1ª leitura Dt 4,1-2.6-8
O que de Deus esperamos é a benção e a vida em abundância, pois, Ele é o Senhor da vida. Quando a vida é ameaçada, a existência no dia -a - dia não parece ter sentido, é como se estivesse vazia; quando a autoestima está pelo chão e o peso dos próprios limites humanos e morais se tornam uma carga insuportável, nos dirigimos a Ele, do qual tudo origina, esperando um sinal, uma guinada, come se estivéssemos renascendo.
No próprio mundo interior surge a pergunta: por que não se faz presente? Por que deixa correr, se ele é Pai e nos ama como filhos? Ampliando o horizonte, nos perguntamos o porquê do mal, da tolerância d’Ele para com a injustiça e a morte antes do tempo de muitos inocentes, e muitas outras perguntas que brotam da ideia de Deus que assumimos em aberta contradição com a experiência do momento. Assim, a confiança n’Ele é abalada e o desconcerto toma conta, até ao ponto de, muitas vezes, duvidar mesmo da existência de Deus.
O povo de Israel entra na terra prometida, após a caminhada no deserto. Chegou a meta prometida por Deus e Moisés convoca o povo para as oportunas orientações em sintonia com os termas da aliança , de maneira que o estilo de vida pessoal e a convivência social sejam bem sucedidas.
Primeira atitude, fundamental não só para eles, mas para as pessoas e comunidades de todos os tempos, é se dispor, convenientemente, à escuta “Agora, Israel,escuta as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir” . Escutar é muito mais que ouvir. Na escuta é envolvida a pessoa toda: coração, inteligência, vontade e todas as energias. Presume a paixão pela busca do que é correto e justo, juntamente à consciência que a resposta correta é dom do Senhor.
A resposta está mediada pelas leis o os decretos, pois, indicam o caminho e cuja finalidade específica motiva e justifica a obediência “para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida pelo Senhor Deus de vossos pais”. Possuir a terra prometida, não é simplesmente tomar posse do chão, mas implantar o estilo de vida pessoal e a organização social que alcancem a paz, a harmonia entre todos e com tudo, com outras palavras, o Reino de Deus.
Com isso será manifesto entre eles e aos povos todos que Deus reina, que o Senhor da vida é presente e atendido come mestre e guia. Portanto, Deus está entregando a terra prometida para que façam dela o lugar da permanente libertação do pecado, vivenciem a liberdade que lhes foi doada com a saída do Egito por meio da correta observância da finalidade das leis e decretos.
Portanto, devem acolhê-las com respeito e atitude conveniente “Nada acrescenteis, nada tirei, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso deus que vos prescrevo”, na plena compreensão da importância, do significado e da finalidade. A observância não deverá ser a simples execução ao pé da letra do texto, mas a criativa e ousada elaboração de atitudes e práticas em sintonia com a finalidade pela qual foram promulgadas.
O processo bem sucedido será manifestação de “vossa sabedoria e inteligência perante os povos” suscitando neles admiração e aprovação, assim que digam “Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!”. Com isso as autoridades e o povo são motivados investirem todas as energias na adesão à lei e organizar a vida individual e social em sintonia com ela.
Lembra a singular eleição do Senhor para com eles, que faz deles uma nação cujo Deus destaca sobre os deuses dos outros povos “Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor, nosso Deus, sempre que o invocamos?”. Sempre deverá ser invocado para receber o dom da ousadia, da criatividade, para não cair na simples execução da letra da lei.
A escuta é a lei fundamental de todo relacionamento bem sucedido. Muitos sofrimentos e fracassos devem-se à deficiente escuta. Portanto, é a primeira atitude do discípulo, pois, se torna tal por escutar o mestre. Da qualidade da escuta depende a formação da consciência, a adesão aos valores éticos, os critérios de discernimento, a convicção e determinação na ação.
A segunda leitura retoma estes aspectos.
2ª leitura Tg 1,17-18.21b-22.27
“Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto”. Assim, todo dom perfeito e imutável procede “do Pai das luzes, no qual não fá mudança, nem sombra de variação”. Com isso, o apóstolo afirma a constante fidelidade do amor do Pai para com os membros da comunidade.
Pois, “De livre vontade ele nos gerou, pela Palavra da verdade...”. Acolher e acreditar que a Palavra fecunda a nova realidade em si mesmo. Ela regenera, renova e transforma silenciosa e misteriosamente o ser profundo, estabelecendo a vitória sobre o mal e o pecado e libertando de tudo o que afasta e impede a comunhão e a familiaridade com Deus.
Trata-se da nova geração percebida pela confiança na eficácia do dom oferecido por Cristo, com sua morte e ressurreição. A ela é associada a consciência da renovada aliança, cujo efeito é como voltar à empolgação e entusiasmo do primeiro amor. Enfim, se percebe partícipe da vida eterna, da glória de Deus que se manifestará plenamente no fim dos tempos.
