aqui na terra, da participação na vida eterna, como penhor da herança e entrada no reino, com a última e definitiva intervenção de Deus Pai, quando Ele será “tudo em todos”( 1 Cor 15,28), suscita um sentimento de imenso amor e gratidão.

Trata-se, evidentemente, de sua conversão pessoal, a entrada d a cidade de Damasco, quatro, cinco, anos após a morte e ressurreição de Jesus. Esta experiência suscitou nele o temor reverencial, por ter percebido a grandeza do mistério de Deus e o imenso amor para come ele e com todos. Consequentemente, o agir dele - eis o temor reverencial - é de quem determina viver em total sintonia com a dinâmica do amor, pela qual se sentiu amado, procurando não desagradar o amado até nos mínimos detalhes.

É a mesma característica de todo relacionamento sincero e autêntico entre amante e amada. Então, o apóstolo transfere isso para o relacionamento marido – esposa “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor”.Com certeza, pela sensibilidade de hoje o termo “submissa” não soa bem. Demais abusos pretenderam encontrar nesta palavra justificação de atitudes que nada tem a ver com o temor de Cristo e , menos ainda, com o Evangelho .

A impressão negativa do termo, aplicado ao relacionamento Cristo-Igreja, em paralelo ao mulher-marido, é desmanchada por se tratar de submissão no amor, cujo efeito é o contrário de todo abuso e maldade. O apóstolo especifica “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”, pois, não tem amor maior de quem doa a vida pela pessoa amada.

De fato a entrega tem a finalidade “para santificà-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irreprensível”. A submissão , encaixada no “temor de Cristo” é, neste contexto e para essa finalidade , resposta ao amor no qual se sente amada.

Merece destaque a ação e eficácia da palavra no processo de santificação, purificação e glorificação. Assim, em todo o processo, central é a submissão dos dois à Palavra. Esta condição é absolutamente necessária para que seja bem sucedido o desenvolvimento no amor entre eles. Assim, “o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois constituirão uma só carne” irà se consolidando o que nao será possìvel nem conveniente separar, pois , a força e consistência do amor os une para sempre.

“Este misterio é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e a Igreja”. Para o apóstolo, mistério é a imersão - como o peixe no oceano - nos efeitos da morte e resurreiçao de Cristo, que cria na mulher e no marido as condições para vivenciar o mesmo amor pelo qual Cristo continua se doando a Igreja pelos efeitos já mencionados.

O que Cristo realizou no evento pascal a favor da Igreja e da humanidade, o atualiza no relacionamento marido – mulher, se estas confiam plenamente na Palavra. De fato, o micro e o macro participam da mesma realidade.

Desta maneira, o corpo santificado se torna elemento de união, meio de comunicação e manifestação do amor “Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo.Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo”. Portanto, o amor para o outro sustentado pela Palavra é, ao mesmo tempo, amor para si mesmo que alimenta e cura “como Cristo faz a sua Igreja, porque somos membros do seu corpo”.

Deste ponto de vista se comprende a profundidade e carcterística do matrimônio cristão, como patrimônio a ser valorizado. Parece - me que a pastoral de preparação ao matrimônio dos noivos está muito aquém deste objetivo.

Colocar a Palavra no eixo da roda da própria existência e manter fé nela é vencer as dificuldades que o Evangelho evidencia.

Evangelho Jo 6,60-69

Continuando o texto do domingo passado, o evangelista registra as reações dos ouvintes surpreendidos pelas afirmaçoes de Jesus. Disseram “Isto é muito duro! Quem o pode admitir?” . O desconcerto atinge não só os Judeus, mas os mesmos discípulos, os seguidores de Jesus, abalados na confiança pela afirmações pesadas de compreender e aceitar.

Jesus percebe tê-los abalado e pergunta “Isso vos escandaliza?”. Pela Lei é abominação beber o sangue, além de não entender como pudesse dar a comer o próprio corpo. Como escutar convites contrários a Lei?

