terça-feira, 21 de agosto de 2012

21ro DOMINGO DO T.C.-B- (26-08-12)

1a leitura Gs 24, 1-2.15-17.18

Acabado o caminho no deserto, passado o rio Jordao, o povo d’Israel entra na terra prometida. Chega à terra que Deus prometeu, cumprindo a promessa feita com a saída do Egito. Libertado da escravidão do poder opressor e instruído pela Aliança, o povo deverá organizar a nova sociedade, conforme a Lei recebida por Moises no Sinai, implantando a justiça e o direito. Isso não só para o próprio bem, mas para ser referência e modelo para os outros povos da terra.

Antes de tomar posse “Josuè convocou a Siquém todas as tribos de Israel, seus anciãos, seus chefes, seus juizes e seus oficiais” para renovar a Aliança do Sinai. Momento marcante da identidade do povo, pois determina sua fisionomia, o caminho, a missão e o destino. Josué coloca perante dele a alternativa “ se vos desagrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem serviram os vosso pais além do rio, se aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais”.

Pois as múltiplas infidelidades do povo na caminhada no deserto levam Josué a esta solene celebração da Aliança. Os amorreus com sua cultura e seus deuses com certeza exercerão fascínio e atração sobre o povo. Consciente, pela experiência do deserto, da fraqueza e inconsistência do povo na confiança no Senhor, Josuè estabelece que o povo renove o compromisso da aliança com plena consciência e liberdade.

Quer conferir se a experiência do deserto e a chegada à terra prometida consolidaram, deram firmeza à confiança deles no Senhor. Por parte dele, nao te duvida nem insegurança “quanto a mim, eu e minha casa serviremos o Senhor”.

O povo responde manifestando sua determinação “Longe de nòs abandonarmos o Senhor para servir outros deuses”. Ela é sustentada pela leitura dos eventos da libertaçao do Egito, da caminhada no deserto e do cumprimento da promessa, constatando a presença do senhor no meio dele “O Senhor (…) nos tirou, a nòs e a nossos pais, da terra do Egito (…) operou maravilhosos prodígios e guardou-nos ao longo de todo o caminho que percorremos”. A conclusão é “ Nós tambem, nós serviremos o Senhor, porque ele é o nosso Deus “.

O trecho ensina como fazer memória de Deus e lembrar os eventos históricos da intervenção de Deus, de sua ação com “mão forte e braço extendido”. O credo do povo recolhe os eventos, as ações de Deus no transcurso da história. Eventos de libertaçao, de misericórdia, de perdão etc., pois, falar de Deus é relatar suas ações, sua bondade e eficácia.

Contrariamente ao nosso credo, que rezamos na Missa, caracterizado por conceitos, ideias, aprofundamentos intelectual com respeito às qualidades pessoais de Deus, a sua essência, a Trindade, a Igreja, no intento de desvendar o que puder sobre o mistério Dele, com linguagem de dificil compreensão, se não tiver alguma preparação de ordem filosófico e teológico.

Esta diferença afastou o povo da refelxão teológica, tida como competência de pessoas especialmente dedicadas a ela. O povo se acha incapacitado, despreparado para elaborar a compreensão adequada de Deus, de sua ação nos eventos e na história.

Jesus procurará derrubar este obstáculo. Exortará a multidão a discernir nos eventos do dia – a – dia a presença do Messias, observando com atenção o que está acontecendo, assim como sabem observar e discernir no aspecto do céu e da terra se haverá chuva ou calor. Reprenderá a eles “Hipocritas! Sabeis discernir o aspecto do céu e da terra: como é que neste tempo nao sabeis discerni-lo? E porque nao julgais por vós mesmos o que é justo?”(Lc 12,54-57).

A repreensão vale também para nós. O horizonte do discernimento é a lei e a filosofia do amor que ele istaurou, movido pela compaixão e a misericórdia, cuja finalidade - a vida em abundancia, a terra prometida - será alcançada por praticar a mesma dinâmica dele.

O que seria isso aplicado ao relacionamento esposo - esposa é o conteúdo da segunda leitura.

2da leitura Ef 5,21-32

Paulo coloca como pano de fundo da reflexão o temor de Cristo “Sujetai-vos uns aos outros no temor de Cristo”. O “ temor de Cristo” tem a ver com a grandeza e profundidade da pessoa de Jesus manifestada com a sua resurreição. Perceber o crucificado sentado na glória, à direita do Pai é participar duma experiência que deixa aterrado, quite.

Mas também, ter ciência interior que aquele evento manifesta a justificação dele e de toda a humanidade perante o Pai. Ter a certeza do perdão dos pecados, da nova e eterna aliança e, já aqui na terra, da participação na vida eterna, como penhor da herança e entrada no reino, com a última e definitiva intervenção de Deus Pai, quando Ele será “tudo em todos”( 1 Cor 15,28), suscita um sentimento de imenso amor e gratidão.

Trata-se, evidentemente, de sua conversão pessoal, a entrada d a cidade de Damasco, quatro, cinco, anos após a morte e ressurreição de Jesus. Esta experiência suscitou nele o temor reverencial, por ter percebido a grandeza do mistério de Deus e o imenso amor para come ele e com todos. Consequentemente, o agir dele - eis o temor reverencial - é de quem determina viver em total sintonia com a dinâmica do amor, pela qual se sentiu amado, procurando não desagradar o amado até nos mínimos detalhes.