“... a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas”, pois, de tal modo se completa em cada pessoa sua obra criadora. Nisso consiste o “dom precioso e toda dádiva perfeita” de Deus Pai, pois, o humano se diviniza e o divino se humaniza em cada criatura.
Esta nova condição faz parte do caminho que crescendo em qualidade e extensão, abrange a humanidade toda e a criação. Tudo será percebido com os mesmos sentimentos de Deus, pois, nele são destinados a participarem da sua glória.
Eis, então a exortação “Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas”, sem resistência e gratidão a fim de que a Palavra se torne fecunda.
Não é fácil nem simples aceitar e se deixar envolver pelo dom, do qual a pessoa se considera não merecer e indigno e, além, não percebe nenhum sinal ou efeito de transformação. Para usar uma comparação, se trata da mesma dificuldade perante as palavras da consagração do pão e do vinho, cuja eficácia foge de todo tipo de verificação humana. A humildade consiste exatamente na confiança na Palavra.
A Palavra é Cristo mesmo - o que ensinou e fez - e ser nosso representante e mediador perante o Pai. Em virtude disso, os efeitos de sua morte e ressurreição são objetivamente implantados em cada pessoa “a Palavra que em vós foi implantada...” e da qual tomam ciência pela fé.
“... e que é capaz de salvar vossas almas”, dependendo da confiança, da fé. Sem a adesão do coração e da inteligência, pela humildade, a salvação objetiva, não se torna subjetiva, com outras palavras, realidade na pessoa. Porque toda salvação é encontro com o Senhor no amor mútuo: por um lado o dom e pelo outro a acolhida e resposta. É o que sustenta a eficácia dos sacramentos.
Sinal visível da eficácia é retornar o dom a Deus, repetindo o que fez para mim a favor dos outros, sobretudo aos pobres, injustiçados e menos favorecidos “ religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”.
Assim se atende à recomendação do apóstolo “sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”. A ilusão é de quem gratificado consigo mesmo acha ter alcançado a salvação. Só lembrar que, em primeiro lugar, a salvação é dom para toda a humanidade, como foi para todo o povo com a saída da escravidão do Egito. Caminho rumo à terra prometida - o reino de Deus - se segura ela vivenciando a liberdade para amar.
O amor verdadeiro é criativo e ousado a fim de devolver a esperança e resgatar a dignidade, como mostra o evangelho.
Evangelho Mc 7,1-8.14-15.21-23
Jesus polemiza abertamente com os fariseus - rigorosos executores nos mínimos detalhes das prescrições das normas e mandamentos - sustentados pelos teólogos deles, os escribas. A oportunidade é o não cumprimento por parte dos discípulos das obrigações legais com respeito à purificação. Eles perguntam a Jesus “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?”.
Pois, a pureza legal é tida como indispensável para entrar no reino de Deus, quando chegar o Messias. Só os puros entrarão no reino, os outros serão excluídos irremediavelmente. Eles ganharam o direito de entrar, pois, mais perfeito é o cumprimento das normas mais ganham méritos que asseguram a salvação. No fundo o que está em jogo é a salvação. Então se compreende como não respeitar as normas legais da purificação era, para eles, mostra de ateísmo.
Jesus responde citando o profeta Isaias e os chamando de hipócritas “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Hipócrita é aquele que antes de ser julgado pelo que realmente é, coloca como uma máscara para ocultar e se disfarçar. Trata-se de simples adesão exterior na execução de normas e participação do culto, e para Jesus “de nada adianta o culto que prestam”.
Mais grave ainda é que pretendem passar as normas como preceitos divinos, sendo que “ as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”por terem abandonado “o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”.O mandamento é aquele com respeito à justiça e o diretito, pois, tê-lo abandonado converteu o preceito divino em normas simplesmente humanas.
É uma alerta para os teólogos e as autoridades, pois, com as melhores intenções podem esvaziar desde dentro o mandamento divino, reduzindo-o a norma simplesmente humana, por perder o eixo e desviar da finalidade da nova e eterna Aliança. Pior ainda quando se troca a finalidade da instituição pelos interesses da mesma...
Testes do coração impuro, cheio de propósitos de maldade, são “as más intenções, imoralidades, (...) calúnia, orgulho, falta de juízo”. Assim, em vez da nova orem social, de relacionamentos profundamente humano, fraternais e solidários – virtudes próprias do Reino de Deus – se afunda no contrário.
A causa é não interiorizar no coração o sentido profundo e a finalidade da Palavra. Desinteresse, dúvida, indiferença, oportunismo etc., afastam da comunhão com o Senhor. Assim, bem participando do culto e cumprindo as obrigações religiosas, de nada adiantam para viver a liberdade doada pela Palavra.
É a liberdade que brota do coração transformado, renovado e purificado pelo amor gratuito e desinteressado. É a liberdade de amar audácia e criativamente, para que todos tenham vida em abundância no dom de si mesmo, imitando o estilo de vida e a filosofia de Cristo, com quem vivemos o dia-a-dia e com a humanidade toda.
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