Jesus não explica o como nem porque ultrapassa a Lei. Coloca para eles três aspectos: ele como Filho do Homem que saído do Pai volta a ele “Que serà, quando virdes o Filho do Homem voltar para onde ele estava antes?”; a açao do Espírito que vivifica contido na palavra dele “O espìrito é que vivifica. As palava que vos tenho dito são espírito e vida”; a atração do Pai para o Filho “Ninguem pode vir a mim, se por meu Pai nao lhe for concedido”. Manifesta sua união com o Pai no Espírito. Assim, o que pede a eles é simplesmente a confiança na sua pessoa e na Palavra.

Contudo, é exatamente esta última que falta “Desde então, muitos dos seus discipulos se retiraram e já não andavam come ele”. Jesus percebe a desconfiança dos Doze e afirma “Quereis vós tambem retirar-vos?”. Pergunta desconcertante que evidencia a radical solidão de Jesus com respeito aos doze por ele mesmo escolhidos. É desconcertante e impressionante como Jesus se dispõe se separar deles, em nome da verdade e ficar na solidão, para depois recomeçar tudo de novo. Com certeza, nunca teria desistido da missão.

Do ponto de vista humano é uma situação assustadora. A comunhão firme e forte é com o Pai no Espírito, mediada pela paixão pela verdade, ùnico caminho de salvação para ele e a humanidade e expressão do autêntico amor.

Paradoxalmente, o relacionamento de Jesus com os Doze no amor se reveste de solidão. Assim, a solidão é parte costitutiva da dinâmica da missão. É um aspecto que merece muita atenção por parte de cada discípulo consciente. Mais dramática ainda será a solidão com o Pai, na sexta feira Santa. Também aí não desiste, não volta atrás, pois o que o sustenta é a certeza da fidelidade do Pai à promessa, na qual confia plenamente.

Os Doze, chegados no fundo do poço, o Espírito faz brilhar como uma luz. Pedro em nome deles afirma “Senhor, a quem iremos nós? Tu tens as palava da vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu ès o Santo de Deus!”.

Contudo, esta afirmação conhecerà a humilhaçao da sexta-feira santa. Mas tambem significa que seguir sinceramente Jesus, mesmo nos limites de compreensão e atitudes, haverà a luz interior do Espírito para vencer a dificuldade de momentos particularmente intrigados e complexos. Perece-me esta experiência realidade comum de todo cristão, como também aquela humilhaçao da sexta-feira santa. O que prevalece e vence é o dom da promessa : a graça.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ASSUNÇAO DE NOSSA SENHORA -B- (19-08-12)

1ª leitura Ap 11,19ª; 12,1.3-6ª.10ab

É a festa da glorificação de Maria, da participação na glória de Deus com o próprio corpo. A tradição da Igreja enxerga na “mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” a imagem de Nossa Senhora. Certo, também, é que a mulher simboliza o povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Com efeito, a mulher e o povo são vítimas das perseguições indicadas pelo texto. Entretanto, os textos que se referem ao povo de Deus, à Igreja, podem ser aplicados à Maria, enquanto o verdadeiro mistério dessa se insere no mistério da Igreja, ao mesmo tempo que o ilumina.

Abriu-se (...) e apareceu no Templo a arca da aliança”. A arca da aliança é uma caixa dourada, especialmente construída e contem os sinais da aliança de Deus para com o povo, quais as tábuas da Lei, o cajado de Moisés, etc. Agora, a nova arca da aliança é Maria. De fato, ela leva no seio e traz para a humanidade o artífice único e fundamental da aliança nova e eterna: o filho Jesus. Pois, “ela deu a luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro”.

Desde antes de nascer o filho, se trava a luta entre o mesmo, a mulher e os opositores. Estes últimos têm uma força muito grande e poderosa comparada a do Dragão. O motivo é o governo do mundo inteiro “Então apareceu (...) um grande Dragão, cor de fogo. (...) varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra”.

Os opositores percebem o perigo da presença deste nascituro. Já sabem os poderes deste mundo o que significa a adesão das pessoas a Jesus Ressuscitado. Percebem a força subversiva e inovadora da proposta e da filosofia dele. Sabem que Ele vai tirar o poder e força deles sobre os dominados, como indicará o cântico de Maria no Evangelho. Portanto, é uma luta extrema que procura suprimir a Mulher e o nascituro “O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar a luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse”.