É a mesma característica de todo relacionamento sincero e autêntico entre amante e amada. Então, o apóstolo transfere isso para o relacionamento marido – esposa “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor”.Com certeza, pela sensibilidade de hoje o termo “submissa” não soa bem. Demais abusos pretenderam encontrar nesta palavra justificação de atitudes que nada tem a ver com o temor de Cristo e , menos ainda, com o Evangelho .

A impressão negativa do termo, aplicado ao relacionamento Cristo-Igreja, em paralelo ao mulher-marido, é desmanchada por se tratar de submissão no amor, cujo efeito é o contrário de todo abuso e maldade. O apóstolo especifica “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”, pois, não tem amor maior de quem doa a vida pela pessoa amada.

De fato a entrega tem a finalidade “para santificà-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irreprensível”. A submissão , encaixada no “temor de Cristo” é, neste contexto e para essa finalidade , resposta ao amor no qual se sente amada.

Merece destaque a ação e eficácia da palavra no processo de santificação, purificação e glorificação. Assim, em todo o processo, central é a submissão dos dois à Palavra. Esta condição é absolutamente necessária para que seja bem sucedido o desenvolvimento no amor entre eles. Assim, “o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois constituirão uma só carne” irà se consolidando o que nao será possìvel nem conveniente separar, pois , a força e consistência do amor os une para sempre.

“Este misterio é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e a Igreja”. Para o apóstolo, mistério é a imersão - como o peixe no oceano - nos efeitos da morte e resurreiçao de Cristo, que cria na mulher e no marido as condições para vivenciar o mesmo amor pelo qual Cristo continua se doando a Igreja pelos efeitos já mencionados.

O que Cristo realizou no evento pascal a favor da Igreja e da humanidade, o atualiza no relacionamento marido – mulher, se estas confiam plenamente na Palavra. De fato, o micro e o macro participam da mesma realidade.

Desta maneira, o corpo santificado se torna elemento de união, meio de comunicação e manifestação do amor “Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo.Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo”. Portanto, o amor para o outro sustentado pela Palavra é, ao mesmo tempo, amor para si mesmo que alimenta e cura “como Cristo faz a sua Igreja, porque somos membros do seu corpo”.

Deste ponto de vista se comprende a profundidade e carcterística do matrimônio cristão, como patrimônio a ser valorizado. Parece - me que a pastoral de preparação ao matrimônio dos noivos está muito aquém deste objetivo.

Colocar a Palavra no eixo da roda da própria existência e manter fé nela é vencer as dificuldades que o Evangelho evidencia.

Evangelho Jo 6,60-69

Continuando o texto do domingo passado, o evangelista registra as reações dos ouvintes surpreendidos pelas afirmaçoes de Jesus. Disseram “Isto é muito duro! Quem o pode admitir?” . O desconcerto atinge não só os Judeus, mas os mesmos discípulos, os seguidores de Jesus, abalados na confiança pela afirmações pesadas de compreender e aceitar.

Jesus percebe tê-los abalado e pergunta “Isso vos escandaliza?”. Pela Lei é abominação beber o sangue, além de não entender como pudesse dar a comer o próprio corpo. Como escutar convites contrários a Lei?

Jesus não explica o como nem porque ultrapassa a Lei. Coloca para eles três aspectos: ele como Filho do Homem que saído do Pai volta a ele “Que serà, quando virdes o Filho do Homem voltar para onde ele estava antes?”; a açao do Espírito que vivifica contido na palavra dele “O espìrito é que vivifica. As palava que vos tenho dito são espírito e vida”; a atração do Pai para o Filho “Ninguem pode vir a mim, se por meu Pai nao lhe for concedido”. Manifesta sua união com o Pai no Espírito. Assim, o que pede a eles é simplesmente a confiança na sua pessoa e na Palavra.

Contudo, é exatamente esta última que falta “Desde então, muitos dos seus discipulos se retiraram e já não andavam come ele”. Jesus percebe a desconfiança dos Doze e afirma “Quereis vós tambem retirar-vos?”. Pergunta desconcertante que evidencia a radical solidão de Jesus com respeito aos doze por ele mesmo escolhidos. É desconcertante e impressionante como Jesus se dispõe se separar deles, em nome da verdade e ficar na solidão, para depois recomeçar tudo de novo. Com certeza, nunca teria desistido da missão.

Do ponto de vista humano é uma situação assustadora. A comunhão firme e forte é com o Pai no Espírito, mediada pela paixão pela verdade, ùnico caminho de salvação para ele e a humanidade e expressão do autêntico amor.

Paradoxalmente, o relacionamento de Jesus com os Doze no amor se reveste de solidão. Assim, a solidão é parte costitutiva da dinâmica da missão. É um aspecto que merece muita atenção por parte de cada discípulo consciente. Mais dramática ainda será a solidão com o Pai, na sexta feira Santa. Também aí não desiste, não volta atrás, pois o que o sustenta é a certeza da fidelidade do Pai à promessa, na qual confia plenamente.

Os Doze, chegados no fundo do poço, o Espírito faz brilhar como uma luz. Pedro em nome deles afirma “Senhor, a quem iremos nós? Tu tens as palava da vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu ès o Santo de Deus!”.

Contudo, esta afirmação conhecerà a humilhaçao da sexta-feira santa. Mas tambem significa que seguir sinceramente Jesus, mesmo nos limites de compreensão e atitudes, haverà a luz interior do Espírito para vencer a dificuldade de momentos particularmente intrigados e complexos. Perece-me esta experiência realidade comum de todo cristão, como também aquela humilhaçao da sexta-feira santa. O que prevalece e vence é o dom da promessa : a graça.

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