O extremamente dramático deste retrato é imagem do que acontecerá à Igreja, à comunidade cristã e a toda pessoa que, tocada pela pessoa de Jesus, determina assumir para valer o caminho dele, se tornando discípulo. Portanto, a mensagem do texto é dirigida ao perseguido de todos os tempos e lugares, que desanimado, provado e assustado pode se desmotivar, achando ter sido enganado e abandonar o caminho.

Eis, então, a última e definitiva intervenção de Deus “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza de Deus, e o poder do seu Cristo. Pois, com sua ação Deus leva o Filho junto dele “e do seu trono” e “A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar”. A ação de Deus é realizada nos termos e com os meios próprios do exercício do poder humano dos opositores, com força, realeza e com o poder do enviado especial.

Portanto, os perseguidos devem saber que, por quanto assustadora e terrível seja a opressão, não será a última palavra com respeito à condição deles. Deus é maior, é o verdadeiro salvador, pois, não serão esquecidos nem abandonados.

O texto pretende ser uma mensagem que motiva a coragem e sustenta a esperança. Tudo isso tem sua fundamentação no evento da ressurreição de Jesus, que constitui propriamente o “poder do seu Cristo”, como indica a segunda leitura.

2da leitura 1Cor 15, 20-27°

Eis a anúncio fundamental, o eixo de toda argumentação e teologia de são Paulo: “Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”. Cristo se manifesta como primícias dos ressuscitados. Ora, se é verdade que às “primícias” segue a colheita, é verdade que à ressurreição de Cristo seguirá a nossa.

Isso se deve ao fato que Jesus é o representante da humanidade de todos os tempos, como o foi Adão no começo da criação. Daí, então, o sentido da afirmação “por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como por Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão”.

É importante fixar na mente e acreditar no coração a verdade do relacionamento representante (Jesus) e representado (a humanidade e as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares). Porque é a certeza dessa verdade o elo que garante e convence da transposição que o acontecido na pessoa de Jesus acontece, objetivamente, na pessoa e na humanidade toda. Assim, representante e representado estão intimo e profundamente unidos na mesma vivencia e no mesmo destino.

Só o voto de confiança nisso permite atualizar os efeitos da morte e ressurreição Dele na comunidade e nas pessoas que celebram a Eucaristia, os demais sacramentos e na prática de vida conseqüente. Evidentemente, tudo isso é realizado misteriosamente e percebido só pela fé. O evento foge e ultrapassa todo raciocínio e experiência humana. Daí, as palavras após a consagração do cálice “Eis o mistério da fé”. Assim, a fé de cada pessoa, e da comunidade, realiza a passagem do efeito objetivo - realizado por Jesus, o representante -, ao efeito subjetivo na pessoa que acredita sincera e firmemente nesse relacionamento.

Portanto, “também em Cristo todos reviverão” não é evento de rotina ou automático, mas atingirá “os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda”. Com certeza, quando Paulo escreveu era iminente a espera da volta do ressuscitado. De todas as maneiras, é certo também que participarão da ressurreição com Cristo os que “pertencem a Cristo” e isso se realiza pela fé que acabo de explicitar. É preciso se manter na fé, mesmo passando pelas provações e abalos indicados na primeira leitura.

Essa realidade é uma situação intermediária, ainda não é o fim, a meta: “A seguir, será o fim, quando ele (Cristo) entregar a realeza de Deus-pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força (...) . O último inimigo a ser destruído é a morte”.Com outras palavras, a meta será a manifestação do momento no qual Deus “será tudo em todos” (1Cor 15,28).

Tocará ao Filho, através da ação dos seus discípulos no mundo inteiro, “destruir todo principado e todo poder e força”. Parece-me que não se trata de uma dimensão sociológica, no sentido de submissão de toda a realidade sócio-humana, pois, ela continuará existindo com as ambigüidades que lhe são próprias até a vinda do ressuscitado. A vitória se manifestará pelo testemunho daqueles que não se dobraram ao principado, poder e força do mundo, que resistiram com coragem e esperança. É neles que Cristo vence e são com eles que entregará todos a Deus Pai.

Será evidente, então, o que o cântico de Maria proclamará no evangelho.

Evangelho Lc 1,39-56

O texto é muito conhecido. Após o “sim” da anunciação “Maria partiu (...) apressadamente a uma cidade da Judéia". A adesão à palavra suscita nela o dinamismo surpreendente, apto para enfrentar uma longa viagem ao encontro da prima Isabel, com o intuito de compartilhar o envolvimento da experiência tão singular e determinante para o futuro do povo, em ordem à realização da promessa de Deus.

Isso diz muito com respeito à qualidade e consistência de nossa adesão para valer à palavra, ao chamado de Deus, muitas vezes, marcada pelo comodismo, pela preguiça, pela indiferença para com as demais pessoas ou por uma fé simplesmente individualista.

Maria foi conferir o que o anjo lhe havia anunciado “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice”. Também em Isabel o que parecia impossível se tornou realidade. O encontro é motivo para constatar a eficácia da promessa de Deus: a estéril e a virgem se tornam fecundas e mães, para a salvação da humanidade, associadas na única missão, cujos filhos a desenvolverão de maneira diferente. Tudo isso, sob a ação do único Espírito Santo “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.

No encontro com Isabel, Maria é elogiada pela fé, pelo voto de confiança na promessa: “Bem-aventurada àquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Ela colocou a disposição sua pessoa e deixou que Deus operasse nela. A fé e a atitude dela se tornaram patrimônio e possibilidade da humanidade toda e de cada pessoa em particular. É o que gostaríamos todos , vivenciar e experimentar a bem-aventurança que inspirou Maria no cântico atribuído a ela.

O cântico é uma visão retrospectiva que parte da constatação que Deus “Socorreu Israel (...) conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abrão e sua descendência, para sempre”. Ou seja, o que o Senhor prometeu conforme a palavra de Isabel se cumpriu. O cumprimento da promessa se deve que Deus “lembrando-se de sua misericórdia”, orientou seu coração ao resgate da dignidade e da vida do povo, agindo de maneira desconcertante “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias”.

Com isso “mostrou a força de seu braço” não só por reverter uma situação humanamente impossível, mas por dispersar “os soberbos de coração”, ou seja, a arrogância e a prepotência dos que se sentem superiores , privilegiados, e com isso motivados para dominar com o poder e dinheiro.

Nesse agir se manifesta a santidade do nome de Deus, pois ele é expressão da soberania de Deus sobre a verdadeira convivência humana, além das dificuldades e dos múltiples obstáculos e resistências que se apresentarem nas diferentes circunstâncias.

Nesse contexto, Maria encaixa a própria pessoa como a destinatária da bem- aventurança que será reconhecida como tal por “todas as gerações”. Reconhece que Deus “olhou para a humildade de sua serva (...) o Todo- poderoso fez grandes coisas em meu favor”, ou seja, ela mesma. Constata que o ter dado voto de confiança com o próprio “sim” a Deus, foi oportunidade para experimentar nela a ação surpreendente e poderosa de Deus, além de toda expectativa, como Salvador dela e da humanidade.

Tudo isso é motivo, nela, de estupor e de maravilha, manifestados pelas primeiras palavras do cântico: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. É o testemunho da existência bem sucedida, que motiva e anima toda pessoa encontrar nela o modelo de discípula (o) do Senhor, bem sabendo das dores e dos sofrimentos que acompanharam a vida dela, pelo que aconteceu na vida do Filho.

Ela por não desistir nem desconfiar de que a promessa será cumprida - como testemunha da ressurreição do filho - já participa plenamente com o próprio corpo da glória na qual o mesmo Filho está envolvido e preenchido.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

19no DOMINGO DO T,C,-B- (12-08-09)

1ª leitura 1Rs 19,4-8

Após o evento do monte Carmelo no qual desmascarou a os falsos profetas da rainha e determinou a trágica morte deles, o povo ficou aquém às expectativas de Elias, e isso foi motivo de desilusão. Além disso, a rainha jurou vingança determinando a imediata morte dele, obrigando-o fugir ao deserto.

O estado de ânimo de Elias sofreu um duro golpe, como quem depois de ter se esmerado no serviço, percebe que foi inútil e, mais ainda, pôs em própria vida. A reação primária dele é de acabar com tudo e pede a Deus que faça isso “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”.

Elias tem consciência de que os pais, também, sofreram momentos difíceis e provações que os levaram a desconfiar na presença e na promessa do Senhor. Como eles, também Elias, experimenta o que, tal vez, pensava que nunca teria acontecido para com ele. Tendo constatado o contrário, e o poder abalador da provação, até o sentido de viver veio abaixo.

Fugindo para o deserto, determina-se pegar o caminho rumo ao monte Horebe, para onde está se dirigindo. Quer voltar ao ponto onde tudo começou, onde Deus se manifestou e estabeleceu o pacto - a Aliança - para se encontrar com Deus e entender o que está acontecendo com ele e com o povo. Foi como voltar às origens para conferir a própria vocação e o correto desenvolvimento dela.

Neste caminho encontra o sustento do mensageiro de Deus que por duas vezes lhe oferece o alimento e ordena “Levanta-te e come!Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Com isso Deus aprova a ida a Ele, mas também revela que há muito caminho para percorrer, que não alcançará a meta em pouco tempo, como quem diz, não desanime, continue caminhando; garantindo por meio do anjo que não faltará o necessário para chegar.

Já isso é sinal da atenção e benevolência de Deus para com ele. Pode perceber que Deus não o abandonou nem se esqueceu dele. Continuar caminhando, mesmo com a carga de dor e sofrimento já é sinal de recuperação da desconfiança que provocou o abatimento.

“Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus”. Não desistiu no propósito e com a ajuda de Deus chegou à meta.

Não é difícil perceber o valor paradigmático - modelo - da experiência de Elias. Toda pessoa que sincera, autêntica e coerentemente desenvolve a missão que Deus lhe confiou passa por experiências de decepção, de dificuldades e rejeição que nunca teria pensado que acontecessem, e como isso é motivo para experimentar toda a força da tentação de deixar, de abandonar a missão.

O que ensina este trecho é de não se surpreender que isso aconteça, mas de tomar em conta e se preparar ao que vem como conseqüência disso. Com certeza não significa ficar imunizado do desconcerto, do sofrimento e da tentação, mas o fato de não ficar totalmente surpreendido ajuda enfrentar a dificuldade.

Enfrentá-la corretamente quer dizer se voltar ao ponto de partida, onde tudo começou, e reencontrar os pontos fundamentais e a motivação que sustentou a decisão de aceitar a missão. É importante avaliar, também, se o proceder nela foi correto.

Elias seguiu este caminho, sustentado pelo que metaforicamente poderia ser o pão e a bebida necessária: vontade e determinação de se dirigir ao Senhor -pão de vida – e a bebida da retidão ética consigo mesmo.

Tudo isso é sustentado pela presença do Espírito, que inspira e suscita as atitudes convenientes que a segunda leitura mostra.

2da leitura Ef 4,30-5,2

Paulo lembra aos membros da comunidade a singular condição de serem marcados, de uma vez para sempre, pelo selo do Espírito Santo “Não contristeis o Espírito Santo com o qual Deus vos marcou como com um selo para o dia da libertação”. Assim, o evento pascal - cujos efeitos são acolhidos pela fé por parte dos cristãos - os libertou do pecado, estabeleceu uma nova e eterna aliança no sangue de Jesus e os preencheu de vida eterna, da glória de Deus, como antecipação e participação da glória de Deus.

O selo do Espírito é o espaço na mente e no coração dos cristãos que, acolhendo o dom de Jesus cristo, se percebem como outras pessoas renascidas, regeneradas “do alto”. Este espaço e abertura é o selo que pode ser desmanchado pela desconfiança, superficialidade, provações que colocam em dúvidas a nova condição e a capacidade de viver em sintonia com ela. Nesse sentido eis a exortação de Paulo “Não contristeis o Espírito Santo”.

Portanto, os anima “Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor”. A atenção deve ser colocada no amor com o qual somos amados. A entrega de Cristo por mim, como dirá Paulo em outro texto, e os efeitos desse amor devem tomar conta de todo o ser, encharcá-lo como a esponja na água. Assim, o viver do cristão não pode ser desligado desse amor.

Só dessa maneira será possível viver no amor, pois, cada pensamento, cada ação brota dele e a ele tende. Daí vem motivação e força para assumir as atitudes convenientes que o apóstolo indica.

Em primeiro lugar a de devolver a Deus o dom recebido, como espontânea gratidão pelos benefícios recebidos, imitando-o “Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama”. Pois, Ele agiu não retendo nada para si mesmo, mas doando tudo para o bem da humanidade até entregar o próprio único Filho; daí, decorrem duas atitudes: A primeira afastar-se e libertar-se de “Toda amargura, irritação, cólera, gritaria, injúrias (...) como toda espécie de maldade”. Trata-se de cultivar e manter o coração livre de tudo que impede fluir o amor. É viver a verdadeira liberdade. Com efeito, tal condição se manifesta quando amamos, pois é a liberdade para amar, muito mais profunda que a liberdade de escolher.

A segunda é desenvolver no profundo do ser os mesmos sentimentos de Cristo “Sebe bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo”.

Particularmente importante é o perdão, cuja realização não é fruto da vontade, da determinação pessoal, pois, é experiência de todos os múltiplos fracassos da boa vontade e sinceros sentimentos neste sentido, mas da consistência e profundidade da interiorização do perdão realizado por Cristo Jesus. Com outras palavras, ter feito experiência do perdão é a força para perdoar.

Acreditar no perdão de Cristo exige a mesma fé que Cristo pede aos ouvintes do evangelho de hoje, continuação do domingo anterior.

Evangelho Jo 6,41-51

A afirmação de Jesus “Eu sou o pão que desceu do céu” suscitou a murmuração dos judeus, pois, comentavam “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?”. Perante delas Jesus faz apelo ao “Pai que me enviou”, no sentido que ninguém “pode vir a mim” se o Pai não o atrai. Acrescenta “E eu o ressuscitarei no último dia”.

Com isso afirma sua união e proveniência do Pai que legitima sua afirmação, e promete que quem acreditar nele terá como efeito ser ressuscitado no último dia pelo mesmo Jesus. Portanto não é só acreditar no presente em virtude de sua união com o Pai, mas ter a certeza da vida em plenitude no último dia, participando da ressurreição.

Com efeito, a ressurreição já era afirmada no Antigo Testamento, para que ninguém pensasse que com a morte tudo acabou, seja pelos os que respeitam a Lei, assim como pelos que a desrespeitam. Deste modo, ninguém pode fugir das exigências da lei, pois serão julgados para a salvação ou a condenação.

Jesus falando de pão da vida, da vida eterna, da ressurreição, coloca perante deles a certeza do pleno cumprimento da Lei para todos os que acreditam nele. Ele se apoia nos Profetas para afirmar que todos serão discípulos de Deus, pois, o Pai chama a todos, indistintamente, sem diferença e discriminação nenhuma.

A prova de que o pessoal escuta a voz do Pai “e por ele foi instruído, vem a mim”, se aproxima e acredita em Jesus. Assim, ser chamado e instruído pelo Pai não necessariamente significa tê-lo visto, isso é experiência de Jesus “Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai”. Contudo, quem acreditar em Jesus já possui a vida eterna, participa da vida do Pai.

Jesus não responde sobre o como desceu do céu, mas argumenta sobre sua união com o Pai e sobre os efeitos nas pessoas que acreditam na sua pessoa e na sua palavra. Portanto repete “Eu sou o pão da vida (...) quem dele comer, nunca morrerá”. Está oferecendo todos os motivos pelos quais merece confiança.

Tem mais, após afirmar de novo “Eu são o pão vivo descido do céu, quem come deste pão viverá eternamente”, afirma algo ainda mais surpreendente “E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”, que deixa ainda mais desnorteados os ouvintes. (As reações do povo e dos discípulos serão o conteúdo do evangelho do próximo domingo).

A glória de Deus é a vida do homem. Jesus que passar e mergulhar os homens na vida eterna já nesta vida passageira, que passa pela comunhão com todos os seres humanos e a criação. Esta meta, do ponto de vista racional e humano impossível, se torna realidade pela fé, por assumir o estilo de vida e a filosofia de Jesus, por acreditar nele, muito além do que os sentidos e a inteligência humana podem perceber e elaborar.

É este esforço e coragem de acreditar nele que Jesus pede aos ouvintes, de então e de hoje.